Um homem aguardava alguns passos à frente da formação, isolado. Não estava misturado aos oficiais, nem junto aos diplomatas. Estava ali sozinho, imóvel, esperando.
A farda era parecida com a de Nicholas.
Mas diferente.
Menos símbolos. Menos peso visual. Ainda assim, impecável. A postura era relaxada demais para alguém que precisava provar algo... e segura demais para alguém que não tinha autoridade.
Quando o rei se aproximou, o homem fez uma reverência profunda, precisa.
Não exagerada.
Respeitosa.
Sophie franziu levemente a testa.
Quem é ele?
A guarda tornou a bater continência.
Então, a porta da ala intermediária do avião se abriu.
E Sophie prendeu o ar.
Nicholas surgiu no topo da escada.
A farda azul-escura, a faixa cruzando o peito, as insígnias douradas brilhando contra o branco da paisagem. O contraste era quase c***l. Ele parecia feito de inverno, aço e tradição.
Lindo.
Distante.
Irreal.
O coração dela acelerou sem pedir permissão.
Nicholas desceu com passos firmes, expressão controlada, o príncipe herdeiro estampado em cada gesto. Não olhou para os lados. Não procurou por ninguém. Não podia.
Quando chegou ao solo, a guarda real bateu continência novamente.
Sophie sentiu o arrepio subir pelos braços mais uma vez.
Mesmo sem tocá-lo, sem ouvi-lo, sem poder sequer chamá-lo pelo nome... ela sentiu.
Era ele.
Os reis seguiram adiante, entrando no carro oficial que os aguardava. Tudo aconteceu rápido, preciso, sem espaço para improvisos. As portas se fecharam. O veículo partiu primeiro, escoltado.
Sophie acompanhou tudo com os olhos.
E então algo chamou sua atenção.
Nicholas não se moveu para um carro sozinho.
O homem da farda parecida se aproximou dele.
Os dois trocaram poucas palavras rápidas, quase imperceptíveis. Nicholas assentiu uma vez. O outro fez um gesto curto com a cabeça, como quem não precisa pedir permissão.
Eles caminharam juntos até o segundo carro.
Não havia i********e visível.
Mas havia... familiaridade.
Sophie estreitou os olhos, intrigada.
Quem é ele?
O carro partiu logo depois, seguindo o dos reis pela pista branca.
Só então a comitiva começou a se mover.
Elara tocou levemente o braço de Sophie.
— Está tudo bem?
Ela assentiu devagar, ainda olhando para fora.
— Está... — respondeu, sem tirar os olhos da cena que se dissolvia. — Só... diferente de tudo o que eu já vi.
Elara sorriu de canto, compreensiva.
Sophie apertou o casaco dobrado contra o peito. Ainda fazia calor dentro do avião, mas ela sabia que, ao pisar naquele solo, o frio seria real. Cortante. Inescapável.
Assim como tudo naquele lugar.
Ela não perguntou quem era o homem da farda semelhante.
Ainda não.
Mas guardou a imagem com cuidado.
Porque, de alguma forma, sentia que ele seria importante.
E enquanto o avião começava, enfim, a se preparar para o desembarque da comitiva, Sophie respirou fundo, sentindo o peso da neve, do silêncio e do reino que se abria diante dela.
Auren não a recebia com calor.
Recebia com reverência.
E com promessas que ainda não ousavam ser ditas em voz alta.
**
A porta do carro se fechou com um som s***o.
O vidro escuro isolou o mundo lá fora em segundos.
Nicholas soltou o ar de uma vez só, como se tivesse estado prendendo a respiração desde que o avião tocara o solo. Afrouxou levemente os ombros, encostou a cabeça no banco e fechou os olhos por um instante.
— Graças a Deus — murmurou. — Sobrevivi.
Matthias soltou uma risada baixa ao lado dele, cruzando os braços com calma.
— Relaxa — disse. — O pior já passou.
Nicholas abriu um olho e virou o rosto na direção do primo.
— Passou nada. — bufou. — Falta tudo isso de novo quando a gente chegar ao castelo.
Matthias riu, balançando a cabeça.
— Drama seu.
— Drama? — Nicholas arqueou uma sobrancelha. — Você ficou lá fora, bonito, fazendo reverência. Eu desci como se estivesse entrando num tribunal.
— Você é o tribunal, primo. — Matthias provocou. — Herdeiro, lembra?
Nicholas revirou os olhos.
— Não me lembra disso agora. — suspirou. — Tô oficialmente de mau humor desde que botei essa farda.
Matthias olhou de lado, avaliando-o.
— Tá reclamando, mas tá impecável. — deu um meio sorriso. — O povo vai surtar.
— Ótimo. — Nicholas fez uma careta. — Mais gente me olhando como se eu fosse uma estátua.
O carro avançava em silêncio pela estrada branca. O som abafado da neve sob os pneus era quase hipnótico.
Matthias observava em silêncio, encostado com naturalidade no banco oposto. Então sorriu de canto.
— Você viu a cara do seu pai?
Nicholas abriu um olho.
— Qual delas? A de rei contrariado ou a de pai decepcionado?
— As duas — Matthias respondeu, rindo baixo. — Ele tá mais tenso do que quando a gente era adolescente e quase derrubou aquela tapeçaria histórica do salão leste.
Nicholas soltou uma risada curta.
— Aquilo não foi culpa minha.
— Foi totalmente culpa sua.
— Foi culpa sua também.
— Mas você me empurrou.
Eles trocaram um olhar cúmplice, daqueles que só quem compartilhou infância e castelo sabe trocar.
Nicholas ajeitou a farda, claramente incomodado.
— Odeio essa roupa.
— Continua odiando sete anos depois — Matthias provocou.
— Odeio ainda mais agora. — bufou. — Antes eu pelo menos fingia que fazia sentido.
Matthias inclinou a cabeça, analisando o primo com mais atenção.
— Você voltou diferente.
Nicholas franziu a testa.
— Diferente como?
— Mais irritado. — respondeu. — E isso vindo de você... é quase um evento histórico.
— Obrigado pela parte que me toca.
Matthias riu.
— Não, sério. — continuou. — E não é só por causa do meu tio. — fez uma pausa curta. — Tem mais coisa aí.
Nicholas desviou o olhar para a janela, observando a neve acumulada na estrada.
— Tem.
— Imaginei. — Matthias disse, tranquilo. — E eu não vou perguntar agora.
Nicholas arqueou uma sobrancelha.
— Milagre.
— Não sou suicida. — Matthias sorriu. — Você tá com cara de quem morde se alguém cutucar demais.
Nicholas soltou uma risada baixa.
— Tem muita coisa pra te contar.
— Ótimo. — Matthias respondeu. — Gosto quando você começa frases assim. Geralmente significa confusão.
— Vai por mim — Nicholas murmurou. — Dessa vez é mais do que o normal.
O castelo começava a surgir à frente, imponente, cercado pela neve.
Matthias suspirou.
— Bom... — disse, esticando o pescoço de leve — aproveita esses últimos segundos de liberdade. Daqui a pouco tem funcionário para todo lado.
Nicholas fechou os olhos por um instante.
— d***a.
Matthias sorriu.
— Bem-vindo de volta, primo.
Nicholas abriu os olhos e respondeu, irônico:
— Que alegria.