Eu já tinha entrado em uma rotina quase automática. Acordava cedo, preparava o café, ajudava Max a se arrumar e ia com Victor levá-la para a escola. Eu e ele passávamos bastante tempo juntos. Depois de deixá-la, quase sempre íamos tomar sorvete — virou tradição. Victor me levava às confeitarias favoritas dele, e nós sempre experimentávamos um doce diferente, como se fosse uma missão pessoal encontrar o melhor de Nova York.
Numa sexta-feira, depois de deixar Max na escola, Victor sugeriu algo diferente.
— Que tal conhecer o New York Aquarium hoje?
Eu aceitei na hora. O passeio foi lindo. Victor parecia uma criança animada, me explicava tudo com entusiasmo, e, vez ou outra, eu percebia que ele me observava mais do que os peixes.
— O que foi, Victor? — perguntei rindo, um pouco sem graça. — Por que você fica me olhando assim?
— Não é nada… — Ele deu de ombros. — Você não gosta quando eu te olho?
— Você me intimida… de um jeito bom — confessei. — E eu não sei como reagir.
Ele se aproximou devagar, colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e sorriu daquele jeito que fazia minhas bochechas queimarem.
— Não era minha intenção te intimidar. Pra falar a verdade, eu também fico nervoso perto de você.
— Fica? Por quê?
— Porque não é todo dia que a gente tem a sorte de conhecer alguém como você.
Prendi a respiração por alguns segundos. Victor me dava borboletas no estômago. Ele era doce, gentil, charmoso… e sempre me fazia rir. O “currículo” que Liz tinha feito dele não era exagero. Com Victor, eu me sentia confortável. Em casa.
— Você sempre sabe o que dizer, né?
— Eu só falo a verdade. E falando nisso… lembra daquele encontro que eu comentei? Queria saber se você topa sair comigo hoje à noite.
— Eu adoraria — respondi, sorrindo de orelha a orelha. — Onde vamos?
— Você disse que gosta de dançar…
— Nossa, sim. Sinto saudade dos barzinhos do Oregon.
— Então confia em mim. Vou te levar a um lugar que você vai amar.
— Qual lugar?
— Surpresa.
— Surpresa? Não! — protestei rindo. — Pelo menos me diz que roupa eu devo usar.
— Vai do jeito que você quiser. Você vai ficar linda de qualquer forma.
— Victor, mulheres precisam de contexto!
— Então… algo sexy. — Ele me olhou de um jeito que me deu arrepios. — Vermelho ficaria incrível em você.
— Vou pensar no seu caso — respondi, tímida.
Ele me deixou em casa dizendo que me buscaria às nove. Entrei na mansão elétrica de empolgação. Adiantei todas as tarefas, contei para Max sobre o encontro e disse que não assistiríamos filme naquela noite. Achei que ela ficaria chateada, mas, pelo contrário, quase pulou de alegria e quis saber absolutamente tudo.
Depois, corri para o meu quarto. Banho com sais aromáticos, skincare completo, cabelo tratado… eu queria causar uma boa impressão.
Ele disse vermelho… e parecia implorar por isso.
Escolhi três vestidos: um preto elegante, um azul soltinho e um vermelho de seda, justo, com f***a na perna e decote em V. O vermelho venceu sem esforço. Finalizei a maquiagem, deixei os cachos soltos e me encarei no espelho.
Ok. Eu estava perigosa.
Fui esperar Victor nas escadas. Ao atravessar a área da piscina, alguém veio em minha direção com passos duros. Leon.
Ele parou na minha frente e me analisou de cima a baixo, visivelmente irritado.
— O que foi? Por que você está me olhando assim?
— Max disse que você vai a um encontro com o Victor.
— Vou. E daí?
— Você vai sair vestida assim?
— O que eu visto não é problema seu — rebati. — Agora, se me der licença, eu tenho um encontro.
Passei por ele, mas senti sua mão segurar meu braço.
— Leon, o que você está fazendo?
— Você não pode sair com o Victor.
— E por quê?
— Eu não confio nele.
— Ele trabalha pra você, Leon.
— Não é nesse sentido… — Ele suspirou. — Só acho que não é uma boa ideia.
Comecei a rir, sem acreditar.
— O que está acontecendo com você?
— Nada. — Ele me soltou. — Vá ao seu encontro. Eu não me importo.
Ele se virou e entrou na mansão.
Fiquei confusa, mas deixei pra lá. Logo encontrei Victor, impecável em uma camisa preta semiaberta. O perfume dele me fez suspirar sem perceber.
— Se sua intenção era me deixar louco, conseguiu — disse ele, me puxando pela cintura e beijando minha bochecha. — Você está incrível.
— Gostou?
— Muito. Agora quero ver você dançando.
O lugar se chamava Lux. Lotado. Luxuoso. Ele passou direto pela fila, falou algo com o segurança e entramos. A pista era enorme, o bar vibrante. Na área VIP, mulheres impecáveis — altas, loiras, modelo-padrão.
Enquanto bebíamos, percebi um movimento estranho. Várias mulheres correndo em direção a alguém. Um homem alto, ombros largos, camisa branca aberta. Quando ele subiu para o VIP, vi o rosto.
— Victor… aquele é o Leon?
— É. Ele sempre vem aqui. Acho que é sócio.
Revirei os olhos.
Victor me puxou para a pista quando começou This Is What You Came For. Ele me colou ao corpo dele, me girou, e dançamos em perfeita sintonia. As mãos dele deslizavam pela minha cintura, o beijo em meu pescoço me fez arrepiar.
Quando joguei a cabeça para trás, vi Leon. Olhos azuis furiosos. Punhos cerrados.
Continuei dançando.
Mais tarde, não o vi mais.
Às duas da manhã, Victor me deixou em casa. Antes de sair do carro, ele me puxou para perto. Eu sabia o que vinha. E queria.
O beijo foi doce, intenso, lento. Ele me beijava como se tivesse medo de me quebrar. Finalizou com uma mordida suave no meu lábio.
— Você é incrível, Athena. Quero repetir isso muitas vezes.
— Sair pra dançar ou me beijar?
— Os dois.
Entrei na mansão com o coração acelerado, ainda sentindo o toque dele em mim. Perdida em pensamentos… até acender a luz do quarto.
Havia um homem no canto do quarto, no escuro.
E eu soube, antes mesmo de ver seu rosto, que aquela noite ainda estava longe de acabar.