Capítulo — O veneno da vingança.
" A vingança é um prato que se come frio e pode levar tempo para ser concretizada. "
Rafaelo
( Tempos depois....)
Muita coisa aconteceu depois daquela noite maldita em que perdi a minha mão. A dor física foi apenas o começo. O vazio que ficou não estava só no lugar onde antes existia parte do meu corpo, mas também dentro de mim. Eu perdi mais do que uma mão naquela noite. Perdi a segurança, a confiança e, de certa forma, parte da minha humanidade.
Quem foi o coautor e responsável pelo disparo — não aquele que puxou o gatilho, mas o homem que arquitetou tudo — não parou por aí. Ele não queria apenas provocar um confronto. Ele queria guerra entre a Quarta Máfia e a nossa. Queria sangue.
Mas ele não estava satisfeito.
Capturou meu pai.Fizeram uma lobotomia nele. Apagaram sua mente, sua inteligência, sua presença dominante. O homem que sempre foi um estrategista brilhante agora olhava para o vazio, com os olhos perdidos, como se estivesse preso em algum lugar que ninguém mais conseguia alcançar.
Nos devolveram uma carcaça.
Um corpo vivo sem alma.
Faz alguns meses que eu assumi a cadeira do clã. Eu não poderia deixar o império do meu pai e do meu avô cair de forma alguma.
Tantos príncipes, na minha idade, assumiram tronos e se levantaram em guerra; por que eu não poderia fazer o mesmo? Afinal de contas, eu fui criado para isso. Por mais que eu esteja mutilado, sem a minha mão, e por mais que meu pai agora pareça apenas um zumbi sem corpo, sem estímulos sentimentais, alguém que não sente, não vê, não ouve — um robô —, eu continuo caminhando em frente, arrastando essas correntes pesadas, levando para mim o peso do meu legado. Fui criado para ser herdeiro e, como tal, irei honrar tudo o que meu pai fez por mim.
Escuto alguém bater à porta do escritório. Fecho rapidamente o notebook.
— Entre.— Minha voz sai forte, firme.
Minha irmã entra, olhando tudo. Ela para e coloca as mãos na cintura.
— Parece que agora eu vou ter que te chamar de Don. Perdeu o juízo, Rafaelo?
As suas sobrancelhas se unem no meio da testa, um vinco enorme surge.
— Olha como fala comigo. A partir de agora, sou eu quem comanda a família. Isso foi decidido por todos. Não depende de você, não depende de mais ninguém. Depende unicamente de mim, de fazermos o nosso nome ser respeitado. Ou você abaixa a sua crista, Lavínia, e demonstra respeito, lealdade e obediência para com o seu Don. Ou tomarei as devidas providências, porque a partir desse momento eu não sou apenas seu irmão, eu também sou seu líder.
Ela me olha com ar de deboche.
— Providências? Que tipo de providências?
— Arrumo um casamento para você rápido e não se oponha à sua pouca idade. As meninas de antigamente bastavam ter as primeiras regras para serem dadas em casamento pelos pais.
Os olhos da ruiva se esgazeiam, ficam enormes. Suas narinas se dilatam e suas mãos tomam forma de punhos, os dedos cada vez mais esbranquiçados diante da raiva, diante da força que emprega para não me dizer palavras atravessadas ou até mesmo bater de frente comigo. Agora o quadro mudou. Eu sou o líder da família. Não sou mais o irmão com o qual ela vivia de implicância por coisas infantis.
— Então, já que você se denomina o manda-chuva de toda a situação, me diga o que foi que aconteceu com nosso pai, porque ele desapareceu e, de repente, foi encontrado vagando como se tivesse sido abduzido por alguma nave alienígena.
Estreito meu olhar em sua direção, formando apenas uma linha fina. Fico quieto. Meus dedos tamborilam no tampo da mesa de carvalho. Em seguida, deslizo o dedo indicador até parar perto do risque-e-rabisque de couro. Bato com a ponta do indicador na tampa do notebook, que está fechado. Ergo o olhar para Lavínia.
— Isso não é do seu interesse. Os meus negócios, os meus assuntos não fazem parte do que você deve saber. Fique ciente de que o que for para você e para a nossa mãe saberem, eu pessoalmente direi. Do oposto, nada chegará ao conhecimento das duas.
— Oh, meu Deus, mas que interessante… como ele se tornou misterioso agora. Vai me dizer o quê, querido? Que também vai arrumar casamento para a nossa mãe? Ah, não… agora você vai implicar até com a cor do meu cabelo? Ah, sim, quer dizer que eu já não vou ser mais a desbotada da família e que você vai ser o cü doce e...
Dou um tapa de mão aberta na mesa. Ergo-me, colocando o meu único punho para sustentar o corpo. Aponto o braço na direção da minha irmã; na ponta há um gancho, parecendo uma flecha, feito de fibra de carbono. Lavínia se assusta, arregala os olhos, dá três passos para trás, esbarra na poltrona. Olha de um lado para o outro, assustada. Vejo suas mãos paradas no ar, trêmulas. Ela aperta a boca, formando uma linha fina.
— Qual parte não entendeu que você me deve respeito? Qual parte você não entendeu que quem manda agora sou eu? Que o seu atrevimento pode custar muito caro? Presta atenção numa coisa, Lavínia: eu não sou o nosso pai. Eu sou totalmente diferente dele. E se eu tiver que esmagar a minha própria carne para demonstrar para os demais o que acontece com quem falta com respeito comigo, eu farei.
Ela engole em seco, passa a mão rapidamente pelos cabelos, em seguida coça os olhos com as pontas dos dedos, como se quisesse despertar de algum tipo de sonho r**m ou pesadelo. Só que eu não sou um sonho r**m, mas serei o pesadelo de muita gente.
— Você não está bem, Rafaelo. Precisa de ajuda. Está obcecado com esse assunto da tua mão. Eu sei que você está aí atrás dessa cadeira querendo pegar quem foi que fez isso, o responsável, mas presta atenção: o nosso pai tinha vários inimigos por todos os cantos. Ele jogava uma máfia contra a outra para que elas duelassem e assim ele pudesse continuar crescendo e fortificando a nossa máfia. Eu nunca concordei com esses meios, porque uma coisa é guerra, agora outra coisa é você ser o pivô de toda a confusão, ser a escória, provocar todo o problema e se aproveitar dele. Nosso pai fazia isso. Vai seguir o mesmo caminho? Vai pisar pelos mesmos espinhos? Presta atenção, meu irmão, eles vão te castigar muito. Muitos dos nossos capos estavam insatisfeitos com os mandos e desmandos do nosso pai.
Ouvir essa verdade dela me irrita — e irrita muito —, porque, apesar de Salvatore ter feito muita coisa errada, ele não deixa de ser o meu pai. Ele não deixa de ser o meu mentor. Ele não deixa de ser o Don, o homem que me criou.
— Cale a boca, Lavínia. Cale a boca agora. Você não entende e não sabe de nada. Deveria voltar a fumar os seus cigarros escondidos junto com as suas amigas, não é mesmo?
Dou um sorriso de escárnio. Eu peguei a filha da püta fumando cigarro escondido no dia em que a mesma trouxe a filha de um dos capos aqui para casa, dizendo que iriam fazer trabalho de escola. As duas se mandaram para a plantação de oliveiras, crentes de que estavam resguardadas de qualquer olhar mais atento. No entanto, eu mandei instalar câmeras em todo o perímetro para poder me resguardar de qualquer tipo de emboscada, uma vez que todos do submundo sabem que o meu pai já não é o mesmo de antes e podem empreender uma invasão ou tentar qualquer outro tipo de estratégia para me derrubar e tomar a cadeira para si, uma vez que ele só tem eu de filho homem , para perpetuar o seu nome e aumentar o seu legado.
E nesse mundo de cão em que eu vivo, cada passo que você dá precisa ser muito bem calculado, porque sempre tem alguém por perto, esticando demais, tentando puxar o tapete para que você escorregue e caia.
— Foi a primeira vez, eu juro — ela diz, ficando pálida, perdendo a cor dos lábios.
Dou outro sorriso de escárnio.
— Primeira vez, Lavínia? Vai mentir para mim na cara dura? Vai mentir para mim?
Eu berro, socando a mesa. Ela me olha desesperada.
— Tudo bem, tudo bem… Eu não minto para você. Já faz meses. Eu experimentei. Eu vi o papai fumando, achei interessante e fiquei curiosa.
— Você vai sair daquela escola — eu digo na lata.
Ela arregala os olhos.
— Não, Rafaelo, pelo amor de Deus! Eu não quero ficar sozinha, não quero ir para um lugar onde eu não tenha amizade. Você sabe como eu sou tímida, eu não consigo fazer amizade muito rápido. E lá eu já tenho as minhas colegas, as minhas amigas.
— Mas que belas amizades as suas, te convidando para fumar cigarro. E depois será o quê? Beber uísque? Ah, não, já sei: cheirar um pó. Ah , melhor ainda, injetar alguma coisa na veia para ficar louca. Ou então te induzir à prostituição. Ah, é claro, porque você não tem dinheiro chegando em suas mãos para sustentar vícios. Vai vender seu corpo?
Minha irmã balança a cabeça em negação.
— Você vai sair da escola, Lavínia. Isso já está mais do que decidido. Você vai para uma escola interna, vai vir em casa só aos finais de semana, e se tiver bom comportamento.
Ela entra em desespero, corre até a minha mesa, bate com as mãos espalmadas no tampo, olha dentro dos meus olhos. Parece um inferno; suas íris escurecem de tanto ódio e raiva.
— Você vai realmente fazer isso comigo? Vai me tirar da minha escola, da minha casa, e me jogar dentro de um colégio interno? Meu pai nunca faria isso. Sabe o que acontece, Rafaelo? O poder está te subindo à cabeça. Você já começou com seus mandos e desmandos. Acha mesmo que a nossa mãe vai deixar você me tirar de casa?
Ela dá um risinho sarcástico, irônico. Eu me recosto na cadeira, cruzo os braços. Ela olha dentro dos meus olhos. Dou um sorriso breve, cheio de garras. Pego o telefone do gancho e digito o número da minha mãe.
— Onde a senhora está? Por favor, venha até o meu escritório — digo seco, com a voz séria, e desligo.
Lavínia se afasta da mesa, olha para mim e balança a cabeça em negação. Em poucos minutos, a porta se abre e a nossa mãe entra. Ela olha para mim, séria. Não perdeu a postura de matriarca; sempre foi assim, uma mulher de princípios, e eu tenho muito orgulho dela.
— Don Rafaelo?– a voz da minha mãe soa baixo, nunca se altera.
— Sua filha quer ouvir de seus próprios lábios que ela irá ser internada.
Minha mãe engole em seco. É claro que ela não está gostando dessa situação da filha ser internada, mas está gostando menos ainda de saber de Lavínia usando cigarros com as amiguinhas.
— Sim, você será internada para o seu próprio bem, minha filha. Ou fazemos isso, ou essas pessoas com as quais você anda tendo esse tipo de amizade poderão te colocar no mau caminho. E eu não estou aqui para perder filho nenhum. Já me basta ter perdido seu pai, que parece que foi abduzido e trocado, colocaram um homem inerte no lugar dele. É uma lástima o que está acontecendo com a nossa família.
Minha mãe se lastima, e eu também me lastimo. Realmente é uma lástima, mas não podemos fazer nada a não ser continuar caminhando, continuar lutando, sem deixar que o inimigo perceba — e, mais ainda, sem deixar nada desmoronar.
— Vocês dois estão malucos! Eu sou nova, eu sou jovem, tenho a minha vida, tenho meus amigos! Vocês vão me fazer voltar do zero, praticamente resetar toda a minha existência!
O drama de Lavínia começa. Ela olha de um lado para o outro, puxa os cabelos, as lágrimas descem, mas nada disso me abala. Nada disso faz o meu coração quebrantar.
— Está decidido. Você será internada. Agora, com licença, que eu tenho um assunto para resolver.
Faço um gesto com a mão, dispensando a minha mãe e a minha irmã. Minha mãe vira-se para mim, olha o meu rosto.
— Meu filho, me desculpa atrapalhar, mas quero saber se você vai preparar algo para a sua festa de 18 anos. Afinal de contas, faltam dias. Normalmente sempre comemoramos com um jantar mais íntimo. Eu não sei se você vai querer seguir a tradição ou se pretende fazer algo ao seu gosto.
— Seguiremos a tradição. Um jantar para os íntimos. Vamos continuar, mas dessa vez com mais tenacidade. Eu não irei perder nenhum centímetro de tudo o que conquistamos para ninguém. E aquele que ousou tocar em meu pai vai pagar muito caro por isso. Vai chorar todas as lágrimas de sangue que nós estamos chorando.
— Você é monstruoso, Rafaelo. Eu pensei que meu pai estava criando uma pessoa r**m, mas vejo que você é perverso. Tenho pena, muita pena da mulher que um dia você tomar para si como esposa. E tenho mais pena ainda dos filhos que você terá com ela.— Lavinia sopra com áspera as palavras.
Meu sorriso surge, mas não é de alegria ou felicidade; é um sorriso assombroso, maquiavélico, r**m, perverso.
— Não se preocupe, minha irmã. Se ela vai sofrer ou não, em breve nós saberemos disso.
Minha mãe me olha espantada.
— Você pretende casar, Rafaelo? Tão rápido, tão novo?
— Não, mãe. Não pretendo me casar agora. No entanto, um dia irei. Nenhum Don foge a essa regra.
Minha mãe e minha irmã saem do escritório, fechando a porta. O lugar fica vazio, oco, igual à minha alma. Eu olho para a minha mão, que agora é apenas uma espécie de flecha afiada. Foi o que me sobrou depois daquela incursão, além da dor e dos presentes perversos que eu recebi, todos guardados para eu esfregar na cara da pessoa que os enviou.
Dante Greco acha que eu sou apenas um moleque que não entende nada da vida, mas eu vou mostrar para ele, através da dor de alguém que ele ama, que o moleque que está sentado nesta cadeira é um homem.
Abro mais uma vez o computador, e vídeos de uma garotinha de olhos cinzas correndo, com seus longos cabelos castanhos claros, brincando no jardim com seu vestido cor-de-rosa cheio de babados, começam a surgir na tela. Ela ri, pega uma boneca de pano, balança, abraça e dá um beijo. Depois, anda até uma jardineira, colhe uma flor e olha para a câmera.
Rosália… minha pequena Rosália. Vai ser você que vai receber o martírio que seu irmão infringiu à minha família.
Já faz tempo que eu descobri que foi Dante Grecco que fez uma espécie de lobotomia no meu pai. E como eu descobri isso? Informantes dentro do próprio clã dele: soldados e capos que estão infelizes com a posição que ocupam. É sempre assim: você dá um pouco de melado para o urso e ele quer o pote inteiro.
Todos dentro de uma máfia sonham em chegar a um lugar de destaque, a um lugar firme, se possível entre aqueles que estão no topo da pirâmide. Mas, para estar lá, é muito difícil. Primeiro, porque o sangue precisa ser puro e de linhagem; segundo, porque o nome pesa — e pesa muito; e terceiro, porque falta espaço. Cada um se segura em sua cadeira com unhas e dentes.
E quando há uma guerra, quando a cadeira fica vaga, já existe uma fila com mais de vinte esperando para ocupar. Cada posição é disputada a tapas, a tiros, a sangue. Todos sabemos disso e, mesmo assim, aquela esperança de um dia conseguir fazer parte da elite dentro da máfia ainda existe. No mar de pessoas, elas se penduram tentando alcançar o degrau mais alto, arriscando suas próprias vidas e existências, porque o que move o mundo não é somente o dinheiro, é o poder. Você pode ter todo o dinheiro do mundo, mas se não tiver poder, se não tiver um nome que te associe ao poder, você não é ninguém.
Eu senti muito ódio dele. Muito ódio. E mais ódio ainda, quando levei meu pai a um médico especialista que disse que a lobotomia é irreversível e que eu poderia esperar por mais efeitos colaterais desse procedimento. Salvatore, o homem cheio de ideias, planos, que maquinava cada passo que dava, acabou. O que restou dele foi só a carcaça em pé, comendo, andando, falando. Sequer sorri, sequer sente. Às vezes ele olha para mim e a percepção que eu tenho é que ele não me conhece, não me reconhece. Isso dói na minha alma, dói no meu peito.
Isso é o submundo ou o mundo do crime.
Nesse lugar a guerra é de gente grande. Tem mulheres que ficam com homens que matam seus próprios filhos, frutos de outros parceiros. Tudo pela aliança de poder.
E assim a " vida" bandida segue, eles enterram, eles somem com o corpo. Nomeiam aqueles assassinatos limpos, sem evidências.
Essas mulheres sabem que foram seus parceiros os algozes de suas crias e, mesmo assim, permanecem — por uma questão de estratégia. Nenhum amor materno dentro dessa terra do submundo fala mais alto. Quem pode mais manda, e aquele que não pode abaixa a cabeça ou tem ela arrancada.
São as regras e quem não segue as regras, não tem tempo para escutar coitado.
Deslizo o meu dedo pelo mouse, movimentando a tela, e vejo mais fotos da pequena Rosália, a irmãzinha caçula de Dante. Suas bochechas rosadas, seu riso fácil, a janelinha por causa do dente que perdeu, o modo inocente de olhar para uma borboleta que passa. Tudo isso me dá mais ódio, mais raiva. Eu tinha a pretensão de, no futuro, fazer um filho meu desposar uma filha dele, mas as nossas idades não batem, não coincidem.
E não poderia ser um filho dele a tomar uma filha minha, porque desse modo ela perderia o meu sobrenome e passaria a receber o nome dele — e eu quero o oposto. Eu quero a humilhação. Eu quero alguém dele para levar o meu sobrenome e apagar o sobrenome dele. E o que me restou foi Rosália.
Meu celular toca. Enfio a mão dentro do bolso do paletó, pego o aparelho e atendo.
— Senhor, falta mais ou menos trinta minutos para ela sair da escola.
— Ótimo. Continue me passando todo o relatório. Tire algumas fotos também.
Eu montei o meu plano assim que saí do consultório com meu pai e descobri que o caso dele é irreversível. Eu vou cercar a Rosália. Vou vigiar a vida dela desde agora até o ponto em que ela estiver madura para a minha colheita. Vou espantar qualquer pretendente que se aproxime, afastar qualquer menino que cresça o olho para cima dela. Vou deixá-la isolada emocionalmente de homens. Vou arrumar o caminho até o momento certo em que eu irei surgir e levarei para mim essa menininha que está na tela do meu computador, que preenche várias pastas com fotos, que vive sob a minha vigilância.
Rosália será minha — e depois que for minha, eu farei o que eu quiser com ela.
Será nesse momento que darei início ao martírio do sangue Greco. Eu à farei pisar sobre os espinhos para que o irmão dela sinta a dor. Eu à curvarei, à quebrarei e à moldarei a minha maneira. Farei filhos nela e farei o irmão dela engolir a mistura do nosso sangue. Deixarei bem claro para a família de Rosália o quanto eu menosprezo o clã Greco.
E quando tudo estiver concretizado, esmago todos.
Ergo-me, contorno a mesa e deixo o escritório. Os seguranças se aproximam assim que cruzo a porta.
Sigo para fora de casa.
— Para onde nós vamos, Dom? — diz meu soldado, abrindo a porta do carro para que eu possa entrar.
— Esta tarde será uma tarde de cobranças. Eu tenho uma lista memorizada aqui — bato com o indicador levemente na cabeça, bem na direção da minha têmpora. — E hoje eu não volto para casa sem o meu dinheiro. E aquele que não tiver o meu dinheiro, eu volto para casa trazendo as suas miseráveis vidas. As pessoas irão aprender que não é mais Salvatore que está à frente dos negócios dessa organização. Quem está à frente agora é Rafaelo. E, diferente do meu pai, eu não tenho piedade de ninguém.
Travo o maxilar enquanto arrumo o paletó. Retiro a pequena lança que uso. Meu soldado abre uma maleta discreta, e eu pego a minha prótese feita de titânio e a encaixo. É uma mão robótica que funciona através de sensores e de alguns eletrodos implantados em regiões específicas do meu corpo, que conduzem os impulsos elétricos diretamente em ondas para um captador dentro dessa prótese.
O carro desliza para fora da propriedade, e eu faço as minhas contas na cabeça. Dezoito anos. Quando ela tiver dezoito anos, será o momento de executar o meu plano. Então, eu não deixarei pedra sobre pedra. E Dante Greco vai se arrepender de ter tocado no meu pai.
O ronco do motor preenche o silêncio dentro do carro. A cidade passa pelas janelas em borrões de luz e sombra, e cada quilômetro percorrido parece reforçar o peso que agora repousa sobre os meus ombros. Não é só a cadeira do clã. É o nome. É a história. É o sangue que me precede e que exige continuidade. Salvatore me ensinou que um dom não pede permissão, ele toma. E agora, mesmo ausente, mesmo quebrado por dentro, ele ainda dita cada passo que eu dou.
Meu soldado no banco da frente fala baixo ao rádio, confirmando presenças, horários, valores. Tudo funciona como uma engrenagem bem lubrificada, e eu observo isso com atenção clínica. Não posso falhar. Falhas custam vidas. Falhas abrem brechas. E brechas são convites para facas nas costas.
Penso nos homens que encontrarei hoje. Alguns vão tentar negociar, outros vão implorar, outros vão mentir olhando nos meus olhos. Nenhum deles entende que esta fase acabou. Não existe mais tolerância. Não existe mais prazo estendido por respeito ao nome do meu pai. Agora existe apenas resultado.
Encosto a cabeça no banco de couro e fecho os olhos por um segundo, sentindo o frio metálico da prótese responder aos meus comandos. Eu me adaptei à dor. Fiz dela uma extensão da minha vontade. E quem cruzar o meu caminho vai aprender, da forma mais dura possível, que o clã não enfraqueceu — ele apenas mudou de mãos.
O carro desacelera ao entrar na zona industrial. Galpões antigos, paredes manchadas de óleo e ferrugem, ruas m*l iluminadas. Território neutro apenas no papel, porque ali todos sabem quem manda e quem deve. Ajusto o punho mecânico mais uma vez; o clique metálico soa baixo, quase íntimo. Cada som desse me lembra que não existe retorno possível. A mão que perdi levou junto qualquer vestígio de hesitação.
O portão de ferro se abre devagar. Dois homens armados observam em silêncio enquanto entramos. Reconheço os rostos — antigos aliados do meu pai, homens que se beneficiaram durante anos da sombra dele e agora testam a espessura da minha. Eles não sorriem. Eu também não. Sorriso, aqui, é fraqueza.
Desço do carro com calma. O chão de concreto está frio sob meus pés, e o ar cheira a metal e medo. Gosto disso. O medo organiza, disciplina, ensina. Caminho à atrás, os seguranças a minha frente, formando uma muralha invisível. Cada passo ecoa como um aviso.
Lá dentro, os devedores aguardam. Olhos baixos, mãos inquietas, respirações curtas. Eles esperavam Salvatore, o estrategista paciente, o homem que negociava antes de punir. O que encontram agora sou eu. E a diferença é brutal.
— Vamos começar — digo, sem elevar a voz.
Porque quem precisa gritar ainda não entendeu o próprio poder.
Rostos se voltam em minha direção, alguns com olhares de escárnio e outros com medo visível.
Aponto na direção de um dos homens.
Meu soldado empurrado o homem para frente . Ele tropeça, quase cai, e se recompõe rápido demais para quem diz não ter nada a esconder. Seus olhos fogem dos meus, e isso basta. Caminho ao redor dele devagar, estudando cada gesto, cada microtensão nos ombros. O silêncio pesa mais do que qualquer ameaça explícita.
— Você sabe por que está aqui — digo, enfim.
Ele assente, a garganta trabalhando seco. Palavras são inúteis nesse ponto. Todos ali sabem que não se trata apenas de números atrasados ou prazos estourados; trata-se de exemplo. Um corpo erra, muitos aprendem. Sempre foi assim.
Faço um gesto mínimo com a prótese, e meus homens se movem como se fossem um só organismo. Não há correria, não há gritos. Apenas eficiência. O medo se espalha rápido, invisível, como fumaça em ambiente fechado. É isso que eu quero: que entendam sem que eu precise repetir.
Encosto a mão metálica na mesa de madeira gasta e sinto a vibração subir pelo braço. A mesa treme, alguns recuam instintivamente. Bom. O respeito nasce desse reflexo involuntário.
— A partir de hoje — continuo —, tudo o que entra, entra no prazo. Tudo o que sai, sai com autorização. Quem falhar uma vez, aprende. Quem falhar duas, desaparece.
Levanto o olhar e deixo que ele percorra todos os rostos, um por um. Não há ódio neles. Só compreensão tardia. E isso me satisfaz.
— E o de vocês se esgotou faz tempo. Eu não sou bom com o jogo da paciência, meu instinto é outro. Por isso aquele que não quitar o débito hoje, saberá como é debaixo da terra amanhã.
Eles entendem que aqui está o sangue de Salvatore, não uma réplicado próprio. É o meu governo, as rédeas estão na minha mãe.
É o que desejo, que não me veja como sombra do antigo Don, e sim como um novo líder.
Eu montarei as peças de forma estratégica de modo que nada saia do que eu venho planejando.
O clã seguirá de pé. E eu, definitivamente, estou no comando mesmo que outros duvidem da minha capacidade até o momento que suas cabeças rolarem pelo chão.
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