O calor já se fazia sentir, mesmo às sete e meia da manhã.
O céu do Rio estava claro demais para aquele horário, prometendo mais um dia abafado, indiferente ao fato de que, para alguns, aquela manhã marcava uma ruptura definitiva.
Sophie segurava o casaco dobrado sobre o braço.
Era pesado demais para aquele clima, lã escura, forro grosso, cheiro de novo, mas indispensável para onde estavam indo. O contraste entre o tecido quente e o ar morno parecia resumir exatamente o que ela sentia: fora de lugar... e, ainda assim, seguindo em frente.
O carro parou próximo ao hangar reservado.
As portas se abriram quase ao mesmo tempo.
À frente, o rei e a rainha desceram primeiro.
Nada de cerimônia espalhafatosa. Nenhum anúncio. A presença deles reorganizou o espaço de forma silenciosa.
Homens de terno escuro se moveram imediatamente, formando um corredor discreto. Um deles levou a mão ao ponto eletrônico. Outro abriu a porta lateral do hangar no exato segundo em que Edmund avançou. Tudo funcionava como um mecanismo antigo, preciso, treinado para não chamar atenção e, ainda assim, impossível de ignorar.
Sophie observava tudo de alguns passos atrás, ao lado da comitiva.
Era estranho.
Ninguém mandava.
Ninguém gritava ordens.
Mas todos sabiam exatamente o que fazer.
Ela viu Eleanor caminhar ao lado do marido, postura impecável, expressão serena. Viu como as pessoas ao redor ajustavam o próprio ritmo ao deles, como se o espaço aprendesse a se comportar diferente na presença de um rei.
Então Nicholas apareceu.
Não ao lado dos pais.
Atrás.
Vestido com a farda cerimonial que ela só tinha visto de perto naquela manhã e que ainda fazia seu estômago dar um nó. O azul-escuro, as insígnias douradas, a faixa cruzando o peito. Ele parecia maior dentro dela. Mais distante. Mais... inalcançável.
E, ainda assim, quando passou, virou o rosto por um segundo.
Os olhos dele encontraram os dela.
Sophie sentiu o coração falhar uma batida.
Não houve gesto.
Não houve palavra.
Não houve sorriso aberto.
Mas houve reconhecimento.
Ela apertou um pouco mais o casaco contra o corpo, como se aquilo a ancorasse, e sustentou o olhar dele por tempo suficiente para que Nicholas soubesse: eu estou aqui.
Ele seguiu.
Entrou por outra porta.
O avião aguardava.
Sophie só então percebeu que estava prendendo a respiração.
— Impressionante, não é? — Elara comentou baixo, ao seu lado, em português. — Nunca perde o impacto... mesmo depois de anos.
Sophie assentiu devagar.
— Não parece um espetáculo — murmurou. — Parece... rotina.
Elara sorriu de canto.
— Para eles, é.
Minutos depois, a comitiva começou a se mover.
Sem pressa. Sem alarde.
O interior do avião era diferente de tudo que Sophie já tinha visto.
Não era apenas luxo, era ordem.
Cada movimento parecia previsto, cada corredor silencioso demais, cada funcionário discreto a ponto de quase desaparecer. Nada ali gritava ostentação. Tudo sussurrava poder.
Ela caminhou alguns passos atrás de Elara, ainda segurando o casaco dobrado sobre o braço. O tecido leve do vestido denunciava que ainda estavam no Rio de Janeiro; o calor da manhã entrava suave pelas portas ainda abertas do avião.
Sophie observava tudo com atenção quase infantil.
As poltronas largas, o carpete espesso sob os pés, a iluminação indireta que tornava o ambiente acolhedor sem ser íntimo. Pessoas falavam baixo. Ninguém ria alto. Ninguém corria. Parecia que até o tempo ali dentro se comportava melhor.
Quando se sentou, ajeitou o casaco no colo e respirou fundo.
Então é isso, pensou.
É assim que começa.
Seus olhos percorreram o corredor devagar e pararam.
Alguns metros à frente, uma porta fechada.
Sem identificação. Sem detalhes. Apenas... fechada.
Ao lado dela, um homem de postura rígida, atento demais para ser passageiro comum.
Sophie não precisou perguntar.
Nicholas estava ali.
Separado por uma porta. Por protocolos. Por um reino inteiro.
Ela engoliu em seco.
Imaginou-o sentado sozinho. A farda impecável. O olhar distante. Aquela expressão que ele fazia quando estava perdido em pensamentos, a mandíbula levemente contraída, os dedos inquietos quando achava que ninguém via.
A ideia apertou seu peito.
— Primeira vez num avião assim? — Elara perguntou baixo, sentando-se ao lado dela.
Sophie piscou, saindo do devaneio.
— Dá pra perceber tanto assim? — sorriu, meio sem jeito.
Elara sorriu de volta, compreensiva.
— Um pouco. — acompanhou o olhar dela, que escapava novamente para a porta à frente. — O príncipe já está acostumado a ir sozinho.
Sophie voltou o rosto para ela devagar.
— Ele detesta ir sozinho.
A resposta veio imediata demais. Natural demais.
Elara arqueou levemente a sobrancelha, surpresa discreta, não julgamento.
— Detesta? — repetiu.
— Detesta — Sophie confirmou, com convicção. — Ele odeia essa sensação de estar cercado de gente e, ao mesmo tempo, completamente isolado. — suspirou.
Houve um pequeno silêncio.
Elara apenas assentiu, como quem entende mais do que comenta.
— Então... — disse por fim — espero que o voo passe rápido.
Sophie sorriu, agradecida.
Pouco depois, as portas começaram a se fechar.
O murmúrio cessou. O aviso soou pelos alto-falantes em tom neutro, impessoal. Os cintos foram ajustados. O avião começou a se mover devagar.
Sophie olhou pela janela.
Viu o chão se afastando lentamente, os prédios diminuindo, o Rio de Janeiro ainda acordando sob o sol morno da manhã. Um aperto estranho tomou seu peito, mistura de encantamento e despedida.
Quando as rodas deixaram o chão, ela respirou fundo.
Estava indo.
Para outro país. Outro clima. Outro mundo.
E ele estava ali.
Tão perto.
E tão longe.
**
Na ala intermediária, Nicholas permanecia sentado.
Sozinho.
Não havia medo. Nunca houve. Ele conhecia aquele ritual desde criança. Sabia exatamente o que esperar de cada fase do voo, de cada som do avião, de cada movimento calculado.
Ainda assim... odiava.
O silêncio ali era diferente.
Não era conforto. Era ausência.
Ele olhava pela janela, vendo a cidade se afastar, o azul se abrindo sob as asas, mas sua mente não estava no céu.
Estava nela.
Imaginava Sophie caminhando pelo corredor. Os olhos curiosos. O sorriso meio contido. O jeito como provavelmente estaria segurando o casaco, mesmo sem precisar dele ainda.
Queria saber o que ela estava achando de tudo aquilo.
Queria ouvir algum comentário sarcástico. Alguma piada fora de lugar. Qualquer coisa que quebrasse aquele peso absurdo.
Queria senti-la em seus braços.
Queria encostar a testa na dela e dizer, em voz baixa, que sentia muito.
Por aquela distância i****a.
Por aquelas portas fechadas.
Por aquele mundo que insistia em separá-los mesmo quando estavam indo para o mesmo lugar.
Mas não fez nada.
Permaneceu ali.
Imóvel.
Com a postura perfeita de um príncipe que sabia cumprir seu papel.
Enquanto o avião ganhava altura, Nicholas fechou os olhos por um segundo.
— Droga... — murmurou para ninguém.
Não era medo do que vinha.
Era o desgosto profundo de estar voltando para casa.
**
O avião tocou o solo com um impacto suave demais para anunciar o que vinha a seguir.
Sophie sentiu o corpo vibrar levemente sob o assento e prendeu a respiração sem perceber. Pela pequena janela oval, o mundo do lado de fora parecia outro, branco, silencioso, quase solene. A pista estava coberta por uma camada espessa de neve, refletindo a luz cinzenta do céu como um espelho gelado.
— Chegamos — murmurou Elara, ao lado dela.
Sophie assentiu, os olhos grudados na janela.
O frio parecia atravessar o vidro.
Lá fora, tudo se movia com precisão ensaiada. Veículos negros alinhados, guardas em formação perfeita, o chão limpo de neve apenas o suficiente para permitir a passagem real. Homens altos, fardas escuras, armas polidas. Nenhuma pressa. Nenhum excesso.
O avião permaneceu imóvel por alguns minutos.
Então, a movimentação começou.
Pela janela, Sophie viu quando a porta privada da ala dianteira se abriu. Primeiro, os guardas se posicionaram. Um som seco ecoou pela pista, botas batendo no chão em uníssono.
Continência.
O arrepio percorreu-lhe a espinha.
O rei surgiu primeiro.
Edmund de Auren desceu os degraus com a postura impecável de quem nunca esqueceu quem é. O sobretudo escuro contrastava com a neve, a presença firme o bastante para silenciar o espaço ao redor. Logo atrás, Eleanor, elegante mesmo envolta em tecidos pesados, segurava o braço do marido com naturalidade.
Os dois caminharam à frente.
A guarda real bateu continência outra vez.
Todos se curvaram.
Sophie sentiu um nó se formar no peito.
Aquilo não era teatro.
Era poder real.
E então... ela viu ele.
Antes mesmo de ver Nicholas.