O silêncio que se seguiu à pergunta de Edmund foi longo demais.
Nicholas permaneceu parado, o olhar perdido em algum ponto invisível do gabinete, como se ainda estivesse tentando reorganizar tudo o que acabara de ouvir. O peso do passado, da guerra, da escolha do pai, tudo isso pressionava seu peito como algo antigo demais para ser desfeito.
Edmund foi o primeiro a falar de novo.
A voz saiu mais baixa. Mais humana.
— Eu não vou permitir que outra guerra comece. — disse, com firmeza contida. — Não depois de tudo o que já perdemos.
Nicholas ergueu os olhos devagar.
— E não pense que isso me é indiferente. — Edmund continuou. — Eu vejo você. Vejo o que sente. Vejo a Sophie.
Fez uma pausa curta.
— Eu gosto dela. — admitiu. — De verdade. É uma boa mulher. Inteligente. Íntegra. E eu permitiria esse casamento... se estivéssemos em outra situação.
O coração de Nicholas acelerou por um instante breve. Um reflexo inútil de esperança.
Edmund negou com a cabeça.
— Mas não estamos. — concluiu. — E do jeito que estamos... você vai se casar com a Katarina, Nicholas.
A frase caiu como uma sentença.
— Não vou. — Nicholas respondeu de imediato.
Sem hesitação.
Sem espaço para negociação.
Edmund fechou os olhos por um segundo, como se aquilo já fosse esperado e ainda assim doloroso.
— Você ouviu o que Radovan disse. — insistiu. — Ouviu a ameaça velada que ele nos fez.
Nicholas deu um passo à frente, a voz agora firme, quase fria.
— Eu ouvi um homem tentando me intimidar. — disse. — E isso não funciona comigo.
— Não seja ingênuo. — Edmund rebateu. — Ele não ameaça por impulso. Ele age.
— Então que aja. — Nicholas respondeu, sem baixar o tom. — Eu não tenho medo do Radovan.
Edmund o encarou, incrédulo por um instante.
— Você devia. — disse. — Não por você. Pelo reino.
Nicholas balançou a cabeça, um sorriso amargo surgindo no canto da boca.
— Com todo respeito, meu pai... — disse — eu já vivi a minha vida inteira com medo. Medo do que esperavam de mim. Medo de decepcionar. Medo de causar uma guerra só por existir.
Endireitou a postura.
— Isso acaba aqui.
Edmund deu um passo à frente, o rosto endurecido.
— Nicholas...
— Não. — ele interrompeu. — Eu não vou passar o resto da minha vida pagando uma dívida que eu nunca contraí conscientemente.
O silêncio voltou a se instalar, pesado, irremediável.
Nicholas deu meia-volta.
— Pense o que quiser. — disse, já se afastando. — Faça o que achar necessário como rei.
Parou à porta por um segundo.
— Mas como homem... — completou, sem olhar para trás — eu não vou me casar com a Katarina.
E saiu.
A porta se fechou com um som seco.
Edmund permaneceu imóvel no centro do gabinete por longos segundos, o olhar fixo no vazio, como se pudesse prever exatamente o que viria a seguir.
Porque Radovan não ameaçava em vão.
E desde o fim da guerra, Edmund teve a certeza incômoda de que o passado estava voltando para cobrar o preço que ainda faltava.
**
Nicholas saiu do gabinete como se o ar ali dentro tivesse acabado.
A porta se fechou atrás dele com um som seco demais para um corredor de palácio, e por um instante ele apenas ficou parado, os punhos cerrados, a respiração curta, o sangue ainda quente demais para pensar direito. O que Radovan dissera continuava ecoando, não como frases completas, mas como a sensação exata de quando algo ameaça desabar e você sabe que não tem como segurar.
Ele precisava vê-la.
Não pensou. Apenas foi.
Sophie estava do lado de fora, sentada em um dos bancos de pedra do corredor interno, o corpo levemente inclinado para frente, as mãos entrelaçadas com força no colo. O rosto estava pálido demais para alguém que apenas esperava. O olhar, perdido.
Nicholas percebeu antes mesmo de ela levantar a cabeça.
— O que foi? — perguntou, aproximando-se rápido demais, a voz ainda áspera. — Por que essa cara?
Ela ergueu os olhos na hora. Havia confusão ali. E algo mais fundo.
— Eu estava com a Katarina. — disse, sem rodeios. — Aqui fora.
Nicholas sentou-se ao lado dela quase no mesmo instante, o corpo pesado, como se as pernas finalmente tivessem lembrado que existiam.
— Um homem chegou. — Sophie continuou, a voz baixa. — Levou ela embora, Nicholas.
Ele sentiu o estômago retesar.
— Um homem assustador. — completou. — Eu sei que é o pai dela. Eu vi... eu vi o jeito como ela se encolheu quando ele a chamou.
Sophie engoliu em seco antes de continuar.
— Ele não permitiu que ela fizesse as malas. — disse. — Não permitiu que se despedisse. Não deixou que ela dissesse uma única palavra.
Nicholas fechou os olhos por um segundo.
— Ele disse... — Sophie hesitou, como se ainda sentisse o arrepio subindo pela pele — que era melhor ela sair desse reino enquanto ainda havia tempo para isso.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Nicholas passou as mãos pelo rosto e se inclinou para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Deu tudo errado. — murmurou.
Sophie virou o corpo um pouco na direção dele.
— Como assim?
— Eu perdi a cabeça. — disse, sem olhar para ela. — E acabei piorando tudo.
Riu sem humor.
— Eles falam como se eu não estivesse ali. — continuou. — Como se não fosse da minha vida que estivessem falando. Como se eu fosse só uma peça fora do lugar.
Sophie balançou a cabeça devagar.
— Não era pra ser assim.
Ele a encarou.
— Nicholas... — ela hesitou — por que ele levou a Katarina se o acordo não foi encerrado?
A pergunta ficou suspensa no ar.
— Porque ele disse que vai me dar um tempo. — respondeu, por fim. — Um tempo para eu cair em mim.
Sophie franziu a testa.
— Um tempo pra quê?
— Para eu entender que não tenho escolha. — ele disse, seco. — Disse que, em breve, eu vou implorar para me casar com a Katarina.
Sophie sentiu um frio subir pela espinha.
— Ele ameaçou? — perguntou.
Nicholas assentiu.
— Sim. — respondeu. — De forma velada... mas ameaçou.
Ela respirou fundo, os dedos apertando ainda mais uns nos outros.
— Eu estou com medo. — admitiu. — Do que pode acontecer.
Nicholas virou-se para ela de imediato.
— Não precisa ficar. — disse, com firmeza quase agressiva. — Esse homem não vai fazer nada.
Sophie o observou em silêncio por um segundo.
— Nicholas...
— Eu não vou casar com a Katarina. — ele completou, decidido demais para alguém que acabara de sair derrotado de uma reunião.
Sophie respirou fundo.
— Talvez... — começou, com cuidado — talvez não seja bom subestimar alguém assim.
Ele balançou a cabeça.
— Você não entende...
— Não. — ela o interrompeu, suave, mas firme. — Eu entendo sim.
Sophie virou-se totalmente para ele agora.
— Você não pode colocar o seu povo em risco. — disse. — Não pode deixar pessoas morrerem por causa de uma escolha sua.
Nicholas sentiu o impacto direto no peito.
— Você está dizendo que eu devo casar? — perguntou, a voz baixa.
Ela demorou um segundo a responder.
— Eu estou dizendo que... — respirou fundo — se for preciso sacrificar a felicidade pra ninguém morrer... eu prefiro.
As palavras ficaram entre eles como algo que não podia ser recolhido.
Nicholas fechou os olhos, a mandíbula travando.
— Todo mundo está alterado demais depois dessa conversa. — disse, tentando se convencer mais do que a ela. — Nada vai acontecer.
Abriu os olhos e a encarou.
— Confia em mim.
Sophie sustentou o olhar.
Ela queria confiar.
Queria muito.
Mas o arrepio ainda não tinha ido embora.
E, em algum lugar dentro dela, algo dizia que aquele homem não ameaçava à toa.
E que o pior... ainda estava por vir.
**
Os dias que se seguiram à partida de Radovan não trouxeram alívio algum.
Ao contrário do que muitos no castelo acreditavam, a ausência do rei de Karsevia não diminuiu a tensão, apenas a espalhou, silenciosa, como uma névoa difícil de dissipar. Edmund sentia isso nos corredores, nos olhares atentos dos guardas, no modo como as portas eram fechadas com mais cuidado do que o habitual.
Auren estava em estado de alerta.
Sem alarde oficial, a segurança foi reforçada. Guardas adicionais foram posicionados nos acessos principais do castelo, nos pátios internos, nas torres. Rotas foram revistas. Turnos estendidos. Nomes repetidos em relatórios que Edmund lia duas, três vezes antes de pousar o papel.
Alguns compromissos públicos foram adiados.
Outros, mantidos apenas por necessidade política, aconteceram sob vigilância quase sufocante. Edmund comparecia com o rosto sereno de sempre, mas por dentro cada passo era calculado, cada som mais alto fazia seu corpo reagir antes da mente.
Ele conhecia aquele silêncio.
Era o mesmo que precedera a guerra anos atrás.
O mesmo intervalo estranho entre o aviso... e o ataque.
Nicholas, por outro lado, continuava irredutível.
Edmund via o filho circular pelo castelo com a mesma postura desafiadora, o mesmo olhar decidido demais para alguém que ainda não compreendia o peso real das palavras trocadas naquela reunião. E isso o consumia mais do que qualquer relatório.
Radovan não fazia ameaças vazias.
E Edmund sabia disso melhor do que qualquer um.
Três dias após a partida de Radovan...
A noite já havia tomado o castelo por completo quando Sophie parou diante da porta do gabinete real.
Os corredores estavam mais silenciosos do que o normal, iluminados apenas por tochas e luzes baixas, lançando sombras longas pelas paredes de pedra. O ar parecia mais frio ali, pesado, como se o próprio castelo estivesse em vigília.
Um guarda permanecia à porta.
— Senhorita. — disse um deles, firme, dando um passo à frente. — O rei não recebe visitas a essa hora. Preciso pedir que retorne aos seus aposentos.
Sophie respirou fundo.
— Eu preciso falar com Sua Majestade. — disse, a voz baixa, mas decidida.
O guarda franziu a testa.
— Não é possível. — respondeu. — Sem convocação, ninguém...
— Por favor. — Sophie o interrompeu, antes que a coragem se dissipasse. — Eu sei que ele não recebe ninguém assim. Eu sei. Mas... eu preciso falar com ele hoje.
O guarda a avaliou por um instante mais longo do que o protocolo recomendava.
— Não posso permitir. — disse, já mais rígido. — São ordens.
— Pergunte a ele. — Sophie insistiu, dando um pequeno passo à frente. — Só pergunte. Ele vai me receber. Por favor.
Houve um silêncio tenso.
O guarda respirou fundo, claramente contrariado, e por fim virou-se em direção à porta.
— Vou avisá-lo. — disse. — Mas a senhorita aguarda aqui.
Ele entrou.
Sophie ficou sozinha no corredor, os braços cruzados junto ao corpo, tentando controlar o tremor nas mãos. O coração batia rápido demais, mas ela não recuou.
Poucos segundos depois, a voz de Edmund soou lá de dentro:
— Quem deseja falar comigo?
— Ele não informou o nome, majestade. — respondeu o guarda.
Antes que qualquer resposta viesse, Sophie deu um passo à frente e abriu a porta.
— Sou eu, majestade.
O guarda virou-se imediatamente.
— Senhorita, eu pedi que aguardasse...
— Está tudo bem. — Edmund disse, erguendo a mão.
O guarda se calou na mesma hora.
— Pode se retirar. — completou o rei.
O homem fez uma breve reverência e saiu, fechando a porta atrás de si.
Sophie permaneceu parada por um instante, como se o peso do que estava prestes a fazer finalmente tivesse alcançado seu corpo inteiro.
— Minha filha... — Edmund disse, levantando-se da cadeira. — Aconteceu alguma coisa?
Ela fez uma reverência contida, rápida demais para ser cerimonial, mas respeitosa.
— Perdoe-me por vir sem ser chamada. — disse, apressada. — Eu sei que isso é... inadequado. Eu só... eu precisava falar com o senhor.
Edmund a observava com atenção genuína agora, surpreso, mas longe de irritado.
— Claro. — respondeu. — Sente-se. Como posso ajudá-la?
Sophie não se sentou.
Respirou fundo.
— Eu preciso partir.
A frase caiu no gabinete como algo que não estava ali para ser ignorado.