A porta se fechou atrás deles com um clique seco.
O silêncio que se seguiu não foi cerimonial, foi humano.
Nicholas foi o primeiro a se mover. Levou as mãos à gola da farda e puxou com força, como se o tecido o sufocasse. Desabotoou rápido demais, sem cuidado, arrancando a parte de cima num gesto brusco.
— Merda... — murmurou.
Jogou o casaco pesado da farda por cima de um sofá próximo, como quem se livra de algo contaminado.
Matthias, encostado na parede, cruzou os braços e soltou uma risada baixa.
— Se meu tio te pegar assim, vai te dar uma bronca histórica.
Nicholas passou a mão pelos cabelos, irritado.
— Não tô nem aí. — respondeu. — Eu já tô aqui. Ele devia é me agradecer por isso.
Matthias riu mais alto, balançando a cabeça.
— Quando foi que você ficou tão rebelde, hein? — provocou. — Você nunca gostou disso tudo, mas nunca deixou tão claro assim a sua insatisfação.
Nicholas respirou fundo antes de responder. Caminhou até a janela e ficou ali, olhando para fora.
Tudo branco.
Neve cobrindo o chão, os telhados, as árvores. Silêncio demais. Frio demais.
— Sete anos longe desse lugar fazem qualquer um não querer voltar — disse, sem virar o rosto. — Aqui tudo pesa mais.
Matthias o observou em silêncio por alguns segundos.
Nicholas então virou-se, tentando aliviar o clima, embora o peso ainda estivesse ali.
— E você? — perguntou, com um meio sorriso torto. — Como foram esses dias de príncipe regente interino?
Matthias arqueou uma sobrancelha e riu.
— Só você mesmo para me dar esse trabalho, Nicholas.
— Ah, fala sério — Nicholas rebateu, rindo também. — Quando eu disse naquela ligação que só voltava pra cá se meu pai fosse me arrastar, não era para você transmitir o recado ao pé da letra.
Matthias gargalhou.
— Eu não transmiti nada. — respondeu. — Seu pai estava do meu lado ouvindo a ligação inteira. Você não reparou que eu tava sério demais?
Nicholas levou a mão à testa, rindo.
— Eu estava transtornado. — admitiu. — A mensagem do chanceler caiu como uma bomba. Eu nem estava raciocinando direito.
O riso foi se dissipando aos poucos.
O silêncio voltou, mas agora era diferente. Mais pesado.
Matthias respirou fundo.
— Você não vai nem perguntar pela Katarina?
Nicholas respondeu sem pensar:
— Não.
Matthias estreitou o olhar.
— Isso não é muito cortês da sua parte. — disse. — Ela te espera há sete anos, primo.
Nicholas bufou, girando o anel no dedo, inquieto.
— Katarina representa tudo o que eu odeio, Matthias. — respondeu. — Esse lugar. Essa prisão. Esse cargo que eu nem mereço.
Matthias abriu a boca para responder, mas Nicholas continuou, sem dar espaço: — Fala sério... você é muito mais príncipe herdeiro do que eu. Muito mais.
Matthias soltou uma risada incrédula.
— Não é assim que funciona.
— Mas deveria. — Nicholas rebateu. — O povo te respeita. Te escuta. Te entende.
— O povo te adora — Matthias corrigiu. — E eles adoram a Katarina. O casamento de vocês vai ser um...
— Não vai ser nada. — Nicholas cortou, firme.
Matthias congelou.
— Como assim?
Nicholas ergueu o olhar, sério.
— Eu não quero me casar com a Katarina.
O silêncio caiu pesado.
— Eu me apaixonei no Brasil, primo. — continuou. — E a Sophie veio comigo para cá.
Matthias se levantou num impulso, o choque estampado no rosto.
— Você tá dizendo que trouxe uma amante para o castelo?! — a voz saiu mais alta do que pretendia. — O rei permitiu isso?
— Eu ameacei até renunciar aos meus direitos de sucessão.
Matthias empalideceu.
— O quê?
— Relaxa — Nicholas riu do susto dele. — Não fiz. Mas quase.
— Não. — Matthias disse, firme. — Não. Nada disso. Você não vai fazer isso.
Nicholas inclinou a cabeça, observando o primo.
— Fala sério, Matthias. — disse. — Você é muito mais preparado do que eu para ser rei.
— Não começa. — Matthias rebateu. — Você é o herdeiro, Nicholas. Não inventa ideia por causa de uma brasileira.
Nicholas bufou.
— Achei que você ficaria do meu lado.
Matthias passou a mão pelo rosto, visivelmente incomodado.
— Não, Nicholas. — disse, firme. — Isso é errado. Você não pode trair a Katarina. Ainda mais dentro do castelo.
Nicholas soltou uma risada curta, incrédula.
— Trair? — repetiu. — Matthias, eu nunca nem troquei mais do que cumprimentos formais com a Katarina. Nunca tive uma conversa de verdade com ela. — balançou a cabeça. — E falando sério... eu não lembro nem da cara dela direito.
Matthias franziu o cenho.
— E sabe por quê? — rebateu. — Porque você fugiu como um covarde.
Nicholas arqueou uma sobrancelha.
— Ah, lá vem.
— É a verdade. — Matthias continuou, a voz subindo um pouco. — A menina m*l chegou a Auren e você se mandou. Dias depois. — deu um passo à frente. — Isso foi a coisa mais rude que você já fez, primo. Ela ficou péssima.
Nicholas bufou, como quem não queria ouvir aquilo.
— Você não sabe o que é crescer sabendo que vai ter que se casar com uma mulher que nem conhece — disse, impaciente. — Porque alguém decidiu isso por você antes mesmo de você aprender a escrever o próprio nome.
Matthias abriu a boca para responder, mas Nicholas seguiu, cada vez mais ácido:
— Faltou só me entregarem um manual. — ironizou. — Quantas vezes eu teria que t*****r com ela, quantas vezes ela ia engravidar, quantos filhos seriam aceitáveis. Só isso.
— Nicholas! — Matthias explodiu. — Isso é um desrespeito absurdo.
— É a minha vida! — Nicholas rebateu. — E foi transformada num acordo diplomático.
Matthias respirou fundo, tentando se controlar.
— A Katarina é uma mulher incrível. — disse, com convicção. — Se você tivesse parado para conversar com ela, teria percebido isso.
Nicholas o encarou.
— Pode ser a melhor mulher do mundo, Matthias. — respondeu, seco. — A mais inteligente, a mais bonita, a mais perfeita de Auren. — deu de ombros. — Eu amo a Sophie. E é com ela que eu vou ficar.
O silêncio caiu pesado outra vez.
— Você está me dizendo... — Matthias começou, com cautela — que mesmo se casar, pretende continuar encontrando a brasileira?
Nicholas soltou uma gargalhada sem humor.
— Não vai ter casamento. — disse. — Só se me amarrarem e me jogarem no altar.
— Nicholas...
— E mesmo assim — interrompeu — se não me amordaçarem, eu digo não.
Matthias passou a mão pelos cabelos, exasperado.
— Minha nossa... — murmurou. — Eu tinha esquecido como você é dramático. Parece até que a Katarina é uma leprosa.
— Não importa quem ela seja — Nicholas rebateu. — Não vai haver casamento.
Deu um passo à frente, encarando o primo.
— E se você acha ela tão divertida, inteligente e linda... — inclinou a cabeça — case-se você com ela.
Matthias engasgou.
Literalmente.
Levou a mão ao peito, tossiu uma vez, depois outra, até conseguir respirar direito.
— Você enlouqueceu?! — perguntou, incrédulo.
Nicholas o observou com atenção pela primeira vez.
O choque.
O rubor súbito.
A forma como Matthias desviou o olhar rápido demais.
O entendimento veio lento... e certeiro.
— Ah. — disse, baixo. — Entendi.
Matthias ergueu o rosto de imediato.
— Não entendeu nada.
— Gosta dela. — Nicholas afirmou, simples.
— Não. — Matthias respondeu rápido demais. — Ela é sua prometida. Você deve se casar com ela.
Fez uma pausa.
— Nós convivemos nesses anos. — acrescentou, mais contido. — Ela virou uma amiga, por assim dizer.
Nicholas deu de ombros.
— Eu não ligo, Matthias. — disse. — Você bem sabe.
A tensão mudou de lugar.
Nicholas respirou fundo e, pela primeira vez desde que entraram naquela sala, sua voz perdeu a ironia.
— Eu quero ajuda para encontrar a Sophie. — disse. — Me ajuda, por favor.
Matthias o encarou.
— Não me pede isso.
— Já tô pedindo. — Nicholas respondeu. — Você é meu irmão, primo. — deu um passo à frente. — É a única pessoa em quem eu confio aqui dentro.
Matthias fechou os olhos por um instante.
— Ao menos fala com seu pai primeiro. — disse. — Se ele sabe que ela veio, que vocês estão juntos... por que não permitir que vocês se vejam?
Nicholas riu, amargo.
— No Brasil ele deixou eu falar com ela por cinco minutos. Num jardim. — balançou a cabeça. — Aqui ele não vai permitir que eu me aproxime dela.
— Então não faz o menor sentido ela ter vindo. — Matthias murmurou.
Nicholas soltou uma risada curta.
— Eu disse exatamente isso hoje no café da manhã.
Matthias ficou em silêncio por alguns segundos.
— Primeiro você pede permissão. — disse, por fim. — Se ele negar... a gente conversa.
O tom deixava claro: ele não gostava da ideia.
Nicholas assentiu devagar.
— A questão não é se, Matthias. — respondeu, sério. — É quando.