Capítulo 29

1522 Words
Eles ficaram ali por mais alguns minutos, trocando beijos preguiçosos, sem pressa. Beijos que não pediam nada além de proximidade. As mãos se encontravam, deslizavam sem ousadia demais, dedos na cintura, na nuca, no braço, como se estivessem apenas confirmando que o outro ainda estava ali. Nicholas afastou a testa da dela e suspirou fundo. — Vai ser uma tortura dormir sozinho sabendo que você tá aqui. Sophie riu, encostando o nariz no dele. — Devíamos respeitar o rei — disse, provocadora. — E a sua noiva. — Eu tento — ele respondeu, sincero. — Mas meu corpo quer muito mais do que uns beijinhos. Ela riu de novo, divertida... até que o sorriso foi ficando menor. — Falando na sua noiva... — disse, de repente. — Como foi o encontro com ela? Nicholas franziu o cenho. — Não foi. — Como assim, não foi? — Sophie estranhou. — Eu achei que essa mulher fosse te buscar no aeroporto. Ele caiu na risada. — É claro que não. — balançou a cabeça. — No aeroporto estavam ministros, chefes de defesa, o príncipe regente interino, a guarda real. Aquilo é política, diplomacia e segurança. Não é espaço para... encontros. Ela o observava com atenção. — A segurança do rei e do príncipe estava em jogo — continuou ele. — Aqui no castelo, quem nos recebe são... — pensou um segundo. — O Alistair, o mordomo, e a guarda interna. — E ela? — Não entra nessa lista. — respondeu, simples. — O único lugar onde eu poderia vê-la seria no jantar. Mas ela ficou no quarto. Devo vê-la amanhã, no café da manhã. Sophie soltou um suspiro baixo. Nicholas percebeu na hora. — O que foi? Ela deu de ombros, tentando disfarçar. — Não é óbvio? — disse. — Ela lá tomando café com você... e eu aqui tomando café com sabe Deus quem. Nicholas arqueou a sobrancelha, divertido. — Ué. Você não adora namorar um príncipe? — provocou. — Tem que aguentar o pacote. — Eu adoro você fardado — ela rebateu. — Não desfilando com uma princesa que eu jamais serei. Ele sorriu de um jeito calmo demais para o peso da frase. — Pra mim, você é. Sophie suspirou. — Infelizmente isso não adianta muito, né? Nicholas se inclinou, segurou o rosto dela com as duas mãos. — Adianta sim — disse, firme. — A gente vai ficar junto. Ela o encarou, desconfiada. — Vamos governar esse reino juntos — continuou ele, sem piscar. — Mudar as regras, quebrar protocolos... fazer as caveiras do meu pai se revirarem no túmulo. Sophie riu, apesar de si mesma. — Para, Nick. Não é justo você me iludir assim. Ele sorriu, daquele jeito que sempre fazia parecer que estava falando sério e brincando ao mesmo tempo. — Aguarda — murmurou. — Você vai ver. E antes que ela pudesse responder, ele voltou a beijá-la, lento, tranquilo, como se o mundo lá fora pudesse esperar só mais um pouco. E, por alguns instantes, eles fingiram que podia. A primeira noite no castelo terminou diferente do que Nicholas esperava. Ele caminhava de volta para o próprio quarto com um sorriso discreto nos lábios, os passos mais leves, quase silenciosos. Tinha passado mais tempo com Sophie do que deveria, talvez — conversas, risadas baixas, alguns beijos roubados — o suficiente para lembrar quem ele era fora daquele lugar. E, pela primeira vez desde que chegara, isso bastava. Ao fechar a porta do quarto atrás de si, o ambiente não pareceu opressor. As paredes claras, a mobília impecável, o silêncio absoluto... tudo continuava igual. Mas algo nele tinha mudado. O castelo já não parecia tão sufocante. Porque Sophie estava ali. Essa certeza o acompanhou enquanto se despiu, enquanto se deitou na cama grande demais, enquanto fechava os olhos. Dormiu rápido, com a sensação rara de que, talvez, as coisas pudessem dar certo. Na manhã seguinte, acordou cedo. Foi direto ao banheiro, ainda meio entorpecido pelo sono, fazendo a higiene quase no automático. Quando voltou ao quarto, esfregando o rosto com a toalha, a visão o atingiu de cheio. A farda. Imponente. Chamativa. Impossível de ignorar. Parecia observá-lo. Nicholas suspirou fundo. — Bom dia para você também... — murmurou, resignado. Sabia que não havia escolha. Café da manhã oficial. Primeira manhã. Katarina. Ministros. Olhares atentos. Vestiu-se com calma, cada botão como um lembrete silencioso do papel que precisava assumir. Quando terminou, encarou o reflexo no espelho por alguns segundos. O príncipe estava de volta. Pensou em Sophie. Em como ela teria dormido. Em onde estaria agora. Não deixou o pensamento se alongar, sabia onde isso terminaria. Respirou fundo, ajeitou a postura e saiu. Mas não foi direto para o café. Era cedo demais. E, se pudesse adiar aquele encontro um pouco mais... ele adiaria. Mudou o trajeto no último corredor e seguiu para a biblioteca. Ali, pelo menos, o silêncio não cobrava nada. Sentou-se em uma das poltronas, tirou o celular do bolso e desbloqueou a tela. Sem sinal. Claro. Anotou mentalmente que precisava resolver aquilo: uma linha nova, um chip local. Um para ele, outro para Sophie. Mesmo que não pudessem se ver sempre, ao menos poderiam conversar. A porta se abriu de repente. Nicholas quase pulou da poltrona. — p***a, Matthias! A risada veio antes da resposta. — Príncipes não usam esse tipo de palavra, meu primo. Nicholas levou a mão ao peito, recuperando-se, e riu também. — Eu não falo. — corrigiu. — Pelo menos não em público. Ou diante do rei. Matthias entrou na biblioteca com calma, claramente satisfeito consigo mesmo. — Por que será — disse, irônico — que eu sabia que você estaria se escondendo aqui em vez de ir tomar café? Nicholas ergueu uma sobrancelha. — Porque eu estou me escondendo aqui. — respondeu. — Esse café da manhã vai ser um fuzilamento. Matthias deu de ombros. — Relaxa. Você não procurou a Katarina ontem. A essa altura, ela já deduziu que você não é o noivo mais animado do mundo. Nicholas piscou. — Já? — Já. — Matthias respondeu, sério agora. — Ela não é burra, Nicholas. E muito menos uma vilã c***l que vai impedir você de ficar com o amor da sua vida. Nicholas riu, balançando a cabeça. — Eu nunca disse que ela fosse. — suspirou. — Mas isso não facilita nada. — Facilita um pouco — Matthias rebateu, simples. Houve um breve silêncio. — E então? — Matthias perguntou, com um meio sorriso. — Passou a noite com a Sophie? Nicholas bufou. — Meu pai jamais permitiria. Matthias arqueou a sobrancelha. — Eu sei que não é permitido. — disse. — Eu perguntei se você fez. Nicholas riu. — Não. — respondeu. — Só conversamos um pouco. Depois eu fui para o meu quarto. Não vou entrar em guerra com ele logo no dia um. Vamos ver até onde essa situação se arrasta. — Surpreendente — Matthias comentou. — Conhecendo você, achei que fosse mesmo dormir lá. — E você acha que meu pai não colocou alguém de olho para saber quanto tempo eu fiquei no quarto dela? — Nicholas retrucou. — Com certeza algum guarda reparou até se eu saí ajeitando a roupa ou não. Matthias caiu na gargalhada. — Eu espero que não tenha, meu primo. De verdade. O som da maçaneta se mexendo cortou o riso. Nicholas e Matthias se calaram ao mesmo tempo, os olhares voltados para a porta da biblioteca. O silêncio voltou denso por um segundo, atento. A porta se abriu. Sophie deu um pequeno passo para dentro... e congelou. O susto foi imediato. Não só por vê-lo ali, mas por vê-lo ali com outra pessoa. Nicholas sorriu no mesmo instante. Matthias foi o primeiro a falar, automaticamente assumindo o tom que o castelo exigia dele, mesmo sem saber quem era aquela visitante. — Pois não? — disse, cruzando os braços com elegância. — Posso ajudar? Sophie não reverenciou. Não por desafio. Por esquecimento puro. Ficou tão travada que sequer lembrou do combinado, das instruções apressadas de Nicholas. Apenas engoliu em seco. — Desculpa... — começou, sem graça. — Eu acordei cedo e estava andando pelo castelo pra conhecer... acho que me perdi. Nicholas soltou uma risada baixa. Matthias lançou a ele um olhar rápido, confuso com a tranquilidade excessiva do primo. Nicholas fez um gesto com a mão. — Vem — disse, simples. E fechou a porta atrás dela. Sophie hesitou por um segundo, desconfiada, mas foi. Nicholas a puxou para perto e a envolveu pela cintura com naturalidade, ficando os dois de frente para Matthias. — Sophie — disse ele, sorrindo — esse aqui é o Matthias. O sorriso de Sophie surgiu automático. Matthias manteve a postura rígida, o olhar sério demais para aquela apresentação. — É assim que você me apresenta? — disse, seco. — Faça o favor de apresentar direito. Nicholas piscou, entendendo a provocação. — É verdade... — disse, entrando no jogo. — Sophie, este é Vossa Alteza Real, o Príncipe Matthias de Auren. O sorriso dela vacilou. — Ah... — murmurou, claramente sem graça. — E você não vai reverenciar? — Matthias acrescentou, impassível.
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