Vazio e Frio.

1477 Words
Capítulo — Vazio e Frio. " Quem foi abandonado na escuridão não teme o Frio da solidão. " Rosália O frio que sobe pelas solas das minhas sapatilhas de cetim parece vir direto do meu peito. O Théâtre des Mirages é uma joia de veludo vermelho e talha dourada, um lugar onde os sonhos deveriam ganhar corpo e altura, mas hoje, para mim, ele parece um labirinto de expectativas sufocantes. O camarim é uma sinfonia de caos controlado: o cheiro forte de laquê, o barulho de grampos batendo nas penteadeiras, o farfalhar incessante das camadas de tule. Minhas colegas estão em êxtase. Ninguém da minha família pôde vir. Dante enviou um cartão formal e um arranjo de flores maior do que a minha mesa de cabeceira, justificando que “questões de negócios em Milão” exigiam sua presença imediata. Eu sei o que isso significa: sangue, armas e alianças que valem mais do que o debut da irmã caçula. Mas não é a ausência de Dante que me faz sentir como se houvesse um buraco n***o no centro do meu estômago. É o silêncio de Luca. Faz dias. Dias de uma agonia lenta, compassada, que me transformou em uma sombra de mim mesma. Ele enviou aquele buquê, aquelas palavras que me fizeram flutuar, e depois... o nada. O vácuo. Eu enviei aquela mensagem, expondo meu coração de adolescente, dizendo que também pensava nele, e ele sequer teve a hombridade de responder. Sinto-me uma boba. Uma i****a completa por acreditar que um homem com aquele porte, aquela voz e aquele mistério teria algum interesse real por uma menina de dezesseis anos que ainda usa fitas no cabelo. Passei as últimas noites grudada no celular, atualizando a tela até que a luz azul queimasse meus olhos. Vasculhei cada canto do aparelho, procurei mensagens em pastas de spam, imaginei que ele pudesse ter enviado algo de outro número e eu tivesse perdido. Nada. Em um ato de desespero que me envergonha, dei uma de stalker. Busquei por “Luca ” em todas as redes sociais possíveis. Encontrei dezenas de perfis, rostos desconhecidos, vidas que não tinham nada a ver com o brilho enigmático do seu olhar. Chorei abraçada ao travesseiro até que o tecido ficasse úmido, sentindo uma dor física, uma pontada aguda que me fez descobrir, da pior maneira possível, que estou encantada. Não, é mais do que encanto. Estou apaixonada pelo modo como ele me chamou de “rara”, pela segurança que seu sobretudo me deu e pelo sorriso que parecia ser apenas meu. Tentei ligar. Ousadia pura. Mas a ligação sequer completa, cai em um sinal estranho que não sei explicar. Meu cérebro cria mil desculpas: o telefone dele quebrou, ele foi assaltado, ele teve uma emergência. Porque dói demais aceitar a realidade de que ele simplesmente pode ter se cansado da brincadeira de seduzir a bailarina italiana. — Tudo bem com você, Rosália? — a voz de Camille me traz de volta. Camille é minha dupla de barra desde que cheguei a Paris. Ela está ajustando o corpete azul-pálido, os olhos brilhando de ansiedade. — Sim, sim... está tudo bem, Camille — respondo, forçando os músculos da face a formarem um sorriso que não chega aos meus olhos. — Só o nervosismo pré-palco. — Você me parece muito pensativa, ma chérie — ela insiste, inclinando a cabeça enquanto aplica uma camada de pó translúcido no pescoço. — Está com um olhar de quem deixou o coração em algum café da margem esquerda. — É só impressão sua. Estou um pouco apreensiva com a apresentação, apenas isso. É nossa primeira grande estreia no Mirages. — Nem me fale! — Camille suspira, as mãos voando para o peito. — Minha mãe vai estar na plateia, bem na primeira fila. Ela disse que quer me ver brilhar como uma estrela do Ópera Garnier. Sinto que vou desmaiar antes do primeiro grand jeté. — Você vai brilhar, Camille. Você é excelente, técnica pura. Tudo o que você faz tem uma precisão impecável. Tento manter a conversa viva, elogio o penteado dela, ajudo-a a prender um enfeite de cabeça. Faço qualquer coisa para expulsar a imagem de Lucca da minha mente. Quero apagar a lembrança do toque dele, o som da sua voz me chamando de “borboleta”. Se amar é isso — essa espera agonizante, essa incerteza que corrói — eu preferia nunca ter saído da minha bolha de isolamento em Milão. De repente, as portas se abrem com estrondo. Madame Claire entra, batendo as palmas ritmadamente. O som ecoa como tiros no camarim. — En ligne, mesdemoiselles! Tout de suite! — ela ordena, a voz ácida e autoritária. — O público não pagou para ver meninas desleixadas. Lembrem-se: o palco é um altar. Seus corpos são o sacrifício. Sustentem o eixo, sorriam com a alma e não ousem errar a sincronia do corpo de balé. Nós nos reunimos rapidamente. Formamos uma fila indiana perfeita, um exército de tule rosa e nervos à flor da pele. Sinto o peso do meu vestido, o aperto do meu coque, a pressão das sapatilhas. Sigo o grupo pelo corredor escuro que leva às coxias, mas a cada passo sinto uma leve dor na alma. É a primeira vez que amo, e o objeto desse amor é um homem doce que me deu o céu em forma de palavras e depois sumiu, deixando-me cair no abismo do meu próprio silêncio. As luzes do teatro começam a diminuir na plateia. Posso ouvir o murmúrio abafado das pessoas ocupando seus lugares. O cheiro de resina e madeira antiga me atinge com força. Eu me posiciono na lateral, esperando o sinal. Minhas mãos estão geladas, meu estômago é um bloco de gelo. Eu deveria estar rezando para não cair durante as piruetas ou pedindo proteção para minha família na Itália. Mas, enquanto o maestro levanta a batuta e o primeiro acorde do piano preenche o teatro, meu coração traidor faz apenas uma única oração silenciosa: "Por favor, que ele esteja em algum lugar lá fora. Por favor, que ele não tenha me esquecido." Respiro fundo, alongo o pescoço e olho para a escuridão além das cortinas. A música começa a fluir, e eu entro no palco. O primeiro passo é mecânico, mas, quando a luz dos refletores me atinge, eu decido que, se ele não está aqui para me ver, eu dançarei para a memória do que fomos naquele café. A agonia cresce, mas eu a transformo em movimento. Se ele me quer vulnerável, ele conseguiu. Mas ele não sabe que uma bailarina ferida é aquela que mais alto consegue saltar, mesmo que seja para tentar alcançar um fantasma. E, enquanto giro, enquanto meus pés deslizam pelo palco, os medos começam a crescer dentro do meu peito, um a um, como sombras que se alongam sob a luz dos refletores. Tenho medo de nunca mais ver Luca. Medo de que aquele encontro tenha sido apenas um instante isolado, uma coincidência bonita que o destino jamais repetirá. Tenho medo de que ele me esqueça. Que, para ele, eu tenha sido apenas uma menina passageira, um rosto bonito entre tantos outros, enquanto, para mim, ele se tornou uma presença constante, alguém que ocupa meus pensamentos, meus sonhos e até o silêncio das minhas madrugadas. Tenho medo de que exista outra mulher. Uma mulher mais velha, mais experiente, mais segura. Alguém que saiba lidar com homens misteriosos, que não cora quando ele a chama de rara, que não treme quando ele segura sua mão. Tenho medo de estar sendo enganada sem nem perceber, de ser apenas mais uma história paralela em uma vida cheia de outras histórias. Tenho medo de que ele seja um galanteador. Que aquele sorriso suave seja uma arma treinada, que aquelas palavras tenham sido repetidas para outras mulheres, em outros cafés, em outras noites. A ideia de não ter sido especial me dói mais do que o silêncio. Porque, se não fui única, então tudo o que senti foi apenas um sonho criado pela minha própria ingenuidade. Tenho medo de que ele não tenha gostado de mim. Talvez, depois de me conhecer melhor, ele tenha percebido minha inexperiência, minha juventude, minhas inseguranças. Talvez tenha me achado infantil, ingênua demais, frágil demais para alguém como ele. Talvez tenha ido embora porque percebeu que eu não era tão interessante quanto imaginou. Meu coração aperta, e meus movimentos se tornam mais intensos, mais profundos. Cada salto é uma tentativa de fugir desses pensamentos. Cada giro é uma tentativa de não cair dentro desse abismo. Porque a verdade é que eu estou com medo. Medo de ter sentido demais. Medo de ter me entregado a alguém que talvez nunca tenha realmente me pertencido. Medo de que Luca tenha sido apenas um instante bonito... e que eu tenha transformado esse instante em eternidade dentro do meu coração.
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