Capítulo — Anatomia do ódio.
" Não se preocupe com o bicho-papão, ele não mora em baixo da sua cama, ele vigia você de longe."
Rafaelo
Aprendo um pouco mais a cada dia e estou lidando com esses ensinamentos duros por parte da vida. Eu tive que me readaptar; ainda estou caminhando nessa linha fina que ameaça me derrubar, mas nada tem sido pior do que acompanhar o agonizar do meu pai. Cada suspiro dele carrega um peso que parece esmagar meu peito, e cada silêncio prolongado me ensina, à força, o valor do tempo que ainda temos. Tento ser forte, mesmo quando a esperança vacila, porque sei que minha presença, mesmo frágil, é tudo o que posso oferecer agora, enquanto aprendo a conviver com a dor.
O silêncio do hospital não é paz; é uma mentira. Ele não traz calma, apenas abre espaço para a angústia, para pensamentos que se acumulam e sufocam. É um silêncio pesado, que parece comprimir o ar nos pulmões. A contagem regressiva dos aparelhos apitando soa c***l, como se estivessem mastigando, pouco a pouco, o que resta da dignidade de meu pai, transformando cada segundo em uma despedida antecipada.
Dói demais em mim. Há um aperto constante no peito, uma sensação de impotência que corrói por dentro. Tento me agarrar a qualquer sinal, qualquer movimento, qualquer respiração mais forte, como se isso pudesse atrasar o inevitável. Não estou pronto para vê-lo partir. Não estou pronto para imaginar o mundo sem a presença dele, sem sua voz, sem o peso reconfortante de saber que ele ainda está aqui.
Acho que nunca estarei. Nunca!
Saí daquele quarto sem olhar para trás, deixando minha mãe entregue a uma esperança que eu já não possuía. A infecção não era apenas biológica; era o golpe final de uma lâmina que Dante Grecco começou a afiar no dia em que decidiu que Salvatore seria sua cobaia.
Se houve motivos, para mim não faz a menor diferença. Ele tocou no meu pai e isso é o suficiente para desejar ver as vísceras daquele bastardo pelo chão.
O trajeto de volta para minha residência foi um borrão de fúria silenciosa. Enzo tentou falar, tentou oferecer o conforto inútil de um conselheiro leal, mas eu o silenciei com um olhar. Eu não queria conselhos. Eu queria sangue, queria que aquele maldito sentisse a mesma dor que eu estou sentindo. Mas que não seja algo rapido, não um sangue jorrando feito cascata, derramado no calor de um tiroteio. Eu queria o tipo de hemorragia que drena a alma, que faz o homem implorar pelo fim enquanto assiste ao desmoronamento de tudo o que ama. E terei, vai ser um processo lento, mas a melhor vingança é aquela que "bebemos" fria.
Piso fora do carro, com o corpo trêmulo de ódio. Meus passos são automáticos.
Não sei em que momento entro no meu quarto e tranco a porta.
Minha cabeça está explodindo.
O ambiente em que estou é frio, funcional, desprovido de qualquer calor humano. É aqui que eu comando meu próprio império de sombras. Vou direto para a parede falsa atrás da estante de carvalho. Com um clique magnético, o painel se desloca, revelando o meu santuário tecnológico.
Sento-me na poltrona de couro e aciono o sistema central. O zumbido dos processadores é o único som que me acalma. Uma a uma, as telas se iluminam na penumbra, banhando meu rosto com uma luz azulada e doentia.
O aparato de vigilância é imenso. Hackeei cada ponto cego, cada brecha digital da fortaleza dos Greco, mas a tela principal — aquela que eu foco com uma obsessão quase religiosa — é a que transmite o sinal da microcâmera escondida na "Princesa Tilda".
A imagem surge com uma clareza cristalina.
Lá está ela. Rosália.
A menina está sentada no centro da cama forrada por uma colcha cor-de-rosa que parece um mar de algodão doce. O contraste entre o que vi no hospital e o que vejo agora é um insulto à minha existência. Meu pai está deitado em lençóis rígidos, lutando contra bactérias que devoram seu cérebro, enquanto a joia da coroa dos Grecco está cercada de mimos e cores.
Ela está concentrada. Lápis de cor estão espalhados pela cama como estilhaços de um arco-íris. Seus movimentos são leves, infantis, desprovidos de qualquer consciência sobre o monstro que a observa do outro lado do vidro. A boneca Tilda está posicionada exatamente onde eu imaginei que ela fosse colocar : em cima da cômoda, com o colar de pérolas escuras voltado para o centro do quarto.
Rosália me deu o ângulo perfeito.
Minha mão direita, a única que me resta, fecha-se em um punho tão apertado que as juntas ficam brancas e a pele parece prestes a rasgar. Minha mão esquerda, oculta pela manga do casaco, lateja no coto amputado, uma dor fantasma que se sincroniza com o ódio real que ferve em minhas veias.
Uma lágrima solitária, quente e ácida, escorre pela minha face. Não é uma lágrima de tristeza. É o subproduto de uma pressão interna que não tem mais por onde sair. É o suor da alma de um homem que foi reduzido a um instrumento de vingança.
De repente, a porta do quarto dela se abre na tela.
Meu corpo tenciona. Minha respiração trava.
Dante Grecco entra.
O Don da Calábria. O carrasco. O homem que ordenou a lobotomia de meu pai.
" Desgraçado! Serei o piro pesadelo da sua irmã, seu bastardo e através dela eu chegarei no meu maledeto coração"
Ele não veste a armadura de arrogância que usa nas diante do submundo. Ele está sem o paletó, com as mangas da camisa branca dobradas, parecendo um homem comum. Um irmão. Ele caminha até a cama e se senta ao lado da menina.
O ódio que sinto atinge um novo patamar de pureza. Ver Dante Grecco demonstrar humanidade é a visão mais repugnante que já presenciei. É uma contradição insuportável: como as mesmas mãos que assinaram a sentença de morte em vida de Salvatore podem tocar o cabelo de uma criança com tamanha delicadeza?
Dante sorri. É um sorriso genuíno, carregado de um carinho que ele certamente não dedica a mais ninguém no mundo. Ele puxa Rosália para o colo, e ela se aninha nele com uma confiança que me faz querer gritar.
Ele beija a bochecha dela, um gesto de proteção que é quase sagrado.
Ele a ama. Mais do que ao poder. Mais do que à própria vida. Eu sinto isso.
Irmãos mais velhos se tornam a personificação da proteção.
Eu observo, paralisado pela clareza do meu plano. Dante encontrou sua redenção naquela menina, e é exatamente ali, nesse pequeno ponto, que eu vou cravar a minha faca.
Rosália ergue um papel, toda orgulhosa, mostrando o desenho para o irmão. O ângulo da câmera me permite ver o traçado infantil: uma garota com asas desproporcionais. A cabeça é grande demais para o corpo, e os braços e pernas são apenas gravetos finos, linhas trêmulas de grafite e cor. É um desenho feio, técnico e esteticamente falando, mas vejo o olhar de Dante brilhar como se estivesse contemplando uma obra-prima no Louvre.
Ele elogia a pequena. Posso ver seus lábios se movendo, a voz saindo carregada de encanto, a expressão de encanto absoluto. Ele a coloca de volta na cama, faz uma cosquinha rápida que a faz soltar uma risadinha abafada — um som que chega aos meus ouvidos através dos alto-falantes e soa como o tilintar de moedas de prata sendo pagas por uma traição.
— Aproveite, Dante — sussurro para a tela, minha voz saindo como o sibilar de uma serpente. — Aproveite cada segundo desse calor. Porque o inverno que eu preparei para você não terá fim.
A fúria em meu peito se transforma em uma calma gélida. Ver a interação entre os dois me dá a confirmação de que eu precisava. Dante não teme a morte; homens como nós convivem com ela desde o berço. Mas Dante teme a perda. Ele teme o vazio que aquela menina pode deixar.
Eu me recosto na poltrona, sem desviar os olhos das telas. Cada movimento de Rosália, cada sorriso que ela dedica ao irmão, é uma nota promissória de dor que eu cobrarei com juros.
A lobotomia tirou de meu pai a capacidade de sentir, de decidir, de ser. Eu tirarei de Dante a capacidade de ser feliz. Vou tomar para mim não apenas a irmã dele, mas o futuro dele. Vou transformar a luz daquela casa em uma escuridão tão profunda que ele vai implorar para que eu faça com ele o que ele fez com Salvatore. Mas eu não serei tão misericordioso.
Eu vou deixá-lo inteiro. Vou deixá-lo com todas as suas faculdades mentais intactas para que ele possa processar, em alta definição, cada detalhe da destruição de sua família. Ele vai assistir, impotente, enquanto eu transformo sua "princesinha" em uma peça do meu tabuleiro.
O desenho da menina com asas... que ironia. Rosália desenha voos, mas está prestes a descobrir que suas asas foram cortadas antes mesmo de nascer, no momento em que seu irmão tocou em um homem chamado Salvatore. Meu pai, seu futuro sogro.
Aperto o controle remoto e as telas se apagam, uma a uma, até que apenas o brilho vermelho do standby permanece no quarto, como os olhos de uma fera à espreita.
O hospital pode estar cuidando da carne do meu pai, mas aqui, nesta sala, eu estou cuidando do destino dos Grecco. Dante chorará lágrimas de sangue. E eu estarei lá, com meu rosto de pedra e minha mão amputada, para recolher cada gota e usá-la como tinta para escrever o capítulo final dessa história.
A vingança é um prato que eu não pretendo comer frio. Eu pretendo servi-lo em chamas, e o combustível será a inocência de Rosália.
O jogo começou, e Dante nem sequer percebeu que já perdeu a rainha.
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Mais uma noite se esvai e, com ela, o meu sono. Virei-me na cama sem sossego, com as imagens doces de Dante e Rosália dançando na minha mente, como lembranças que aquecem e machucam ao mesmo tempo. Tento afastá-las, mas elas voltam, insistentes, preenchendo o silêncio do quarto e alongando ainda mais essa madrugada interminável.
Isso me colocou de pé às quatro da manhã, com o corpo pesado e a mente já cansada antes mesmo do dia começar. Meu primeiro compromisso não é comigo, nem com o trabalho, nem com o mundo lá fora — é saber do meu pai, medir a esperança nas palavras de um médico, ou na expressão silenciosa de uma enfermeira.
Saí de casa com a calma que a frieza pede, aquela serenidade forçada de quem tem medo de sentir demais e acabar se quebrando antes de chegar ao destino. O amanhecer ainda engatinhava, e o ar frio da madrugada parecia combinar com o vazio que crescia dentro de mim.
Poucos minutos depois eu estava escutando meus próprios passos
nos corredores do hospital, incomodado com o cheiro que parece ter grudado na minha pele, infiltrando-se nos poros como um parasita que se recusa a ser lavado.
Retorno para ver aquele a quem devo honrar e dar uma resposta a altura do que foi feito com ele.
E irônico o contraste entre a doçura do quarto da menina e a podridão clínica deste corredor de isolamento é o que me mantém são. Ou talvez seja o que está terminando de me enlouquecer.
A porta da UTI neurológica range. O som é pequeno, mas na minha cabeça ecoa como o lamento de uma catedral desabando.
Meu pai está pior.
O médico que me recebe não tem mais a postura rígida de ontem. Seus ombros caíram. Ele evita meu olhar, focando na prancheta digital como se os dados pudessem protegê-lo da minha fúria.
— Don Rafaelo… — ele começa, e eu sinto o gosto de bile na garganta. — O edema cerebral não cedeu à corticoterapia. A infecção bacteriana causou uma inflamação generalizada nas meninges.
— Traduza — ordeno. Minha voz é um sussurro que corta o ar como uma navalha.
— Salvatore entrou em coma profundo — ele diz, finalmente me encarando. — O tronco encefálico apresenta sinais de sofrimento. Ele não está mais respondendo aos estímulos dolorosos. O que estamos mantendo agora… é a mecânica do corpo.
O mundo ao meu redor parece perder a cor. Olho através do vidro para o homem que me ensinou que o silêncio é a arma mais poderosa de um líder. Agora, ele é o próprio silêncio. Um silêncio terminal. Ele parece menor sob os lençóis brancos, a pele com um tom de cera, os lábios azulados.
Aquela lobotomia clandestina que Dante Grecco ordenou não foi apenas um ato de violência; foi o plantio de uma bomba relógio. E ela acabou de detonar.
— Saia — digo ao médico.
— Mas, senhor, precisamos discutir os protocolos de…
— Saia! — Minha voz explode, fazendo uma enfermeira no posto de comando dar um salto.
Fico sozinho com o corpo do meu pai. Aproximo-me da cama e seguro sua mão. Ela está fria. Uma frialdade que não pertence à vida. Aperto seus dedos com minha única mão, a direita, enquanto o coto da esquerda lateja sob a prótese, uma dor fantasma que parece querer gritar a verdade que eu me recuso a aceitar: o meu pilar caiu.
— Você não pode ir assim — sussurro, encostando minha testa na mão dele. — Você não pode me deixar sozinho com o peso dessa coroa sem ver o que eu vou fazer com eles. Você precisa estar acordado quando eu trouxer a cabeça do herdeiro Grecco para os seus pés.
Lágrimas de um ódio purificado queimam meus olhos. Não é o choro de um filho órfão; é o pranto de um monstro que acaba de ser libertado de suas últimas correntes morais. Enquanto Salvatore vivesse, ainda havia uma sombra de responsabilidade, um código de honra a seguir. Mas se ele morrer, não haverá código. Não haverá limites.
O monitor cardíaco emite um bipe longo e irregular. Salvatore está partindo, centímetro por centímetro, para um lugar onde minha vingança não pode alcançá-lo para dar conforto.
— Vou levar o senhor comigo por onde eu for. Irei honrar e cuidar do seu legado. Eu te amo pai.
A máquina emite um bipe e depois a linha verde é contínua, meu pai se foi.
Saio do hospital duas horas depois. Minha mãe está desfalecida em uma poltrona, sedada pelos médicos para não colapsar. Deixo Enzo encarregado de tudo. Não quero ver advogados, não quero ver padres, não quero ver a morte.
Quero ver a vida que eu vou destruir.
O trajeto até meu bunker pessoal é feito em uma velocidade suicida. Assim que entro no meu quarto, não me dou ao trabalho de tirar o casaco. Ligo o sistema. As telas brilham instantaneamente, trazendo o santuário cor-de-rosa de Rosália Greco.
Dante não está lá agora. A menina está sozinha, brincando com a boneca Tilda que eu lhe dei. Ela fala com o brinquedo. Ela faz carinho no colar de pérolas que esconde a lente que me alimenta.
— O Conde disse que você é mágica — Rosália sussurra para a boneca. Eu ouço tudo através dos fones de alta fidelidade. — Você vai proteger o papai e o Dante, não vai?
Um riso seco e desprovido de humor escapa dos meus lábios.
— Não, pequena princesa — murmuro para a tela, ajustando o foco no rosto angelical dela. — Ela não vai proteger ninguém. Ela é o cavalo de Troia que vai incendiar o seu castelo.
Sento-me e começo a digitar. Meus olheiros me enviaram o relatório da manhã. Dante está em uma reunião no porto, tentando resolver os problemas logísticos que eu mesmo criei através de sabotagens anônimas nas últimas semanas. Ele está estressado, vulnerável.
Mas ele voltará para casa. Ele sempre volta para a esposa no final do dia.
Observo Rosália desenhando novamente. Desta vez, ela desenha um homem de coroa, mas o rosto está em branco.
— Quem é esse, bambina? — pergunto para o vazio, como se ela pudesse me ouvir.
Ela pega um lápis preto e começa a riscar o rosto do desenho, cobrindo-o de sombras. Um calafrio percorre minha espinha. A intuição infantil é algo que a ciência não explica.
Passo as mãos pelo rosto, sentindo o peso da exaustão. A morte iminente do meu pai transformou minha missão. Antes, eu queria que ele visse minha vitória. Agora, eu só quero que Dante Grecco sinta o cheiro da derrota enquanto ainda respira.
Eu vou esperar o momento em que o corpo do meu pai descer para a sepultura. No instante em que isso acontecer eu darei a ordem. Não será um sequestro comum. Será uma transição de mundos. Rosália sairá de um conto de fadas para entrar no meu purgatório.
Lágrimas de ódio voltam a descer, mas eu não as limpo. Elas são o batismo da minha nova era. Olho para a tela onde Dante, horas depois, aparece novamente no quarto da irmã. Ele parece exausto. Ele se senta e Rosália corre para abraçá-lo.
Ele a aperta contra o peito. Ele fecha os olhos, buscando nela a força para continuar sendo o carrasco da Calábria.
— Aproveite esse abraço, Dante — digo, apertando o botão que grava a cena. — Sinta o calor dela. Guarde o cheiro do cabelo dela na sua memória. Porque eu vou tirar isso de você. Vou tirar com a mesma precisão com que você tirou a mente do meu pai. Com a mesma gana de vontade que tirou a vida do meu pai.
Sinto uma pontada violenta no peito, uma palpitação que me lembra que eu também sou mortal. Mas minha mortalidade não importa. Eu sou apenas o veículo da destruição agora.
Aperto o punho contra a mesa de metal. A dor física me faz sentir vivo.
Salvatore está morto.
O Conde está nascendo.
E Rosália... Rosália é a ponte sobre a qual eu caminharei para queimar o mundo dos Grecco.
Dante beija a testa da irmã e olha para a boneca Tilda por um segundo. Por um breve momento, seus olhos parecem encontrar a lente. Eu sustento o olhar, mesmo sabendo que ele não me vê.
— Você está morto, Dante — sentencio. — Você só esqueceu de cair.
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