Capítulo 48

1347 Words
Por um segundo longo demais, Nicholas apenas ficou ali. Então o ar pareceu desaparecer dos pulmões. — Não. — disse, num riso curto, nervoso. — Não... isso não é possível. Deu um passo à frente, a voz subindo. — O senhor não pode simplesmente decidir isso! Nós já falamos sobre... — Isso deixou de estar em debate. — Edmund o interrompeu, firme. — Você vai se casar no sábado. — Eu não vou! — Nicholas explodiu. — Eu já disse que não vou me casar com a Katarina! A voz ecoou nas paredes de pedra. Eleanor se mexeu na cadeira, os dedos se entrelaçando com mais força, mas permaneceu em silêncio. — O senhor não pode fazer isso comigo! — Nicholas continuou, o desespero transbordando agora. — Não assim. Não à força! Edmund avançou um passo. Não como pai. Como rei. — Eu estou cansado de ouvir recusas. — disse, a voz mais dura. — Cansado de negociações. Cansado de birras disfarçadas de convicção. Nicholas balançou a cabeça, incrédulo. — Birra? — riu, sem humor. — O senhor acha que isso é birra? — Eu acho que você se esqueceu de quem governa este reino. — Edmund respondeu, seco. — Eu mando. E você obedece. Eleanor fechou os olhos por um breve instante. Nicholas sentiu algo quebrar dentro do peito. — O senhor enlouqueceu. — disse, com amargura. — Isso é loucura. Edmund não recuou. — Ainda hoje enviarei uma mensagem ao rei Radovan. — continuou, como se estivesse lendo um decreto. — Pedirei desculpas formais por tudo o que você disse. Informarei a data do casamento para que ele traga a princesa Katarina de volta a Auren. Nicholas riu alto dessa vez. Um riso vazio. — Não. — disse. — Não vai. Edmund ergueu o queixo. — Vou sim. — Eu já disse que não me caso. — Nicholas respondeu, os olhos brilhando de raiva e desespero. — Pode mandar mensagens, pode marcar datas, pode fazer discursos... eu não vou. Foi então que Edmund elevou a voz. Não um grito. Mas um tom que não admitia contestação. — Você vai se casar porque essa é a vontade do seu rei. O silêncio voltou a se impor. Eleanor levou a mão ao peito, respirando fundo. — E você vai cumprir essa ordem — Edmund continuou — nem que eu tenha que mantê-lo trancado em seus aposentos até o dia do casamento. Nicholas empalideceu. — O senhor... — a voz falhou — o senhor faria isso? — Farei. — respondeu Edmund, sem hesitar. — Isso não está mais em discussão. Deu um passo para trás, retomando a postura rígida. — Agora vamos para o nosso compromisso. — disse. — Essa conversa está encerrada. Nicholas ficou parado. Por um segundo, pareceu querer dizer algo. Gritar. Implorar. Quebrar tudo. Mas não disse. Apenas olhou para a mãe. Eleanor se levantou devagar, os olhos marejados, incapaz de sustentar aquele olhar por muito tempo. — Nicholas... — murmurou, num fio de voz. Ele não respondeu. Virou-se bruscamente e saiu do gabinete, a porta se fechando atrás dele com força demais para um palácio que fingia normalidade. Edmund permaneceu imóvel. Eleanor aproximou-se, tocando o braço do marido com cuidado. — Você cruzou uma linha hoje. — disse, baixo. Edmund fechou os olhos por um instante. — Eu sei. Do lado de fora, os corredores já se enchiam para o evento. E, em algum lugar do castelo, algo se movia silenciosamente para transformar aquele dia em ruína. A praça central estava cheia. Bandeiras de Auren pendiam dos postes, o pavilhão leste ao fundo exibia os primeiros sinais da restauração concluída, e o povo se espalhava em semicírculo diante da pequena plataforma montada para o anúncio oficial. Havia guardas posicionados nos acessos, nos telhados próximos, ao redor da família real. Tudo parecia... normal. Demais. Nicholas estava ao lado do pai, como sempre. A postura correta. As mãos atrás do corpo. O olhar à frente. Mas a mente longe. As palavras de Edmund ainda martelavam no peito, pesadas, impossíveis de ignorar. Você vai se casar. No sábado. Nem que eu tenha que te trancar. O mundo ao redor parecia abafado, como se ele estivesse submerso, ouvindo tudo através da água. O povo aplaudiu quando Edmund deu um passo à frente. — Cidadãos de Auren... — começou o rei, a voz firme, treinada, ecoando pela praça. Nicholas m*l ouviu. Foi então que a viu. Sophie estava misturada entre o povo, alguns metros à frente, discreta demais para quem ocupava tanto espaço dentro dele. Não usava roupas que chamassem atenção. O cabelo preso de forma simples. Os olhos fixos nele. Não sorriu. Não acenou. Apenas olhou. Nicholas sentiu o peito apertar. O discurso continuava. — ...a restauração do pavilhão leste representa mais do que pedra e história... Sophie desviou o olhar por um instante, como se estivesse tentando se convencer de algo. Respirou fundo. Os dedos apertaram a alça da bolsa que carregava junto ao corpo. É a última vez, pensou. Nicholas piscou, tentando memorizar cada traço dela. Então tudo aconteceu rápido demais. Um movimento brusco no meio da multidão. Um homem avançou dois passos à frente. O estampido cortou o ar. Seco. Alto. Irreal. Por um segundo, ninguém entendeu. Depois, o corpo de Edmund caiu. O tempo pareceu se partir em fragmentos. Gritos explodiram por todos os lados. Guardas sacaram armas, avançaram em direções opostas. O homem que atirara levou a mão à boca, mordeu algo pequeno e caiu logo em seguida, convulsionando, morto antes que qualquer um pudesse alcançá-lo. — MAJESTADE! Nicholas se virou no mesmo instante. O sangue. O sangue do pai manchava a pedra clara da praça. — Pai! — gritou, ajoelhando-se ao lado dele sem perceber quando se moveu. Mãos o afastaram. Guardas. Médicos. Ordens sendo gritadas. O mundo virou barulho. — Afasta o príncipe! — Tragam a maca! — Fechem a praça! Edmund foi erguido às pressas, o corpo inconsciente, o rosto pálido demais. Nicholas tentou acompanhar, mas alguém o segurou pelos ombros. — Alteza, não é seguro... — SOLTA! — ele gritou, a voz quebrada. O resgate foi imediato. Rápido. Preciso demais para uma cena que já tinha saído do controle. Quando finalmente o soltaram, Edmund já estava sendo levado. Nicholas ficou parado. As mãos foram à cabeça. O chão ainda estava marcado de vermelho. O corpo do atirador coberto às pressas. O povo correndo, gritando, sendo empurrado para fora da praça. Aquilo não fazia sentido. Nada fazia sentido. Ele respirava, mas o ar não chegava aos pulmões. Foi então que viu. Mais ao fundo. Quando a multidão começou a se dispersar na correria, um espaço se abriu por alguns segundos. E ali, caída no chão de pedra, estava Sophie. O coração de Nicholas simplesmente parou. — Não... — murmurou. O corpo dela estava imóvel, de lado, o cabelo espalhado. Ao lado, uma poça de sangue escuro se alastrava lentamente. — Não... não... — repetiu, começando a correr. Ninguém o segurou dessa vez. Nicholas caiu de joelhos ao lado dela. Não foi delicado. Foi urgente. O primeiro impulso foi o pânico, mas ele o esmagou quase no mesmo instante. Não havia espaço para isso. Não agora. Os olhos dele desceram rápido demais, treinados. Sangue. Muito sangue. — Não... — murmurou, mas já estava agindo. Sophie estava consciente apenas o suficiente para gemer baixo quando ele a tocou. O rosto pálido, os lábios entreabertos, o olhar perdido em algum ponto acima dele. — Sophie. — chamou, firme, aproximando o rosto do dela. — Olha pra mim. Fica comigo. Ele localizou o ferimento com rapidez. Uma faca. Um golpe lateral, abaixo das costelas. — Droga... — sussurrou. Nicholas pressionou a mão contra o ferimento sem hesitar, ignorando o sangue que manchava a farda cerimonial. O tecido manchou em segundos. — Não dorme. — disse, com autoridade, inclinando-se sobre ela. — Não fecha os olhos, entendeu? Fala comigo. Ela respirava curto. Raso. — Nick... — murmurou, quase inaudível. Aquilo foi o que restou da contenção dele. — Eu estou aqui. — respondeu, rápido demais. — Eu tô aqui, Sophie. Escuta a minha voz.
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