Um silêncio espesso. Incômodo. Daqueles que não se quebra com palavras simples.
Nicholas m*l tocou no café. O pensamento estava longe dali. Em Sophie. Em como ela reagiria ao vê-lo vestido daquela forma. Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios ao imaginar o brilho nos olhos dela.
O sorriso morreu quase tão rápido quanto veio.
Talvez ela nem o visse hoje.
— Saímos às sete — Edmund disse, quebrando o silêncio.
— Eu sei. — Nicholas respondeu sem erguer o olhar. — Por isso já estou pronto.
O rei o observou por um instante mais longo.
— Nunca mais vamos conseguir ter uma conversa decente?
Nicholas não respondeu.
Não levantou os olhos.
Não disse nada.
Então ela apareceu.
Sophie descia a escadaria ao fundo do salão, conversando em voz baixa com Elara. Usava o vestido que Nicholas tinha escolhido para ela no shopping, simples, elegante, fluido. Os cabelos estavam presos num coque baixo, delicado.
Ela não passou perto da mesa.
Não deveria.
Mesmo assim, quando o viu de longe, sorriu.
Um sorriso aberto. Sincero.
O coração de Nicholas reagiu antes da razão. Ele empurrou a cadeira para trás no mesmo instante.
O olhar de Edmund caiu sobre ele como uma lâmina.
Nicholas congelou.
E permaneceu sentado.
— O quê? — murmurou, descrente. — Eu não posso nem dar bom dia para ela?
Edmund não respondeu de imediato. Manteve o tom calmo quando falou:
— Não. — disse. — Estamos à mesa. Tem funcionários ao redor. Você não vai se levantar antes de mim. Isso é falta de educação.
Nicholas puxou a cadeira de volta para perto da mesa, rindo baixo.
Sem humor.
Com amargura.
— Em público eu não posso falar com ela — disse, num tom contido demais para não ser perigoso. — Em privado, o senhor já deixou bem claro que também não é permitido. — ergueu os olhos para o pai. — Me diz, então... do que adianta ela estar aqui? Do que adianta ela ir conosco se eu nem posso desejar bom dia à mulher que eu amo?
O silêncio voltou.
Dessa vez, mais denso.
Edmund sustentou o olhar do filho. Depois desviou para Eleanor.
Ela assentiu de leve, quase imperceptível, lembrando-o do que havia dito na noite anterior. Do cabo de guerra. Do jovem apaixonado que estava sendo esmagado entre regras e dever.
O rei respirou fundo.
— Depois do café... — começou, pausando por um instante. — Quando nos levantarmos... você vai até o jardim lateral. Sozinho.
Nicholas prendeu a respiração.
— Ela vai passar por lá com a dama de companhia. — Edmund continuou. — Mas é rápido. Cinco minutos. E olhe lá.
O sorriso que se abriu no rosto de Nicholas foi imediato.
— Cinco minutos? — provocou, baixo. — Não dá nem para negociar dez?
— Cinco minutos — Edmund reforçou. — E não confunda isso com i********e, meu filho.
Nicholas assentiu.
— Obrigado. — disse, sincero.
E o peso no peito pareceu um pouco menor.
**
O jardim lateral ainda estava úmido do sereno da madrugada. As plantas altas criavam pequenos recortes de sombra, e o caminho de pedras parecia deliberadamente afastado do corpo principal da mansão, discreto o suficiente para fingir privacidade.
Nicholas já estava ali quando a viu se aproximar.
O sorriso veio antes mesmo de perceber.
Sophie caminhava ao lado de Elara, que diminuía o passo de forma quase ensaiada, mantendo uma distância respeitosa, mas visível. Quando finalmente ficaram a sós, ou o mais perto disso que o protocolo permitia, Nicholas soltou o ar que nem tinha percebido estar prendendo.
— Como você conseguiu isso? — perguntou, com um sorriso torto. — Elara ficar tão... estrategicamente distante.
Sophie riu baixinho.
— Ela é muito simpática, sabia? A gente tá se dando bem. — inclinou a cabeça, divertida. — E, por mais que seu pai tente esconder, todo mundo sabe da gente. Elara me contou dos cochichos pelos corredores.
Nicholas soltou uma risada curta.
— Eu também não fiz muita questão de mentir, né?
— Nem um pouco — ela concordou, sorrindo.
Ele a olhou por um segundo a mais do que deveria. Amor escancarado nos olhos, sem esforço algum para disfarçar.
— Você acha que a Elara vai relatar para o rei se eu te der um beijo? — perguntou, meio sério, meio provocador.
Sophie arqueou uma sobrancelha.
— Acho que só tem um jeito de descobrir.
Ele riu e então fez.
O beijo veio cheio de saudade, como se tivessem passado dias separados, quando na verdade tinham sido apenas horas. Foi um beijo calmo, profundo, carregado de tudo o que não poderiam repetir tão cedo. Nicholas suspirou contra os lábios dela, como quem encontra ar depois de muito tempo submerso.
Quando se afastaram, Sophie sorriu.
— Vossa Alteza está muito bonito hoje.
Nicholas se afastou um passo, passando a mão pela farda, quase constrangido.
— O que achou? — perguntou. — Vesti um pouco mais... disposto. Só para ver sua reação.
— Belíssimo — ela respondeu sem hesitar. — Combina com você. Mais do que você imagina.
Ele bufou, mas sorriu.
— Se meu pai ouvisse as coisas que você diz... — balançou a cabeça — ia deixar a gente em paz rapidinho ao perceber que tem em você uma aliada.
— Para com isso — Sophie riu. — E para de brigar com ele também. Vocês precisam se entender pra tudo ficar bem.
— Eu vou tentar — prometeu, mesmo sem saber se conseguiria.
Ela passou a mão pela farda, tocando de leve as insígnias, curiosa.
— Nossa... — sorriu de canto — você vestido assim tá me dando uma vontade absurda de tirar tudo.
Nicholas gargalhou.
— Só você para me fazer rir num momento desses.
— Devia ter levado essa roupa lá pra casa — ela completou, piscando.
— Sophie... — ele riu, agora com o olhar perigosamente aceso — você brinca na cara do perigo, não brinca?
Ela deu de ombros, inocente demais para convencer.
— Ué... — disse de repente — você não tem coroa, não, Alteza?
Ele arregalou os olhos.
— Tá doida? Nem fala isso em voz alta.
Sophie caiu na risada.
— Meu Deus, homem... você odeia tudo em ser príncipe?
— Tudo. Absolutamente tudo — respondeu sem hesitar. — Você não tem ideia do peso daquilo. É ouro, afinal. Machuca, é desconfortável... h******l. Não. Nada de coroa.
Ela riu ainda mais.
— Mas se tivesse que usar, seu pai ia obrigar, né?
— Só em eventos oficiais em Auren — ele explicou. — E já tá ótimo assim.
Sophie inclinou a cabeça, maliciosa.
— Então quando eu puder ter o príncipe na minha cama outra vez... quero completo, tá? Botas, farda... e coroa.
Piscou.
Nicholas riu, claramente afetado.
— Sophie... — balançou a cabeça — você vai acabar me matando antes mesmo da coroação.
— Vale o risco — ela respondeu, tranquila.
Ele suspirou, olhando em volta.
— Vamos. Meu pai deu cinco minutos. Se eu abusar, da próxima vez vira três.
— Justo — ela riu.
— Da próxima vez que a gente se ver... — ele disse, mais baixo — vai ser em Auren.
— Eu sei.
— Leva um casaco grosso na mala de mão — reforçou. — É inverno lá. E o inverno é bem gelado.
— Você já avisou três vezes — ela provocou.
— É só pra ter certeza — ele respondeu, nervoso demais para esconder.
Ela se afastou em direção a Elara, ainda sorrindo. Nicholas seguiu pelo caminho oposto, de volta à mansão.
Sorrindo também.
Cinco minutos tinham sido suficientes.
Do outro lado do jardim, Eleanor observava a cena ao lado de Edmund. Passou os braços pelos dele, com carinho.
— Tá vendo? — murmurou. — Cinco minutos e ele já tá rindo à toa.
O rei suspirou.
— Bater de frente não adianta, amor. — ela continuou. — Você precisa mudar o jogo. Não se lembra de como é estar apaixonado?
Edmund sorriu, olhando para a esposa.
— Eu me lembro todos os dias.
Inclinou-se e depositou um beijo rápido nos lábios dela, longe de qualquer olhar curioso.