Capítulo 1 - A Chegada
— Então, Srta. Sinclair, já tinha vindo a Nova York antes? — perguntou Victor, o motorista, lançando-me um breve olhar pelo espelho retrovisor.
Neguei com um sorriso. — Não, é minha primeira vez aqui. — respondi animada.
Victor era jovem, talvez da minha idade. Alto, com cabelos castanhos e olhos escuros como a noite. Mesmo vestindo um terno elegante, era impossível não notar o porte atlético, o corpo bem definido sob o tecido. Ele trabalhava para a família Lebeau — uma das mais influentes e ricas de Nova York —, que agora, curiosamente, seriam os meus novos patrões.
Seguíamos por uma estrada ladeada por árvores. O chão estava coberto de folhas úmidas, e o céu cinzento anunciava chuva. Apesar de estarmos em Nova York, a mansão dos Lebeau ficava afastada do centro, cercada por uma natureza densa e silenciosa. A família prezava por privacidade — e com razão. O nome Lebeau Enterprises estampava constantemente as capas de revistas e jornais como uma das empresas mais lucrativas do país. No entanto, curiosamente, nunca se ouvia um escândalo sequer sobre eles. Eram discretos, quase misteriosos.
— Olha ali — disse Victor, apontando pela janela. — É a praia particular da família. No verão, fica ainda mais bonita.
Segui seu olhar. A paisagem parecia tirada de um quadro: o mar batia em ondas pesadas e cinzentas, o céu se misturava ao horizonte em tons azul-acinzentados e relâmpagos cortavam as nuvens ao longe.
— Espero que sim. — sorri. — Adoraria ter um lugar assim para correr.
— Há quanto tempo trabalha para os Lebeau, Victor?
Ele ajeitou o volante antes de responder:
— Minha família serve os Lebeau há gerações. Meu pai era motorista do Sr. August Lebeau. Quando ele faleceu, meu pai resolveu se aposentar — já estava cansado — e eu assumi o cargo.
A maioria dos funcionários está lá há muitos anos. Somos poucos, mas fiéis: dois seguranças, Luiz e Juan; a empregada Liz; eu, o motorista; e agora você, a nova chefe de cozinha. — Ele me olhou de soslaio e sorriu. — Nossas casas ficam próximas, mas ninguém mora na mansão, só você.
— Então você conhece todos eles?
— Claro.
— E quem mora na casa? — perguntei curiosa. — Sei que a Sra. Nora me contratou e que ela é a dona da casa. Mas vive sozinha, desde que o marido faleceu?
Victor balançou a cabeça.
— Não, os netos moram com ela. Desde que os pais deles morreram em um acidente de carro.
Senti o peito apertar. — Que triste... A Sra. Nora perdeu tanta gente.
— É verdade. Mas ainda tem os netos. São quatro ao todo. Dois moram com ela — Sebastian e Samantha, gêmeos de vinte e sete anos, filhos da filha mais velha, Anaïs. Os outros dois, Leon e Maxine, são filhos da filha mais nova, que também faleceu. Leon tem trinta e dois e Maxine, catorze.
— Entendi... — murmurei. — E confesso que estou um pouco nervosa.
Victor riu baixinho. — Relaxe. Eles vão adorar você. Principalmente a Max. Vai ser bom pra ela ter uma mulher mais nova por perto. É um pouco rebelde, mas de um jeito bom.
— Espero que sim. — dei um sorriso tímido.
Ele então perguntou:
— E você, Athena? Qual é a sua história?
— Bem... — comecei, observando as gotas de chuva escorrendo pelo vidro. — Cresci no Oregon, criada pelos meus avós. Meus pais morreram quando eu era muito nova. Minha família é simples: meu avô tem uma pequena empresa de correios e minha avó é dona de uma confeitaria. Acho que é daí que vem meu amor pela cozinha.
Eles sempre fizeram o possível para me dar uma boa educação. Estudei Gastronomia, fiz vários cursos e, enquanto estudava, trabalhava em um restaurante muito conhecido na cidade. O dono, Lucius, foi como um pai pra mim. Ele me ensinou quase tudo o que sei — e foi ele quem conseguiu essa vaga com os Lebeau. Disse que trabalhar para uma família como essa seria uma grande oportunidade.
Victor me olhou pelo espelho novamente, e o olhar dele fez meu estômago dar um nó.
Ei, ei, borboletinhas, nada de frio na barriga... — pensei. — Você está aqui pra trabalhar, não pra se distrair. Lembra da última vez, Athena?
— Bom... — disse, tentando disfarçar o rubor. — Acho que teremos muito tempo pra conversar. Tenho certeza de que seremos bons amigos.
— Claro. — Ele sorriu. — E falando nisso, estamos quase chegando.
Quando levantei os olhos, fiquei sem ar.
Diante de nós, erguia-se uma mansão imensa, iluminada por dezenas de janelas de vidro. Era elegante, moderna, e parecia respirar poder.
— É enorme! — exclamei.
— Você ainda não viu nada. — Victor riu. — São vinte quartos, todos suítes, além de biblioteca, sala de jogos, cinema... E há uma casa ao lado da piscina, onde você vai ficar.
Ele estacionou o carro e, gentilmente, me ajudou com as malas. Subimos as escadas da entrada, e quando a porta se abriu, quase perdi o fôlego.
O interior era ainda mais grandioso. Lustres de cristal, piso de mármore, uma lareira acesa ao fundo — tudo parecia saído de um sonho.
Sentada em um dos sofás estava uma senhora de cabelos grisalhos curtos e olhos azuis luminosos. Pequena, mas imponente. Apesar da idade, exalava vitalidade e elegância. Quando nos viu, levantou-se com um sorriso acolhedor.
— Athena, minha querida! Seja muito bem-vinda! — disse ela, me abraçando com entusiasmo. — Espero que tenha feito boa viagem. Estávamos ansiosos pela sua chegada.
— O prazer é meu, Sra. Nora. — respondi, retribuindo o abraço. — A viagem foi ótima, e Victor me recebeu muito bem. — Olhei para ele e sorri.
— Que bom! — ela respondeu satisfeita. — Victor vai mostrar o quarto onde vai ficar. Descanse um pouco antes do jantar. Estou ansiosa para provar seus pratos — o chef Lucius falou muito bem de você.
— Fico honrada. A senhora gostaria de algo específico para o jantar?
— Apenas me surpreenda, querida. — Ela piscou com um ar divertido. — Pedirei que Liz a ajude na cozinha, assim você encontrará tudo com facilidade. Agora vá se acomodar.
Seguimos por um corredor envidraçado até os fundos da mansão, onde uma enorme piscina refletia o céu nublado. Do outro lado, havia uma charmosa casa de hóspedes.
O interior era acolhedor. Logo na entrada, uma sala com equipamentos de mergulho e armários cheios de toalhas. Um corredor conduzia a dois quartos e, ao final, uma pequena academia com vista para a floresta.
Meu quarto era simples, mas perfeito: uma cama king-size, uma penteadeira com espelho, um closet pequeno e um banheiro com banheira.
Era mais do que eu esperava.
Victor deixou minhas malas e se despediu com um sorriso.
Fiquei ali por alguns segundos, em silêncio, respirando fundo, tentando processar tudo.
A chuva caía lá fora, suave, e eu não conseguia evitar o pensamento que atravessou minha mente:
A partir de hoje, minha vida está prestes a mudar.
Depois