Sophie voltou à mesa real ao lado de Matthias.
O sorriso social ainda estava ali, colado ao rosto, mas se desfez no instante em que seus olhos encontraram os de Nicholas.
Ele já a encarava.
Não havia raiva explícita ali, havia algo pior: tensão pura, densa, silenciosa. Os dois sabiam. Sabiam que não podiam discutir. Sabiam que não podiam fazer uma cena. Sabiam que havia muito a ser dito... e nenhum espaço para dizer.
Edmund, Eleanor, Katarina e Matthias perceberam no mesmo segundo.
Algo tinha mudado.
Sophie foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Você não devia ter mandado o seu primo me buscar. — disse, em voz baixa, firme o suficiente para que só os ali presentes ouvissem.
Nicholas respondeu sem hesitar, igualmente baixo:
— E você não devia ter aceitado ir para o outro lado do salão com ele.
O olhar dela se estreitou.
— Foi uma conversa agradável. — rebateu. — O que você queria, Nicholas? Que eu dissesse "não posso, conde, sou namorada do príncipe herdeiro que ainda é oficialmente comprometido"?
O impacto veio imediato.
Nicholas fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, como quem percebe que já passou do limite e mesmo assim não consegue parar.
— Você não poderia dizer isso. — murmurou. — Mas você podia ter dito não.
Sophie soltou uma risada curta, sem humor algum.
— Por quê? — perguntou. — Eu não vi nenhum motivo para isso.
Foi então que ele mudou.
O tom.
A postura.
O Nicholas que falava agora não era o homem que dançara com ela minutos antes. Era o príncipe herdeiro. A voz saiu mais baixa, mais controlada e, justamente por isso, opressiva.
— Porque eu estou dizendo que devia ter dito que não. — disse. — E pronto.
O silêncio caiu pesado.
Katarina percebeu na hora.
Era o mesmo tom.
O mesmo.
Do café da manhã.
Mas Sophie não era Katarina.
Ela não abaixou a cabeça.
Não desviou o olhar.
Não se calou.
Manteve o rosto erguido e respondeu, cada palavra escolhida com precisão:
— Diferente do que estou parecendo hoje, Nicholas... eu não sou uma princesa.
Ele a encarou, imóvel.
— Eu sou só uma brasileira. — ela continuou. — Criada com muito esforço por uma mãe solteira que, antes de falecer, me ensinou a não abaixar a cabeça pra homem nenhum.
A voz não tremeu.
— Sinto muito. — concluiu. — Mas não vai adiantar usar esse tom comigo.
O silêncio agora era absoluto.
Sophie então se virou, não para Nicholas, mas para o rei.
— Majestade... — disse, com respeito — eu poderia me retirar, por favor?
Edmund a observou por alguns segundos longos.
Havia ali mais do que educação. Havia dignidade.
— Claro, minha querida. — respondeu, gentil. — Vá descansar.
Sophie virou-se então para Eleanor, o rosto suavizando um pouco.
— Obrigada pelo vestido. — disse, sincera. — E por permitirem que eu estivesse aqui esta noite.
A rainha sorriu, com algo muito próximo de orgulho nos olhos.
— Foi um prazer, Sophie.
Ela assentiu, fez uma reverência discreta a todos, inclusive a Katarina, que a observava em silêncio respeitoso, e se afastou.
Nicholas permaneceu parado por alguns segundos depois que Sophie se afastou.
O salão continuava vivo ao redor: música, risos, taças se tocando, conversas paralelas. Mas para ele, tudo parecia abafado, distante, como se estivesse observando a cena através de vidro grosso.
Ainda sentia o impacto das palavras dela.
Não vai adiantar usar esse tom comigo.
Matthias foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Eu avisei. — comentou, cruzando os braços. — Disse que ela ficaria furiosa se eu fosse lá tirá-la da conversa.
Nicholas não desviou o olhar do ponto onde Sophie havia desaparecido.
— Ela pode até estar furiosa comigo. — respondeu, baixo. — Mas agora está no quarto dela. Sã e salva de homens com más intenções.
O rei soltou uma risada breve, quase indulgente.
— Más intenções? — Edmund perguntou. — Nicholas, o conde von Arkenwald está procurando uma esposa.
Nicholas virou-se lentamente.
— O quê?
Edmund manteve o tom tranquilo, como quem fala de algo perfeitamente banal.
— Desde que o pai dele morreu e ele herdou o condado, anda à procura de uma esposa para constituir família. — explicou. — Afinal... ele também precisa de herdeiros, não é mesmo?
O olhar de Nicholas se fechou na mesma hora, como se o pai tivesse acabado de dizer a maior atrocidade possível dentro daquele salão.
— Pai... — disse, tenso. — Eu não quero ouvir esse tipo de coisa.
Mas Edmund não recuou.
— Se o acordo com Radovan não for desfeito, Nicholas — continuou, sério agora — o que você espera?
Fez uma pausa breve, calculada.
— Que a Sophie viva a vida inteira sozinha e infeliz?
Nicholas engoliu em seco.
— Ela vai precisar se casar. — Edmund completou. — Vai precisar seguir em frente. Esquecer você.
O impacto foi imediato.
Nicholas virou o rosto para Katarina sem perceber, como se o simples ato de imaginar um casamento fosse doloroso demais. A ideia de estar preso àquele destino lhe apertou o peito.
— Se isso não der certo... — disse, por fim, desviando o olhar — ela não vai ficar aqui na corte.
A voz saiu mais firme.
— Ela vai voltar para casa. — completou. — Ela mesma já disse isso.
Matthias inclinou a cabeça, pensativo demais para ser inocente.
— Bom... — comentou — não se ela encontrar um conde interessado.
Nicholas virou-se para ele imediatamente, o olhar duro.
— Qual é, Matthias... — advertiu.
Mas o primo não se intimidou.
— O que foi? — continuou, dando de ombros. — Ela teria uma vida confortável aqui como uma condessa.
O silêncio caiu pesado.
Nicholas fechou os olhos por um segundo, respirou fundo, como se estivesse segurando algo prestes a transbordar.
— Chega. — disse, enfim. — Vamos encerrar esse assunto.
Abriu os olhos, cansado.
— Eu não aguento mais.
E, após um breve instante, completou, quase com amargura:
— Aliás... eu já não suporto mais um segundo desse baile.
Eleanor inclinou-se um pouco na direção dele.
— Ainda temos algumas horas pela frente. — lembrou, gentil.
Nicholas abriu um meio sorriso torto.
— Pois então... — respondeu — vou gastá-las conversando com o lorde Heinrich.
Fez uma pausa curta, irônica.
— Falando sobre drenagem de solo.
Antes que alguém pudesse responder, ele se afastou, atravessando o salão com passos firmes demais para alguém que estava inteiro.
Ficou para trás a música.
Ficaram as luzes.
Ficaram as conversas.
Mas o peso que ele carregava no peito foi junto.
Porque, pela primeira vez naquela noite, Nicholas não estava tentando proteger Sophie do mundo.
Estava tentando proteger a si mesmo da ideia de perdê-la.
**
A manhã avançava fria e silenciosa nos arredores do castelo.
Nicholas já havia passado pelo café da manhã sem realmente estar presente. Respondeu o que era esperado, sentou-se à mesa o tempo necessário e saiu assim que pôde, antes que alguém resolvesse puxar conversa demais.
Ainda não tinha falado com Sophie.
Nem pessoalmente, nem por mensagem.
Não era falta de vontade. Era medo.
Medo de dizer algo errado outra vez.
Vestido de forma simples demais para um príncipe herdeiro, calça escura, botas gastas, um casaco pesado jogado por cima, ele atravessou o pátio externo e seguiu até os estábulos.
O cheiro de feno, couro e terra úmida o atingiu como um alívio imediato.
Lá estava ele.
No mesmo lugar de sempre.
O cavalo ergueu a cabeça ao reconhecê-lo, bufando baixo, como se reclamasse do atraso. O pelo já não era tão brilhante quanto antes, as articulações mais rígidas, mas ainda havia força ali. Presença. História.
— Eu sei... — Nicholas murmurou, aproximando-se. — Eu também estou cansado.
Passou a mão pelo pescoço do animal, que aceitou o carinho com tranquilidade absoluta.
— Você teve sorte. — continuou, em voz baixa. — Nunca teve que carregar nada além do próprio corpo.
O cavalo apenas mastigava, indiferente às crises humanas.
— Eu nasci com um peso que não escolhi. — disse ele, encostando a testa no focinho quente. — Um nome, um título, um futuro inteiro decidido antes mesmo de eu aprender a falar direito.
Suspirou.
— E agora tem ela. — acrescentou. — E eu só queria... largar tudo isso. Sumir daqui. Ir embora com ela e fingir que esse lugar nunca existiu.
O silêncio respondeu como sempre: sem julgar.
— Confesso que ver você falando com um animal faz até eu lembrar do meu chefe.
A voz atrás dele o fez erguer a cabeça na hora.
Nicholas virou-se, surpreso.
— Sophie...
Ela estava ali, parada a alguns passos de distância. Usava um vestido simples, mas adequado ao frio, um casaco fechado até o pescoço e as mãos cruzadas à frente do corpo, como se também não soubesse muito bem por onde começar.
— É mais fácil falar com eles. — ele disse, sincero. — Eles não respondem. Não se magoam. Não exigem nada.
Sophie se aproximou devagar, respeitando o espaço.
— Ele é lindo. — comentou.
Nicholas passou a mão pelo pescoço do cavalo de novo.
— Esse é o... — fez uma pausa curta, quase constrangida — Bolinha.
Sophie piscou.
— Bolinha?
Ele sorriu de canto.
— Eu tinha quatro anos quando ganhei ele.
Ela arregalou os olhos.
— Com quatro anos? — questionou. — Nicholas, você devia ter ganhado um pônei.
Ele riu, baixo.
— Não. — respondeu. — Eu tive que aprender muita coisa desde cedo. Já te disse isso. Montar foi só uma delas.
Sophie observou o cavalo com atenção renovada.
— Mesmo assim... — disse — é uma história bonita.
Nicholas negou com a cabeça.
— Eu não diria isso. — suspirou. — Mas foi aqui que eu me escondi muitas vezes. Passei horas da minha adolescência nesse estábulo. Fugindo dos compromissos. Ficando onde ninguém me chamava de alteza.
Fez uma pausa.
— Foi aqui que eu decidi o que queria estudar.
Sophie sorriu, com delicadeza.
— Acho ainda bonita.
O silêncio se acomodou entre eles por alguns segundos.
— Eu achei que você estivesse com raiva de mim. — Nicholas confessou, sem olhar para ela. — E que nem ia querer falar comigo hoje.
— Raiva, não. — Sophie respondeu. — Chateada, com certeza.
Ele assentiu.
— Eu passei do ponto ontem.
— Passou. — ela concordou, sem dureza.
Nicholas respirou fundo.
— Imaginar aquele i****a cantando você... — começou.
— Nicholas. — ela interrompeu. — O conde não é i****a.
Ele desviou o olhar.
— Ele é simpático. — ela continuou. — Tem um papo legal.
— Isso não ajuda em nada. — ele murmurou.
Sophie riu, balançando a cabeça.
— Besteira. — disse. — Eu estou com você.
Ele finalmente a encarou.
— Eu sei que está. — respondeu. — Mas está agora. Enquanto a gente ainda luta para ficar junto.
A voz dele baixou.
— A visita do Radovan está marcada, Sophie. Ele chega ainda essa semana. E depois...
Ela completou, se aproximando mais um pouco:
— ...tudo pode mudar.
Nicholas fechou os olhos por um segundo.
— Eu estou tentando pensar positivo. — disse. — Mas a ideia de te perder... de casar com a Katarina... isso vai me deixar louco.
— Eu sei. — Sophie respondeu, suave. — Mas vai ficar tudo bem.
Ele abriu os olhos, negando com a cabeça.
— Não. — disse. — Nada está bem. Eu quero você. E ver um conde solteiro jogando conversa fora contigo me desestabilizou.
A voz saiu crua.
— Ele fez tudo o que eu queria fazer. Te levar pra tomar algo no meio do salão. Conversar. Rir.
Engoliu em seco.
— E eu não posso.
Sophie se aproximou o suficiente para que ele sentisse o calor dela apesar do frio.
— Vai se ajeitar, Nicholas. — disse. — E eu não vou ficar com conde nenhum.
Ele a olhou, atento.
— Eu não conseguiria viver aqui. — ela continuou. — Vendo você com a Katarina. Eu já te disse isso.
O vento frio atravessou o estábulo, mas nenhum dos dois se moveu.
Ali, entre feno, silêncio e um cavalo velho, não havia príncipe nem plebeia.
Havia apenas duas pessoas tentando entender como amar quando o mundo insiste em separar.