Desafio lançado

1165 Words
C hegamos de fusca na faculdade. Não tinha como não chamar atenção — só carrões na entrada e, no meio deles, um fusquinha reluzente, tão bem cuidado que parecia ter saído da concessionária naquele dia. Claro que eu jamais admitiria para o Edson que achei o carro bonito. Encontramos o restante da minha turma. Tocaria no baile de boas-vindas um rock básico. Alex, que fazia dupla com o Fernando e tocava às vezes no restaurante do meu pai, tinha me visto no teclado e logo propôs montarmos uma banda para a festa. — Esse é o seu carro novo? — Fernando perguntou curioso. — É... uma longa história. Prefiro não falar sobre isso. — Vamos logo, o reitor já está perguntando pela banda... — Alex estava claramente irritado. — Aconteceu alguma coisa? — Nada demais. Depois da apresentação, quero conversar com você. Entramos no salão de festas. Desde criança sonhava estudar ali, então cada detalhe me fazia sorrir de satisfação. O salão estava lotado. Direcionamo-nos às mesas reservadas para os músicos, logo à frente do palco. Enquanto eu me sentava, Tati foi até o DJ — não sei se para conferir o som ou para conferir o DJ. Pelo brilho no olhar dela, eu apostaria na segunda opção. Alex e Fernando checaram os microfones e afinações. Olhei para a mesa ao lado e vi um nome escrito na plaquinha. — Edson? Não... não pode ser. Seria muito azar meu... — Não é azar, é destino — ouvi uma voz bem próxima do meu ouvido. Virei o rosto e dei de cara com os olhos azuis dele, perigosamente perto dos meus lábios. — Acho que não é o meu dia. — Fico feliz em te ver novamente, olhos verdes. — Pena que não posso dizer o mesmo. E, por favor, me chame pelo meu nome. Ele sorriu de canto e piscou. — Claro, olhos verdes. Quando pensei que ele iria me deixar em paz, puxou a cadeira e sentou-se ao meu lado. — Então... está cuidando direitinho das setas do meu fusca? Revirei os olhos. — E você, já consertou o meu carro? — Ainda não. Mas quando encontro um material de qualidade, prefiro não ter pressa. Olhei de relance para suas mãos grandes e logo balancei a cabeça, tentando afastar pensamentos perigosos. — Você está falando do meu Celta, não é? — Também. Ele me fitava intensamente. Ok, ele era bonito, mas minha mãe sempre dizia: “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. — Acha mesmo que esse joguinho de sedução vai funcionar comigo? Ele abriu um sorriso devastador. — Eu desperto nas mulheres seus instintos mais... primitivos. — Ah, claro! Estou quase pegando um porrete para bater na sua cabeça. — Como é que é? — Uê, não era assim que os homens conquistavam as mulheres nas cavernas? Ele riu. — Você tem sempre uma resposta na ponta da língua, não é? — Faz parte do meu charme. Ele se inclinou, confiante: — Me dê uma noite, e você vai se apaixonar por mim. Não contive a risada. — Você é muito presunçoso. É mais fácil eu conquistar você. Agora foi a vez de ele rir. — Está lançado o desafio, olhos verdes. Edson Finalmente, ela estava entrando no meu jogo. — E termina à meia-noite! — ela avisou. Ah, mas ela estava enganada se pensava que eu a deixaria escapar tão fácil. — Antes da meia-noite, antes do fusca virar abóbora, já terei colocado as mãos no seu sapatinho de cristal. Ela franziu a testa, sem acreditar na cantada, mas eu sabia que logo se acostumaria. O reitor subiu ao palco para explicar a tradição: cada veterano deveria entregar uma rosa a uma caloura. Peguei a minha rosa da mesa e a ofereci. Andréia cruzou os braços e recusou. Sem desistir, quebrei o caule ao meio e, com cuidado, coloquei atrás da orelha dela. Ficamos tão próximos que percebi sua respiração acelerar, os olhos fixos nos meus. — Vamos, Andréia, já está na hora. Os meninos estão no palco. Sua amiga surgiu, salvando-a. Andréia pegou a rosa de trás da orelha, colocou no meu bolso e, com um olhar firme, provocou: — Só isso que você é capaz? Boa sorte. Essa não funcionou. Levantou-se e foi até o palco. Eu sabia que tinha funcionado, sim. Ela só não queria admitir. Eu ainda sentia a reação dela ao meu toque — não foi imaginação. O que me confundia era o que eu estava sentindo. Sempre agi da mesma forma quando queria levar uma garota para a cama: aproximação, charme, algumas palavras certas… e pronto. Elas cediam rápido demais. No fim, era sempre igual. Entediante. Mas com ela era diferente. Além de me recusar, além de impor limites que eu não estava acostumado a respeitar, pela primeira vez eu me sentia… bem. Feliz, até. Apenas por estar perto. Sem necessidade de provar nada, sem pressa, sem conquista imediata. Aquilo era novo. E perigosamente bom. O reitor pegou o microfone, quebrando meus pensamentos. — Vamos abrir o baile deste ano dando boas-vindas à primeira banda de calouros. Palmas para eles! O auditório explodiu em aplausos. A banda começou com um rock animado. Não era exatamente o meu estilo, mas no instante em que ela começou a cantar, todo o resto perdeu importância. A voz dela preencheu o ambiente de um jeito que me prendeu. Era firme, segura, envolvente. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Algumas garotas passaram pela minha mesa, sorriram, jogaram olhares claros demais. Normalmente eu retribuiria. Dessa vez, não. Não queria perder a ruivinha de vista por nada. Ela se movia com naturalidade atrás do teclado, como se aquele fosse o lugar dela no mundo. Os dedos deslizavam pelas teclas com leveza. Pensei, quase rindo de mim mesmo: quem me dera ser aquele teclado. Em alguns momentos, ela me procurava com o olhar. Não era acaso. Era consciente. Cada vez que nossos olhos se encontravam, algo silencioso acontecia entre nós. Levantei-me e me aproximei do palco. Tirei a rosa do bolso e a joguei suavemente sobre o teclado. Ela se assustou por um segundo, depois me encontrou na plateia. Suas bochechas ficaram vermelhas, num tom que só a deixava ainda mais bonita. Quando a música terminou, ela pegou a rosa, colocou-a atrás da orelha e se virou para os outros músicos, dizendo algo que não consegui ouvir. Em seguida, pegou um violão, puxou um banquinho e sentou-se no centro do palco, cruzando as pernas com uma naturalidade que me deixou completamente hipnotizado. Ela ajustou o pedestal do microfone à altura do rosto e respirou fundo antes de falar: — Bom, pessoal… essa última música não está no repertório da banda. Vou improvisar um solo… — fez uma pausa breve — …para os casais apaixonados. Disse a última frase olhando diretamente para mim. Meu coração falhou uma batida. Aquilo só podia ser para mim. A plateia vibrou, aplaudindo, sem perceber que, naquele instante, parecia que só nós dois existíamos.
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