Capítulo 16 — Biscoitos, Provocações e o Momento Errado

1082 Words
Leon não levantou a voz. E isso, de alguma forma, era ainda pior. — Errada pra quem? — repetiu, aproximando-se devagar. A cozinha parecia menor. O ar mais pesado. Apoiei a faca sobre a pia e me virei completamente para ele, cruzando os braços num gesto automático de defesa. — Leon, não começa. — Eu não comecei nada — ele rebateu, parando a poucos passos de mim. — Eu cheguei. E encontrei Sebastian praticamente dentro do seu espaço pessoal. — Ele estava roubando biscoitos. — Ele estava provocando você — corrigiu, o maxilar tenso. — E você deixou. Aquilo me atingiu mais do que eu esperava. — Eu não “deixo” nada, Leon. Eu sei me virar sozinha. — Eu sei — ele respondeu, mais baixo agora. — Mas isso não significa que eu goste. O silêncio voltou a se instalar, carregado. Eu conseguia ver nos olhos dele que não era só sobre Sebastian. Nunca era só sobre ele. — Desde quando isso te incomoda tanto? — perguntei, dando um passo à frente. — Você confia em mim ou não? Leon respirou fundo, passando a mão pelos cabelos como se estivesse lutando contra algo dentro dele. — Não é falta de confiança. É… — ele parou, procurando as palavras. — É o jeito que ele te olha. Meu coração acelerou. — E como ele me olha? Leon riu sem humor. — Como se estivesse esperando uma brecha. — E você acha que eu daria? Ele me encarou por longos segundos, os olhos descendo rapidamente pelo meu rosto, meus lábios, como se estivesse tentando se convencer de algo. — Não — disse, por fim. — Mas eu odeio a ideia de alguém sequer achar que pode tentar. Aquilo fez algo dentro de mim amolecer… e se irritar ao mesmo tempo. — Você não pode controlar o mundo inteiro, Leon. — Eu sei — ele murmurou, se aproximando mais um pouco. — Mas posso proteger o que é meu. Engoli em seco. — E eu sou o quê, exatamente? A pergunta pairou entre nós como um desafio. Leon levou a mão até meu rosto, mas parou a centímetros da minha pele, hesitando. — Você é a única coisa que me tira do controle — disse, a voz rouca. — E isso me assusta pra c*****o. Meu coração quase saiu pela boca. — Então não descarrega isso em mim — sussurrei. — Conversa comigo. Confia em mim. Ele fechou os olhos por um instante, encostando a testa na minha, respirando fundo, como se estivesse tentando se acalmar ali mesmo. — Me promete uma coisa? — pediu. — O quê? — Que se alguém cruzar a linha com você… você me conta antes de eu ter que descobrir entrando numa cozinha. Sorri de leve, apesar da tensão. — Prometo. Leon finalmente tocou meu rosto, o polegar deslizando pela minha bochecha com cuidado demais para alguém tão intenso. — Porque da próxima vez — ele murmurou — eu não garanto que vou ser tão civilizado. Leon voltou do escritório no meio da tarde, o paletó jogado no ombro e aquele olhar cansado que eu já reconhecia de longe. Assim que me viu na sala, algo nele mudou — como se o mundo lá fora tivesse ficado do lado de fora da porta. — Você chegou cedo — falei, largando o pano de prato. — Eu precisava — respondeu, vindo direto até mim. Não houve pressa. Nem palavras demais. Leon segurou minha cintura com firmeza e me puxou para perto, a testa encostando na minha. — O dia foi um inferno — murmurou. — Mas agora tá melhor. — Então fica — sussurrei. Ele sorriu de lado antes de me beijar. Um beijo lento, profundo, daqueles que não pedem permissão. Minhas mãos subiram pelo peito dele enquanto Leon me encostava na parede, sem força, só presença. O tipo de i********e que não precisa tirar roupa para incendiar tudo. — Você me desmonta, Athena — disse contra meus lábios. — E nem imagina o quanto. Eu ia responder quando ouvimos a porta da frente bater. — CHEGUEI! — a voz animada de Maxine ecoou pela casa. Leon riu baixo, encostando a testa no meu pescoço. — Depois a gente continua. — Promessa? — provoquei. — Ameaça — corrigiu, piscando. Max entrou na sala como um furacão, a mochila quase caindo do ombro. — ATHENAAA! — ela praticamente pulou em cima de mim. — A Cristine aceitou ir na minha festa! — SÉRIO? — comemorei junto com ela. — Eu falei que ela ia aceitar! — Ela até sorriu! — disse empolgada. — Tipo… pouco, mas sorriu! — Isso é um evento histórico — comentou Leon, divertido. — Onde está Sebastian? — Max perguntou. — Roubando comida em algum lugar — respondi. — FUI INVOCADO PELO MEU NOME? — Sebastian apareceu na porta da cozinha. — Isso é perigoso. — A Cristine vai na minha festa! — Max anunciou. — Olha só… a anti-social vai sair da caverna — ele comentou, fingindo emoção. — Estou orgulhoso. — Sebastian! — Max reclamou, mas rindo. — Ok, ok. Isso merece comemoração. Athena, café? — Já ia fazer — respondi. — Fofoquinha da tarde oficialmente aberta. Enquanto eu preparava o café, os três conversavam na mesa, rindo, o clima leve, familiar. Aquilo me aqueceu o peito. Por um momento, parecia… perfeito demais. Até a campainha tocar. O som cortou o ar. — Você está esperando alguém? — perguntei a Leon. Ele franziu a testa. — Não. Sebastian levantou. — Eu atendo. Alguns segundos depois, o silêncio ficou estranho. Pesado. — Leon… — Sebastian chamou, a voz diferente. — Acho melhor você vir aqui. Leon se levantou devagar. Eu fui atrás, sentindo um frio estranho no estômago. Na porta estava uma mulher alta, elegante, cabelos escuros perfeitamente arrumados, salto fino e um olhar afiado que varreu a casa… e parou em mim. — Leon — ela disse, com um sorriso ensaiado demais. — Precisamos conversar. Meu coração disparou. — Lídia… — Leon murmurou, tenso. Eu congelei. Sebastian ficou imóvel, claramente sem saber se fugia, interferia ou fingia que não existia. — Você não atende minhas ligações — Lídia continuou, cruzando os braços. — Então resolvi vir pessoalmente. Ela voltou o olhar para mim, me analisando sem pudor. — E você deve ser…? O silêncio ficou ensurdecedor. Leon respirou fundo. — Lídia, essa não é uma boa hora. — Pelo visto — ela disse, com um sorriso frio — é exatamente a hora perfeita.
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