Amputação.

2707 Words
Capítulo — Amputação. " Quando um pedaço nosso se vai, a carne não sangra, ela queima mais do que ferro em brasa." Salvatore Saímos daquela carcaça de casa com o cheiro acre da morte impregnado nos poros, uma fragrância que nem o melhor sabão de Marselha consegue apagar. É um perfume metálico, pesado, que gruda na garganta e te faz lembrar que a vida é um sopro interrompido por um pedaço de chumbo. Eu ainda sinto o calor do sangue do Marcelo — aquele traidor miserável — salpicado no meu antebraço, queimando como se fosse ácido. O desgraçado implorou, mas no nosso mundo, o perdão é uma mercadoria que entrou em falta há muito tempo. O eco do tiro disparado por Rafaelo ainda reverbera dentro do meu crânio, um trovão seco que selou o destino de quem ousou morder a mão que o alimentava. Meus ouvidos zumbem, mas o silêncio que se seguiu é ainda mais ensurdecedor. Atravessamos o terreno destruído, desviando de escombros e da dignidade esfarrapada daqueles que ficaram para trás, e não trocamos mais que duas palavras. Para quê? O trabalho foi feito, a mensagem foi entregue em papel de embrulho feito de carne e osso. A adrenalina é uma amante c***l; ela corre pelas minhas veias como um rio de lava, mantendo cada fibra do meu ser em estado de alerta máximo. Meus dedos ainda buscam o cabo da pistola, um reflexo condicionado pelo ódio e pela necessidade de sobrevivência. Eu estou pronto para matar de novo, e de novo, até que o último vestígio de desrespeito seja varrido do mapa. Meus músculos estão retesados, cordas de piano prontas para tocar a sinfonia fúnebre de quem cruzar o meu caminho nesta noite maldita. Eu olho para o Rafaelo de soslaio. Ele é uma sombra de gelo, entretanto eu vejo o tremor contido no canto do olho dele — não de medo, mas de uma fúria que ainda não encontrou seu fim. A Quarta Máfia achou que podia atear fogo ao meu sustento e sair ilesa? Eles acharam que eu me esconderia nas sombras para chorar o prejuízo? Pois aqui está a resposta: o sangue deles agora serve de graxa para as rodas do meu carro. O ar da noite é frio, mas meus pulmões ardem. Cada passo que dou para longe daquela carnificina é um passo em direção ao próximo acerto de contas. Não há paz para homens como nós, apenas intervalos entre uma execução e outra. O mundo lá fora pode estar dormindo, sonhando com leis e justiça, mas aqui embaixo, no reino dos homens de honra, a única lei que vale é a do talão de cheques escrito em vermelho. Eu sinto o peso da traição diminuir à medida que o peso da vingança aumenta. Marcelo era um degrau, mas um degrau falso que se vende por trinta moedas de prata merece o destino de Judas. E enquanto eu entro no carro, limpando o respingo de sangue do braço com um lenço , sorrio. Não um sorriso de alegria, mas a careta de um predador que acaba de provar o gosto da vitória e descobriu que está com uma fome insaciável. O jogo não acabou; ele apenas subiu de preço. Ninguém me faz de trouxa. Pela visão periférica capto um movimento rápido. César, chefe dos meus assassinos, aparece pelo canto da casa, arfando, o olho arregalado. — Don Salvatore! Precisamos sair AGORA! — ele grita. Eu só preciso ver o desespero no rosto dele pra saber que alguma meŕda está vindo. — O que foi? — pergunto enquanto empurro Rafaelo pra frente, acelerando o passo. — Dois carros vindo do sul da propriedade. Armados. MUITO armados. Podem ter mais apoio, se nos encurralarem ficaremos sem saída. Filhos da půta. Era óbvio que alguém ia mandar reforço. Matar o irmão do chefe da Quarta Máfia não ia ser ignorado por muito tempo. De longe podem ter observado nossa invasão, através do monitoramento, eles não iriam ficar parados de braços cruzados, ninguém fica. — Enzo já ligou o carro? — digo. — Sim, senhor! — Então CORRE! — eu rosno. Rafaelo corre ao meu lado, ainda ofegante, mas com aquele brilho doentio nos olhos dele. Ele gosta dessa pōrra toda. Às vezes mais do que deveria. Ele tem isso no sangue e, aos poucos, está circulando mais e mais. Quando chegamos no carro, o motor já está ligado, vibrando como um animal enjaulado. Eu empurro Rafaelo para o banco de trás e entro logo depois. — ENZO, ACELERA ESSA MERDA! CÉSAR MANTENHA A POSIÇÃO DE ATAQUE!— grito. Ele pisa com força no acelerador. A caminhonete arranca com tudo, as rodas levantando terra pra todos os lados. Só dá tempo de fechar a porta. Na hora seguinte, o inferno inteiro resolve aparecer. — Eles já tão atrás! — Cesar grita. Rafaelo prepara o fuizl e coloca a ponta da arma pela janela. Eu olho pelo vidro traseiro. Dois carros pretos, sem placa, correndo como cães famintos atrás da gente. As luzes dos faróis tremulam enquanto sobem a pequena ladeira do terreno. — Abaixa a cabeça, Rafa! — digo ao meu filho. Meu filho ignora. Ele coloca a cabeça pela janela do lado esquerdo e começa a atirar. — RAFAELO! — eu rosno. — Eu consigo, papà! Confia em mim! Eu quero arrancar esse fuzil da mão dele, mas não posso soltar o meu para protegê-lo. A estrada começa a ficar estreita, e os carros atrás da gente chegam cada vez mais perto. A primeira rajada de tiros deles vem como uma chuva de aço. O vidro traseiro estoura. — Cazzo! Estão usando um calibre que a blindagem não suporta! – berro– Saia da linha de tiro deles, Enzo! Atira, CÉSAR! Sinto o cheiro da morte respirando na minha nuca. O suor começa a escorrer gelado pela minha pele. A adrenalina disputando espaço em meu corpo com o receio. Sempre que deixamos a nossa fortaleza temos em mente que é o momento do tudo ou nada. Não saímos para morrer porque ninguém deseja isso, mas colidir com a possibilidade é a verdade mais crua e honesta que temos. A chuva de tiros é interminável. — Cazzo! Estão tentando acertar os pneus! — César berra. — Desvia, Enzo! – minha voz é um grito de ordem. — Estou tentando, chefe! O carro sofre um movimento brusco. Rafaelo quase cai do banco com o recuo. Eu puxo meu filho pelo colete. — PØRRA, RAFA! FICA ABAIXADO! CASPITA! — Eu estou tentando! — ele rosna, teimoso como sempre. Olhar de quem nasceu pronto para o campo de batalha. Eu juro que vou matar esse moleque se ele não morrer antes por essa impulsividade de meŕda. O carro balança violentamente quando Enzo corta uma curva apertada. — ENZO! — eu grito. — NÃO FREIA POR NADA! CÉSAR DÊ BALAS PARA ESSES BASTARDOS COMEREM! — Não pretendo frear, Don! — Enzo responde fazendo um malabarismos com o volante. Os carros inimigos dão outra sequência de tiros. Um dos projéteis entra pelo vidro quebrado e crava na porta interna, a centímetros do meu ombro. Meus olhos para o estrago feito pelo disparo. É então que eu ouço. O grito. Um grito curto, sufocado. — AH—! Reconheço a voz de Rafaelo. Meu coração vira um animal preso numa gaiola estreita. Ele leva a mão ao pulso, e o sangue começa a escorrer pelo antebraço, rápido demais, num jato quente e vermelho. — CARÅLHO! — ele grita. — Minha mão! Minha mão, papà! O mundo inteiro se estreita até virar uma pequena esfera que drena todo o ar dos meus pulmões. A imagem da mão dele tremendo, aberta, sangrando, dedos pendurados e completamente dilacerada com o líquido viscoso escorrendo até molhar o assoalho, leva de mim a alma. O fuzil cai no chão do carro com um som metálico que me fere mais do que qualquer bala. — LAURO! — eu grito para meu segurança que está no banco de frente para mim ao lado de César. — SEGURA A PØRRA DO RITMO! CONTINUA ATIRANDO! ATÉ MATAR ESSES CÃES! Eu me viro para meu filho. — Rafa… deixa eu ver… deixa eu ver essa meŕda! — digo, a voz quase quebrando. Quando ele abre ligeiramente a mão, eu vejo o estrago. Uma parte dela… não está mais ali. As falanges inferiores dos dedos do meio e do anelar estão… destruídas. Carne viva. Osso estilhaçado. Sangue brotando como se a pele estivesse gritando. Meu estômago revira. — PAI, DÓI PRA CÅRALHO …! — ele geme, mordendo o próprio lábio até sangrar. Eu seguro o rosto dele com a outra mão. — EU SEI, EU SEI, MEU FILHO! — digo. — Aguenta! Aguenta pørra! Lauro continua atirando na direto dos malditos , mas os carros ainda nos seguem. Parecem verdadeiras carruagens infernais. Não cansam. Uma bala passa pelo canto esquerdo da janela e entra no painel. O carro dá um solavanco. — ENZO! — grito. — HOSPITAL! AGORA! EU NÃO QUERO SABER COMO! HOSPITAL! — Mas, Don, eles estão— — FØDA-SE! HOSPITAL! — berro tão alto que minha garganta arde. Eu tiro o colete do Rafaelo enquanto o carro balança como se fosse cair de lado. O suor dele escorre pelo rosto, se mistura com o sangue. Ele está empalidecendo. — Lauro! — rosno. — Segura a mão dele! Aperta essa merda! — Eu jogo para ele a bandagem do kit que fica escondido no chão do carro. Lauro larga o fuzil e se vira para Rafaelo. Meu soldado faz conforme peço, e meu filho grita tão alto que arranca o ar do meu peito. O desespero me atravessa, mas não posso hesitar. — Precisamos estancar a hemorragia, ou ele pode sofrer um choque hipovolêmico — digo, tentando manter a voz firme enquanto o medo ameaça me dominar e minhas mãos já se movem para salvar meu filho. Eu troco de lugar com Lauro e passo a pressionar o ferimento. O sangue jorra pelos meus dedos, quente, espesso, grudando em tudo. — MEU FILHO… — eu sussurro. — Aguenta pørra… aguenta… — Papà… — ele me olha, tentando sorrir. — Não me deixa morrer… não me deixa — — NINGUÉM VAI TOCAR EM VOCÊ! — eu grito. — EU JURO! EU JURO POR DEUS! EU JURO PELO MEU NOME! RESPIRA, RAFAELO, RESPIRA. Outra rajada nos acerta por trás. — Lauro! — digo. — Granadas de fuligem. Joga agora! Ele puxa do colete a menor granada tática, puxa o pino e joga pela janela. Um segundo depois, uma nuvem preta explode e se espalha pela estrada, cegando os carros atrás de nós. — CÉSAR, ACELERA ESSA PØRRA COMO SE SUA VIDA DEPENDESSE DISSO! — digo. — Sim, Don! A caminhonete dispara, o motor geme sob o esforço e os pneus quase perdem o rumo na estrada irregular. Ainda assim, a distância aumenta. Seguro a mão do meu filho, mas o sangue não para de escorrer entre meus dedos. A mão dele está destruída, dilacerada, e meu peito aperta com a certeza c***l que me invade. Eu sei que não existe cura milagrosa, não para aquilo. Mesmo assim, engulo o desespero, forço esperança no olhar e finjo força. Finjo por ele, apenas por ele. — Vai ficar bem, Raffa… vai ficar bem… — digo, tentando manter a voz firme. Ele respira rápido, trêmulo. — Papà… dói… dói muito… — Eu sei… eu sei, meu filho… eu sei… O carro finalmente entra na zona urbana. Eu escondo os fuzis, o colete, o equipamento. Jogo tudo para o fundo do porta-malas e cubro com lonas. Quando chegamos no hospital, eu abro a porta com tanta força que quase arranco ela do carro. — AJUDA! — eu urro. — ALGUÉM AJUDA O MEU FILHO! Pego Rafaelo no colo. O sangue dele escorre pelo meu braço, pingando no chão do estacionamento. Ele deixa um rastro espesso, vermelho, vivo. As pessoas olham, assustadas. Algumas recuam. Outras começam a gritar. — CÅRALHO, ALGUÉM VEM AJUDAR! TEM ALGUÉM PARA ATENDER NESSA PØRRA! — eu grito mais alto. Dois enfermeiros correm com uma maca. Eu coloco Rafaelo nela, mas a mão dele agarra meu casaco. — Papà… — ele murmura. — Não me deixa… — Eu tô aqui! — digo. — Eu tô aqui, PØRRA! Ninguém vai te tirar de mim! Eles empurram a maca para dentro. Um médico aparece quase correndo. — O que aconteceu?! — GPS! — eu berro. — Aquele merda me jogou numa zona de criminosos! FOMOS ATACADOS! ARRUMA A MÃO DO MEU FILHO! AGORA! O médico olha rapidamente. E empalidece. Ele sabe. Eu também sei. Mas não quero acreditar. — Vamos levá-lo para o trauma! — ele diz. — Agora! Eu corro ao lado deles até onde não posso mais entrar. A porta dupla do setor de trauma se fecha na minha cara. Eu fico parado. Ou talvez eu esteja tremendo. Eu não sei mais. Minutos. Horas. Ou segundos. O tempo perde o sentido quando alguém abre a porta. É o mesmo médico. Com o rosto duro demais para ser notícia boa. — O senhor é pai do rapaz? — Sim! — respondo sem paciência —Nós … — ele diz devagar. — Fizemos todo o possível. Meu coração congela. — Fala. — digo. — Não tenta florear. Fala logo. Ele engole seco. — O dano… foi extenso demais. Os ossos foram pulverizados. As falanges… não têm como reconstruir. A perda de sangue foi enorme. A mão dele… Eu sinto o chão se afastando. — … terá que ser amputada. Eu não respiro. Eu não pisco. Eu só… Eu só deixo o mundo desabar dentro de mim. — Não… — eu digo. — Não… você conserta essa pørra! VOCÊ É MÉDICO! VOCÊ COSTURA, REMENDA, FAZ MILAGRE, SE VIRA DO JEITO QUE FOR! — Senhor… — ele tenta tocar meu braço. — Não há o que salvar. Se não amputarmos, ele pode morrer. Morrer. Meu filho. Meu sucessor. Aquele que carregaria meu nome. E ele diz que… que vão tirar a mão dele. Eu fico completamente imóvel. O mundo ao redor perde o som, como se tudo fosse engolido por um silêncio c***l. Meu peito aperta, a respiração falha. Olho para o sangue ainda manchando minhas mãos, para a lembrança da ferida aberta, e sinto um desespero bruto crescer dentro de mim. Não pode ser assim. Não com ele. Não com meu filho. — O senhor precisa assinar o termo de responsabilidade e autorização, ele não possuí a maior idade. Tem que ser rápido ou o seu filho pode vir à óbito. Apenas balanço a cabeça de forma mecânica. O médico me guia até o balcão. Pega uma prancheta e me entrega, preencho tudo no automático e o entrego. Depois, lentamente, viro as costas. Eu ando até o carro como se estivesse andando dentro de um túmulo escuro e silêncioso. Sento no banco. Meu corpo inteiro está suando frio. O coração bate descompassado, como se tentasse sair do peito. A visão embaça e, é nesse momento que o celular toca. Puxo o aparelho do bolso da minha calça, o visor brilha com o nome da minha filha. Lavinia. Minha menina, minha princesa. minha piccola Eu olho para o nome na tela mais uma vez, sem forças para conversar, não sabendo como entregar a notícia devastadora sobre Rafaelo. Desligo. Eu desligo porque, se eu ouvir a voz dela agora, eu desmorono de vez. Estou só com essa dor que me torna vulnerável, aperto o volante com tanta força que meus dedos ficam brancos. Travo meus dentes com força, meu maxilar estala. E então… Eu finalmente quebro. Encosto a testa no volante, me permito chorar. Eu choro como um homem que perdeu tudo. Eu choro como um pai que falhou. Mas quando as lágrimas secam… A raiva vem. A raiva sempre vem. — Eu vou matar todos vocês… — eu sussurro. — Um por um… eu juro por Deus… pela minha alma… pela mão do meu filho… eu vou exterminar todos vocês… E a promessa fica cravada no escuro. Pronta para virar m******e. Porque é isso que somos, seres em busca de lavar a nossa honra com o sangue de quem teve a ousadia de tocar naqueles que são importantes para nós. Aviso: Deixe 30 comentários nesse capítulo.
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