Minhas táticas

1431 Words
Capítulo — minhas táticas. " O mundo é dos espertos e os bolos vivem sendo jogados para o alto feito folhas murchas caídas no outono." Rafaelo Não é força que vence guerras silenciosas, é gravidade. Aproximo-me sem ruído, deixando que a curiosidade trabalhe. O olhar demora, a presença permanece, e o silêncio sugere promessas. Não caço; permito que a presa acredite escolher. Gentileza calculada, distância medida, ausência estratégica. Cada gesto vira fio invisível, cada palavra, nó suave. A atração não confronta, envolve. Quando percebe, já respira no meu ritmo e confunde calma com segurança. Então, o círculo se fecha. Sem ameaças, sem pressa. Apenas magnetismo disciplinado, até que a lealdade atravesse fronteiras improváveis e caminhos antes protegidos. A queda é inevitável e silenciosa. No submundo, a força é só uma parte do jogo. A verdadeira arte está na sedução, na atração que enreda. Quando o inimigo não vê, é hora de plantar a dúvida, sussurrar promessas de proteção e poder. O que parece frágil se transforma em uma armadilha irresistível. Olhos que brilham, risadas que ecoam; cada palavra é uma isca. Enquanto a confiança cresce, a lealdade se desvanece. A mente do rival se distrai, e a estratégia se desenrola como um tapete vermelho. A conexão emocional se torna um fio invisível, puxando-a para o meu lado, enquanto o inimigo observa, impotente. Isso não é questão de inteligência e sim de sabedoria. A fumaça do charuto flutua sobre o tampo de obsidiana n***a, misturando-se ao cheiro do charuto e ao aroma amargo do café expresso que já esfriou. O ambiente no escritório no meu apartamento em Paris é tenso, mas é uma tensão que eu domino. À minha frente, os dois americanos parecem deslocados em seus ternos excessivamente largos, tentando compensar a falta de refinamento com uma agressividade comercial barata. Eles se chamam Miller e Sterling. O primeiro é o cérebro, um homem magro de olhar inquieto; o segundo é o músculo, com pescoço largo e mãos que parecem feitas para esmagar pedras. Eles não estão aqui pela cultura francesa; estão aqui porque eu sou o caminho mais rápido para escoar o excedente de um estoque "extraviado" de uma base na Geórgia. — Let’s get straight to the point, Boss, — Miller diz, inclinando-se para a frente, a voz áspera como lixa. — The shipment is ready at the port of Marseille. High-end hardware, M4 carbines with suppressed uppers and a few crates of thermal optics. But the price we discussed? It’s non-negotiable now. Logistics got complicated. (Vamos direto ao ponto, Don. O carregamento está pronto no porto de Marselha. Equipamento de ponta, carabinas M4 com receptores superiores suprimidos e algumas caixas de ótica térmica. Mas o preço que discutimos? É inegociável agora. A logística ficou complicada.) Solto uma lufada de fumaça, mantendo minha expressão ilegível. Observo o brilho de suor na testa de Sterling. Eles acham que podem renegociar comigo porque estou longe da minha base de poder habitual. — Logistics are always complicated, Miller, — respondo em um tom gélido, em inglês perfeito. — But complications are your problem, not mine. I don't pay for your incompetence. You will honor the initial agreement, or those crates will rot in Marseille until the French authorities find a reason to open them. And we both know who they’ll come looking for first. (A logística é sempre complicada, Miller. Mas complicações são problema seu, não meu. Eu não pago pela sua incompetência. Você vai honrar o acordo inicial, ou aquelas caixas vão apodrecer em Marselha até que as autoridades francesas encontrem um motivo para abri-las. E nós dois sabemos quem eles vão procurar primeiro.) Sterling faz menção de se levantar, mas um simples olhar meu o mantém pregado na cadeira. Eles sentem o peso do que eu represento. Não sou apenas um comprador; sou o mecanismo que mantém o mundo deles girando. No final, Miller assente, contrariado, e os papéis são assinados. Quando eles saem, o silêncio que se instala é pesado. Eu me levanto, sentindo o peso do dia nos meus ombros. O estresse não vem da negociação — isso é rotina — mas da máscara que sou obrigado a usar. Caminho até a suíte master. O som da água correndo na banheira de mármore é o único ruído no quarto luxuoso. Começo a me despir, um processo que, mesmo depois de todo este tempo, ainda exige uma concentração que me irrita. Uso apenas a mão direita, a única que me restou. Com uma destreza praticada à exaustão, desabotoo a camisa , solto o cinto e deixo as roupas caírem no chão como pele morta. Paro diante do espelho antes de entrar na água. O reflexo me devolve a imagem de um homem que o mundo teme, mas eu foco apenas no meu lado esquerdo. Onde deveria haver uma mão, há o coto, a cicatriz irregular que conta a história de um erro que nunca cometerei novamente. Eu o encaro, o peito subindo e descendo devagar. Um suspiro pesado escapa dos meus lábios. Não é autopiedade; é o lembrete constante de que, no meu mundo, um segundo de distração custa uma parte de você. Ou a vida inteira. Entro na banheira. A água morna envolve meu corpo, subindo até o pescoço. Eu me afundo completamente, deixando o mundo exterior desaparecer. Sob a água, o silêncio é absoluto. O calor tenta relaxar os músculos tensos, mas minha mente continua a mil por hora. Volto à superfície, a água escorrendo pelo meu rosto. Meus pensamentos, como se tivessem vontade própria, flutuam de volta para Rosália. Ela é o ponto central do meu tabuleiro agora. Eu sei que o momento da revelação é inevitável. Eventualmente, ela verá o que as mangas compridas dos meus ternos escondem. Ela verá o homem incompleto. E eu já tenho a narrativa pronta, lapidada como um diamante bruto para ser entregue à sensibilidade dela. Vou contar a ela sobre o exército. Direi que, antes de assumir os negócios da família e as posses que ela já notou, eu fui um jovem idealista. Direi que um treinamento com granadas deu errado, que o metal e o fogo levaram minha mão e minha carreira militar, forçando minha aposentadoria precoce das forças armadas. É uma história de sacrifício, de bravura interrompida. Exatamente o tipo de tragédia que mulheres como Rosália adoram usar para justificar o mistério de um homem. E se ela questionar? Se ela, com aquela inteligência afiada que percebi sob a fachada de bailarina, perguntar por que um herdeiro de posses se alistaria? Eu sorrirei aquele sorriso melancólico que ando praticando. Direi que era o meu sonho de menino. Que a farda representava uma fuga da riqueza sufocante, uma busca por honra própria. Afinal, todos temos sonhos. Alguns nós realizamos; outros explodem em nossas mãos e caem no esquecimento, deixando apenas cicatrizes e lições. Ela vai engolir cada palavra. Ela vai querer curar o soldado ferido que habita o corpo do homem poderoso. Saio da banheira e me seco com movimentos lentos. Visto um roupão de algodão egípcio e sigo para o quarto. Troco o roupão por um moletom confortável e meias de lã, buscando o calor que parece nunca ser suficiente para aquecer minha alma. Deito-me na cama imensa, mas não fecho os olhos. As luzes de Paris não se infiltram pelas cortinas entreabertas, desenhando padrões no teto— o céu escuro é o que meus olhos enxergam. Minha mente vagueia para o próximo passo. Preciso ser preciso. Rosália precisa se sentir protegida e, ao mesmo tempo, em perigo — um perigo do qual apenas eu posso salvá-la. O encontro com Dante é uma variável que estou monitorando de perto. Ele é um cão de guarda eficiente, mas cães podem ser distraídos com a isca certa. Se procurar por Luca, vai encontrar um homem rico e solitário. " Ah, Rosália... vou prender suas asas pequena borboleta. " Vou deixá-la vulnerável. Vou cercá-la de tal forma que o mundo fora da minha presença pareça cinza e ameaçador. Ela vai se apaixonar não por quem eu sou, mas pela versão de mim que criei para ela. A pequena bailarina não sabe que o palco onde ela dança agora pertence a mim. E eu não pretendo encerrar o espetáculo até que ela esteja completamente rendida, aos meus pés, sem ter para onde fugir a não ser para o meu abraço. A noite em Paris é longa, mas eu tenho toda a paciência do mundo. O xeque-mate não se apressa; ele se constrói, movimento por movimento, até que o oponente perceba que o jogo terminou muito antes de ele notar que havia começado.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD