O castelo apareceu antes mesmo de o carro parar completamente.
Nicholas reconheceu a curva da estrada, o alinhamento das árvores cobertas de neve, o portão de ferro n***o que se abria com lentidão solene demais para o gosto dele. Não precisava olhar para saber o que vinha a seguir. O corpo já sabia.
Sempre soube.
O carro desacelerou até parar no pátio principal.
Nicholas endireitou a postura antes mesmo da porta se abrir. Não por ordem. Por reflexo. Um gesto antigo, treinado desde cedo, que voltava sempre que aquele lugar o engolia de novo.
A porta se abriu.
O frio o atingiu de imediato, atravessando a farda pesada, subindo pela nuca como um aviso: você voltou.
Ele desceu.
Não olhou em volta.
Não precisava.
Sabia que a guarda já estava posicionada, que o comandante avançaria dois passos, que o mordomo-mor aguardava à direita da escadaria, que cada funcionário estava no lugar exato onde deveria estar.
E tudo aconteceu exatamente assim.
— Vossa Majestade — a voz ecoou quando o rei e a rainha avançaram à frente.
Nicholas manteve-se um passo atrás dos pais, a distância correta, o silêncio correto. O herdeiro não se antecipa. Não rouba foco. Não age por conta própria.
Ao seu lado, Matthias acompanhava com naturalidade. Meio passo atrás dele. Posição clara. Respeitosa. Sem esforço.
Nicholas sentiu o peso disso.
Sempre sentia.
Subiram os primeiros degraus.
O som das botas na pedra ecoou baixo, abafado pela neve acumulada nas laterais. O castelo parecia respirar devagar, como se os observasse retornar aos seus lugares designados.
— Bem-vindos de volta a Auren — disse o mordomo-mor.
Nicholas inclinou levemente a cabeça. Nenhuma palavra.
O rei respondeu. A rainha sorriu.
Eles entraram.
O calor interno do castelo contrastava com o frio do pátio, mas não trazia conforto. O ar cheirava a cera, pedra antiga e disciplina. Tudo estava igual. Exatamente igual a quando ele partira anos antes.
Tapetes longos.
Paredes altas.
Retratos de ancestrais observando em silêncio.
Nicholas caminhava como se estivesse em trilhos invisíveis.
Cada curva do corredor despertava memórias que ele não pediu para lembrar. A infância vigiada. As aulas intermináveis. O peso constante de ser observado, avaliado, preparado.
Não pensou em Sophie.
Não podia.
Se pensasse nela ali, quebraria.
Ao chegarem ao salão interno, Edmund parou. Nicholas fez o mesmo no exato segundo seguinte. Matthias também. Três gerações de obediência moldadas no corpo.
— A partir daqui — o rei disse — cada um segue para seus compromissos.
Nicholas assentiu.
— Estarei no salão norte dentro de uma hora — Edmund completou, sem olhar para ele.
— Sim, senhor.
A resposta saiu automática.
O rei e a rainha seguiram adiante, acompanhados por dois assessores. O som de passos se afastando ecoou pelo corredor largo.
Por alguns segundos, Nicholas ficou parado.
Só então percebeu que Matthias ainda estava ali.
— Bem-vindo de volta ao inferno gelado — o primo murmurou, baixo, com um sorriso de canto.
Nicholas soltou o ar que vinha segurando desde o aeroporto.
— Não começa — respondeu, sem olhar para ele.
— Já começou sozinho — Matthias rebateu, divertido. — Eu só cheguei agora.
Nicholas virou o rosto para o primo pela primeira vez desde que tinham descido do carro.
— Parece menor do que eu lembrava — comentou, seco.
Matthias riu.
— Não ficou menor. Você que ficou menos disposto a aceitar isso aqui.
Nicholas não respondeu.
Olhou para o alto, para o teto abobadado, para os vitrais antigos filtrando a luz pálida do inverno.
— Eu odeio esse lugar — disse, por fim.
Matthias ficou sério por um segundo.
— Eu sei.
Nicholas respirou fundo, ajeitou a farda no ombro e retomou a postura correta.
— Vamos — disse. — Antes que alguém resolva me lembrar de mais algum dever que eu não pedi.
Matthias sorriu e caminhou ao lado dele.
E, enquanto avançavam pelos corredores do castelo, Nicholas teve a certeza incômoda de que aquela não era apenas uma chegada.
Era o início de uma guerra silenciosa.
**
A viagem de carro pareceu longa demais.
Quando Sophie finalmente desceu, o frio a atingiu de verdade, não como uma ideia, mas como um impacto físico. O ar cortava a pele do rosto, entrava pelos pulmões sem pedir licença, fazendo-a prender a respiração por um segundo. A neve rangia sob os pés, um som estranho, seco, quase bonito.
Ela apertou o casaco contra o corpo instintivamente.
O castelo surgia à frente como algo que não parecia real.
Imenso. Antigo. De pedra clara coberta por vestígios de neve, torres altas recortando o céu cinzento, janelas longas e estreitas que pareciam observar tudo em silêncio. Não havia exagero ornamental, havia solidez. Peso. História.
Sophie parou por um segundo a mais do que deveria.
— Bem-vinda a Auren — disse Elara, ao lado dela, num tom baixo, quase respeitoso.
Sophie piscou, tentando processar.
— Isso... — ela começou, mas não terminou a frase.
Elara sorriu de leve.
— Impressiona da primeira vez. E da segunda. E da terceira também.
Um funcionário se aproximou rapidamente, abriu a porta pesada de madeira. O calor do interior escapou como um suspiro quente, envolvendo Sophie de imediato. Ela entrou quase sem perceber, os olhos tentando absorver tudo ao mesmo tempo.
O chão de pedra clara, parcialmente coberto por tapetes longos e espessos. As paredes altas, adornadas com tapeçarias antigas. Candelabros modernos misturados a luminárias clássicas, criando um contraste curioso entre passado e presente. O som dos passos ecoava, suave, contido, como se até o barulho ali tivesse aprendido a se comportar.
Ela sentiu um arrepio, não só de frio.
— Você deve estar congelando — comentou Elara, notando o leve tremor nos ombros dela. — Vamos direto para seus aposentos.
— Obrigada — Sophie respondeu, sincera. — Eu... ainda tô tentando entender onde eu estou.
Elara caminhava com naturalidade, como quem conhecia cada curva daquele lugar.
— É normal. O castelo costuma causar esse efeito. — lançou-lhe um olhar gentil. — Mas fique tranquila. Você vai se acostumar.
Sophie quase riu.
Vou mesmo?
Subiram uma escadaria ampla, depois um corredor mais estreito. Sophie reparava em tudo: portas altas, brasões discretos nas paredes, janelas que deixavam ver o branco infinito lá fora. Em algum lugar distante, vozes baixas. Passos. O castelo estava vivo, mas de um jeito contido, disciplinado.
Ela percebeu, então.
Nicholas não estava ali.
Não na entrada.
Não no hall.
Não em lugar nenhum que seus olhos alcançaram.
O coração deu uma pequena apertada, automática, irracional. Ela sabia que não era para esperá-lo. Sabia que ele já devia ter entrado, cumprido protocolos, seguido outro caminho. Ainda assim, a ausência foi sentida como um espaço vazio demais.
— Ele... — Sophie começou, mas se conteve.
Elara percebeu.
Sempre percebia.
— O príncipe já chegou — disse com suavidade, sem precisar do nome. — Os trajetos são diferentes.
Sophie assentiu.
— Eu imaginei.
Mas imaginar não doía tanto quanto sentir.
Pararam diante de uma porta alta, de madeira clara, com detalhes simples.
Elara abriu.
O quarto era amplo, mas acolhedor. Uma cama grande, roupas de cama claras, cortinas pesadas protegendo do frio, uma lareira discreta já acesa, espalhando um calor confortável pelo ambiente. Havia uma pequena sala integrada, uma escrivaninha, uma janela grande que dava para um jardim parcialmente coberto de neve.
Sophie ficou parada por alguns segundos.
— Esse é o seu quarto — Elara disse. — Se precisar de qualquer coisa, estarei por perto.
— É lindo — Sophie murmurou, quase sem voz.
Ela tirou o casaco com cuidado, sentindo o corpo finalmente relaxar um pouco. O frio tinha ficado do lado de fora, mas a sensação de estar longe de tudo o que conhecia ainda estava ali, pulsando sob a pele.
Quando Elara se preparava para sair, Sophie perguntou, quase distraída:
— Todo mundo aqui... vive assim? Nesse silêncio?
Elara sorriu de canto.
— Vive. — fez uma pausa curta. — Mas nem todo mundo se sente confortável com ele.
Sophie pensou imediatamente em Nicholas.
— Imagino — disse.
A porta se fechou suavemente atrás da dama de companhia.
Sozinha, Sophie caminhou até a janela e afastou um pouco a cortina. A neve caía devagar, quase preguiçosa, cobrindo o castelo com uma calma enganosa.
Ela respirou fundo.
Estava em Auren.
No castelo.
Longe dele, mesmo estando no mesmo lugar.
E, ainda assim, sentia que algo muito grande tinha acabado de começar.