Nicholas chegou em casa quando o céu já começava a escurecer.
O portão enferrujado rangeu baixo quando ele o empurrou, e por um segundo seu olhar varreu a rua com atenção excessiva. Esperava encontrar alguém ali. Um carro discreto demais. Um homem encostado em um poste. Qualquer sinal de que o reino havia finalmente batido à sua porta.
Nada.
A rua estava vazia, comum, indiferente.
Ainda assim, o peito não relaxou.
Ele franziu o cenho, atravessou o pequeno quintal e entrou. Trancou a porta atrás de si, girando a chave duas vezes, como se isso pudesse manter mais coisas do lado de fora do que apenas pessoas.
Antes mesmo de largar os sapatos, desligou o celular.
Tela preta. Silêncio absoluto.
Não só do reino.
De tudo.
— Melhor assim — murmurou para ninguém.
A casa o recebeu com o mesmo vazio calmo de sempre. Nicholas deixou a mochila sobre a cadeira, passou direto pela cozinha sem acender a luz. Não sentia fome. Não sentia nada que pudesse ser resolvido com comida.
Pensou, sem querer, em como Sophie sempre percebia quando ele pulava refeições.
Em como perguntaria, se estivesse ali.
Em como ele responderia qualquer coisa só para não explicar.
Tomou banho em silêncio, a água quente escorrendo pelos ombros tensos. Ficou tempo demais ali, parado, deixando que o vapor embaçasse o pequeno box, como se pudesse apagar pensamentos junto com a imagem refletida no vidro.
Quando saiu, vestiu uma camiseta qualquer e se deitou na cama sem sequer puxar o lençol direito.
O quarto era escuro. O teto baixo demais. Familiar demais.
Ele encarou o branco manchado acima de si, respirando fundo.
O encontro era inevitável agora.
O rei havia vindo.
Seu pai havia atravessado um oceano para buscá-lo.
Mas não era isso que o assustava.
Era a sensação incômoda de que, outra vez, algo que ele começara a construir poderia ser arrancado antes de estar pronto.
Nicholas fechou os olhos.
E o passado veio.
Sete anos antes.
A biblioteca do castelo estava mergulhada em uma penumbra confortável, iluminada apenas pelo fogo baixo da lareira e por algumas luminárias antigas espalhadas entre as estantes altas. O cheiro de couro, papel envelhecido e madeira encerada era o mesmo de sempre.
Nicholas estava de pé diante da mesa do pai.
Tinha dezoito anos. Ombros ainda estreitos demais para o peso que já carregava.
— Eu preciso ir — disse, a voz firme apesar do coração acelerado.
O rei Edmund ergueu os olhos dos papéis lentamente. Não havia raiva ali. Apenas surpresa… e preocupação.
— Esta é a sua casa, Nicholas — respondeu, com calma. — Sempre foi. Sempre será. Não há motivo para fugir dela.
— Eu não estou fugindo — rebateu, rápido. — Eu só… preciso sair daqui. Por um tempo.
Edmund apoiou as mãos na mesa e se levantou, caminhando alguns passos pelo tapete espesso.
— O castelo está sufocando você? — perguntou. — É isso?
Nicholas respirou fundo.
— Neste momento, está — admitiu. — Tudo aqui pesa demais. As paredes. As expectativas. As decisões que já parecem tomadas antes mesmo de eu poder escolher.
O rei o encarou longamente. Havia ali algo entre compreensão e temor.
— Eu o criei para ser um homem forte — disse, por fim. — Para que, quando fosse rei, não se deixasse conduzir apenas pelo que sente.
Suspirou.
— Mas isso… isso é uma escolha que cobra um preço alto, meu filho.
Nicholas engoliu em seco.
— Katarina acabou de chegar — continuou o rei. — Ela deixou o próprio reino, a família, tudo, para cumprir um acordo que garante a paz. Como acha que ela vai se sentir quando o futuro marido parte dias depois?
O nome ecoou pesado entre eles.
— Esse é exatamente um dos motivos pelos quais eu preciso ir — respondeu Nicholas, com honestidade crua. — Se eu ficar agora, tudo isso vai se tornar uma prisão. E eu vou aprender a viver sem nunca escolher nada de verdade.
O rei o observou em silêncio.
Por um instante, Nicholas teve a estranha sensação de que Edmund via não apenas o filho diante dele, mas o menino que fora, décadas antes, empurrado por deveres maiores que seus desejos.
Edmund fechou os olhos por um segundo.
— Muito bem — disse, enfim. — Vá.
Nicholas ergueu a cabeça, surpreso.
— Mas com uma condição — completou o rei, sério. — Você promete que voltará quando eu o chamar.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Nicholas não hesitou.
— Eu prometo.
Edmund assentiu, resignado.
— Você vai partir o coração de Eleanor.
O peito de Nicholas apertou.
— Ela vai entender — respondeu. — Assim como o senhor está entendendo agora.
O rei deu um passo à frente e pousou a mão no ombro do filho.
— Eu espero que sim.
**
Nicholas abriu os olhos.
O quarto simples voltou ao foco. O teto baixo. O silêncio.
Sete anos haviam passado.
E agora o rei estava ali.
Viera cobrar aquela promessa feita na biblioteca, sob a luz vacilante da lareira. Uma promessa que ele fizera jovem demais para entender o peso real das palavras e velho demais para fingir que não sabia o que significavam.
Nicholas virou o rosto para o lado, encarando a parede.
Não havia como fugir daquela conversa.
Não havia como dizer não.
Fechou os olhos outra vez, mas o sono não veio.
Não veio em momento algum.
Passara a noite inteira acordado, encarando o teto baixo do quarto, refazendo mentalmente caminhos que não levavam a lugar nenhum. Pensava no pai, na comitiva reduzida, nos passos calculados de um rei que não precisava correr atrás de ninguém.
Edmund nunca corria.
Esperava.
Onde ele o procuraria?
Será que já sabia exatamente onde encontrá-lo?
O consultório…
Nicholas sentiu o estômago se revirar.
Será que alguém já estivera ali?
Será que Edmund precisaria mesmo procurar entre os Nicholas do bairro, bater de porta em porta, fingir desconhecimento?
Nicholas sabia a resposta.
Não.
Nunca precisara se esconder de verdade. Apenas se afastar. O cerco agora se fechava não por pressa, mas por paciência. E paciência era algo que a corte dominava como ninguém.
Mesmo que ainda não soubessem o endereço exato, era só uma questão de tempo.
Quando chegou ao consultório, o sol ainda não estava alto. O corpo pesava como se tivesse atravessado dias, não horas. O espelho do banheiro lhe devolvera um rosto cansado demais, olheiras marcadas, o maxilar tenso.
Sophie.
O nome veio antes mesmo de vê-la.
Ela já estava lá.
O cheiro de café fresco preenchia o espaço, misturado ao som suave de algo sendo organizado. Sophie se movia com a leveza de sempre, cantarolando baixo enquanto alinhava prontuários e conferia a agenda.
Por um instante breve, perigoso demais, Nicholas pensou que talvez fosse por isso que nunca deveria ter se permitido sentir nada por ninguém.
Ele sabia desde sempre.
Sabia que havia uma promessa antiga. Um acordo selado antes mesmo de ele poder opinar. Sabia que Katarina não era apenas uma pessoa, era um destino traçado, um caminho que não previa desvios.
Não criar laços.
Não criar raízes.
Não criar motivos para ficar.
Esse fora o plano.
Mas quando percebeu, Sophie já estava ali.
— Bom dia — disse ele, tentando soar normal.
Sophie ergueu os olhos e sorriu automaticamente.
O sorriso morreu no meio do caminho.
Ela franziu a testa e se aproximou dois passos.
— Meu Deus, Nick… — disse, analisando-o de cima a baixo. — Que trem passou por cima de você?
Nicholas soltou uma risada baixa, genuína. Daquelas que só vinham quando estava com ela.
— Bom dia pra você também.
— Eu estou falando sério — insistiu. — Você está péssimo.
— Exagero — respondeu, pegando a xícara que ela lhe estendia. — Só tive uma crise de insônia.
— Outra? — Sophie cruzou os braços. — Isso não é normal. Você devia procurar um médico. Insônia assim faz m*l.
Ele deu de ombros, bebendo um gole do café.
— São só preocupações da vida — disse. — Nada demais.
Ela o observou por alguns segundos, claramente não convencida, mas decidiu não insistir.
Nicholas respirou fundo.
— Sophie… — começou, a voz mais baixa.
— Oi?
O anel girou uma vez antes de ele se conter.
— Talvez… em breve eu precise fechar o consultório.
O efeito foi imediato.
— O quê? — os olhos dela se arregalaram. — Fechar? Mas por quê? Está indo m*l? A gente tem tantos pacientes, Nick. Cada vez mais gente procura aqui.
Ele negou com a cabeça.
— Não é isso.
O silêncio se instalou, curto e denso.
— Então é o quê? — perguntou ela, mais devagar.
Nicholas hesitou.
Porque explicar significaria atravessar uma linha que ele não tinha o direito de cruzar.
— Provavelmente… vou ter que voltar pra casa.
As palavras soaram estranhas até para ele.
Sophie o encarou, e algo em seu olhar mudou. Não era surpresa.
Era tristeza.
A mesma que ele sentia.
— Ah… — murmurou, sem saber exatamente o que dizer.
Por um instante, nenhum dos dois falou. O café esfriou entre as mãos dele. O consultório, tão cheio de rotina, pareceu suspenso no tempo.
Foi Sophie quem quebrou o silêncio.
— Bom… — disse, forçando leveza — a primeira consulta do dia está confirmada. Daqui a pouco eles chegam.
Nicholas assentiu.
— Certo. — respondeu. — Vou me preparar na sala.
Passou por ela e entrou no consultório, fechando a porta atrás de si com cuidado excessivo.
Do lado de fora, Sophie ficou parada por alguns segundos, olhando para a porta fechada.
Algo estava mudando.
E Sophie teve a certeza incômoda de que não era algo que se resolvesse com o tempo.