A campainha tocou de novo.
Insistente. Apavorada. Como se alguém estivesse apertando sem nem respirar entre um toque e outro.
— Meu Deus... — Sophie resmungou, passando a mão pelo rosto enquanto a água escorria pelos ombros. — Calma, pelo amor de Deus!
A água ainda caía quando a campainha soou outra vez.
E outra.
— Já vai! — ela gritou, irritada, desligando o chuveiro às pressas. — Já vai, criatura desesperada!
Pegou a toalha, enrolou-se nela de qualquer jeito e saiu pelo corredor ainda pingando, os cabelos molhados colados no rosto, o chão marcando pequenas poças por onde passava.
— Não precisa derrubar o portão! — reclamou, abrindo a porta.
E travou.
Nicholas estava ali.
Parado. Ofegante. Com a mão ainda suspensa perto da campainha, como se tivesse sido pego no meio do crime.
Ele a encarou em silêncio.
A toalha.
A pele molhada.
O cabelo solto.
Tudo nele parou.
— Nicholas? — ela disse, surpresa. — O que você tá fazendo aqui?
Ele piscou, como se só agora lembrasse de respirar.
— Eu... — sorriu, meio sem jeito — eu sei. m*l tem uma hora que você saiu da casa dos meus pais.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Então?
— Então eu precisava falar com você.
Sophie riu.
— Isso ficou claro pelo jeito que você tocou a campainha.
Abriu o portão e deu passagem.
— Entra antes que os vizinhos achem que alguém tá morrendo.
Nicholas entrou, ainda sem conseguir desviar o olhar direito. Ela fechou o portão e seguiu à frente, caminhando até a sala. Ele foi atrás, em silêncio.
Quando Sophie se virou para encará-lo, percebeu.
— Você tá ofegante, Nick — comentou, divertida. — Parece até que veio correndo. Que desespero é esse?
Ele não respondeu.
Os olhos dele estavam nela.
Na toalha.
Só na toalha.
Nem tentou disfarçar.
Sophie inclinou a cabeça.
— Nicholas.
Ele piscou, desviou o olhar imediatamente, constrangido.
— Coloca... — pigarreou — coloca uma roupa, por favor.
Ela riu.
— Eu teria colocado — provocou — se você não tivesse tocado a campainha como um louco.
— Eu sei — ele riu também, passando a mão pelo rosto. — Mas vai lá. Por favor.
Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo.
— Já volto, Alteza Desesperada.
Quando voltou, estava de shortinho jeans e regata, o cabelo ainda molhado, secando com a toalha.
— E então? — perguntou. — Como posso ajudar agora, Alteza?
Nicholas analisou a cena por um segundo longo demais.
— Não sei se essa roupa é melhor do que a toalha — comentou.
Sophie riu alto.
— Doutor... você não era assim, não.
— Não era — ele concordou, rindo junto. — Eu não sei o que tá acontecendo comigo.
Ela parou de secar o cabelo e o olhou com um sorriso mais calmo.
— Eu entendo — disse. — Porque eu sinto o mesmo.
O sorriso dele diminuiu, ficando mais sério.
— É estranho — ela continuou. — Parece que tudo mudou do nada. Muito rápido.
— Mudou — ele concordou. — Rápido demais.
O silêncio se instalou por um instante.
— Mas então — Sophie quebrou o clima — você veio aqui desse jeito... por quê?
Nicholas suspirou fundo.
— Nós vamos voltar para Auren.
Ela assentiu devagar.
— Eu sei.
Ele a encarou, como se estivesse reunindo coragem.
— E eu... — respirou fundo outra vez — eu queria saber se você não quer... ir comigo.
Sophie arregalou os olhos.
— Eu? — apontou para si mesma. — Em Auren?
Ela riu, incrédula.
— Nicholas... isso é brincadeira, né?
O silêncio que se seguiu foi a resposta mais honesta que ele poderia dar.
— Não é brincadeira — Nicholas disse, sério. — Vamos para Auren.
Sophie riu, balançando a cabeça.
— Só pode ser. Eu não combino com Auren, Nicholas.
— Você não conhece — ele rebateu. — Não tem como saber.
— Eu não preciso ir até lá pra saber — ela respondeu, apontando para si mesma. — Um lugar onde se usa vestido longo e se curva pra todo mundo? Fala sério. O que eu vou fazer lá? Eu nem tenho roupa pra isso.
Nicholas bufou.
— Isso é o de menos.
— Não é — ela insistiu. — Essas são minhas roupas, Nick. — indicou o short e a regata. — Eu vou poder andar assim? Onde eu ficaria?
— No castelo, ué — ele respondeu, como se fosse óbvio.
Ela o encarou.
— No castelo? Com as minhas roupas?
Ele riu.
— Você pode parar de pensar em roupas? Esquece esse detalhe.
— Tá — Sophie respirou fundo. — Então vou reformular. No castelo... com você e a Katarina?
— A Katarina tá com os dias contados lá — ele disse. — Eu já te falei isso.
— Não — ela respondeu, firme. — Seu pai vai tentar conversar com o pai dela. Não é certo. — deu um passo à frente. — Eu vou chegar lá como o quê? Vou ser apresentada como quem? Isso não faz sentido, Nick.
Ele abriu a boca, mas ela continuou:
— A gente criou essa farsa hoje pra convencer seu pai de que a gente se ama. E eu acho que funcionou. Mas foi só isso, não foi? Uma farsa?
Nicholas passou a mão pelo cabelo, perdido.
— Eu não sei — admitiu. — Eu tô confuso. Isso tudo é uma loucura, Sophie. Ontem você era a minha secretária simpática. Hoje eu penso em você e me vem à cabeça o gosto do seu beijo. — respirou fundo. — Eu penso em voltar para Auren e odeio ainda mais a ideia do que odiava antes. Porque eu não quero ficar longe de você.
Ela sorriu, triste e doce ao mesmo tempo.
— Eu também não quero ficar longe de você. Vou sentir falta. Mas eu não posso ir. — fez uma careta. — Nicholas, eu não sei nem falar o idioma de vocês. Eu nem sei qual é o idioma de vocês.
Ele riu, apesar de tudo.
— Isso é detalhe. Quase todo mundo na corte fala português. Você conversou com meus pais de boa, não foi? — deu de ombros. — Além do idioma natal, todo mundo fala português, francês, inglês e espanhol.
Ela arregalou os olhos.
— Você fala cinco idiomas?
— Tenho que falar — ele respondeu, rindo. — Sou o príncipe herdeiro. Preciso me comunicar em qualquer lugar. Fui preparado pra isso a vida toda. — inclinou a cabeça. — E a maioria da corte também.
— Meu Deus...
— O povo não tem essa educação, claro — ele continuou. — Mas você aprende rápido. E se não aprender, eu arrumo um tradutor. Ou um professor. O que você quiser.
Ela riu, desacreditada.
— Você ficou louco mesmo.
— Fiquei — ele concordou. — A ideia de ir e ficar longe de você me deixa louco.
Sophie respirou fundo.
— E como eu vou ser apresentada, Nicholas? Eu chego lá como o quê?
— Como amiga — ele respondeu. — Enquanto o noivado não for desfeito, não posso te apresentar como namorada. Mesmo meus pais sabendo. — fez uma pausa. — Mas vai ser desfeito.
Ela o encarou, os olhos mais baixos agora.
— E se não for? — perguntou, com a voz calma demais. — E se eu for pra lá atrás de você... me apaixonar de verdade... e não for desfeito? — engoliu em seco. — Eu vou ter que assistir você se casar com outra mulher. Você pensou nisso?
Nicholas fechou os olhos por um segundo.
— Vai ser desfeito — disse. — Confia em mim. Por favor.
Abriu os olhos de novo, sincero.
— E você não é obrigada a ficar. Vai conhecer. Se não gostar, a gente te dá uma passagem de volta na mesma hora. — tentou sorrir. — Existem aeroportos em Auren, acredita?
Ela riu, ainda incrédula.
— Eu não acredito que você tá mesmo dizendo isso pra mim, Nicholas.
Ele deu um passo à frente, cuidadoso.
— Por favor.
O silêncio que se seguiu era pesado. Não era medo. Era possibilidade.
Sophie respirou fundo, olhando para ele como se estivesse vendo um caminho que nunca tinha imaginado e que, ainda assim, chamava seu nome.