Ponto de vista de Athena
Eu sabia.
Não exatamente o quê, mas sabia que algo estava errado desde o momento em que Lídia entrou naquela casa. O ar mudou. Leon mudou. E agora ele estava ali, parado à minha frente, sério demais para alguém que normalmente me olhava como se eu fosse o lugar mais seguro do mundo.
— Athena… — ele começou, passando a mão pelos cabelos. — A gente precisa conversar.
Meu estômago se apertou.
— Sobre a Lídia — completei.
Ele assentiu devagar.
Leon me puxou para sentar no sofá, mas não tentou me tocar. Aquilo doeu mais do que se ele tivesse se afastado de vez.
— Eu devia ter te contado antes — disse, a voz baixa. — E eu sinto muito por isso.
Respirei fundo, tentando manter o controle.
— Começa do começo, Leon.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse se preparando para um impacto.
— Eu ainda sou casado.
As palavras caíram como um soco seco no peito.
— No papel — ele se apressou. — Só no papel. A Lídia foi embora há anos. Abandonou tudo, inclusive o casamento. Eu tentei o divórcio… várias vezes. Ela nunca assinou.
Engoli em seco.
— Então ela… voltou agora por quê?
— Porque está sem dinheiro — respondeu, sem rodeios. — Gastou tudo. E apareceu um trabalho na minha agência. Ela quer ficar aqui até a campanha acabar.
Meu coração acelerou.
— Aqui… nessa casa?
— Sim — ele confirmou. — E ela só aceita assinar o divórcio se eu ajudar.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu senti algo dentro de mim rachar — não quebrar, mas rachar.
— Você vai aceitar? — perguntei, a voz falhando apesar do esforço.
Leon se inclinou para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Eu quero minha liberdade, Athena. Quero encerrar esse capítulo da minha vida. Quero… você.
Olhei para ele, sentindo os olhos arderem.
— Então por que você está com medo de me contar isso?
Ele levantou o rosto, os olhos cheios de algo que eu raramente via nele: medo.
— Porque a Lídia é capaz de qualquer coisa — disse. — E se ela souber de nós… ela vai usar isso contra mim. Contra você.
Meu coração apertou.
— Contra mim como?
— Escândalo, chantagem, exposição — respondeu. — Ela vive disso. Eu não suportaria ver você no meio desse caos.
Levantei do sofá, andando de um lado para o outro.
— Então a solução é fingir que eu não existo?
— Não — ele se levantou também, aproximando-se com cuidado. — A solução é te proteger. Por um tempo. Até o divórcio sair. Até ela ir embora de vez.
Virei-me para ele, sentindo lágrimas escaparem apesar da minha tentativa de contê-las.
— Leon… isso dói.
Ele fechou os olhos quando uma lágrima caiu do meu rosto.
— Eu sei — murmurou. — Dói em mim também.
— Eu não sou uma criança — falei, firme. — Eu posso decidir se quero enfrentar isso com você.
Ele tocou meu rosto com cuidado, como se tivesse medo de me quebrar.
— Justamente por isso eu estou sendo honesto agora — disse. — Eu não quero que você descubra sozinha. Não quero te perder por uma mentira.
Segurei o pulso dele.
— Você devia ter me contado antes — falei, sincera. — Mas… eu entendo o medo.
Leon me puxou para perto, a testa encostada na minha.
— Eu amo você, Athena — confessou, finalmente, a voz embargada. — E isso é a única coisa que me dá coragem de enfrentar a Lídia de vez.
Meu peito se apertou com aquelas palavras.
— Então vamos fazer direito — respondi, respirando fundo. — Sem mentiras entre nós. Mesmo que o mundo lá fora precise esperar.
Ele assentiu, me abraçando com força.
— Eu prometo.
E, naquele momento, eu soube:
o passado dele era complicado…
mas o que nós tínhamos era real demais para ser ignorado.
Lídia chegou como se a casa ainda fosse dela.
Saltos firmes no chão, óculos escuros mesmo dentro da sala e um sorriso calculado demais para ser sincero. Eu estava ajudando Max com a lição quando ouvi o som da porta se abrindo e, no instante seguinte, senti aquele arrepio estranho — o tipo que avisa que problemas acabaram de entrar.
— Então você é a… cozinheira — disse Lídia, me analisando de cima a baixo como se eu fosse um objeto fora do lugar.
Sorri por educação. Forçada, mas educação.
— Sou a Athena — respondi. — Prazer.
— Hm — ela murmurou, tirando os óculos lentamente. — Leon tem gostos curiosos ultimamente.
Max, ao meu lado, ficou imediatamente rígida.
— Ela não é “a cozinheira” — disparou Max, cruzando os braços. — Ela é a Athena. E é muito melhor do que você.
O silêncio caiu como uma bomba.
— Maxine — adverti, colocando a mão em seu ombro. — Vem comigo.
Antes que Lídia pudesse responder, puxei Max comigo para fora da sala. Fomos para o jardim lateral, onde o ar parecia menos pesado.
— Você não pode falar assim com ela — falei, ajoelhando à frente de Max.
— Posso sim — respondeu, emburrada. — Eu não gosto dela. E ela foi grossa com você.
Suspirei.
— Às vezes, adultos são complicados.
Max me encarou com atenção, como se estivesse prestes a fazer uma pergunta importante.
— Você gosta do meu irmão, né?
Congelei.
Olhei em volta, certifiquei-me de que estávamos sozinhas, então sorri de canto.
— Gosto — admiti. — Muito.
Os olhos dela brilharam.
— EU SABIA! — sussurrou animada. — E ele gosta de você também. Eu vejo como ele te olha.
Ri baixinho.
— Isso fica entre nós, combinado?
— Combinadíssimo — disse ela, fazendo um gesto de zíper na boca. — E eu vou ajudar vocês contra a Lídia. Ela é falsa.
— Max! — reprimi, rindo. — Mas… obrigada.
Voltamos para dentro de mãos dadas.
Mais tarde, decidi preparar um jantar caprichado. Se Lídia ia ficar ali, eu não ia perder minha elegância. A mesa estava posta, a comida cheirosa, e o clima… tenso.
— Nossa — comentou Lídia, provando um pouco da comida. — Para alguém sem formação adequada, você até que cozinha bem.
Sebastian engasgou com a água.
— Sem formação? — ele perguntou, erguendo a sobrancelha. — Athena é formada em gastronomia. E, sinceramente, cozinha melhor do que qualquer restaurante cinco estrelas que eu conheço.
— Sebastian — murmurei, tentando conter.
— O quê? Só estou dizendo a verdade — ele sorriu, provocador.
Leon permaneceu em silêncio. Eu sentia o esforço dele para não se meter, mas seus olhos estavam fixos em Sebastian… e em mim.
— Você parece muito próximo dela — disse Lídia, com um sorriso venenoso.
— Sou próximo de pessoas incríveis — respondeu Sebastian, erguendo o copo. — E você devia tentar ser uma delas.
Leon apertou o maxilar. O ciúme era quase palpável.
Max, do meu lado, segurava o riso.
O jantar seguiu naquele equilíbrio estranho entre farpas e olhares silenciosos. Eu sabia: aquilo era só o começo.
Mas uma coisa estava clara —
eu não estava sozinha.
E Lídia ainda não fazia ideia contra quem estava jogando.