Por um segundo longo demais, Nicholas apenas ficou ali.
Então o ar pareceu desaparecer dos pulmões.
— Não. — disse, num riso curto, nervoso. — Não... isso não é possível.
Deu um passo à frente, a voz subindo.
— O senhor não pode simplesmente decidir isso! Nós já falamos sobre...
— Isso deixou de estar em debate. — Edmund o interrompeu, firme. — Você vai se casar no sábado.
— Eu não vou! — Nicholas explodiu. — Eu já disse que não vou me casar com a Katarina!
A voz ecoou nas paredes de pedra.
Eleanor se mexeu na cadeira, os dedos se entrelaçando com mais força, mas permaneceu em silêncio.
— O senhor não pode fazer isso comigo! — Nicholas continuou, o desespero transbordando agora. — Não assim. Não à força!
Edmund avançou um passo.
Não como pai.
Como rei.
— Eu estou cansado de ouvir recusas. — disse, a voz mais dura. — Cansado de negociações. Cansado de birras disfarçadas de convicção.
Nicholas balançou a cabeça, incrédulo.
— Birra? — riu, sem humor. — O senhor acha que isso é birra?
— Eu acho que você se esqueceu de quem governa este reino. — Edmund respondeu, seco. — Eu mando. E você obedece.
Eleanor fechou os olhos por um breve instante.
Nicholas sentiu algo quebrar dentro do peito.
— O senhor enlouqueceu. — disse, com amargura. — Isso é loucura.
Edmund não recuou.
— Ainda hoje enviarei uma mensagem ao rei Radovan. — continuou, como se estivesse lendo um decreto. — Pedirei desculpas formais por tudo o que você disse. Informarei a data do casamento para que ele traga a princesa Katarina de volta a Auren.
Nicholas riu alto dessa vez.
Um riso vazio.
— Não. — disse. — Não vai.
Edmund ergueu o queixo.
— Vou sim.
— Eu já disse que não me caso. — Nicholas respondeu, os olhos brilhando de raiva e desespero. — Pode mandar mensagens, pode marcar datas, pode fazer discursos... eu não vou.
Foi então que Edmund elevou a voz.
Não um grito.
Mas um tom que não admitia contestação.
— Você vai se casar porque essa é a vontade do seu rei.
O silêncio voltou a se impor.
Eleanor levou a mão ao peito, respirando fundo.
— E você vai cumprir essa ordem — Edmund continuou — nem que eu tenha que mantê-lo trancado em seus aposentos até o dia do casamento.
Nicholas empalideceu.
— O senhor... — a voz falhou — o senhor faria isso?
— Farei. — respondeu Edmund, sem hesitar. — Isso não está mais em discussão.
Deu um passo para trás, retomando a postura rígida.
— Agora vamos para o nosso compromisso. — disse. — Essa conversa está encerrada.
Nicholas ficou parado.
Por um segundo, pareceu querer dizer algo. Gritar. Implorar. Quebrar tudo.
Mas não disse.
Apenas olhou para a mãe.
Eleanor se levantou devagar, os olhos marejados, incapaz de sustentar aquele olhar por muito tempo.
— Nicholas... — murmurou, num fio de voz.
Ele não respondeu.
Virou-se bruscamente e saiu do gabinete, a porta se fechando atrás dele com força demais para um palácio que fingia normalidade.
Edmund permaneceu imóvel.
Eleanor aproximou-se, tocando o braço do marido com cuidado.
— Você cruzou uma linha hoje. — disse, baixo.
Edmund fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
Do lado de fora, os corredores já se enchiam para o evento.
E, em algum lugar do castelo, algo se movia silenciosamente para transformar aquele dia em ruína.
A praça central estava cheia.
Bandeiras de Auren pendiam dos postes, o pavilhão leste ao fundo exibia os primeiros sinais da restauração concluída, e o povo se espalhava em semicírculo diante da pequena plataforma montada para o anúncio oficial. Havia guardas posicionados nos acessos, nos telhados próximos, ao redor da família real. Tudo parecia... normal.
Demais.
Nicholas estava ao lado do pai, como sempre.
A postura correta. As mãos atrás do corpo. O olhar à frente.
Mas a mente longe.
As palavras de Edmund ainda martelavam no peito, pesadas, impossíveis de ignorar. Você vai se casar. No sábado. Nem que eu tenha que te trancar.
O mundo ao redor parecia abafado, como se ele estivesse submerso, ouvindo tudo através da água.
O povo aplaudiu quando Edmund deu um passo à frente.
— Cidadãos de Auren... — começou o rei, a voz firme, treinada, ecoando pela praça.
Nicholas m*l ouviu.
Foi então que a viu.
Sophie estava misturada entre o povo, alguns metros à frente, discreta demais para quem ocupava tanto espaço dentro dele. Não usava roupas que chamassem atenção. O cabelo preso de forma simples. Os olhos fixos nele.
Não sorriu.
Não acenou.
Apenas olhou.
Nicholas sentiu o peito apertar.
O discurso continuava.
— ...a restauração do pavilhão leste representa mais do que pedra e história...
Sophie desviou o olhar por um instante, como se estivesse tentando se convencer de algo. Respirou fundo. Os dedos apertaram a alça da bolsa que carregava junto ao corpo.
É a última vez, pensou.
Nicholas piscou, tentando memorizar cada traço dela.
Então tudo aconteceu rápido demais.
Um movimento brusco no meio da multidão.
Um homem avançou dois passos à frente.
O estampido cortou o ar.
Seco. Alto. Irreal.
Por um segundo, ninguém entendeu.
Depois, o corpo de Edmund caiu.
O tempo pareceu se partir em fragmentos.
Gritos explodiram por todos os lados. Guardas sacaram armas, avançaram em direções opostas. O homem que atirara levou a mão à boca, mordeu algo pequeno e caiu logo em seguida, convulsionando, morto antes que qualquer um pudesse alcançá-lo.
— MAJESTADE!
Nicholas se virou no mesmo instante.
O sangue.
O sangue do pai manchava a pedra clara da praça.
— Pai! — gritou, ajoelhando-se ao lado dele sem perceber quando se moveu.
Mãos o afastaram. Guardas. Médicos. Ordens sendo gritadas. O mundo virou barulho.
— Afasta o príncipe!
— Tragam a maca!
— Fechem a praça!
Edmund foi erguido às pressas, o corpo inconsciente, o rosto pálido demais. Nicholas tentou acompanhar, mas alguém o segurou pelos ombros.
— Alteza, não é seguro...
— SOLTA! — ele gritou, a voz quebrada.
O resgate foi imediato. Rápido. Preciso demais para uma cena que já tinha saído do controle.
Quando finalmente o soltaram, Edmund já estava sendo levado.
Nicholas ficou parado.
As mãos foram à cabeça.
O chão ainda estava marcado de vermelho.
O corpo do atirador coberto às pressas.
O povo correndo, gritando, sendo empurrado para fora da praça.
Aquilo não fazia sentido.
Nada fazia sentido.
Ele respirava, mas o ar não chegava aos pulmões.
Foi então que viu.
Mais ao fundo.
Quando a multidão começou a se dispersar na correria, um espaço se abriu por alguns segundos.
E ali, caída no chão de pedra, estava Sophie.
O coração de Nicholas simplesmente parou.
— Não... — murmurou.
O corpo dela estava imóvel, de lado, o cabelo espalhado. Ao lado, uma poça de sangue escuro se alastrava lentamente.
— Não... não... — repetiu, começando a correr.
Ninguém o segurou dessa vez.
Nicholas caiu de joelhos ao lado dela.
Não foi delicado.
Foi urgente.
O primeiro impulso foi o pânico, mas ele o esmagou quase no mesmo instante. Não havia espaço para isso. Não agora.
Os olhos dele desceram rápido demais, treinados.
Sangue. Muito sangue.
— Não... — murmurou, mas já estava agindo.
Sophie estava consciente apenas o suficiente para gemer baixo quando ele a tocou. O rosto pálido, os lábios entreabertos, o olhar perdido em algum ponto acima dele.
— Sophie. — chamou, firme, aproximando o rosto do dela. — Olha pra mim. Fica comigo.
Ele localizou o ferimento com rapidez.
Uma faca.
Um golpe lateral, abaixo das costelas.
— Droga... — sussurrou.
Nicholas pressionou a mão contra o ferimento sem hesitar, ignorando o sangue que manchava a farda cerimonial. O tecido manchou em segundos.
— Não dorme. — disse, com autoridade, inclinando-se sobre ela. — Não fecha os olhos, entendeu? Fala comigo.
Ela respirava curto. Raso.
— Nick... — murmurou, quase inaudível.
Aquilo foi o que restou da contenção dele.
— Eu estou aqui. — respondeu, rápido demais. — Eu tô aqui, Sophie. Escuta a minha voz.