Dois dias depois...
A noite já tinha tomado Auren quando os portões do castelo se abriram novamente.
As tochas ao longo do pátio interno lançavam luz quente sobre a pedra clara, refletindo nos estandartes do reino que balançavam devagar com o vento frio. Guardas se alinharam em formação rígida, o som metálico das lanças tocando o chão ecoando pelo espaço amplo.
A comitiva de Karsevia atravessou o portão com solenidade contida.
Radovan veio à frente.
Alto, postura firme, o mesmo olhar duro que Nicholas conhecia bem demais. Ao seu lado, a rainha de Karsevia caminhava em silêncio absoluto, expressão neutra, o rosto belo e fechado como uma máscara treinada para não revelar nada. Logo atrás, Katarina.
Linda como sempre, mas sem exageros. O vestido escuro caía com elegância simples, os cabelos presos de forma clássica, o olhar atento, baixo o suficiente para ser respeitoso, alto o bastante para não parecer submisso. Havia dignidade em cada passo.
Nicholas os aguardava sozinho.
Vestia a farda de príncipe regente.
Mais sóbria do que a que usava antes, sem excessos, mas com detalhes que marcavam a diferença: o brasão maior ao peito, o corte mais rígido. Não havia dúvida possível sobre quem governava naquele momento.
Quando Radovan parou diante dele, o ar pareceu se contrair.
— Vossa Majestade. — Nicholas disse, com a inclinação exata da cabeça. — Seja bem-vindo a Auren.
A rainha de Karsevia respondeu com um leve aceno. Katarina fez uma reverência impecável.
Radovan não devolveu o gesto.
— O que estou fazendo aqui? — perguntou, direto, a voz baixa e carregada de impaciência. — Se for mais uma conversa banal sobre você não honrar o acordo, eu perdi meu tempo.
O sorriso de Nicholas foi mínimo.
Frio.
— Vossa Alteza Real. — corrigiu, com calma afiada. — Acredito que essa seja a forma adequada de se dirigir ao príncipe regente de Auren.
Houve um silêncio curto, tenso.
Os olhos de Radovan escureceram.
— Perdoe-me. — disse, seco. — Vossa Alteza Real.
Nicholas sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário.
— Não fará essa viagem em vão. — respondeu. — Imagino que queira descansar antes da reunião.
— Não. — Radovan cortou. — Vamos acabar logo com isso. Eu volto no mesmo pé que vim.
Nicholas inclinou levemente a cabeça.
— Pois bem. — disse. — Então conversaremos no gabinete do meu pai.
Radovan assentiu.
— Então peça que acomodem minha esposa e minha filha. — acrescentou. — E vamos tratar do que interessa.
Nicholas soltou um riso breve.
Quase imperceptível.
— A princesa Katarina participará da conversa. — disse.
O efeito foi imediato.
— Não. — Radovan respondeu, duro. — Minha filha não precisa ouvir negociações. O dever dela é obedecer.
Katarina manteve o olhar à frente, mas algo em sua postura se retesou.
Nicholas inclinou a cabeça de lado, divertido de um jeito perigoso.
— Não é assim que funciona no meu castelo, Vossa Majestade.
Deu um passo à frente.
— Ela não é mais apenas sua filha. — continuou. — É minha futura esposa.
— Enquanto não houver casamento... — Radovan começou.
— E enquanto eu for o príncipe regente de Auren — Nicholas interrompeu, a voz firme, sem elevar o tom — nenhuma decisão que envolva o meu casamento será tomada sem mim.
Fez uma pausa curta.
— E sem ela.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Radovan encarou Nicholas como quem mede um adversário novo.
Não disse nada.
Nicholas se virou levemente para um dos criados que aguardavam à distância.
— Peça que tragam meu pai. — ordenou. — Ele participará da reunião.
Depois, voltou-se para a rainha de Karsevia, agora com a formalidade intacta.
— Vossa Majestade será conduzida aos seus aposentos para descansar. — disse. — A viagem foi longa.
Radovan não contestou.
A rainha apenas assentiu, seguindo o criado que se aproximou para guiá-la.
Katarina permaneceu onde estava.
Pela primeira vez, não porque o pai mandara.
Mas porque Nicholas exigira.
O gabinete estava silencioso quando entraram.
Nicholas foi o primeiro a atravessar o espaço amplo e seguir até atrás da mesa de trabalho do pai. Não se sentou. Permaneceu de pé, as mãos apoiadas no tampo por um instante antes de cruzar os braços, observando enquanto Radovan avançava com passos firmes.
Katarina entrou logo atrás do pai.
Discreta, elegante, o vestido escuro simples demais para quem carregava tanto peso sobre os ombros. Quando os olhos dela encontraram os de Nicholas, houve um breve instante de algo quase íntimo.
Ele se voltou para ela primeiro.
— A viagem foi tranquila? — perguntou, num tom surpreendentemente leve.
Katarina sorriu, contido.
— Foi agradável. — respondeu. — Confesso que... senti falta de Auren.
Nicholas inclinou levemente a cabeça.
— Que bom. — disse. — Afinal, você não vai mais sair daqui.
O sorriso dela se alargou um pouco, sincero.
Por um segundo, acreditou que talvez tudo pudesse ficar bem.
A porta se abriu novamente.
Edmund entrou devagar, amparado por Eleanor. O corpo ainda denunciava o esforço, mas a postura permanecia digna. Nicholas foi até ele de imediato, segurando-o com cuidado e ajudando-o a se sentar na poltrona posicionada ao lado da mesa.
— Vossa Majestade. — Edmund cumprimentou, com voz firme o suficiente para enganar quem não o conhecia bem.
Radovan o observou com um meio sorriso ácido.
— Não parece muito bem, rei Edmund.
Por um instante, o olhar de Edmund pousou em Nicholas.
Um pedido silencioso: controle-se.
Nicholas não disse nada.
— Estou ótimo. — Edmund respondeu. — Em poucos dias, estarei novo em folha.
— Ainda bem que não foi mais grave, então. — Radovan comentou, seco.
Nicholas respirou fundo, visivelmente.
— Pois é. — Edmund respondeu. — Ainda bem.
O silêncio que se seguiu foi espesso.
Radovan quebrou-o.
— E então? — perguntou. — Vamos ficar aqui olhando um para a cara do outro ou vamos falar do que interessa?
Nicholas bufou baixo e se escorou na mesa, braços cruzados, postura fechada.
— O casamento está marcado para amanhã, às dez da manhã.
Katarina sobressaltou-se.
— Amanhã? — escapou, antes que pudesse se conter.
Radovan, ao contrário, sorriu.
Nicholas continuou, o olhar fixo no rei de Karsevia.
— Eu me caso com a sua filha, Vossa Majestade. — disse. — Exatamente como o senhor previu que aconteceria.
— Ótimo. — Radovan respondeu, satisfeito. — Não é sempre melhor quando as coisas acabam bem?
Nicholas riu.
Um riso curto.
Venenoso.
Completamente fora do esperado.
— No entanto... — continuou — devo avisar a todos que não haverá continuação da linhagem.
O ar da sala mudou.
— Como assim? — Radovan perguntou, a testa franzindo.
— Exatamente como o senhor entendeu. — Nicholas respondeu. — Auren e Karsevia não terão herdeiros desse casamento.
O choque foi imediato.
Edmund se levantou bruscamente, ignorando o protesto silencioso de Eleanor.
— Você enlouqueceu, meu filho?
— Não. — Nicholas respondeu, tranquilo.
— Enlouqueceu sim. — Radovan rebateu, a voz subindo. — O acordo prevê herdeiros. Você não pode fazer isso!
Nicholas inclinou a cabeça, divertido.
— E quem vai estar dentro do meu quarto para garantir que eu não esteja tentando? — perguntou. — Pode ser um problema biológico. Quem vai saber?
Radovan perdeu a compostura.
A mão bateu com força na mesa.
— Você está brincando com fogo, Alteza.
Nicholas deu um passo à frente.
— Chega de falar em código. — disse, firme. — Diga com todas as letras. O que o senhor quer dizer?
O silêncio foi cortante.
— Vai me ameaçar de vez? — continuou. — Vai mandar outro suicida puxar o gatilho? Ou prefere algo mais discreto como uma faca?
— Nicholas! — Edmund exclamou, alarmado.
Nicholas riu, confiante demais.
— O quê? — perguntou. — Eu aceitei o acordo. Vai ter casamento. Vocês deviam estar felizes.
Abriu os braços.
— Vamos ser sinceros. O casamento é amanhã. Seremos todos uma grande família. Não acha que já chega de ameaças?
O olhar dele voltou-se para Radovan.
— A partir de agora, Vossa Majestade faria bem em me tratar com muito cuidado. — disse. — Afinal... a continuidade do seu legado vai depender exclusivamente da minha boa vontade.
— Nicholas... — Edmund tentou intervir de novo.
Nicholas ergueu a mão.
— Com todo respeito, meu pai... — disse, sem sequer olhar para ele — eu o chamei aqui apenas para ouvir. Eu falo por mim.
Radovan respirava pesado agora.
— Você se acha muito inteligente. — disse. — Mas é apenas imprudente.
— Olha só. — Nicholas respondeu, entediado. — Mais ameaças. Pode fazê-las, Rei Radovan, diga com todas as letras.
— Se não houver herdeiro — Radovan disse, a voz carregada de ameaça — eu tomarei Auren à força. Como quase fiz no passado. Fui misericordioso uma vez, não serei uma segunda.
Edmund empalideceu.
Nicholas cruzou os braços.
Sem medo algum.
— Ah, vai? — perguntou, com calma perigosa. — Vai invadir mesmo?
Radovan estreitou os olhos.
— Você não me conhece.
Nicholas tirou o celular do bolso.
— Então ordene. — disse, estendendo o aparelho. — Vamos lá. Ordene agora, Vossa Majestade. Precisa usar o telefone?
— Nicholas! — Edmund tentou intervir.
Os dois o ignoraram.
— O senhor não vai fazer isso. — Nicholas continuou. — Eu sei que Karsevia não tem mais o poder de fogo que tinha há vinte anos.
Deu de ombros.
— Enquanto Auren só cresceu, Karsevia continuou exatamente igual. Falta visão de futuro do senhor.
Radovan trincou o maxilar.
— Se tem tanta certeza de que venceria... por que aceitou se casar?
Nicholas abaixou o celular.
— Porque, apesar de saber que Auren sairia vitoriosa... — disse, sério agora — vidas seriam perdidas. E eu estou tentando evitar isso.
Fez uma pausa curta.
— Então a escolha é sua, Vossa Majestade. — continuou. — Aceita esse casamento sem herdeiros... ou invade Auren à força.
Inclinou a cabeça levemente.
— Só tenha cuidado para não ser uma das vítimas dessa guerra. — acrescentou. — Ou sua linhagem perderá o trono para sabe-se lá qual primo distante o senhor ainda tenha.
— Nicholas... — Edmund murmurou, prevendo a explosão.
Nicholas ergueu a mão.
— A reunião está encerrada. — declarou. — O casamento é amanhã. Espero que tenham uma boa noite.
Virou-se e saiu do gabinete sem aguardar resposta.
A porta se fechou com um som seco.
Dentro da sala, o silêncio foi absoluto.
Edmund afundou lentamente na poltrona, o rosto pálido.
Radovan permanecia imóvel, furioso.
E Katarina, em silêncio, compreendeu que o homem que ela estava prestes a se casar era uma das poucas pessoas no mundo que não tinha medo do pai dela.