Capítulo 27

1880 Words
O quarto estava exatamente como ele lembrava. Nicholas parou no meio do espaço por alguns segundos, sem fechar a porta atrás de si. O cheiro era o mesmo, madeira encerada, tecidos limpos demais, um leve perfume neutro que nunca mudava. As paredes no mesmo tom claro, os móveis na mesma posição precisa, quase milimétrica. A escrivaninha sob a janela. A poltrona no canto. A cama grande demais para um menino que, um dia, tinha dormido ali se sentindo pequeno demais para tudo aquilo. Nada tinha mudado. E isso era o pior. Ele caminhou devagar, os passos abafados pelo tapete espesso, e passou a mão pela cabeceira da cama, como se esperasse encontrar ali alguma marca do tempo. Nada. Nenhum sinal de que sete anos tinham passado. Nenhum sinal de que ele tinha crescido, escolhido, vivido. Ali, ele não era o homem que tinha aprendido a cozinhar macarrão de madrugada, que tinha errado, acertado, amado sem permissão. Ali, ele era outra vez o menino que aprendia a sentar direito, a falar pouco, a querer menos. Sentou-se na beira da cama e respirou fundo. Pensou em Sophie. No jeito como ela ria alto demais. Em como ocupava espaço sem pedir licença. Em como aquele quarto pareceria sufocante para ela, bonito, sim, mas frio. Controlado. Sem alma. Queria vê-la. A ideia veio como um impulso quase físico: levantar, sair, procurá-la pelos corredores, ignorar tudo. Mas não se mexeu. Matthias tinha sido claro. E, mais do que isso, ele tinha prometido a si mesmo que falaria com o pai antes de quebrar mais alguma coisa. A promessa não tornava mais fácil. Levantou-se e foi até o armário. Abriu a porta. E congelou. As roupas da mala estavam ali. Todas. Dobras perfeitas. Camisas penduradas por cor. Sapatos alinhados no chão como se nunca tivessem sido usados. Até a jaqueta que ele lembrava de ter jogado sem cuidado dentro da mala estava ali, impecável. Nicholas soltou uma risada sem humor. — Claro... — murmurou. — Funcionários mais eficientes do mundo. Não fazia ideia de quando aquilo tinha acontecido. Provavelmente enquanto ele estava conversando com Matthias. Ou olhando pela janela do carro. Ou simplesmente existindo fora do lugar. Vestiu-se devagar. Camisa clara. Calça escura. Nada que gritasse poder, nada que parecesse uma armadura. Ainda assim, ao se olhar no espelho, sentiu o mesmo estranhamento. Não era mais ele. Ou talvez fosse, só não do jeito que o castelo queria. Estava abotoando o último botão quando alguém bateu à porta. Duas batidas leves. — Entra — respondeu. Matthias apareceu com um sorriso torto já formado. — Olha só... — disse, cruzando os braços no batente — o príncipe herdeiro tá mais humano agora? Nicholas bufou. — Você não devia ficar tirando com a cara do príncipe herdeiro. Matthias entrou no quarto rindo. — E se eu não tirar com a cara do príncipe herdeiro, vou tirar com a de quem? — arqueou a sobrancelha. — Do rei? Nicholas soltou uma risada curta, apesar de si mesmo. — Justo. Matthias olhou em volta, reconhecendo o ambiente. — Nada mudou, né? — Nada — Nicholas respondeu. — É como entrar numa cápsula do tempo. Só que sem a parte boa. — Você também não ajuda — Matthias provocou. — Chegou aqui resmungando como se tivesse sido sequestrado. — Porque fui. — Dramático. — Realista. Matthias riu e fez um gesto com a cabeça. — Bora jantar? Nicholas fez uma careta imediata. — Se for na vibe das últimas refeições com meu pai, vai ser uma sequência de silêncios desconfortáveis e olhares carregados de julgamento. — Ah, para — Matthias rebateu. — Não pode ser tão r**m assim. Olhou de lado, provocador. — Você não dá trégua pro seu pai nem mesmo à mesa, Nicholas? Nicholas inclinou a cabeça, fingindo pensar. — Ou será que é ele que não me dá? Matthias soltou uma risada curta. — Você devia trabalhar na diplomacia. — Deus me livre — Nicholas respondeu. — Eu gosto da minha sanidade. Fez um gesto para a porta. — Vamos. Antes que ele ache que você tá se escondendo. — Eu estou me escondendo. — Pois anda logo. Saíram juntos pelo corredor. Passaram por dois funcionários. Ambos se curvaram imediatamente. — Alteza. Nicholas respondeu com um aceno automático de cabeça, quase sem perceber. Quando os passos ficaram para trás, Matthias inclinou-se um pouco na direção dele. — Olha só — provocou. — Já tá no modo príncipe de novo. — Maldição... — Nicholas resmungou. — Eu nem percebi. — Esse lugar faz isso com a gente — Matthias disse. — Entra pela pele. Viraram mais um corredor. As risadas foram ficando mais espaçadas. O tom, mais baixo. O castelo começava a lembrar quem mandava ali. — Lembra quando a gente corria por aqui à noite? — Matthias comentou. — Fugindo da governanta? — E você sempre entregava a gente — Nicholas rebateu. — Mentira. Eu só negociava melhores termos. — Traidor. — Estrategista. Nicholas abriu a boca para responder, mas fechou. À frente, as portas do salão de jantar já estavam visíveis. Altas. Imponentes. Abertas. A mudança foi imediata. O ar parecia diferente ali. Mais denso. Mais frio, apesar das lareiras acesas. O riso morreu antes mesmo de atravessarem o limiar. Nicholas endireitou a postura instintivamente. Tirou as mãos dos bolsos. O rosto se recompôs, neutro, controlado. O corpo lembrava antes da cabeça: costas retas, passos medidos, presença contida. Matthias também mudou. O sorriso sumiu. O caminhar relaxado deu lugar a uma elegância precisa, quase militar. Não era submissão, era hábito. Lá dentro, Edmund e Eleanor já estavam à mesa. O rei conversava baixo com a rainha, mas ergueu os olhos no exato instante em que os dois entraram. O olhar avaliou Nicholas de cima a baixo. Rápido. Silencioso. Calculado. Eleanor foi a primeira a sorrir. — Estavam demorando — disse, com suavidade. Nicholas inclinou levemente a cabeça. — Majestade. — depois, voltando-se para a mãe — Mãe. Matthias fez uma reverência breve e correta. — Tio. Tia. O clima era... correto demais. Nicholas puxou a cadeira quando indicado, sentando-se no lugar de sempre. O mesmo desde a adolescência. Nada tinha mudado. Nem a posição. Nem a distância. Nem o peso invisível que vinha junto. Enquanto os criados começavam a servir o jantar, Nicholas teve uma certeza incômoda: no corredor, ele tinha sido apenas Nicholas. Ali, à mesa, ele voltava a ser exatamente quem todos esperavam que fosse. E a ausência de Sophie, sentada em algum outro lugar daquele castelo enorme, doía mais do que qualquer bronca. O salão de jantar estava iluminado demais para o humor que se espalhava pela mesa. Os criados se moviam em silêncio ensaiado, colocando pratos, alinhando talheres, servindo vinho com precisão quase militar. O som mais alto era o leve tilintar da porcelana contra a mesa comprida, impecavelmente posta. Ninguém tocava em nada. Todos aguardavam o rei. Nicholas mantinha a postura correta, as costas eretas, as mãos repousando próximas ao prato, mas o maxilar estava tenso. Matthias, ao seu lado, observava tudo com um interesse divertido demais para aquele ambiente. Edmund, na cabeceira, mantinha o olhar baixo, analisando o prato como se estivesse diante de uma decisão de Estado. Eleanor, por outro lado, claramente sentia o peso do silêncio. Ela pigarreou de leve, abrindo um sorriso gentil. — Então... — começou, num tom deliberadamente casual. — Querido, se acomodou bem? Precisa de alguma coisa? Nicholas virou o rosto na direção da mãe, o sorriso rápido, educado. — Está tudo certo, mãe. Obrigado. O silêncio voltou a se instalar, espesso. Nicholas inclinou-se alguns centímetros em direção a Matthias e murmurou, quase sem mover os lábios: — Não te disse que o clima era péssimo? Nicholas m*l teve tempo. A risadinha curta de Matthias escapou discreta, mas audível o suficiente. — Matthias. Nicholas. A voz de Edmund cortou o ar com precisão cirúrgica. — Comportem-se à mesa. Os dois se entreolharam como crianças pegas em flagrante. Nicholas bufou, girando o olhar para o pai. — Fala sério, pai — disse, sem elevar o tom, mas claramente impaciente. — O senhor está agindo como se isso fosse um jantar de Estado. Não podemos mais rir em Auren? Não tem ninguém nos observando. Para quê toda essa formalidade? Edmund fechou os olhos por um breve instante e suspirou fundo. Antes que respondesse, Eleanor deixou escapar uma risadinha suave. — Ele tem razão, meu amor — disse, pousando a mão sobre a do marido. — Vamos tentar manter a harmonia, pode ser? Edmund abriu os olhos, olhou ao redor da mesa e assentiu, resignado. — Muito bem. Desculpem-me. Nicholas ergueu uma sobrancelha, claramente surpreso. — Desculpas vindas diretamente do rei? — comentou, com um meio sorriso provocador. — Isso é raro, hein. Aproveita, Matthias. Matthias não se conteve dessa vez e riu de verdade. — Ele voltou impossível da temporada no Brasil — disse, divertindo-se. — Não tem mais salvação. — Impossível é pouco — retrucou Edmund, agora com um brilho divertido no olhar. — Insuportável, eu creio, é mais correto Nicholas sorriu, satisfeito. — Sabe como se livrar de mim, pai? — disse, levando o garfo à mão. — Me deixando em paz lá no Brasil. Matthias gargalhou, sem qualquer tentativa de disfarçar. O jantar finalmente começou. Talheres se moveram, os criados se afastaram, e o clima ainda que longe de leve, tornou-se mais suportável. Depois de alguns minutos em silêncio relativo, Nicholas quebrou a quietude: — Está faltando alguém à mesa, não está? Edmund ergueu o olhar lentamente. — Bom que reparou. Pedi à Katarina que fizesse as refeições em seus aposentos hoje. Achei melhor. Nicholas franziu o cenho. — Melhor por quê? — Estava receoso de que você fosse rude ou descortês com ela. Nicholas abriu a boca, claramente ofendido. — O quê? — bufou. — Eu sou um príncipe, pai. Não seria rude, descortês ou desrespeitoso com ninguém. Muito menos com uma princesa. Matthias tomou um gole tranquilo do vinho. — Pelo menos não na frente dela, né, Nicholas? — comentou, seco. — Porque pelas costas já foi. Nicholas virou-se para ele, incrédulo. — De que lado você está? Matthias apenas ergueu o copo novamente, sem responder. Edmund observava a cena com evidente diversão. — De qualquer forma — disse —, achei melhor que conversassem amanhã. No café da manhã. Nicholas respirou fundo, assentindo. — Tudo bem. Mas sabe quem eu quero ver hoje? Edmund estreitou os olhos. — Já vai começar? — Não — Nicholas respondeu, controlado. Inspirou fundo antes de continuar. — Pai, eu estou pedindo para falar com a Sophie. Eleanor levantou o olhar imediatamente, atenta. — Ela veio para um lugar onde não conhece ninguém — Nicholas prosseguiu. — Não fala a língua, não conhece o clima, a cultura é completamente diferente. Eu preciso falar com ela. Saber como foi tratada, como está se sentindo. Apenas isso. Edmund inclinou-se levemente na cadeira. — E você já não fez isso se esgueirando pelos corredores? — Não — Nicholas respondeu de pronto. — Eu esperei. Esperei para falar com o senhor. Para tentar fazer as coisas do jeito certo. Edmund o observou longamente. Então assentiu. — Aprecio o gesto. Mas, sinceramente, meu filho... o que você espera de mim? Que eu te dê permissão para ir lá dormir com ela?
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