Andréia
Fui a última a descer as escadas da lateral do palco, quando percebi o Edson subindo com um violão nas costas e um chapéu de cowboy.
— Olha só, o passarinho também canta... — zombei.
Ele sorriu daquele jeito encantador, passando a língua pelos lábios, formando covinhas que me fizeram perder uma batida do coração. Isso estava ficando perigoso. Eu só precisava de um desfibrilador para terminar a noite.
Tentei passar, mas ele estendeu o braço, apoiando na parede, me bloqueando.
Nossos olhares se encontraram. Um arrepio percorreu minha espinha, minha respiração ficou curta, e eu me perdi no azul dos seus olhos. Ele retirou a mão da parede e a levou até meu rosto, acariciando de leve minha bochecha. Depois, tirou a rosa que estava atrás da minha orelha.
Por um segundo, achei que ele fosse me beijar. Meu cérebro já nem processava nada, só ouvia meu coração martelando nos ouvidos. Mas ele apenas pegou a rosa e seguiu para o palco.
— Vem cantar, oh Don Juan! — o reitor brincou no microfone.
Edson entrou no palco ainda me encarando, enquanto eu descia a escada atordoada. Encontrei Tati logo embaixo.
— Amiga, o que foi isso? Que clima foi aquele?
— O quê?
— Ah, não precisa responder. Sua cara já entregou tudo.
Ela passou direto, sem me esperar responder.
Eu me sentei na mesa, ainda confusa. Procurei Alex e Fernando, mas não os vi. Alex tinha dito que queria falar comigo depois do show… será que desistiu? Uma parte de mim estava aliviada. Não queria mais um fora constrangedor para dar.
Enquanto eu tentava me recompor, Edson começou a cantar Country. Reconheci na hora: era a mesma voz que eu tinha ouvido na fita do fusca. Ele cantava e as meninas gritavam histéricas, se jogando como se fosse um show internacional. Sério, não viam que só estavam passando vergonha?
— Que partidão você arrumou, hein? — Tati cutucou.
— Esse é o cara do fusca.
Ela arregalou os olhos.
— Não brinca! O Homem de Ferro?
— Ele só se acha, não é tudo isso... — minha boca dizia, mas meu coração batia em outra frequência.
— Amiga, ele é tudo isso e mais um pouco.
Eu ri da cara dela, mas a verdade é que não conseguia parar de lembrar do que tinha acontecido na escada.
Depois de algumas músicas, Edson tomou o microfone:
— Senhoritas, atenção! Como todos sabem, é tradição os veteranos entregarem rosas às calouras. Mas a caloura a quem ofereci a minha... recusou.
Meu estômago deu um nó. Ele não ia fazer isso… ia?
— Então, decidi que, ao final desta música, descerei do palco e entregarei esta rosa a uma caloura especial. E ela subirá para cantar comigo.
“Ah, não. Não. Não mesmo.” Pensei em ir embora. Mas, ao mesmo tempo, queria ver até onde ele teria coragem de ir.
Ele começou a dedilhar o violão, e os olhos dele grudaram nos meus.
— "O cara que pensa em você toda hora...” “Esse cara sou eu...”
As meninas gritavam, mas ele não desviava de mim. Meu ego inflou, embora eu tentasse manter o foco: não ceder.
No meio da música, apontou diretamente para mim:
— "Eu sou o cara certo pra você...”
— Ai, droga... — sussurrei, apertando a mesa.
Do meu lado, Tati cantarolava, rindo de mim:
— "O cara que empresta o fusca pra não ficar a pé...” Esse cara é ele...
— Cala a boca, Tati!
A música terminou com aplausos ensurdecedores.
— Agora vou descer e entregar a rosa.
Tati me cutucava sem parar:
— É você, amiga! É você!
— Não, eu recusei. Ele vai dar pra outra.
— Eu vi muito bem quando ele tirou da sua orelha...
Antes que eu pudesse responder, ele já estava descendo as escadas, rosa entre os dentes, violão nos braços. As garotas se esticavam, implorando pela flor, mas ele passou direto por todas.
Parou diante de mim.
Flexionou um joelho.
O salão explodiu em gritos.
Eu congelei. Fui a escolhida.
Ele colocou a rosa atrás da minha orelha outra vez e disse baixo, com um sorriso confiante:
— Toda sua.
A plateia gritava:
— Aceita! Aceita!
Antes que eu tivesse tempo de raciocinar, ele pegou minha mão e me conduziu ao palco.
— Agora, comigo.
Ele dedilhou o violão e começou a cantar “Pássaro de Fogo” em inglês. Um microfone apareceu na minha frente, e eu, sem pensar, entrei no refrão em português, olhos fixos nos dele.
— “Vai se entregar pra mim...”
No refrão, ele fez a segunda voz. O público enlouqueceu.
E então aconteceu.
Ele me puxou para mais perto, e de repente, não estávamos mais naquele salão lotado. As luzes desapareceram, a música se dissolveu, e tudo que restava era ele e eu, flutuando em um espaço só nosso.
Quando nossos lábios se tocaram, o tempo parou. Cada toque dele era eletricidade pura, cada respiração fazia meu coração disparar. Eu flutuava, completamente fora de mim, como se estivesse vivendo algo que não pertencia a este mundo. Cada gesto dele era familiar e estranho ao mesmo tempo, e eu queria que aquele instante nunca acabasse.
Mas então ele se afastou. O mundo voltou com brutalidade: luzes, vozes, aplausos. O gosto dele ainda estava nos meus lábios, o calor das mãos dele ainda na minha pele… e de repente, o êxtase desapareceu, deixando um vazio profundo.
Meu corpo tremia, não de prazer, mas de frustração. Era como se tivesse dado tudo de mim e recebido apenas a sensação amarga de ter sido usada. Aquele beijo que parecia eterno tinha sido arrancado antes do momento certo.
— Você... — consegui murmurar, confusa e furiosa.
Sem pensar, dei um t**a em seu rosto. O choque dele refletiu na multidão, mas eu não me importei. O t**a era meu grito silencioso, meu protesto contra a sensação de impotência que me invadiu.
O reitor entrou no palco, pegando o microfone, mas eu não conseguia ouvir nada. Com o coração disparado, peguei minhas coisas e saí correndo pelas escadas laterais, deixando os aplausos e o olhar de todos para trás. Cada passo era um esforço para me recompor, para não demonstrar o turbilhão de emoções que me consumia. Eu precisava me afastar daquele palco, daquela sensação de ter sido manipulada e usada, e recuperar o controle sobre mim mesma.
Quando finalmente atingi a saída do salão, respirei fundo, tentando colocar os pensamentos em ordem. Lá dentro, ele ainda estava, no centro das atenções, com o violão nas mãos e os olhos ainda me perseguindo. Mas eu havia decidido: aquela noite, por enquanto, não seria dele.