Capítulo 44

1846 Words
No dia seguinte... O café da manhã transcorria com uma normalidade quase enganosa. A mesa longa estava posta com cuidado: porcelanas claras, frutas cortadas, pães ainda quentes, chá fumegante. A luz da manhã atravessava os vitrais altos, projetando tons suaves sobre o salão. Era um raro momento de leveza. Matthias comentava algo trivial sobre um ministro excessivamente prolixo do dia anterior. Eleanor ria baixo, balançando a cabeça. Katarina ouvia com atenção educada, corrigindo um detalhe histórico com delicadeza. Edmund lia parte de um relatório enquanto escutava, intervindo apenas quando achava necessário. Nicholas estava presente, inteiro o suficiente para parecer normal. Tenso o suficiente para não estar. Ele tomava café em silêncio, os pensamentos ainda presos à noite do baile, à discussão, às palavras de Sophie ecoando como um aviso que ele não soubera ouvir a tempo. Foi então que a porta se abriu. Não de forma abrupta. Mas com solenidade demais para ser ignorada. Alistair entrou no salão. O secretário real raramente interrompia uma refeição daquele tipo sem motivo sério. Caminhou até uma distância respeitosa da mesa e fez uma reverência curta. — Majestade. — disse, dirigindo-se a Edmund. — Peço perdão pela interrupção. O tom dele já bastou para que todos à mesa endireitassem a postura. — Pois não, Alistair. — Edmund respondeu, calmo. Houve uma breve pausa. Calculada. Então Alistair anunciou: — Sua Majestade, o Rei Radovan III de Karsevia. O silêncio que se seguiu não foi imediato. Foi denso. Como se o ar tivesse sido retirado do salão. Katarina foi a primeira a reagir. O rosto perdeu o pouco de suavidade que mantinha. Os ombros se enrijeceram. Ainda assim, ela se levantou com perfeição impecável e fez uma reverência completa, profunda, absolutamente correta. Matthias levantou-se em seguida, o corpo rígido como pedra. A reverência foi mínima, quase simbólica, o máximo de respeito que ele conseguia oferecer sem trair tudo o que sentia. O maxilar estava travado. Os olhos, frios. Nicholas permaneceu sentado por meio segundo a mais do que o protocolo permitiria. Quando se levantou, fez apenas uma inclinação breve de cabeça. Respeitosa. Contida. Nada além disso. Eleanor levantou-se com elegância absoluta, acompanhando o gesto do filho. Edmund fez o mesmo. Radovan era um homem alto, de postura imponente, vestes escuras e luxuosas sem ostentação gratuita. Cada detalhe parecia escolhido para comunicar poder. O rosto era severo, os olhos atentos demais, calculistas demais. Não sorria. Nunca sorria. Havia algo nele que lembrava lâmina: polido, frio, feito para ferir quando necessário. Nicholas sentiu o estômago retesar. Radovan percorreu o olhar pela mesa. Demorou-se em Katarina por um segundo a mais do que o necessário. Não havia carinho ali. Nem saudade. Apenas avaliação. Como quem verifica uma peça guardada por muito tempo. — Filha. — disse, por fim. Katarina sustentou o olhar sem piscar. — Majestade. — respondeu. Nada mais. Radovan voltou-se então para Nicholas. Os olhos se encontraram. Foi ali que a tensão verdadeira se instalou. Dois homens. Dois futuros opostos. Uma guerra silenciosa anunciada sem palavras. Edmund pigarreou levemente. — Por favor. — disse. — Junte-se a nós para o café da manhã. Radovan aceitou com um leve aceno. Criados se moveram com rapidez contida. Um lugar foi ajustado à mesa, ao lado da rainha, onde conseguia ver bem Nicholas, posição escolhida com precisão cirúrgica. Radovan sentou-se. Nicholas sentou-se em seguida. O som da xícara pousando no pires pareceu alto demais. Radovan servindo-se do café da manhã com a tranquilidade de quem nunca sentira desconforto em ambientes alheios. Movimentos calculados, postura impecável, olhar atento a tudo, menos às pessoas. O silêncio era denso. Edmund permanecia ereto na cabeceira, o rosto fechado em uma neutralidade treinada. Eleanor mantinha a compostura, mas havia tensão nos ombros, um cuidado excessivo nos gestos. Katarina estava sentada alguns lugares abaixo do pai, as mãos cruzadas no colo, a expressão contida demais para ser apenas educação. Nicholas observava tudo em silêncio. Radovan levou a xícara aos lábios, tomou um gole curto e então pousou o olhar sobre a mesa, como se estivesse avaliando uma disposição militar. Eleanor foi quem tentou aliviar o peso. — A viagem foi tranquila? — perguntou, num tom gentil demais para aquele homem. — Imagino que tenha sido longa. Radovan inclinou a cabeça em um gesto mínimo. — Sem incidentes. — respondeu. Ninguém comentou. Os talheres começaram a se mover, mas ninguém parecia realmente comendo. O som era mecânico, quase forçado. Depois de alguns segundos, Eleanor respirou fundo e arriscou mais. — E a rainha? — perguntou, com cuidado. — Espero que esteja bem. O olhar de Radovan ergueu-se lentamente. Houve um instante breve em que todos aguardaram a resposta. — A rainha não sai mais de Karsevia. — disse, simplesmente. Nenhuma explicação. Nenhum detalhe. Nenhum acréscimo. A frase caiu sobre a mesa como algo que não deveria ser questionado. E não foi. Nicholas sentiu o impulso imediato de olhar para Katarina. Ela não reagiu. Não de forma visível. O rosto permaneceu sereno, educado, exatamente como se esperava de uma princesa. Mas ele percebeu o mínimo: o aperto quase imperceptível dos dedos um contra o outro, o modo como ela manteve os olhos baixos por um segundo a mais do que o necessário. Pensou na mulher que Katarina chamava de mãe. Pensou no que significava não sair mais. Pensou no tipo de casa que aquele homem governava. Nicholas não disse nada. Não perguntou. Não comentou. Não reagiu. E percebeu, com um peso estranho no peito, que Katarina também não. Ela não o chamara de pai. Não perguntara por ela. Não demonstrara surpresa. Era como se já soubesse. Ou como se tivesse aprendido, cedo demais, que certas perguntas só traziam punições. Radovan voltou-se então para Edmund, como se aquela conversa paralela tivesse sido apenas um detalhe irrelevante. — Imagino que tenha achado minha chegada... precipitada. — disse, num tom calmo demais. Edmund assentiu levemente. — Confesso que não o esperávamos antes do previsto. — respondeu. — Mas é uma honra recebê-lo. Radovan sorriu de canto. — Sua mensagem despertou meu interesse. — disse. — Conversar sobre um acordo dessa magnitude costuma exigir... atenção imediata. Nicholas sentiu o maxilar endurecer. O café da manhã seguiu. Comentaram banalidades. O clima do reino. Uma obra em andamento. Uma recepção que ocorreria nos próximos dias. Nada importante. Nada verdadeiro. Mas por baixo das palavras educadas, havia algo pulsando, prestes a explodir. ** O castelo entrou em estado de vigília silenciosa assim que Radovan se recolheu aos aposentos reservados a ele. Não houve alarde oficial. Nenhum anúncio além do estritamente necessário. Mas quem vivia ali sabia reconhecer os sinais: guardas reposicionados, passos mais firmes nos corredores, portas se fechando com cuidado excessivo. Auren estava em alerta. Radovan descansava da viagem. E, enquanto isso, ninguém mais descansava. Nicholas passou a manhã inteira inquieto. Não conseguiu permanecer no mesmo cômodo por muito tempo. Andava de um lado para o outro do quarto, parava diante das janelas, fechava as cortinas, abria de novo. Vestiu-se duas vezes e tirou a camisa logo em seguida, incapaz de decidir se queria parecer príncipe... ou apenas homem. O café da manhã ainda ecoava na cabeça. A presença de Radovan. O olhar frio. A forma como Katarina se fechara em silêncio. Aquilo não podia ficar só dentro dele. Sem pensar demais, talvez justamente para não desistir, Nicholas saiu do quarto e seguiu pelos corredores até os aposentos de Sophie. Bateu uma vez. Entrou antes mesmo de ouvir resposta. Ela estava sentada perto da janela, envolta em um xale grosso, um livro esquecido aberto no colo. Erguer o olhar e vê-lo ali foi imediato. E suficiente. — Ele chegou. — Nicholas disse, sem rodeios. Sophie fechou o livro devagar. Levantou-se. — Eu imaginei. — respondeu, com cuidado. — Pela movimentação. Ele assentiu, passando a mão pelos cabelos num gesto nervoso demais para disfarçar. — Antecipou a viagem. — continuou. — Dois dias antes. Pegou todo mundo de surpresa. Ela se aproximou sem dizer nada e o abraçou primeiro. Um abraço firme, inteiro, desses que não pedem explicação. Nicholas afundou o rosto no ombro dela por um segundo mais longo do que pretendia. — Vai ter uma reunião hoje. — ele disse, a voz abafada. — Sobre o acordo. Sophie fechou os olhos. Apertou-o um pouco mais. — Eu tenho medo disso. — murmurou. — Eu precisava te contar. — ele completou. — Antes que aconteça. Ela se afastou só o suficiente para olhá-lo. Levou as mãos ao rosto dele. — Obrigada por vir. — disse. — Seja o que for que aconteça... eu prefiro saber. Ele assentiu, respirando fundo, como se aquele abraço tivesse sido o último ponto de equilíbrio antes de algo ruir. Ficaram ali alguns minutos. Em silêncio. O tipo de silêncio que fala demais. Foi então que uma batida suave soou à porta. Sophie se virou. Nicholas também. Katarina entrou com passos tranquilos, usando um vestido simples, apropriado para o frio que ainda dominava Auren. O cabelo estava preso de forma contida. O rosto, sereno demais para quem tinha o próprio destino sendo discutido sem sua presença. — Espero não estar interrompendo. — disse, com um meio sorriso. — Não. — Sophie respondeu de imediato. — Entra. Katarina olhou de Sophie para Nicholas por um instante, compreendendo mais do que qualquer palavra poderia dizer. — Eu vim te chamar para dar uma volta. — disse a Sophie. — Antes que o castelo fique ainda mais... pesado. Sophie assentiu quase no mesmo instante. Mas Nicholas franziu a testa. — Você não vai para a reunião? — perguntou, sem esconder a incredulidade. Katarina soltou uma risadinha curta. Sem humor. — Nicholas... — disse — você realmente não conhece meu pai, conhece? Ele ficou em silêncio. — Ele jamais permitiria uma mulher numa reunião dessas. — continuou, com naturalidade amarga. — Eu colocar o pé perto daquela porta só serviria para irritá-lo. Nicholas bufou, irritado. — Isso é ridículo. — disse. — É a sua vida também, Katarina. Ela sustentou o olhar dele, firme, mas cansada. — Eu sei. — respondeu. — Mas quando o assunto é meu pai... não há muito o que fazer. Houve um silêncio breve. Sophie observava os dois, sentindo o peso daquela frase mais do que qualquer discurso. — Vamos? — Katarina perguntou, voltando-se para ela, num tom mais leve do que se sentia. — Antes que eu me arrependa de ter saído do quarto. Sophie assentiu. Mas antes de sair, olhou para Nicholas. Não disse nada. Não precisava. Ele apenas a puxou para perto por um segundo rápido demais para ser notado por qualquer um que não estivesse atento demais e soltou. — Eu vou estar lá. — disse a Katarina, baixo. — E não vou ficar calado. Ela inclinou a cabeça. — Eu sei. — respondeu. — E é exatamente isso que me preocupa. As duas saíram juntas. Nicholas ficou sozinho no quarto de Sophie por alguns segundos depois que a porta se fechou. O castelo parecia ainda mais silencioso agora. A reunião se aproximava. E Nicholas teve certeza absoluta de uma coisa: Nada sairia daquela sala do mesmo jeito que entrou.
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