Dez anos de espera.

2535 Words
Capítulo – dez anos de espera. " Quanto mais o tempo passa melhor o sabor do vinho e da vingança. " Rafaelo (Dez anos depois.... França ) Dez anos. Cento e vinte meses. Quatro mil trezentas e oitenta semanas de uma espera que teria enlouquecido qualquer outro homem, mas que em mim agiu como o processo de têmpera de uma lâmina. Cada dia no fogo da memória, cada noite mergulhada no frio da paciência, endureceu minhas convicções e afinou meu propósito. Não me tornei mais fraco com o tempo. Tornei-me mais preciso, mais silencioso, mais letal. Agora, não sou apenas vingança. Sou inevitabilidade. Eu não apenas sobrevivi à ausência do meu pai ; eu me tornei o monumento vivo da sua vingança. Hoje, aos 28 anos, não sou mais o jovem trêmulo que perdeu um m****o, não sou mais o jovem que enterrou Salvatore sob a chuva do luto. Sou o Conde. Meus olhos, agora cercados por linhas sutis de quem pouco dorme e muito vigia, refletem uma frieza que nem o sol de Paris é capaz de descongelar. Estou na Rue de Rivoli, uma das veias mais pulsantes e aristocráticas de Paris. O ar está cortante, típico de um inverno que se recusa a ceder. À minha frente, a fachada do "L'Éclat de Verre" se destaca entre as boutiques de luxo. É um café de estética Belle Époque, com molduras em ferro batido verde-musgo , vitrines imensas que exibem doces que parecem joias e um toldo de tecido listrado que balança com o vento gélido. Eu a vejo antes que ela me veja. Na realidade eu sabia que estaria aqui. Eu sei de todos os seus passos. Rosália sai do estabelecimento cercada por três amigas. Elas riem, uma algazarra juvenil que corta o ar como um insulto à minha seriedade. Ela está perto de completar dezessete anos — a idade perfeita perante as brechas das leis que estudei como um obcecado. O Tribunal de Menores italiano verá maturidade nela, se eu souber como plantar as sementes certas. Ela usa um casaco de lã batida em tom off-white, acinturado, que termina pouco acima dos joelhos. Meias calças grossas e seus pés estão escondidos por botas curtas de camurça. O cabelo, um castanho que reluz sob a luz pálida, está preso em um coque de bailarina impecável, mas o vento — meu cúmplice — soltou alguns fios rebeldes que emolduram seu rosto. Ela é irritantemente bonita. Pessoalmente, a pureza de suas feições e o brilho verde-esmeralda de seus olhos são armas muito mais letais do que as imagens granuladas das minhas telas de vigilância captaram durante uma década. É agora. Ajusto meu sobretudo de cor marrom glacê, garantindo que minha mão esquerda — o meu segredo de carne e plástico — esteja profundamente enterrada no bolso. Caminho com uma precisão predatória, calculando o vetor exato. Colisão. O impacto é leve, mas o desastre é perfeito. O copo de cappuccino que ela segurava vira completamente, o líquido quente e espumoso manchando o tecido caro do meu peito. — Ah, mon Dieu! Pardon! Milieu de pardons!( "Ah, meu Deus! Perdão! Mil perdões!") — As palavras saem atropeladas, em um francês musical e desesperado. Rosália arregala os olhos. O susto tinge suas bochechas de um rosa vivo, um contraste vibrante com a brancura de sua pele. Eu não respondo de imediato. Eu apenas sorrio. Um sorriso que treinei no espelho por anos: charmoso, levemente enigmático, o sorriso de um homem que tem todo o tempo do mundo. — Ne vous inquiétez pas, Mademoiselle. ("Não se preocupe, senhorita.") — respondo em um francês impecável, minha voz descendo um oitava para soar como veludo sobre pedra. — Está tudo bem. — Não, não está! — Ela insiste, a voz trêmula. As amigas atrás dela estão estáticas, hipnotizadas pela cena ou, talvez, pela aura de autoridade que emano. Rosália abre a bolsa com mãos ágeis e retira uma toalhinha de algodão. Antes que eu possa impedi-la, ela se aproxima. Seus dedos pequenos começam a esfregar o tecido do meu sobretudo, tentando remediar o estrago. Ela está tão perto que sinto o cheiro dela: baunilha, talvez seja esse o aroma de toda menina que usa sapatilha. Talvez seja apenas o cheiro da inocência que eu vim corromper. Minha mão direita se move por vontade própria e envolve os pulsos dela, interrompendo o movimento. O contato da minha pele quente com a dela faz com que ela erga o rosto bruscamente. Nossos olhares se fundem. O verde esmeralda dela encontra o abismo dos meus olhos azuis, mais profundos que o abismo dos oceanos. — Eu aceitarei o seu pedido de desculpas — digo, inclinando levemente a cabeça —, se você aceitar tomar um café comigo para compensar este... incidente. Ela dá um sorriso sem graça, uma mistura de lisonja e hesitação juvenil. — Eu... eu não posso agora. Minhas amigas, a escola... — Ela olha para trás, buscando apoio naquelas meninas que não têm ideia de que estão presenciando o início de um sequestro de alma. Eu não insisto. Um predador não corre atrás da presa; ele a atrai. Retiro do bolso interno um cartão preto, fosco, com meu nome em relevo dourado. No rodapé, o número que apenas ela terá. Entrego a ela, sentindo o papel deslizar entre seus dedos. Aproximo-me do seu ouvido, reduzindo a distância a quase nada. Minha mão direita pousa suavemente em sua cintura, um gesto de posse mascarado de cavalheirismo, enquanto a esquerda permanece oculta, o coto latejando sob o tecido como se pudesse sentir o ódio que ainda ferve sob minha pele. — Esta noite — sussurro, meu hálito roçando a pele delicada da sua orelha — eu espero a sua ligação. E amanhã, nós tomaremos esse café juntos. Sem pressa. Sem desculpas. Eu me afasto, mantendo o contato visual por um segundo a mais do que o necessário, tempo suficiente para ver a dúvida se transformar em curiosidade no fundo daquelas esmeraldas. Dou um leve aceno de cabeça para as amigas dela e entro no "L'Éclat de Verre". Enzo e outros dois seguranças entram logo atrás de mim, fechando a formação. Assim que a porta de vidro se fecha e o tilintar do sino de entrada morre, minha máscara de sedução cai. O sorriso desaparece instantaneamente, dando lugar à máscara fria de ferro que usei nos últimos dez anos. Meu rosto volta a ser a pedra tumular do meu pai. Sento-me em uma mesa ao fundo, olhando para o vazio. O primeiro dominó foi derrubado. Ela não sabe quem eu sou, mas ela sentiu o magnetismo do abismo. Dante tirou a mente do meu pai. Eu tirarei o futuro da irmã dele. E começarei fazendo com que ela se apaixone pelo próprio carrasco. — Preparem tudo — murmuro para Enzo, sem desviar os olhos da vitrine por onde a vi sumir na multidão de Paris. — A Princesa está prestes a morder a maçã. Não demoro no café, o que tinha pata resolver foi executado com perfeição e maestria. Cerca de trinta minutos depois, estou dentro do silêncio absoluto que tanto preso. O apartamento em Paris é um mausoléu de alta tecnologia e mármore frio. Estou sentado em uma poltrona de couro italiano, as luzes da cidade cintilando além da imensa vidraça, mas meu foco está no pequeno aparelho sobre a mesa de centro. Ele é o centro de gravidade do meu universo hoje. Eu sei que ela vai ligar. O veneno que injetei naquela calçada — aquela mistura de autoridade, mistério e o magnetismo que os anos de poder lapidaram em meu rosto — já está correndo pelas veias dela. Rosália é uma adolescente criada em uma redoma de vidro, alimentada com contos de fadas e protegida por armas que nunca viu disparar. Para ela, eu sou o elemento desconhecido, o perigo fascinante que sua intuição feminina m*l consegue processar. O telefone vibra. A tela ilumina a penumbra da sala. Um número desconhecido, prefixo da Itália. Um esgar de sorriso curva meus lábios. Sinto uma satisfação ácida subir pelo meu peito. A caça mordeu a isca antes mesmo de eu puxar a linha. — Pronto — atendo. Minha voz é um estrondo baixo e controlado, desprovido de qualquer calor. — Oi... — A voz do outro lado é um sussurro vacilante, desprovido de qualquer confiança. — Sou eu... a menina que esbarrou em você hoje. Na cafeteria. Lembra? Eu fecho os olhos por um segundo, saboreando a hesitação dela. É o som da minha vitória futura. Mas a minha resposta precisa ser o golpe de misericórdia na sua segurança. — Menina? — Uso um tom de quem tenta resgatar uma memória insignificante entre assuntos muito mais importantes. — Esbarrou em mim hoje? — Sim! — Ela se apressa, as palavras atropelando-se na urgência de ser notada. — No L'Éclat de Verre. Eu derrubei o cappuccino no seu sobretudo... eu estava com minhas amigas e você estava chegando com seus amigos. Foi tudo muito rápido, eu fiquei morrendo de vergonha... Eu escuto o som da sua respiração. Está curta, errática. O clique foi dado. O interesse que despertei nela é uma chama que ela mesma vai abanar até se queimar. Eu não preciso ser o sedutor; preciso ser o destino. — Ah, sim... estou me lembrando de você agora. A linda menina dos olhos verdes. Como você está, princesa? Enquanto falo apoiando o aparelho com o ombro para que fique firme na minha orelha direita, minha mão direita abre o notebook sobre a mesa. A tela brilha instantaneamente. Através do software de vigilância, a imagem de Rosália invade o meu quarto. Ela está sentada na beira da cama, no alojamento da escola de balé. Está nervosa, mordiscando a unha do dedo indicador esquerdo com uma ansiedade que beira o desespero. E ali, no canto da imagem, está Tilda. A boneca atravessou fronteiras, resistiu a dez anos de infância e agora repousa sobre a escrivaninha de uma quase mulher. Manter aquele canal de vigilância foi o meu maior triunfo estratégico. Subornar a segurança dos Grecco foi impossível, mas infiltrar uma "senhorinha", uma ex-bailarina russa com dívidas de jogo e um talento nato para a dissimulação, foi a jogada de mestre. Como professora particular de Rosália, ela não apenas trocou as baterias e as lentes do colar da Tilda; ela preparou o terreno, sussurrando sobre o mundo além dos muros de Dante. Foi o pontapé para Rosália mudar-se para França em busca dos seus sonhos. — Eu estou bem — ela responde, finalmente conseguindo uma nota de estabilidade na voz. — Só queria pedir desculpas de novo. Eu me senti muito m*l por ter estragado sua roupa. — Não se preocupe com o sobretudo, princesa — digo princesa deliberadamente, deixando-o soar como uma carícia perigosa. — Roupas nós trocamos. Momentos... eles são únicos. Observo na tela ela parar de roer a unha. Ela fica estática, processando o modo como pronunciei a frase, a gravidade da minha afirmação. Ela está presa no labirinto que eu construí, e a melhor parte é que ela acredita que está escolhendo cada curva. — Você disse que... tomaríamos um café — ela sussurra, a curiosidade vencendo o medo — Ainda está de pé? — Eu sou um homem de palavra — respondo, meus olhos fixos na imagem dela, que agora sorri timidamente para o nada, enrolando uma mecha de cabelo no dedo. — Amanhã, às nove. Vou enviar um carro para buscá-la. Não aceito negativas como mensagens vindas através dos seus seguranças, princesa. Diga a eles que é um encontro com o destino. Me envia o seu endereço por mensagem. Peço sem necessidade, sei onde está, qual o bloco que pertence, que ala ocupa e número do pequeno apartamento que vive com mais três amigas. — O destino tem nome? — ela pergunta, tentando ser audaciosa. Eu olho para a minha mão esquerda escondida na sombra, sinto a dor fantasma do coto e a brasa do ódio pela morte de Salvatore arder no meu centro. — Para você — murmuro, com um sorriso que ela nunca deveria ver — meu nome é Lucca Boldrini. Durma bem, princesa. "Você vai precisar de energia para o que vem a seguir." Desligo antes que ela responda. Na tela, vejo-a abraçar o telefone contra o peito e olhar para a boneca Tilda, como se buscasse aprovação. — m*l sabe você, ragazza — digo para a tela escura — que o seu "príncipe" é o carrasco do seu irmão. Fecho o notebook. O jogo de manipulação está em andamento. Dante tirou a mente do meu pai, e eu vou tirar a alma da pessoa que ele quer livrar da sujeira em que vivemos. E ela vai me entregar essa alma com um sorriso no rosto. O silêncio que sucede o clique do desligar é quase ensurdecedor. Encaro o aparelho preto sobre o mármore da mesa como se ele fosse um altar onde acabei de sacrificar a primeira gota de sangue inocente. Recosto-me na poltrona, sentindo o couro frio contra o meu pescoço. Meus dedos da mão direita tamborilam ritmadamente no braço da poltrona, enquanto a esquerda — a minha metade morta — lateja dentro do bolso do roupão de seda. É uma pulsação familiar. A dor fantasma é a batida do meu relógio interno; ela me lembra que o tempo das lágrimas acabou e o tempo da colheita começou. — Ela ligou, pai — sussurro para o vazio do apartamento, meus olhos fixos nas luzes de Paris que, do alto desta cobertura, parecem brasas prontas para serem sopradas. Sinto um prazer gélido ao lembrar do tremor na voz dela. Rosália não é apenas uma peça no meu tabuleiro; ela é o tendão de Aquiles de Dante Grecco. Cada "oi" vacilante, cada suspiro de curiosidade que ela soltou pelo telefone, foi como ver as muralhas da fortaleza dos Grecco racharem sob o meu toque. Dez anos de paciência destilada em um telefonema de três minutos. Dante acha que a protegeu enviando-a para a França. Ele acredita que o oceano e as fronteiras são barreiras, mas ele esqueceu que eu não sou um exército que marcha; eu sou a infiltração. Eu sou o cupim que corrói a estrutura por dentro. Fecho os olhos e a imagem dela na tela do notebook ainda queima na minha retina. Ela cresceu e se tornou o que há de mais perigoso: uma distração esteticamente perfeita. Aqueles olhos verdes... eles têm o mesmo brilho dos olhos de Dante quando ele ordenou a lobotomia de Salvatore. A mesma linhagem. O mesmo sangue que eu vou drenar emocionalmente até que não reste nada além de desespero. Ela achará que estará vivendo um romance de inverno em Paris. Ela acreditará que o destino colocou um homem maduro e fascinante em seu caminho por mero acaso. Pobre criatura. O "destino" sou eu, movendo cada peça, subornando cada informante, instalando cada lente. Amanhã, quando ela entrar naquele carro, ela estará atravessando o Rio Estige. E eu estarei do outro lado, com meu melhor sorriso e meu pior veneno, pronto para convencê-la de que o abismo é, na verdade, um refúgio. Amanhã, o Conde começa a cobrar a dívida. E o juro será a inocência da princesinha da Calábria.
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