Capítulo 26

1527 Words
A porta se fechou atrás deles com um clique seco. O silêncio que se seguiu não foi cerimonial, foi humano. Nicholas foi o primeiro a se mover. Levou as mãos à gola da farda e puxou com força, como se o tecido o sufocasse. Desabotoou rápido demais, sem cuidado, arrancando a parte de cima num gesto brusco. — Merda... — murmurou. Jogou o casaco pesado da farda por cima de um sofá próximo, como quem se livra de algo contaminado. Matthias, encostado na parede, cruzou os braços e soltou uma risada baixa. — Se meu tio te pegar assim, vai te dar uma bronca histórica. Nicholas passou a mão pelos cabelos, irritado. — Não tô nem aí. — respondeu. — Eu já tô aqui. Ele devia é me agradecer por isso. Matthias riu mais alto, balançando a cabeça. — Quando foi que você ficou tão rebelde, hein? — provocou. — Você nunca gostou disso tudo, mas nunca deixou tão claro assim a sua insatisfação. Nicholas respirou fundo antes de responder. Caminhou até a janela e ficou ali, olhando para fora. Tudo branco. Neve cobrindo o chão, os telhados, as árvores. Silêncio demais. Frio demais. — Sete anos longe desse lugar fazem qualquer um não querer voltar — disse, sem virar o rosto. — Aqui tudo pesa mais. Matthias o observou em silêncio por alguns segundos. Nicholas então virou-se, tentando aliviar o clima, embora o peso ainda estivesse ali. — E você? — perguntou, com um meio sorriso torto. — Como foram esses dias de príncipe regente interino? Matthias arqueou uma sobrancelha e riu. — Só você mesmo para me dar esse trabalho, Nicholas. — Ah, fala sério — Nicholas rebateu, rindo também. — Quando eu disse naquela ligação que só voltava pra cá se meu pai fosse me arrastar, não era para você transmitir o recado ao pé da letra. Matthias gargalhou. — Eu não transmiti nada. — respondeu. — Seu pai estava do meu lado ouvindo a ligação inteira. Você não reparou que eu tava sério demais? Nicholas levou a mão à testa, rindo. — Eu estava transtornado. — admitiu. — A mensagem do chanceler caiu como uma bomba. Eu nem estava raciocinando direito. O riso foi se dissipando aos poucos. O silêncio voltou, mas agora era diferente. Mais pesado. Matthias respirou fundo. — Você não vai nem perguntar pela Katarina? Nicholas respondeu sem pensar: — Não. Matthias estreitou o olhar. — Isso não é muito cortês da sua parte. — disse. — Ela te espera há sete anos, primo. Nicholas bufou, girando o anel no dedo, inquieto. — Katarina representa tudo o que eu odeio, Matthias. — respondeu. — Esse lugar. Essa prisão. Esse cargo que eu nem mereço. Matthias abriu a boca para responder, mas Nicholas continuou, sem dar espaço: — Fala sério... você é muito mais príncipe herdeiro do que eu. Muito mais. Matthias soltou uma risada incrédula. — Não é assim que funciona. — Mas deveria. — Nicholas rebateu. — O povo te respeita. Te escuta. Te entende. — O povo te adora — Matthias corrigiu. — E eles adoram a Katarina. O casamento de vocês vai ser um... — Não vai ser nada. — Nicholas cortou, firme. Matthias congelou. — Como assim? Nicholas ergueu o olhar, sério. — Eu não quero me casar com a Katarina. O silêncio caiu pesado. — Eu me apaixonei no Brasil, primo. — continuou. — E a Sophie veio comigo para cá. Matthias se levantou num impulso, o choque estampado no rosto. — Você tá dizendo que trouxe uma amante para o castelo?! — a voz saiu mais alta do que pretendia. — O rei permitiu isso? — Eu ameacei até renunciar aos meus direitos de sucessão. Matthias empalideceu. — O quê? — Relaxa — Nicholas riu do susto dele. — Não fiz. Mas quase. — Não. — Matthias disse, firme. — Não. Nada disso. Você não vai fazer isso. Nicholas inclinou a cabeça, observando o primo. — Fala sério, Matthias. — disse. — Você é muito mais preparado do que eu para ser rei. — Não começa. — Matthias rebateu. — Você é o herdeiro, Nicholas. Não inventa ideia por causa de uma brasileira. Nicholas bufou. — Achei que você ficaria do meu lado. Matthias passou a mão pelo rosto, visivelmente incomodado. — Não, Nicholas. — disse, firme. — Isso é errado. Você não pode trair a Katarina. Ainda mais dentro do castelo. Nicholas soltou uma risada curta, incrédula. — Trair? — repetiu. — Matthias, eu nunca nem troquei mais do que cumprimentos formais com a Katarina. Nunca tive uma conversa de verdade com ela. — balançou a cabeça. — E falando sério... eu não lembro nem da cara dela direito. Matthias franziu o cenho. — E sabe por quê? — rebateu. — Porque você fugiu como um covarde. Nicholas arqueou uma sobrancelha. — Ah, lá vem. — É a verdade. — Matthias continuou, a voz subindo um pouco. — A menina m*l chegou a Auren e você se mandou. Dias depois. — deu um passo à frente. — Isso foi a coisa mais rude que você já fez, primo. Ela ficou péssima. Nicholas bufou, como quem não queria ouvir aquilo. — Você não sabe o que é crescer sabendo que vai ter que se casar com uma mulher que nem conhece — disse, impaciente. — Porque alguém decidiu isso por você antes mesmo de você aprender a escrever o próprio nome. Matthias abriu a boca para responder, mas Nicholas seguiu, cada vez mais ácido: — Faltou só me entregarem um manual. — ironizou. — Quantas vezes eu teria que t*****r com ela, quantas vezes ela ia engravidar, quantos filhos seriam aceitáveis. Só isso. — Nicholas! — Matthias explodiu. — Isso é um desrespeito absurdo. — É a minha vida! — Nicholas rebateu. — E foi transformada num acordo diplomático. Matthias respirou fundo, tentando se controlar. — A Katarina é uma mulher incrível. — disse, com convicção. — Se você tivesse parado para conversar com ela, teria percebido isso. Nicholas o encarou. — Pode ser a melhor mulher do mundo, Matthias. — respondeu, seco. — A mais inteligente, a mais bonita, a mais perfeita de Auren. — deu de ombros. — Eu amo a Sophie. E é com ela que eu vou ficar. O silêncio caiu pesado outra vez. — Você está me dizendo... — Matthias começou, com cautela — que mesmo se casar, pretende continuar encontrando a brasileira? Nicholas soltou uma gargalhada sem humor. — Não vai ter casamento. — disse. — Só se me amarrarem e me jogarem no altar. — Nicholas... — E mesmo assim — interrompeu — se não me amordaçarem, eu digo não. Matthias passou a mão pelos cabelos, exasperado. — Minha nossa... — murmurou. — Eu tinha esquecido como você é dramático. Parece até que a Katarina é uma leprosa. — Não importa quem ela seja — Nicholas rebateu. — Não vai haver casamento. Deu um passo à frente, encarando o primo. — E se você acha ela tão divertida, inteligente e linda... — inclinou a cabeça — case-se você com ela. Matthias engasgou. Literalmente. Levou a mão ao peito, tossiu uma vez, depois outra, até conseguir respirar direito. — Você enlouqueceu?! — perguntou, incrédulo. Nicholas o observou com atenção pela primeira vez. O choque. O rubor súbito. A forma como Matthias desviou o olhar rápido demais. O entendimento veio lento... e certeiro. — Ah. — disse, baixo. — Entendi. Matthias ergueu o rosto de imediato. — Não entendeu nada. — Gosta dela. — Nicholas afirmou, simples. — Não. — Matthias respondeu rápido demais. — Ela é sua prometida. Você deve se casar com ela. Fez uma pausa. — Nós convivemos nesses anos. — acrescentou, mais contido. — Ela virou uma amiga, por assim dizer. Nicholas deu de ombros. — Eu não ligo, Matthias. — disse. — Você bem sabe. A tensão mudou de lugar. Nicholas respirou fundo e, pela primeira vez desde que entraram naquela sala, sua voz perdeu a ironia. — Eu quero ajuda para encontrar a Sophie. — disse. — Me ajuda, por favor. Matthias o encarou. — Não me pede isso. — Já tô pedindo. — Nicholas respondeu. — Você é meu irmão, primo. — deu um passo à frente. — É a única pessoa em quem eu confio aqui dentro. Matthias fechou os olhos por um instante. — Ao menos fala com seu pai primeiro. — disse. — Se ele sabe que ela veio, que vocês estão juntos... por que não permitir que vocês se vejam? Nicholas riu, amargo. — No Brasil ele deixou eu falar com ela por cinco minutos. Num jardim. — balançou a cabeça. — Aqui ele não vai permitir que eu me aproxime dela. — Então não faz o menor sentido ela ter vindo. — Matthias murmurou. Nicholas soltou uma risada curta. — Eu disse exatamente isso hoje no café da manhã. Matthias ficou em silêncio por alguns segundos. — Primeiro você pede permissão. — disse, por fim. — Se ele negar... a gente conversa. O tom deixava claro: ele não gostava da ideia. Nicholas assentiu devagar. — A questão não é se, Matthias. — respondeu, sério. — É quando.
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