— Não pedi isso — Nicholas respondeu, firme. — Eu só quero ver a minha namorada. Conversar. Nada além disso. Por favor.
O rei respirou fundo.
— Muito bem, Nicholas. Estou confiando no seu bom senso. Você ainda o tem, não tem?
— Tenho.
— Ótimo. Então, quando finalizarmos o jantar, você vai até ela. Conversa. Está bem?
O rosto de Nicholas se iluminou num sorriso genuíno.
— Obrigado.
Matthias inclinou-se de leve e sussurrou:
— Viu só?
Eleanor apertou a mão do marido, sorrindo.
— Vocês precisam mesmo se entender.
— Eu sou razoável — resmungou Edmund. — Nicholas é que não é.
— Até parece — Nicholas respondeu, rindo.
O restante do jantar seguiu mais leve. Conversas curtas, comentários soltos, até risadas ocasionais.
Nicholas, porém, m*l tocava na comida. Observava o pai com impaciência crescente.
Edmund, por sua vez, parecia saborear cada segundo.
Literalmente.
Ele pegou uma ervilha do prato, analisou-a com cuidado excessivo... e tentou parti-la ao meio com a faca.
Nicholas arregalou os olhos.
— Pai. Por favor. — bufou. — Acaba logo com isso. Partindo uma ervilha? Uma única ervilha?
Eleanor riu abertamente. Matthias também.
Era impossível não perceber a provocação.
Edmund limpou a boca com calma exagerada.
— Você não pode apressar o rei.
— Posso sim — Nicholas retrucou. — Especialmente quando o rei está comendo meia ervilha em vez de encerrar o jantar.
Edmund caiu na risada, finalmente abandonando qualquer fingimento.
— Eu só queria ver até quando você aguentaria sem reclamar.
Levantou-se, limpando a boca uma última vez.
— Jantar encerrado.
Nicholas praticamente saltou da cadeira, saindo apressado.
Eleanor balançou a cabeça, sorrindo.
— Ele está apaixonado demais. Essa menina fez um milagre.
— Tenho pena da Katarina — comentou Matthias.
Edmund suspirou, sério de novo.
— Eu tenho pena é de mim mesmo. — Murmurou. — Eu que vou ter que encarar Radovan.
O salão ficou em silêncio outra vez. Mas, dessa vez, havia algo diferente no ar.
Algo inevitável.
Nicholas caminhava pelos corredores do castelo com passos decididos.
Não precisou perguntar a ninguém. Não hesitou em nenhum cruzamento. Entre trezentos quartos, dezenas de alas e andares inteiros reservados a hóspedes, ele sabia exatamente onde a mãe teria colocado Sophie.
E isso dizia mais sobre Eleanor do que sobre o castelo.
Parou diante da porta fechada e bateu uma única vez.
Do outro lado, a voz de Sophie soou leve, despreocupada:
— Pode entrar, Elara. É bom que você me ajuda a fechar o zíper.
O canto da boca de Nicholas se ergueu antes mesmo de girar a maçaneta.
Ele entrou e fechou a porta atrás de si, com calma.
— Posso ajudar — disse, a voz baixa, carregada de intenção. — Mas acho que a ideia era abrir o zíper.
Sophie se virou no mesmo instante.
O sorriso surgiu automático, iluminando o rosto dela de um jeito que fez o peito dele apertar. Era como se não a visse havia dias, não algumas horas.
— Nicholas...
Ele não respondeu.
Caminhou até ela, segurou-a pela cintura e a puxou para perto num gesto urgente, familiar. Colou os lábios aos dela com fome contida, como quem precisava confirmar que aquilo era real. O beijo foi firme, quente, cheio de saudade acumulada onde não deveria haver tanta.
Quando se afastaram, Sophie ainda sorria, os olhos brilhando.
— Eu estava com muita saudade — confessou. — Achei que não fosse te ver tão cedo.
— Nem se eu tivesse que dar uma volta no rei — respondeu ele, sem hesitar.
Ela riu, aquele riso fácil que sempre o desmontava.
Nicholas a conduziu até a cama e se sentaram um de frente para o outro, próximos demais para qualquer formalidade.
Sophie o observou por alguns segundos, atenta.
— Você não tá parecendo meu príncipe.
Ele arqueou uma sobrancelha, divertido.
— Tirei aquela farda no primeiro segundo em que pisei aqui dentro — disse. — Nem esperei permissão.
— Você precisa de permissão pra trocar de roupa agora? — ela provocou.
Nicholas bufou, teatral.
— Aqui eu preciso de permissão até para respirar. Quem dirá para trocar de roupa.
Sophie riu.
— Você é sempre dramático.
— Realista — corrigiu, com um meio sorriso.
Ele inclinou a cabeça, curioso.
— E então... — começou — o que você achou de tudo isso? Como foi a viagem?
Os olhos dela brilharam de imediato.
— Por enquanto eu ainda tô encantada — admitiu. — Tudo é tão lindo.
Nicholas sorriu, satisfeito.
— Eu sabia. Te falei. A única parte realmente boa desse reino é a natureza.
— Eu acho que tem mais coisas boas — ela rebateu, suave. — Você que não se permite ver.
Ele se recostou na parede ao lado da cama, cruzando os braços, atento enquanto ela falava.
— É tudo tão... protocolado — continuou Sophie. — Parece que todo mundo sabe exatamente o que fazer.
Ela gesticulava enquanto falava, empolgada, descrevendo o embarque, o desembarque, como se tivesse assistido a um espetáculo.
Nicholas não conteve a risada.
— Você está encantada com um embarque e desembarque de avião?
— Foi lindo de ver — ela defendeu-se. — Todo mundo sabe o que fazer, ninguém fica perdido. Não tem ninguém fora do lugar. E ninguém precisa mandar. Todo mundo já sabe qual é o seu papel.
Nicholas riu mais baixo agora, um som carregado de ironia.
— Sim... — disse. — Todo mundo sabe o seu lugar. Sabe o tempo certo de tudo.
— Exato! — Sophie concordou, animada. — Seu pai colocou o pé no chão e a guarda bateu continência na mesma hora. Eu até me arrepiei, juro.
Ele balançou a cabeça, divertido.
— Não foi nada demais, Sophie. Aquela é a guarda real. Eles fazem isso o tempo todo. Fizeram aqui também quando a gente chegou. Fazem comigo também.
— Eu vi — ela disse, sem perder o sorriso. — Você tava lindo. Todo sério. Eu adorei.
Nicholas se jogou para trás na cama, rindo alto.
— Ai, senhor... eu mereço isso mesmo. Arrumei uma namorada que adora tudo o que eu odeio.
Sophie riu junto, inclinando-se sobre ele.
— Não tenho culpa se você fica um charme vestido de príncipe e recebendo reverências por aí.
Sophie ficou em silêncio por alguns segundos, como se organizasse um pensamento que já vinha se formando desde o aeroporto.
— Posso te perguntar uma coisa? — disse por fim.
Nicholas abriu os olhos, ainda jogado na cama, e virou o rosto na direção dela.
— Sempre.
Ela mordeu o lábio de leve, pensativa.
— Quem era o homem que estava em destaque esperando por vocês no aeroporto?
Nicholas franziu o cenho.
— Em destaque? — repetiu. — Tinha tanta gente lá...
— Não — Sophie insistiu. — Ele era diferente. Estava à frente da guarda. Foi o primeiro a falar com seu pai. E depois vocês entraram no carro juntos. — inclinou a cabeça. — Eu achei que você fosse viajar sozinho. Não entendi nada.
O entendimento veio, e Nicholas riu.
— Ah... sim.
Ela esperou.
— Aquele é Sua Alteza Real, o Príncipe Matthias de Auren — disse, com deboche evidente, enfatizando cada palavra do título.
Mas o efeito foi exatamente o oposto do esperado.
Os olhos de Sophie se arregalaram.
— Uau... — deixou escapar. — Você também é chamado assim?
Nicholas riu ainda mais.
— Sou.
— Para de rir de mim — ela reclamou, dando um tapinha leve no braço dele.
— É impossível — respondeu, divertido. — Você fica uma graça sorrindo enquanto diz que gostou dessas coisas.
— Esse título todo é muito legal — ela insistiu, sincera.
Nicholas suspirou teatralmente.
— Sim, amor. Eu sou Sua Alteza Real, o Príncipe Nicholas de Auren. — inclinou a cabeça. — Mas só falam isso quando vão me anunciar em algum lugar.
Sophie sorriu de um jeito lento, provocador, e estendeu o braço, mostrando a pele arrepiada.
— Eu achei sexy.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Sexy?
— Muito. — Ela se aproximou e passou a mão pelo peito dele. — Você precisa muito aparecer aqui de farda... e deixar que eu tire.
Nicholas fechou os olhos no mesmo segundo.
O corpo respondeu instantaneamente, traindo qualquer discurso de controle. Sophie percebeu e mordeu o lábio, satisfeita com o efeito que tinha sobre ele.
Então parou de repente.
— Peraí.
Nicholas abriu um olho.
— O quê?
— Ele é um príncipe de Auren? — perguntou. — Eu achei que você não tivesse irmãos.
Nicholas a encarou, incrédulo.
— Sério, Sophie? — soltou, rindo. — Você vai quebrar o clima para falar do Matthias?
Ela caiu na risada.
— Desculpa! — disse, ainda rindo. — É muita coisa pra absorver.
Nicholas balançou a cabeça, rendido.
— Ele é o príncipe regente interino. No caso... foi.
— O que isso quer dizer? — ela perguntou, curiosa de verdade agora.
— O príncipe regente é quem governa se o rei não estiver presente ou estiver incapacitado — explicou. — Como meu pai foi me buscar, o Matthias era a pessoa com maior hierarquia no reino. Ele estava comandando tudo enquanto o rei foi atrás do filho rebelde.
— Entendi... — Sophie assentiu. — Mas por que a roupa de vocês era diferente? Ele estava governando.
— Ele é o segundo na linha de sucessão — Nicholas respondeu. — Vem depois de mim. Meu traje é mais chamativo porque todo mundo tem que bater o olho em mim e saber quem eu sou. — deu de ombros. — Ele não precisa disso. Tecnicamente, não vai herdar nada.
Sophie fez uma careta.
— Nossa... deve ser r**m isso.
— r**m como? — Nicholas perguntou.
— Ser o segundo — explicou. — Você é preparado para algo que pode nunca acontecer. Vive à beira. Tá junto... mas excluído ao mesmo tempo. Deve ser difícil não invejar.
Nicholas sorriu, de lado.
— Ele tem muito mais jeito para rei do que eu — admitiu. — Leva tudo muito mais a sério também. Mas ninguém liga para isso. O sangue fala mais alto. Enfim...
Sophie franziu o cenho.
— Você ainda não me disse quem ele é pra você.
— Meu primo — respondeu. — Filho da irmã caçula do meu pai. Ela e o marido morreram na guerra.
A expressão dele mudou. Mais fechada.
— Foi logo depois disso — continuou — que meu pai teve a brilhante ideia de encerrar tudo com uma trégua. Um casamento. O meu. — soltou uma risada sem humor. — Eu tinha três anos.
Sophie o encarou, séria agora.
— Ele devia estar sofrendo muito com a perda da irmã — disse com cuidado. — Você não pode ser tão duro com ele. Ser rei deve ser muito difícil, Nick.
Nicholas inclinou a cabeça, pensativo.
— Talvez ele devesse te ouvir falando isso — murmurou. — Quem sabe assim ele larga de ser implicante comigo.
Sophie sorriu e se aproximou outra vez, encostando a testa na dele.
— Eu posso tentar convencer — disse, baixinho.
Nicholas riu, puxando-a para mais perto.
— Boa sorte com isso.
E, por alguns segundos, o castelo voltou a desaparecer.