Depois que eu e Leon nos despedimos logo após o café da manhã, decidi levar Max para a escola. Eu ainda tinha um bom tempo livre antes de voltar para casa e preparar o almoço, então optei por pegar um táxi.
Durante todo o trajeto, Max não parou de falar um segundo sequer. Comentava animada — e às vezes indignada — sobre a escola, os colegas de classe, os meninos “nojentos e insuportáveis” e algumas meninas nada amigáveis. Entre uma reclamação e outra, surgiu o assunto que parecia ocupar sua mente nos últimos dias: sua festa de quinze anos, que aconteceria dali a um mês.
— Eu queria algo tipo galáxias e planetas… — disse ela, claramente desapontada. — Mas a vovó não deixou.
Ri de leve.
— Ela disse que nossa família pede algo mais elegante — completou, revirando os olhos.
— Bom, acho que sua avó tem um pouco de razão — respondi com um sorriso divertido. — E pelo que você conta dos seus colegas, é melhor não dar munição para piadinhas.
Max suspirou dramaticamente.
— Claro, claro… No aniversário da Talita, ano passado, a mãe dela contratou um palhaço. Ela virou motivo de chacota o ano inteiro. Não quero ser a próxima piada da escola.
— Meu Deus… adolescentes são mesmo tão cruéis assim? — perguntei, fingindo espanto.
— Com certeza, Athena. Todas são. Bom… algumas escapam. Tipo a Cristine. Ela é diferente das outras meninas.
— E vocês são amigas?
— Não… — ela hesitou. — Ela não gosta muito de andar com ninguém.
— Então você pode convidá-la para a sua festa — sugeri. — Quem sabe assim ela não vira sua amiga?
Os olhos de Max brilharam.
— Você acha que ela iria?
— Claro que sim. Por que não iria? Você é incrível, Max. E seria uma amiga incrível também. Só não me abandona depois que fizer novos amigos, combinado?
Ela riu e apertou a ponta do meu nariz.
— Eu nunca te deixaria, Athena.
Em seguida, me abraçou forte.
— Vou convidar a Cristine hoje mesmo!
Sorri, sentindo meu coração aquecer.
Em pouco tempo trabalhando para dona Nora, eu havia criado um carinho enorme por Maxine. Nossa convivência era leve, verdadeira, e eu fazia questão de alegrá-la sempre que podia. Ela era tão nova e já tinha passado por tanta coisa… Assim como Leon. Tudo o que estivesse ao meu alcance, eu faria por eles.
Depois de deixar Max na escola, fui ao mercado comprar algumas coisas que dona Nora havia pedido. Em seguida, voltei direto para a mansão para preparar o almoço. Agora, com mais uma boca para alimentar, eu precisava caprichar ainda mais — principalmente porque Sebastian comia como se o mundo fosse acabar amanhã.
E, claro, nunca economizava nos elogios à minha comida… o que eu tinha quase certeza de que fazia só para provocar Leon.
Assim que entrei na cozinha, dei de cara com a cena mais suspeita possível: Sebastian, agachado, com expressão de culpa, roubando os biscoitos favoritos da Max, parecendo exatamente um ratinho fugitivo em missão secreta.
Cruzei os braços, observando em silêncio.
— Posso saber o que você acha que está fazendo? — perguntei.
Ele congelou no lugar, biscoito na mão, e depois sorriu sem o menor arrependimento.
— Salvando esses biscoitos antes que alguém mais coma.
Revirei os olhos, rindo apesar de tudo.
Aquele homem ainda ia me dar trabalho.
— Sebastian… — repeti, agora com a sobrancelha arqueada. — Aqueles biscoitos são da Max.
Ele levantou devagar, ainda segurando o pacote como se fosse um tesouro roubado, e me lançou um sorriso descarado.
— Técnicamente, eles estavam desprotegidos. Eu só… garanti a segurança deles.
— Garantiu a segurança comendo? — provoquei.
— Pesquisa de qualidade — respondeu, dando uma mordida exageradamente lenta, mantendo o olhar fixo em mim. — Alguém precisa testar antes de servir.
Revirei os olhos, mas não consegui segurar o riso.
— Você é impossível.
— Já ouvi coisa pior — ele disse, se aproximando do balcão. — Muito pior.
A proximidade me pegou desprevenida. Sebastian sempre teve aquele jeito relaxado demais, confiante demais, como se soubesse exatamente o efeito que causava — e usasse isso como arma. Encostou no balcão à minha frente, apoiando os braços, inclinando-se só o suficiente para invadir meu espaço pessoal.
— O que você está fazendo no almoço hoje? — perguntou, casual demais.
— Algo simples — respondi, tentando manter o foco na faca e nos legumes. — E saudável. Para variar.
— Decepcionante — ele suspirou. — Eu estava torcendo por algo que me fizesse esquecer meus problemas.
— Você roubar biscoitos de criança já não faz isso?
Ele riu baixo.
— Só alguns problemas. Outros precisam de… estímulos maiores.
Levantei o olhar no mesmo instante, pronta para responder à altura — mas congelei.
Porque, naquele exato segundo, a porta da cozinha se abriu.
E Leon entrou.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável.
Sebastian ainda estava próximo demais. Eu ainda segurava a faca. O pacote de biscoitos estava aberto sobre o balcão, como uma prova de crime m*l escondida. Leon parou na porta, observando a cena com o maxilar travado e o olhar escuro, passando lentamente de Sebastian para mim.
— Estou interrompendo alguma coisa? — perguntou, a voz controlada demais para ser natural.
Sebastian foi o primeiro a reagir.
— Depende — disse, endireitando-se com um sorriso preguiçoso. — Você costuma interromper roubos de biscoito?
Leon estreitou os olhos.
— Eu costumo interromper o que não me agrada.
— Leon — comecei, rapidamente — ele só estava…
— Comendo os biscoitos da Max — ele completou por mim, sem tirar os olhos de Sebastian.
— Em legítima defesa — Sebastian acrescentou. — Eles iam ficar velhos.
— Impressionante como você sempre encontra uma desculpa — Leon respondeu, cruzando os braços.
O clima mudou. Não era mais brincadeira. Não era só ciúmes — era território.
— Se não se importa — Leon continuou — a cozinha está ocupada.
Sebastian sorriu de lado, pegou mais um biscoito e deu de ombros.
— Claro. Não quero causar problemas… agora.
Antes de sair, ele passou por mim e murmurou baixo, perto demais do meu ouvido:
— A conversa fica pra depois, Athena.
Meu estômago deu um leve nó.
Quando ele saiu, o silêncio voltou — dessa vez mais pesado.
Leon fechou a porta com calma excessiva e se virou para mim.
— Desde quando ele anda tão… confortável aqui?
Engoli em seco.
— Desde que você decidiu aparecer bem na hora errada.
Os olhos dele brilharam com algo entre irritação e algo muito mais perigoso.
— Errada pra quem?