Luna
Coloco o avental no gancho.
— Mais alguma coisa? — Pergunto à Marcelo.
— Não, obrigado pela força. — Ele se escora na mesa de frente pra mim. — Como conseguiu que a Millenium viesse? Tipo, somos novos e mesmo com Sabrina ajudando na divulgação do Café, eles ainda são a Millenium.
— Dare Masters é o pai do Arthur.
Nos cinco anos que conheço Marcelo, esta é a primeira vez que ele ouve o nome do pai biológico do meu filho.
A boca dele se abre com a revelação. Claro, Dare é um astro do rock. É rico, famoso e bonito. Qual mulher no seu juízo perfeito ficaria grávida dele e esconderia a gravidez?
— Feche a boca, você tá babando. — Aviso ao meu amigo antes de sair da cozinha, indo em direção ao escritório.
No caminho, peço à Lucy, uma das garçonetes que está atendendo a banda, trazer Dare até mim. Depois da nossa conversa de hoje, só falaremos através dos nossos advogados.
A porta não demora a abrir. Dare está bem sério. Acredito que a demora em recebê-lo o tenha irritado. Afinal, antes ele sempre vinha em primeiro na minha vida. Agora, isso é passado.
— Pensei que o chá de cadeira demoraria mais um pouco. Sete anos não foram o bastante para contar sobre Arthur, teve que acrescentar mais algumas horas na conta?
Sete anos, seis meses, oito dias e quatro horas. Sim, eu precisava acrescentar essas quatro horas na conta.
— Sem drama, eu estava trabalhando e quem você pensa que é para falar nesse tom comigo? Abaixa o tom. — Alerto em resposta.
— Foi para me punir? Se vingar? Me diz, Luna. Por que não me contou sobre nosso filho?
— E isso importa? — Pergunto friamente.
— Claro, eu poderia ter sido um ótimo pai. Eu perdi os primeiros sete anos do meu filho, graças a você. — Responde cheio de mágoa.
— Você tem todo direito de se sentir traído, magoado, com raiva ou sabe-se lá Deus o quê. Mas isso não vai trazer o passado de volta. Pare de pensar no que você poderia ter sido e passe a sê-lo agora. Se quer fazer parte da vida de Arthur, eu não vou impedi-lo disso, só não se esqueça que eu tenho motivos de sobra por tê-lo feito. — Confesso, estou muito surpresa com a calma que estou falando.
A tranquilidade e despreocupação que estou demonstrando por fora, nem se compara com a agitação que estou sentindo por dentro. Meu coração parece uma britadeira.
— Como você pode ser tão insensível? — Ele pergunta, como se não me reconhecesse.
— Vai realmente vai me fazer repetir? O passado é passado. Ele não volta. Só quem gosta de ficar preso a ele é você. Eu prefiro focar no agora. Não importa os meus motivos de não ter contado sobre Arthur. E que fique claro, eu te liguei três vezes para fazer isso, mas você não atendeu nenhuma das minhas ligações. Depois de um tempo, decidi que era melhor assim. — Falo.
Dare respira fundo, acredito que esteja tentando manter o controle.
— O que disse a ele sobre mim? — Pergunta depois de um tempo.
— A verdade. Que você não sabia da existência dele. — Respondo.
— Ele sabe quem eu sou? — Pergunta como se fosse algo improvável.
— Sim — respondo seca.
— Quando pretendia me contar sobre o meu filho? — Mais uma pergunta relevante.
Dou de ombros.
— Nunca. — sou sincera.
— Por quê?
E mais uma vez, aquele olhar de não reconhecimento me encara. A expressão de incredulidade, como se eu fosse uma completa estranha. Na verdade eu sou, aprendi a controlar minhas emoções. Não lembro a última vez que perdi o controle sobre elas.
— Não precisamos de você. Na verdade, eu pretendia contar ao Arthur quem era o pai quando ele estivesse com idade suficiente para decidi ir atrás de você ou não. — Mantenho a expressão de tranquilidade.
— O que aconteceu com você? Não parece a Luna que eu conheço. — Fala como se isso fosse uma tragédia.
Assumo uma postura ereta, queixo erguido, olhar feroz. Não, eu não sou mais aquela Luna. A doce e gentil Luna. A complacente Luna. A i****a Luna. A burra que acreditou que o homem a minha frente poderia amá-la se ela o amasse incondicionalmente, sem reservas.
— Tem razão. Você não me conhece. Nunca conheceu. — Respiro fundo, essa conversa está se estendendo demais. — E perdeu a chance de faze-lo quando enfiou a mão na minha cara. — A mágoa na minha voz pelo estopim do nosso término.
Dare desviou o olhar com o que acabei de dizer.
— Luna... sobre aquela noite, eu sinto muito.
— É passado Dare. Foque no presente. — O interrompo. — Não devemos perder tempo falando sobre um relacionamento que não existe mais. O motivo dessa conversa é nosso filho, apenas ele.
— Claro, você tem toda razão. — Ele concorda se remexendo na cadeira. Dare está visivelmente incomodado por eu não está dando brecha para ele falar.
— Sim, eu tenho.
— Posso falar com Arthur? — Pergunta.
Dare está fugindo. A conversa não está indo para o rumo esperado e agora ele está fugindo. Com certeza ele queria que eu me sentisse m*l e pedisse perdão por ter omitido sobre nosso filho. Eu não farei isso. Como já disse e repeti à ele, o passado não pode ser mudado. Isso não significa que não posso ter arrependimentos, aprender com meus erros e não voltar a repeti-los.
Dare
Eu precisava me afastar antes que perdesse o controle. A medida que ela falava eu sentia os socos dados por sua frieza e autocontrole. Luna pode não viver no passado, como eu, mas com certeza ainda carrega mágoas do nosso relacionamento e com toda a razão, eu remoí o que fiz por anos. Ela tudo o que passou para se fortalecer. Luna mudou. Não sei se gosto dessa mudança. Tentei fugir da conversa que estava indo para um rumo que não me agradava e não me favorecia. Ela se inclinou um pouco para frente para mostrar um papel com o cronograma que ela passou a falar depois da última patada. Meus olhos automaticamente se desviaram para o decote da sua blusa, seus s***s fartos sempre foram irresistíveis.
— Dare, não repetirei de novo, então para de encarar meus p****s e foque aqui. — Não foi um pedido.
Faço como ela mandou. Só então percebo os horários e não, eu não concordava com aquilo. Pego o maldito cronograma. Ali indica que posso ver Arthur três vezes durante a semana, sob supervisão. Uma hora é o tempo de cada visita. Um sábado sim e outro não. As ligações também serão restritas a apenas duas durante o dia. Nunca em hipótese alguma posso aparecer na casa dela sem aviso prévio, mesmo em dia de visitas quando serei aguardado.
— Não. — r***o a porcaria do papel. O embolo e o arremesso em seguida na lixeira.
Seu semblante sério e postura altiva não se abalam por nenhum segundo.
— Não vai restringir meu convívio com nosso filho. Isso está fora de cogitação. — falo tentando controlar meu tom de voz.
— Dare, Arthur tem uma rotina, não posso mudá-la por sua causa.
— Eu sou o pai dele — a lembro.
— Infelizmente.
Aí está. A mágoa escondida dando as caras.
— Posso garantir nesse momento estou sentindo o mesmo em relação a você ser a mãe. — Retruco emburrado. — Entretanto, isso não muda o fato de termos que chegar a um acordo sobre a guarda de Arthur. — Vejo Luna oscilar com a menção da guarda.
Um pequeno pavor que logo foi camuflado, mas que, com certeza, abalou a barreira que ela ergueu para lidar comigo. Ah, eu descobri seu calcanhar de Aquiles.
— Só falta dizer que quer a guarda compartilhada. — fala ríspida.
— Sim, eu quero. — Falo ao levantar.
— Dare, você não faria isso. — Sua voz sai trêmula. — Não pode simplesmente aparecer do nada e se impor assim nas nossas vidas.
— Se continuar com esse maldito cronograma, é o que farei.
Sim, eu havia conseguido abalar sua armadura quase impenetrável. Arthur era seu ponto fraco. Minha mente vagou para o momento em que nos reencontramos. Na sua surpresa inicial. Em como rapidamente retomou o controle. Na pergunta que fez ao Arthur sobre me acompanhar até onde a banda estava. Ali, Luna deixou claro que o que importava era o que Arthur queria e nada mais. O bem estar do filho era mais importante que qualquer coisa. Mais importante do que suas mágoas, seus rancores, seus medos e inseguranças. Agora, ela estava tentando retomar o controle da situação, traçando uma linha que não devo ultrapassar.
— Por que não me contou sobre Arthur? — Torno a fazer a pergunta.
Eles não precisavam de mim, eu sei. Mas também sei que há muito mais do que ela está falando.
— Por favor, eu preciso saber a razão de ter privado pai e filho de conviver. Sabe muito bem que não teria deixado vocês na mão, que assumiria os dois.
— Eu sei — ela não está olhando pra mim, seus olhos estão fixos em algum ponto da sala. — Você faria tudo certo. Aposto que me pediria em casamento e eu diria sim, pois você me convenceria que uma criança precisa de uma família. Uma estrutura sólida que lhe concedesse segurança. Eu, tola e apaixonada veria aquilo como uma nova chance para você aprender a me amar. Eu colocaria na cabeça que aquela agressão foi movida a emoções que foi provocada pelo álcool — Luna respira fundo e sinto que é para controlar suas emoções —, e eu justificaria todas as vezes que voltasse a acontecer, por te amar e por Arthur.
— Luna, eu me arrependi no momento que o fiz e acredite em mim, eu jamais voltaria a fazê-lo. Preciso que acredite em mim. — Digo aflito.
Ela não olha pra mim, seus pensamentos estão distantes agora. Só tem uma coisa que Luna está enganada, eu preferia cortar uma mão antes de voltar a tocar nela, no resto, eu tenho quase certeza que seríamos uma família incrível e por isso que a forma como ela externalizou aquilo, não parecia certo.
— Isso seria tão r**m? Construir uma família com o homem que você dizia amar? — Pergunto.
Seu olhar encontra o meu. Automaticamente o desvio. Era difícil enfrentar aqueles olhos quando suas emoções estavam tão explícitas.
— Teria sido a minha destruição, assim como Angelina foi a sua.
Sinto seu olhar sobre mim. Fecho os olhos. A menção do nome de Angelina ainda me machuca.
— Essa conversa já tomou muito do meu tempo. Estamos começando a andar por águas turbulentas.
— Fran, pode descer com Arthur. — A escuto dizer.
Isso me chama a atenção, Luna está segurando o celular com força, olhando para ele, perdida em pensamentos.
— Luna? — A chamo, mas seus olhos não desviam do aparelho.
— Você e Arthur não precisam de apresentação. Por hoje, vocês podem ter o tempo que quiserem. Amanhã meu advogado entrará em contato com o seu para fazer a intermediação sobre a guarda. Adeus, Dare.
Como assim “adeus”? Pelos céus, temos um filho e ela quer envolver advogados nisso?
— Luna? — Lori entra sem bater. — Oh, desculpe, pensei que já haviam acabado.
— Já terminamos, pode nos dar licença? — A mãe do meu filho pergunta sem voltar a me dirigir o olhar.
— Sim.
Passo por Lori e fecho a porta. Sigo para o salão ao encontro de Arthur, pensando que tudo poderia ter sido diferente, se eu tivesse me esforçado um pouco mais. Se não houvesse permitido que os meus sentimentos obsessivos por Angie tomassem conta de mim, ao invés de seguir em frente, pelo menos tentar, com a pessoa que realmente me amou e que agora, me despreza.