Ponto de vista de Leon
Fechei a porta do escritório atrás de nós e indiquei a cadeira à frente da minha mesa.
— Seja rápida, Lídia — falei, mantendo a voz firme.
Ela não se sentou.
Em vez disso, caminhou lentamente pelo escritório, passando os dedos pelos móveis, observando cada detalhe como se aquele lugar ainda lhe pertencesse. Usava um vestido justo demais para alguém que dizia querer apenas conversar, e o sorriso nos lábios era calculado.
— Você continua o mesmo, Leon… frio, distante — disse, aproximando-se. — Mas eu lembro muito bem de como você era comigo.
Antes que eu pudesse reagir, ela encostou o corpo no meu, as mãos deslizando pelo meu peito. O perfume era familiar… e completamente indigesto.
Segurei seus pulsos com firmeza e a afastei.
— Não faça isso — falei em tom baixo, porém duro. — Não encosta em mim.
Lídia me encarou por alguns segundos, surpresa. Depois, soltou uma risada curta e sem humor.
— Claro… — murmurou. — Já imaginei que isso não funcionaria.
Ela se afastou, finalmente desistindo da encenação, e se jogou na cadeira à minha frente.
— Então vamos ao que interessa — disse, cruzando as pernas. — Eu preciso de um favor seu. Um último favor.
Cruzei os braços.
— Você atravessou um oceano pra isso?
Ela suspirou, como se estivesse cansada demais para continuar fingindo.
— Eu gastei tudo, Leon.
Franzi a testa.
— Como assim, tudo?
— Tudo — repetiu. — Viagens, compras, festas… contratos que não deram certo. Meu banco bloqueou minha conta esta semana. Eu estou praticamente sem nada.
Fiquei em silêncio, apenas observando.
— E então surgiu esse trabalho — continuou. — Uma campanha grande. Muito dinheiro envolvido. A agência… a sua agência.
Claro. Agora tudo fazia sentido.
— Você quer um contrato — concluí.
— Quero mais do que isso — ela respondeu, erguendo o olhar para mim. — Eu preciso de um lugar para ficar. Só até essa campanha acabar. Não tenho onde morar agora, Leon.
A resposta saiu antes mesmo que eu pensasse.
— Não.
Ela respirou fundo, como se já esperasse aquilo.
— Pensei que diria isso — murmurou. — Mas eu ainda não terminei.
Lídia se inclinou sobre a mesa, o olhar afiado.
— Se você me ajudar… se me deixar ficar aqui até o fim do trabalho… eu assino o divórcio.
Meu coração deu um tranco.
— O quê? — perguntei, sentindo o ar ficar pesado.
— Você ouviu — disse ela, satisfeita. — Nada de sumiços, nada de enrolação. Eu assino tudo. Você fica livre.
Livre.
A palavra ecoou na minha mente.
Livre para assumir Athena.
Livre para parar de me esconder.
Livre daquele passado que me perseguia há anos.
— Tudo o que você sempre quis — completou Lídia, com um sorriso vitorioso. — A liberdade que te impede de seguir em frente.
Apertei os dentes.
— E você acha mesmo que pode me chantagear assim?
— Não é chantagem — respondeu calmamente. — É uma troca.
Levantei-me devagar, apoiando as mãos na mesa.
— Você sempre soube exatamente onde tocar, não é? — falei, com a voz carregada de raiva. — Sempre usou o que eu sentia para conseguir o que queria.
Ela deu de ombros.
— Funcionou antes.
Olhei pela janela por alguns segundos, tentando organizar o caos dentro de mim. A imagem de Athena veio à minha mente imediatamente. O sorriso dela, o jeito como me olhava… o que eu poderia perder se tomasse a decisão errada.
— Eu vou pensar — falei por fim, sem encará-la.
Lídia sorriu, satisfeita.
— Pense com carinho, Leon. Porque, goste ou não, eu sou a única coisa entre você e a vida que você quer agora.
Ela se levantou e caminhou até a porta.
— Te dou dois dias — disse antes de sair. — Depois disso, eu faço do meu jeito.
A porta se fechou, e eu fiquei ali, sozinho, com uma proposta que podia me libertar…
ou destruir tudo o que eu estava começando a amar.
Encontrei Sebastian na área da piscina, sentado na espreguiçadeira, mexendo distraído na câmera como se ajustasse algo que claramente não precisava de ajuste nenhum. Ele levantou os olhos assim que me viu e largou o equipamento de lado.
— Pela sua cara, ou alguém morreu… ou você viu a Lídia — disse, seco.
— As duas coisas parecem a mesma coisa hoje — respondi, sentando ao lado dele e passando a mão pelo rosto.
Sebastian soltou uma risada curta, sem humor.
— Então ela apareceu mesmo.
Assenti.
— E veio com uma proposta.
— Claro que veio — ele bufou. — Aquela mulher nunca aparece sem segundas intenções. O que ela quer agora? Dinheiro? Casa? Drama?
— Tudo isso — falei. — E mais um pouco.
Ele me encarou, atento.
— Ela está quebrada, Sen. Sem dinheiro, sem casa. Conseguiu um trabalho na agência… minha agência. Quer ficar aqui até a campanha acabar.
Sebastian se sentou direito.
— Você disse não, né?
— Disse — respondi. — Mas ela jogou a carta final.
— Divórcio — ele completou, antes mesmo que eu terminasse.
Fechei os olhos por um segundo.
— Se eu ajudar, ela assina.
Sebastian soltou um assobio baixo.
— Filha da mãe… ela sabe exatamente onde enfiar a faca.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, só o barulho da água da piscina preenchendo o espaço.
— E a Athena? — ele perguntou, por fim.
Meu peito apertou.
— É exatamente por isso que estou aqui.
Sebastian cruzou os braços.
— Leon… você não pode esconder isso dela.
— Eu sei — falei rápido. — Eu não vou esconder.
Ele arqueou a sobrancelha, surpreso.
— Vai contar tudo?
— Vou — respondi, decidido. — Mas com limites.
— Que tipo de limites?
Respirei fundo.
— A Athena precisa saber quem a Lídia é, o passado, o casamento, a chantagem… tudo. Mas ela não pode saber que nós estamos juntos.
Sebastian franziu a testa.
— Você tá de s*******m?
— Escuta — falei, me inclinando para frente. — Se a Lídia souber da Athena, ela vai usar isso. Vai ameaçar escândalo, imprensa, fofoca… qualquer coisa pra me atingir. E, pior, pra machucar a Athena.
Sebastian ficou em silêncio, digerindo.
— Então você quer proteger a Athena… escondendo a Athena.
— Temporariamente — corrigi. — Até o divórcio estar assinado. Até a Lídia ir embora de vez.
Ele me encarou por longos segundos, depois suspirou.
— Você sabe que isso pode dar muito errado, né?
— Sei — respondi sem hesitar. — Mas esconder tudo dela seria ainda pior.
Sebastian passou a mão pelos cabelos.
— A Athena não é burra, Leon. Ela sente quando tem algo errado.
— Justamente por isso eu vou contar — falei. — Não quero que ela descubra da pior forma.
— E se ela não aceitar?
Meu coração deu um aperto.
— Então eu vou ter que lidar com isso — disse, com a voz baixa. — Prefiro perder a Lídia de vez do que perder a confiança da Athena.
Sebastian me observou com atenção… e então sorriu de canto.
— Olha só… o grande Leon Lebeau finalmente aprendendo a fazer a coisa certa.
Revirei os olhos.
— Não brinca com isso.
— Não tô brincando — ele respondeu, sério agora. — Só… tenta não quebrar o coração dela. Aquela garota não merece ser jogada nesse jogo sujo da Lídia.
— Eu sei — murmurei. — Por isso preciso fazer do jeito certo.
Levantei-me.
— Vou falar com ela hoje.
Sebastian assentiu.
— E se a Lídia desconfiar?
— Ela não pode saber de nós — repeti. — Athena vai ter que fingir distância. Por um tempo.
Sebastian soltou uma risada curta.
— Isso vai ser um inferno.
— Vai — concordei. — Mas é o único caminho pra terminar essa história de uma vez por todas.
E, pela primeira vez desde que Lídia apareceu, eu tinha certeza de uma coisa:
Eu não estava disposto a perder Athena…
nem que tivesse que enfrentar meu passado inteiro pra isso.