Capítulo 19 — Jogo de Aparências

1210 Words
Ponto de vista de Athena Eu sabia. Não exatamente o quê, mas sabia que algo estava errado desde o momento em que Lídia entrou naquela casa. O ar mudou. Leon mudou. E agora ele estava ali, parado à minha frente, sério demais para alguém que normalmente me olhava como se eu fosse o lugar mais seguro do mundo. — Athena… — ele começou, passando a mão pelos cabelos. — A gente precisa conversar. Meu estômago se apertou. — Sobre a Lídia — completei. Ele assentiu devagar. Leon me puxou para sentar no sofá, mas não tentou me tocar. Aquilo doeu mais do que se ele tivesse se afastado de vez. — Eu devia ter te contado antes — disse, a voz baixa. — E eu sinto muito por isso. Respirei fundo, tentando manter o controle. — Começa do começo, Leon. Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse se preparando para um impacto. — Eu ainda sou casado. As palavras caíram como um soco seco no peito. — No papel — ele se apressou. — Só no papel. A Lídia foi embora há anos. Abandonou tudo, inclusive o casamento. Eu tentei o divórcio… várias vezes. Ela nunca assinou. Engoli em seco. — Então ela… voltou agora por quê? — Porque está sem dinheiro — respondeu, sem rodeios. — Gastou tudo. E apareceu um trabalho na minha agência. Ela quer ficar aqui até a campanha acabar. Meu coração acelerou. — Aqui… nessa casa? — Sim — ele confirmou. — E ela só aceita assinar o divórcio se eu ajudar. O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu senti algo dentro de mim rachar — não quebrar, mas rachar. — Você vai aceitar? — perguntei, a voz falhando apesar do esforço. Leon se inclinou para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. — Eu quero minha liberdade, Athena. Quero encerrar esse capítulo da minha vida. Quero… você. Olhei para ele, sentindo os olhos arderem. — Então por que você está com medo de me contar isso? Ele levantou o rosto, os olhos cheios de algo que eu raramente via nele: medo. — Porque a Lídia é capaz de qualquer coisa — disse. — E se ela souber de nós… ela vai usar isso contra mim. Contra você. Meu coração apertou. — Contra mim como? — Escândalo, chantagem, exposição — respondeu. — Ela vive disso. Eu não suportaria ver você no meio desse caos. Levantei do sofá, andando de um lado para o outro. — Então a solução é fingir que eu não existo? — Não — ele se levantou também, aproximando-se com cuidado. — A solução é te proteger. Por um tempo. Até o divórcio sair. Até ela ir embora de vez. Virei-me para ele, sentindo lágrimas escaparem apesar da minha tentativa de contê-las. — Leon… isso dói. Ele fechou os olhos quando uma lágrima caiu do meu rosto. — Eu sei — murmurou. — Dói em mim também. — Eu não sou uma criança — falei, firme. — Eu posso decidir se quero enfrentar isso com você. Ele tocou meu rosto com cuidado, como se tivesse medo de me quebrar. — Justamente por isso eu estou sendo honesto agora — disse. — Eu não quero que você descubra sozinha. Não quero te perder por uma mentira. Segurei o pulso dele. — Você devia ter me contado antes — falei, sincera. — Mas… eu entendo o medo. Leon me puxou para perto, a testa encostada na minha. — Eu amo você, Athena — confessou, finalmente, a voz embargada. — E isso é a única coisa que me dá coragem de enfrentar a Lídia de vez. Meu peito se apertou com aquelas palavras. — Então vamos fazer direito — respondi, respirando fundo. — Sem mentiras entre nós. Mesmo que o mundo lá fora precise esperar. Ele assentiu, me abraçando com força. — Eu prometo. E, naquele momento, eu soube: o passado dele era complicado… mas o que nós tínhamos era real demais para ser ignorado. Lídia chegou como se a casa ainda fosse dela. Saltos firmes no chão, óculos escuros mesmo dentro da sala e um sorriso calculado demais para ser sincero. Eu estava ajudando Max com a lição quando ouvi o som da porta se abrindo e, no instante seguinte, senti aquele arrepio estranho — o tipo que avisa que problemas acabaram de entrar. — Então você é a… cozinheira — disse Lídia, me analisando de cima a baixo como se eu fosse um objeto fora do lugar. Sorri por educação. Forçada, mas educação. — Sou a Athena — respondi. — Prazer. — Hm — ela murmurou, tirando os óculos lentamente. — Leon tem gostos curiosos ultimamente. Max, ao meu lado, ficou imediatamente rígida. — Ela não é “a cozinheira” — disparou Max, cruzando os braços. — Ela é a Athena. E é muito melhor do que você. O silêncio caiu como uma bomba. — Maxine — adverti, colocando a mão em seu ombro. — Vem comigo. Antes que Lídia pudesse responder, puxei Max comigo para fora da sala. Fomos para o jardim lateral, onde o ar parecia menos pesado. — Você não pode falar assim com ela — falei, ajoelhando à frente de Max. — Posso sim — respondeu, emburrada. — Eu não gosto dela. E ela foi grossa com você. Suspirei. — Às vezes, adultos são complicados. Max me encarou com atenção, como se estivesse prestes a fazer uma pergunta importante. — Você gosta do meu irmão, né? Congelei. Olhei em volta, certifiquei-me de que estávamos sozinhas, então sorri de canto. — Gosto — admiti. — Muito. Os olhos dela brilharam. — EU SABIA! — sussurrou animada. — E ele gosta de você também. Eu vejo como ele te olha. Ri baixinho. — Isso fica entre nós, combinado? — Combinadíssimo — disse ela, fazendo um gesto de zíper na boca. — E eu vou ajudar vocês contra a Lídia. Ela é falsa. — Max! — reprimi, rindo. — Mas… obrigada. Voltamos para dentro de mãos dadas. Mais tarde, decidi preparar um jantar caprichado. Se Lídia ia ficar ali, eu não ia perder minha elegância. A mesa estava posta, a comida cheirosa, e o clima… tenso. — Nossa — comentou Lídia, provando um pouco da comida. — Para alguém sem formação adequada, você até que cozinha bem. Sebastian engasgou com a água. — Sem formação? — ele perguntou, erguendo a sobrancelha. — Athena é formada em gastronomia. E, sinceramente, cozinha melhor do que qualquer restaurante cinco estrelas que eu conheço. — Sebastian — murmurei, tentando conter. — O quê? Só estou dizendo a verdade — ele sorriu, provocador. Leon permaneceu em silêncio. Eu sentia o esforço dele para não se meter, mas seus olhos estavam fixos em Sebastian… e em mim. — Você parece muito próximo dela — disse Lídia, com um sorriso venenoso. — Sou próximo de pessoas incríveis — respondeu Sebastian, erguendo o copo. — E você devia tentar ser uma delas. Leon apertou o maxilar. O ciúme era quase palpável. Max, do meu lado, segurava o riso. O jantar seguiu naquele equilíbrio estranho entre farpas e olhares silenciosos. Eu sabia: aquilo era só o começo. Mas uma coisa estava clara — eu não estava sozinha. E Lídia ainda não fazia ideia contra quem estava jogando.
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