Dare
Minha mente ainda tenta digerir a conversa com Luna. Advogados e adeus não ressoam muito bem. Não gosto dessa combinação. Luna foi meu porto seguro por quase um ano. Agora, mais de sete anos e depois da nossa conversa, percebo que ela se tornou seu próprio porto seguro.
— Dare! — A voz fina e animada chama minha atenção.
Arthur está parado próximo do balcão de pedidos segurando a mão de uma senhora de cabelo n***o com alguns fios grisalhos. Em nenhum momento da nossa conversa, falamos sobre a possibilidade de um exame de DNA. Pudera, o garoto é minha fuça. Meus pais vão adorar a novidade. Especialmente quando souberem que Luna é a mãe.
Gwendoline Masters adorava a ex nora. Quando soube do nosso término pela imprensa, passou um ano sem falar comigo. E mesmo depois que voltou a falar, nunca me perdoou por ter magoado a única nora que aceitou.
O garoto vem até mim com passos apressados, para à minha frente e espera com olhos ansiosos.
— Você já ligou A+B? — Pergunta baixinho.
Meu sorriso se amplia e uma exclamação sai de sua boca aberta.
— Você também tem covinha quando sorrir — fala como se tivesse acabado de descobri algo extraordinário. Me abaixo para fala de igual para igual com ele.
— Sua mãe falou que não precisamos de apresentação, filho — Arthur sorri de orelha a orelha antes de lança-se contra mim, agarrando-se ao meu pescoço. — Farei de tudo para recuperarmos o tempo perdido. — Falo ao me erguer segurando Arthur, mantendo-o no colo.
Me tornar o pai que Arthur precisa e merece agora é a missão da minha vida.
Luna
Lori estava sentada à minha frente desde que Dare saiu do escritório. Ela não fez perguntas ou acusações, apenas sentou e esperou. Dare conseguiu abalar meu autocontrole remoendo o passado: o que poderia ter sido, a segunda chance que não dei a nós dois e a família que não permiti a Arthur. O problema era justamente esse último. Diferente de Dare, que teve uma infância feliz com pais apaixonados e um irmão que o idolatra, a minha infância foi de gritos, acusações e abandono. Meu pai saiu de casa quando eu tinha cinco anos. Depois disso minha mãe se tornou amargurada. Papai casou com mamãe porque ela engravidou. Era uma estrada de via única, apenas dona Margareth amou e o amor dela não foi o bastante. Assim como o meu não teria sido. Não menti quando disse a Dare que o casamento teria me destruído.
— O quanto você ouviu? — Pergunto pois já conheço a peça.
— O suficiente para saber que Dare Masters é um i****a. — Responde irritada. — Você bem que poderia ter tido um romance com o gostoso do Maison, o homem é um m*l caminho completo.
— Isso é uma verdade irrefutável.
Além de lindo, Maison é um bom amigo. As vezes comete um vacilo, mas ele é o tipo de pessoa que aprende a lição com seus erros e busca ser uma pessoa melhor.
— Quer falar sobre sua relação com Dare? — Depois de descontrair ela toca na ferida.
Balanço a cabeça, negando.
— Ainda não acredito que nunca me contou que Arthur é filho do Dare Master e sobrinho de Trevor Masters, o primeiro guitarrista da Millenium e o segundo, baixista da Demons.
— Pode deixar seu lado groupie de lado por um tempo? — peço começando a me irritar.
Eu nunca fui uma groupie. Conheci os rapazes antes de fazerem sucesso e a Billie antes de fazer parte da banda. Nossas mães eram amigas, trabalhavam juntas na casa de um neurocirurgião de renome cuja a esposa era uma ex-modelo famosa.
— Sabe do que você precisa? — Lori pergunta como se tivesse a resposta para todos os problemas e sei muito bem quais são essas respostas.
— Encher a cara e t*****r com um ou dois caras bem gostosos? — Pergunto com um meio sorriso.
— Isso mesmo. Precisamos de uma noite girl power. Vou pedi para Fran fazer hora extra hoje ficando com Arthur e amanhã damos o dia de folga.
Lori sai do escritório animada, até demais para o meu gosto.
Pego o celular ainda sorrindo com a maluquinha da minha sócia, mando mensagem para meu advogado. Que rapidamente retorna com uma ligação.
— Olá Benny...
***
— É isso — concluo uma hora depois.
— Ok, quando você disse que faria questão de ferrar o cara que te destruiu, eu pensei que fosse, tipo, um i****a qualquer e não um que me põe no chinelo.
— Benny, não tem graça — meu ex- namorado é tão lindo quanto Dare. Ambos tem uma beleza única e são completamente opostos um do outro, principalmente na personalidade. Benny jamais levantaria a mão para mim, mesmo num momento de angústia e desespero.
Benny agora está noivo de uma professora de artes muito maluquinha, que adoro.
— Tem sim, afinal, você não aceitou se casar comigo por causa dele. — Ben não perde a oportunidade de me cutucar.
— Você parece um museu que vive do passado — resmungo, arrancando uma gargalhada calorosa de um dos meus amigos mais queridos.
— Está certo, Dandara com certeza é grata por você ter me dado um fora.
— E você também, pois é muito feliz com a sua noiva. No entanto, não liguei para falar de mim. Vou desligar, está na hora de despachar o traste e os amigos dele — aviso.
— Tudo bem, passa o meu número para o senhor gostosão e fala para o advogado dele entrar contato o mais breve possível. Tenho certeza que vamos chegar a um meio termo. — Meu amigo garante.
— Eu espero que sim, obrigada, Ben — desligo.
Lori sempre me perguntou porque não aceitei o pedido de casamento de Ben. Estávamos juntos há uns meses e Arthur é louco por ele. Nunca menti para Benny sobre meus sentimentos. Na verdade, ele é o único que realmente sabe de como saí quebrada da minha relação com Dare. Namoramos por insistência dele. “Você nunca vai esquecê-lo se não tentar”, dizia ele. Bom, eu tentei. Só Deus sabe como tentei, de fato, amar Benny.
Nosso namoro estava até indo bem. Foram 10 meses muito felizes, com Arthur tendo outra referência paterna além do padrinho. Até que Ben decidiu enfiar os pés pelas mãos: me pediu em casamento no aniversário de três anos do meu filho. Apesar de não amar Benny como amei Dare, sempre tentei ser a melhor namorada para ele. Mas ser a melhor namorada, não significava que eu seria a melhor esposa. Não faria com Ben o que meu pai fez com minha mãe. Benny passou quase dois anos sem falar comigo. Magoado, rejeitado e eu não o culpava. Eu sempre tentei fazer diferente do que Dare fez comigo, mas no fim o resultado foi o mesmo. Até Benny conhecer Dandara, uma mulher n***a, alta, curvilínea e extremamente excêntrica. Quando Ben começou a se apaixonar pela professora de artes fora de órbita, ele correu para mim, na tentativa de entender seus sentimentos.
“Eu não entendo”, ele disse. “como eu posso desejar alguém tão diferente de mim? como posso perder completamente a cabeça por causa de uma maluca? Eu não deveria ser afetado por ela, pois eu te amo”.
Aquela declaração encheu meu coração machucado e me deu esperanças de que, ao menos, um de nós tivesse encontrado o amor.
“Isso significa que o que sente por mim não é amor, não mais, aposto que Dandara é sua alma gêmea. Ela sente o mesmo com relação a você? Se sim, não tenha medo e dê uma chance para vocês”, foi minha resposta a ele.
No mesmo dia Benny mandou uma mensagem avisando que ele e Dandara haviam se acertado e eu fiquei feliz. Hoje em dia, Ben me agradece por ter lhe dito não. Somos melhores como amigos.
Não tenho esperança de um dia voltar a amar um homem. Meu coração agora só tem espaço para meu filho e algumas pessoas escolhidas a dedo. Tenho uma vida s****l saudável. Um negócio que está dando os primeiros passos e um filho que é tudo para mim. Uma vida que se estruturou após tantos altos, baixos, lágrimas e decepções. Por isso não posso deixar Dare entrar nela de novo. Precisei de sete anos para recolher os pedaços, colar um por um e finalmente me sentir eu mesma ou quase isso. Não vou impedir meu filho de conviver com o pai, mas também não vou permitir que Dare ultrapasse essa linha. Lori tem razão, uma noite de girl power é tudo de que preciso.
Pela porta de vidro, observo Arthur interagir com os amigos do seu pai. Ele parece meio deslocado, mas conhecendo meu filho, ele está se esforçando para agradar Dare.
Olho para cada m****o da Millenium, cada um cuja amizade abri mão na noite que fui embora sem me despedi deles.
— Por quanto tempo ainda pretende ficar aqui? os rapazes só estão esperando para falar com você e depois vão embora. — Reconheceria a voz dela em qualquer lugar. Betsy usa seu tom mais duro, mas sem crítica.
— Não sei, acho que vou dificultar seu trabalho mais um pouco — a provoco sem virar para encará-la.
— Luna Duarte, você não era tão má. — Finalmente olho para a mulher que agora está ao meu lado.
— Melhoramos com o tempo — falo me segurando para não abrir um sorriso do tamanho do mundo.
— Sabe, até hoje eles se perguntam se você os afastou porque tocaram aquela música. Só para sua informação, eles não sabiam que Dare ia contar para quem ele compôs ela e que ia fazer aquela declaração. — Ela fala como se isso fosse mudar tudo.
— Vou facilitar seu trabalho, preciso colocar uma criança na cama. — falo na tentativa de fugir da mulher. Betsy é leal a banda e somente o bem estar dos seus meninos é o que importa.
Ao passar pela porta não vi o que me atingiu. Meu corpo estava sendo esmagado por uma muralha de dois metros de altura e músculos. E senhor, põe músculos nisso.
— Lua Cheia — Stuart falou me apertando com mais força.
— Oi-Stu-art-vo-cê-está-me-es-ma-gan-do — m*l consigo respirar.
— Ah, desculpe, me empolguei — ele afrouxa o abraço sem me soltar.
— Cara, solta ela para que outros possam tirar uma casquinha — Kevin era um caso perdido. O m****o mais bonito da Millenium e o mais safado. Sua fala me tira um sorriso.
— Não, nunca mais vou soltar a Lua Cheia. Vou levá-la de volta para Los Angeles junto com o mini Dare. — Stuart recusa num tom brincalhão.
— Se tem amor à sua vida, solte ela, Stuart — Dare ameaça sério.
— Alguém acha que ainda tem direitos sobre você, Luna — Stu sussurra no meu ouvido.
— Direitos que nunca teve — falo, dando-lhe um sorriso cúmplice.
Stuart finalmente me solta. m*l dei um passo e fui erguida no ar por Billie. Meu Deus, eles vão me matar.
Já no chão, sou envolvida por outro abraço esmagador de ossos. O que esses homens andam comendo que estão maiores, mais fortes e viris. Quando consegui prestar atenção no meu amigo de infância, minha respiração parou. O cara loiro, magrelo e desengonçado virou um verdadeiro cisne, com alguns piercings e um cabelo abaixo dos ombros. Perdeu qualquer traço do adolescente que um dia já foi. Billie estava másculo e viril. Um homem que exala sensualidade.
— UAU! — exclamei de queixo caído.
— Gostou? — Ele dá um giro para que eu o admire, exibido!
— Nossa, seu cabelo é mais bonito que o meu. Isso não é justo. — Brinco.
— Ah, nanica, senti sua falta. — Billie torna a me abraçar controlando sua força dessa vez, graças à Deus.
— É a minha vez — Kevin me resgata dos braços do meu amigo, com olhos zombeteiros, sinal de que vai aprontar. Se inclina para beijar minha cabeça como sempre fazia, então fui pega de surpresa quando sua boca arrebatou a minha, sequer tive tempo de reagir.
Kevin foi lançado longe por Dare, que estava com as pupilas dilatadas de raiva.
— Que p***a pensa que está fazendo? — Rosna colocando-se a minha frente.
— Matando a saudade da nossa garota — Kevin explica como se me beijar fosse algo natural.
— Perdeu o juízo de vez? — Dare pergunta como se tivéssemos algo. Bom, temos um filho, mas para por aí.
Antes que Dare decida mostrar quem é o macho alfa, sigo até onde Arthur está sentado, ao lado de Maison e falo em alto e bom tom.
— Foi só um beijo, Dare, nada que eu já não tenha feito.
Paro ao lado do meu filho, dou uma piscadela e ele me presenteia com o sorriso que é a minha perdição.
Desvio o olhar para Maison, que nos olha atentamente, sondando o terreno.
— Bom te ver, Maison. Está mais charmoso do que me lembro.
Ele sorri, desvia o olhar rapidamente para Dare que agora nos observa. Ele esqueceu completamente a provocação de Kevin. Maison voltou a atenção para mim, sem perder o charme.
— Igualmente, obrigado pelo convite e desculpe por esses trogloditas. Dare pelo visto ainda não se recuperou da surpresa de hoje — ele olha para Arthur, voltando a focar em mim em seguida. — O cérebro dele foi afetado e ainda não voltou ao normal.
No passado, Maison fazia esse tipo de provocação. Eu sempre o refutava falando coisas idiotas como “ele é perfeito”, ou “não existe pessoa mais incrível”. Típicas palavras de uma tola iludida e apaixonada. Tenho tanta raiva de ter sido tão tola e ingênua.
— Bom, que seja. Está na hora do Arthur e de vocês também – aponto para todos da banda, sem exceção. — Prometi a Betsy que não atrapalharia mais o trabalho dela. — Não precisei mandar, meu filho segurou minha mãe sem questionamentos. Ele deve está cansado, geralmente sua rotina é bem tranquila e hoje o dia foi cheio de emoções, que teve como cereja do bolo, o amigo do pai beijando a mãe. Kevin é um caso perdido.
Arthur se despede de um por um com um aceno, quando chegou a vez do pai, soltou minha mão e se lançou contra ele.
— Quer tomar café da manhã comigo amanhã? — O danado pergunta sem me consultar. Ao ver o pai oscilar, ele completa. — Mamãe não se importa se você prometer se comportar.
— Ah, então estarei bem cedo aqui, faço panquecas digna dos deuses.
Ótimo, esperei que ele tivesse bom senso e recusasse, mas pelo visto ele está longe disso. Entrego um cartão com o número do Benny, Dare pegou sem entender.
— Manda seu advogado entrar em contato com ele. Quanto mais rápido chegarmos num acordo, melhor.
— Claro, preciso do seu número, para emergências. — Pede.
Não Luna, não faça isso, meu bom senso grita.
— É melhor não. — Tento não ser grossa.
— Mãe, não tenho celular, como meu pai vai falar comigo quando estiver longe? A senhora dá o seu número ou me dá um celular. — O sonho da vida do meu pirralho.
— Nada de celular — falo tentando esconder a frustração por ter sido ludibriada pelo meu próprio filho.
Peço o celular de Dare e dígito rapidamente o meu número.
— Boa noite — resmungo para todos. Seguro a mão do meu filho e seguimos para o segundo andar.