Nicholas permanecia parado ao lado da família desde o instante em que o conde se intrometera e levara Sophie para a pista.
Não conseguia desviar os olhos dos dois.
O corpo inteiro denunciava o esforço de controle: os punhos cerrados ao lado do corpo, o maxilar travado a ponto de doer, a postura rígida demais para alguém que deveria estar relaxado em uma celebração. Ele estava ali. Presente. Impecável. No controle.
Ou quase.
— Ela não podia recusar a dança. — Eleanor disse em tom baixo, atento, como quem tenta conter um incêndio antes que ele comece.
Nicholas virou o rosto para a mãe devagar, os olhos ainda presos à pista.
— Não podia por quê? — perguntou, igualmente baixo, garantindo que ninguém fora da mesa real pudesse ouvir. — Por acaso ela é alguma dama dessa corte que precisa seguir as nossas regras?
E, pela primeira vez desde o início da música, desviou o olhar para encarar Eleanor.
— Quem exatamente ia se importar se ela fosse considerada grosseira por recusar dançar com ele?
Edmund soltou uma risada curta, divertida demais para a tensão do momento.
— Relaxa, meu filho. — disse. — É só uma dança. Não é como se ele fosse muito além disso dentro desse salão.
— O senhor não está ajudando, meu tio. — Matthias comentou, rindo baixo.
Nicholas voltou o olhar para a pista, a mandíbula ainda mais rígida.
— Nada disso é engraçado. — murmurou. — Fora que essa música parece não acabar nunca.
Eleanor suspirou.
— Nicholas. — advertiu, com firmeza suave. — Controle-se melhor. As pessoas não podem perceber que você está com ciúmes da Sophie.
Ele inspirou fundo pelo nariz.
— Sua noiva oficial é a Katarina. — Eleanor completou. — Respira fundo e se controla, meu filho.
Ele respirou.
Uma vez.
Duas.
Tentou desviar o olhar.
Foi inútil.
A música finalmente chegou ao fim.
— Finalmente... — ele murmurou.
Mas a palavra morreu no meio do caminho.
Porque o conde ainda segurava Sophie.
Ainda sorria para ela.
Ainda dizia algo que a fazia rir daquele jeito fácil que Nicholas conhecia bem demais.
E então, depois de mais algumas palavras, Leopold a conduziu para o outro lado do salão.
Não de volta à mesa real.
Para longe.
— É agora que ele infarta. — Matthias comentou, quase impressionado.
Katarina deixou escapar um sorrisinho divertido.
— É só uma limonada, Nicholas.
Ele virou o rosto na mesma hora.
— Antes era só uma dança. — rebateu. — Agora é uma limonada. Daqui a pouco ele está levando a minha namorada para conversar nos jardins.
Edmund riu, balançando a cabeça.
— Santo Deus... como você é ciumento. — comentou. — Não tem nada demais nisso, Nicholas.
Ele não respondeu.
Só olhou de novo.
Sophie ria.
O conde se inclinava levemente para dizer algo ao ouvido dela.
— Chega. — Nicholas disse, de repente. — Eu vou lá.
— De jeito nenhum. — Edmund respondeu de imediato, o tom firme apesar do sorriso. — Você não vai perder o controle em um salão repleto de lordes.
Nicholas respirou fundo outra vez.
Virou-se lentamente para Matthias.
— Então você vai. — disse. — E tira ela de lá.
Matthias arregalou os olhos... e caiu na risada.
— Eu vou fazer isso como, exatamente? — perguntou. — Quer que eu coloque a Sophie no ombro e traga até aqui, primo?
Fez um gesto exagerado.
— Ela está gostando da conversa com o conde.
— Dane-se. — Nicholas respondeu, sem hesitar. — Ele é só um conde. Eu sou o príncipe herdeiro.
O salão pareceu parar por meio segundo.
Então Edmund começou a rir.
De verdade.
— Meu Deus... — disse, divertido. — Essa deve ser a primeira vez na vida que eu vejo você dizer isso com tanto orgulho, meu filho.
A mesa inteira riu.
Menos Nicholas.
— Vai lá. — repetiu, sério. — Chama ela para dançar, Matthias.
Matthias bufou.
— Você está mesmo falando sério?
— Estou. — respondeu, sem piscar.
— Ela vai ficar furiosa contigo.
Nicholas acompanhou com o olhar o momento em que Sophie voltava a rir, a cabeça inclinada para o conde bonito demais para o gosto dele.
— Furiosa... — disse, entre dentes — mas longe desse conde boa-pinta.
Matthias o encarou por um segundo a mais.
Depois suspirou, rendido.
— Você é insuportável. — concluiu.
E, ainda rindo, começou a se afastar em direção à pista, enquanto Nicholas permanecia imóvel, o coração acelerado demais para alguém que insistia em dizer a si mesmo que estava no controle.
**
Matthias aproximou-se com passos tranquilos, o sorriso cortesmente ensaiado no rosto, o tipo de sorriso que anunciava um problema disfarçado de gentileza.
— Com licença. — disse, inclinando levemente a cabeça para o conde. — Creio que agora é a minha vez de dançar com a dama.
Sophie virou-se para ele no mesmo instante, o cenho franzindo quase imperceptivelmente.
Desconfiada.
Ela havia passado boa parte da noite ao lado de Matthias. Conversaram, riram e dividiram comentários irônicos sobre a corte. Em nenhum momento ele demonstrara o menor interesse em dançar com ela. E agora, assim, do nada?
O conde Leopold não hesitou. Endireitou a postura e fez uma reverência respeitosa ao príncipe.
Não havia alternativa possível ali.
— Claro. — respondeu, educado. Depois voltou-se para Sophie, com um sorriso genuíno. — Foi um prazer enorme dançar com você.
Os olhos dele eram atentos, sinceros.
— E conversar também. — acrescentou. — Você é uma companhia... muito interessante. Gostaria de ter mais tempo com você.
Sophie sorriu de volta.
Não havia flerte naquele sorriso. Apenas simpatia e educação.
— Obrigada. — disse. — Eu também gostei da conversa.
Matthias então ofereceu o braço, já conduzindo-a de volta à pista antes que houvesse espaço para qualquer continuação.
Assim que ficaram a uma distância segura de ouvidos curiosos, Sophie inclinou o rosto na direção dele, ainda sorrindo para manter as aparências.
— Foi o Nicholas, não foi?
Matthias soltou uma risada baixa.
— O que você acha?
Ela suspirou.
— Ele estava a ponto de explodir. — Matthias continuou, divertido. — Mais dois minutos e ele atravessava o salão para arrancar a cabeça do conde.
— Ótimo. — Sophie murmurou. — Então você foi lá e acabou com a minha conversa... a troco de nada?
— A troco de nada, não. — Matthias respondeu, guiando-a com naturalidade. — Eu posso até ser um príncipe também, Sophie... mas quem manda é ele. Você sabe.
Ela virou o rosto para encará-lo.
— Eu sei o suficiente para saber que, apesar da hierarquia, vocês não funcionam assim. — rebateu.
Matthias riu.
— Ok. — concedeu. — Mas quando ele me pede para ir tirar a namorada de perto de um possível gavião... eu preciso ajudar.
Sophie revirou os olhos.
— Rolar os olhos diante de um príncipe é falta de educação. — Matthias comentou, fingindo severidade.
— Ser interrompida no meio de uma conversa agradável também é. — ela respondeu, sem perder o passo.
Ele riu de novo.
— Nesse caso, você vai ter que dizer isso ao Nicholas.
Sophie ergueu o queixo.
— Pode ter certeza de que eu vou.
Continuaram dançando.
Apesar da irritação, Sophie se movia com leveza. Os passos vinham seguros, o corpo acompanhava o ritmo sem hesitar. Matthias percebeu antes mesmo que ela.
— Interessante. — comentou. — Você está tão irritada que nem percebeu como está dançando bem.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Não adianta mudar de assunto, Matthias.
— Eu precisava tentar. — ele respondeu, rindo.
A música chegou ao fim, suave como havia começado. Matthias fez uma reverência brincalhona e a conduziu de volta à mesa real com elegância, como se nada fora do comum tivesse acontecido.
Mas Sophie sabia.
E Nicholas também.
Aquela noite seguia linda por fora e perigosamente intensa por dentro.