Capítulo 15

1373 Words
A campainha tocou de novo. Insistente. Apavorada. Como se alguém estivesse apertando sem nem respirar entre um toque e outro. — Meu Deus... — Sophie resmungou, passando a mão pelo rosto enquanto a água escorria pelos ombros. — Calma, pelo amor de Deus! A água ainda caía quando a campainha soou outra vez. E outra. — Já vai! — ela gritou, irritada, desligando o chuveiro às pressas. — Já vai, criatura desesperada! Pegou a toalha, enrolou-se nela de qualquer jeito e saiu pelo corredor ainda pingando, os cabelos molhados colados no rosto, o chão marcando pequenas poças por onde passava. — Não precisa derrubar o portão! — reclamou, abrindo a porta. E travou. Nicholas estava ali. Parado. Ofegante. Com a mão ainda suspensa perto da campainha, como se tivesse sido pego no meio do crime. Ele a encarou em silêncio. A toalha. A pele molhada. O cabelo solto. Tudo nele parou. — Nicholas? — ela disse, surpresa. — O que você tá fazendo aqui? Ele piscou, como se só agora lembrasse de respirar. — Eu... — sorriu, meio sem jeito — eu sei. m*l tem uma hora que você saiu da casa dos meus pais. Ela arqueou a sobrancelha. — Então? — Então eu precisava falar com você. Sophie riu. — Isso ficou claro pelo jeito que você tocou a campainha. Abriu o portão e deu passagem. — Entra antes que os vizinhos achem que alguém tá morrendo. Nicholas entrou, ainda sem conseguir desviar o olhar direito. Ela fechou o portão e seguiu à frente, caminhando até a sala. Ele foi atrás, em silêncio. Quando Sophie se virou para encará-lo, percebeu. — Você tá ofegante, Nick — comentou, divertida. — Parece até que veio correndo. Que desespero é esse? Ele não respondeu. Os olhos dele estavam nela. Na toalha. Só na toalha. Nem tentou disfarçar. Sophie inclinou a cabeça. — Nicholas. Ele piscou, desviou o olhar imediatamente, constrangido. — Coloca... — pigarreou — coloca uma roupa, por favor. Ela riu. — Eu teria colocado — provocou — se você não tivesse tocado a campainha como um louco. — Eu sei — ele riu também, passando a mão pelo rosto. — Mas vai lá. Por favor. Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo. — Já volto, Alteza Desesperada. Quando voltou, estava de shortinho jeans e regata, o cabelo ainda molhado, secando com a toalha. — E então? — perguntou. — Como posso ajudar agora, Alteza? Nicholas analisou a cena por um segundo longo demais. — Não sei se essa roupa é melhor do que a toalha — comentou. Sophie riu alto. — Doutor... você não era assim, não. — Não era — ele concordou, rindo junto. — Eu não sei o que tá acontecendo comigo. Ela parou de secar o cabelo e o olhou com um sorriso mais calmo. — Eu entendo — disse. — Porque eu sinto o mesmo. O sorriso dele diminuiu, ficando mais sério. — É estranho — ela continuou. — Parece que tudo mudou do nada. Muito rápido. — Mudou — ele concordou. — Rápido demais. O silêncio se instalou por um instante. — Mas então — Sophie quebrou o clima — você veio aqui desse jeito... por quê? Nicholas suspirou fundo. — Nós vamos voltar para Auren. Ela assentiu devagar. — Eu sei. Ele a encarou, como se estivesse reunindo coragem. — E eu... — respirou fundo outra vez — eu queria saber se você não quer... ir comigo. Sophie arregalou os olhos. — Eu? — apontou para si mesma. — Em Auren? Ela riu, incrédula. — Nicholas... isso é brincadeira, né? O silêncio que se seguiu foi a resposta mais honesta que ele poderia dar. — Não é brincadeira — Nicholas disse, sério. — Vamos para Auren. Sophie riu, balançando a cabeça. — Só pode ser. Eu não combino com Auren, Nicholas. — Você não conhece — ele rebateu. — Não tem como saber. — Eu não preciso ir até lá pra saber — ela respondeu, apontando para si mesma. — Um lugar onde se usa vestido longo e se curva pra todo mundo? Fala sério. O que eu vou fazer lá? Eu nem tenho roupa pra isso. Nicholas bufou. — Isso é o de menos. — Não é — ela insistiu. — Essas são minhas roupas, Nick. — indicou o short e a regata. — Eu vou poder andar assim? Onde eu ficaria? — No castelo, ué — ele respondeu, como se fosse óbvio. Ela o encarou. — No castelo? Com as minhas roupas? Ele riu. — Você pode parar de pensar em roupas? Esquece esse detalhe. — Tá — Sophie respirou fundo. — Então vou reformular. No castelo... com você e a Katarina? — A Katarina tá com os dias contados lá — ele disse. — Eu já te falei isso. — Não — ela respondeu, firme. — Seu pai vai tentar conversar com o pai dela. Não é certo. — deu um passo à frente. — Eu vou chegar lá como o quê? Vou ser apresentada como quem? Isso não faz sentido, Nick. Ele abriu a boca, mas ela continuou: — A gente criou essa farsa hoje pra convencer seu pai de que a gente se ama. E eu acho que funcionou. Mas foi só isso, não foi? Uma farsa? Nicholas passou a mão pelo cabelo, perdido. — Eu não sei — admitiu. — Eu tô confuso. Isso tudo é uma loucura, Sophie. Ontem você era a minha secretária simpática. Hoje eu penso em você e me vem à cabeça o gosto do seu beijo. — respirou fundo. — Eu penso em voltar para Auren e odeio ainda mais a ideia do que odiava antes. Porque eu não quero ficar longe de você. Ela sorriu, triste e doce ao mesmo tempo. — Eu também não quero ficar longe de você. Vou sentir falta. Mas eu não posso ir. — fez uma careta. — Nicholas, eu não sei nem falar o idioma de vocês. Eu nem sei qual é o idioma de vocês. Ele riu, apesar de tudo. — Isso é detalhe. Quase todo mundo na corte fala português. Você conversou com meus pais de boa, não foi? — deu de ombros. — Além do idioma natal, todo mundo fala português, francês, inglês e espanhol. Ela arregalou os olhos. — Você fala cinco idiomas? — Tenho que falar — ele respondeu, rindo. — Sou o príncipe herdeiro. Preciso me comunicar em qualquer lugar. Fui preparado pra isso a vida toda. — inclinou a cabeça. — E a maioria da corte também. — Meu Deus... — O povo não tem essa educação, claro — ele continuou. — Mas você aprende rápido. E se não aprender, eu arrumo um tradutor. Ou um professor. O que você quiser. Ela riu, desacreditada. — Você ficou louco mesmo. — Fiquei — ele concordou. — A ideia de ir e ficar longe de você me deixa louco. Sophie respirou fundo. — E como eu vou ser apresentada, Nicholas? Eu chego lá como o quê? — Como amiga — ele respondeu. — Enquanto o noivado não for desfeito, não posso te apresentar como namorada. Mesmo meus pais sabendo. — fez uma pausa. — Mas vai ser desfeito. Ela o encarou, os olhos mais baixos agora. — E se não for? — perguntou, com a voz calma demais. — E se eu for pra lá atrás de você... me apaixonar de verdade... e não for desfeito? — engoliu em seco. — Eu vou ter que assistir você se casar com outra mulher. Você pensou nisso? Nicholas fechou os olhos por um segundo. — Vai ser desfeito — disse. — Confia em mim. Por favor. Abriu os olhos de novo, sincero. — E você não é obrigada a ficar. Vai conhecer. Se não gostar, a gente te dá uma passagem de volta na mesma hora. — tentou sorrir. — Existem aeroportos em Auren, acredita? Ela riu, ainda incrédula. — Eu não acredito que você tá mesmo dizendo isso pra mim, Nicholas. Ele deu um passo à frente, cuidadoso. — Por favor. O silêncio que se seguiu era pesado. Não era medo. Era possibilidade. Sophie respirou fundo, olhando para ele como se estivesse vendo um caminho que nunca tinha imaginado e que, ainda assim, chamava seu nome.
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