Movimento no escuro.

2710 Words
Capítulo – movimento no escuro. " Eu me movimento bem devagar, sou a sombra que todos ignoram, eu te vejo e você não pode me ver, estou parado te olhando da parte mais escura do teu quarto." Rafaelo ( Algum tempo depois... França) Se tem algo que aprendi com meu pai é que o inimigo tem que ser observado de perto. Afinal, penas sobrevive aquele que é mais esperto. Ser esperto não significa exibir esperteza a todo momento, mas saber observar em silêncio e aproveitar as lacunas que os metidos a inteligentes deixam abertas — brechas que, muitas vezes, eles nem sequer percebem que criaram. Ser esperto não é demonstrar esperteza, é enxergar as brechas que os que se acham inteligentes deixam abertas — e agir enquanto eles ainda acreditam que estão no controle. E isso significa isolar a presa feito um inseto dentro de uma redoma de observação, onde ele acha que está no controle, mas o controle não está. Não podemos permitir que ele saia do nosso círculo de observação; isso seria como dar sorte para o azar, e aquele que almeja a vitória precisa estar sempre um passo à frente. Enzo está ao meu lado, encostado na lataria do carro, fumando um charuto enquanto as cinzas caem pesadas no asfalto. Eu, por outro lado, estou sentado no banco de couro, suando frio. A dor imaginária — aquele fantasma c***l do m****o que perdi — lateja como se meus nervos estivessem em chamas. Com movimentos mecânicos, retiro o frasco de analgésicos do bolso do paletó. Apoio o frasco sobre o braço da minha mão que não existe mais e, com um esforço que me consome as energias, consigo abrir a tampa. Pego alguns comprimidos e os jogo na boca, mastigando-os e engolindo-os a seco, sentindo o amargor químico descer pela garganta. Às vezes, olho para o meu reflexo e vejo a ironia: um herdeiro mutilado, sem mão, com um trono para governar. Fui obrigado a amadurecer através da dor pungente e do peso de uma coroa que faz minha cabeça inclinar, por mais que eu force a coluna para me manter ereto. Não tem sido fácil. Tenho engolido minha deficiência junto com os olhares de desdém que lançam em minha direção. Muitos acreditam que vou falhar; outros imploram por isso, ansiando por um motivo para me arrastar pelas ruas como objeto de vergonha alheia, rotulando-me como o filho de quem não conseguiu criar um homem decente para o legado. Mas eu prefiro que seja assim. Que me enxerguem como um bobo, um perfeito i****a, um pasmo. Que se deliciem na própria arrogância até que se surpreendam com o gigante que surge das sombras — aquele que esmaga, que esmigalha a traqueia com precisão, mesmo tendo apenas uma mão. Eu irei me preparar para jantares que terminam com cabeças rolando pelo chão. Irei me preparar para alianças que hoje são sorrisos e amanhã serão guerras batendo à minha porta. Estarei pronto para assinar sentenças e dar destino a vidas. Acima de tudo, estarei pronto para marcar o nome do meu clã na história. Não quero ser lembrado apenas pelo medo e pelo sangue, mas pelo respeito. Se tem outro ensinamento que meu pai me deixou é que quem tem medo se afasta e se torna seu inimigo; mas quem tem por ti respeito e admiração, te entrega a lealdade e a confiança eternamente. Do medo surge a submissão, nunca a lealdade. A lealdade verdadeira nasce do respeito, da admiração silenciosa e da confiança construída com o tempo. Quem vive sob o medo demonstra obediência, mas carrega dentro de si um pequeno monstro que cresce a cada dia, alimentado por frustração, ressentimento e desejo de liberdade. Esse monstro espera apenas o momento certo para agir. Já quem respeita, segue seus passos por escolha, por extrema lealdade, por acreditar no caminho que você traçou. Existe uma diferença gritante entre esses dois cenários; há um limiar claro entre desejar uma adaga cravada nas suas costas ou erguer uma muralha de proteção ao seu redor. Eu escolho a muralha. É por isso que aqui sou senhor, líder, nunca chefe. Chefe é uma palavra pesada, amarga, que impõe distância. Líder é limpo, inspira confiança e aproxima. E quem lidera com respeito torna-se senhor — soberano de algo maior, cabeça de chave, aquele cuja presença importa e cuja liderança permanece. Aos poucos estou conquistando isso: confiança, lealdade e olhares de respeito. E respeito não se ganha pela idade, mas pelas atitudes. — Eles já devem ter encontrado o presente, Don. A voz de Enzo soa calma, fria. — Poderíamos ter colocado uma bomba para detonar assim que o Grecco levantasse a tampa, muita sujeira e serviço finalizado. — comenta o homem com os olhos fixos em algum ponto. — Mas seria fácil demais ele não iria sofrer. Quero vê–lo sofrer, Enzo, assim como eu sofri, como a minha mãe sofre e todos nós perecemos por causa do nosso Don. Não quero um corte na jugular, quero agonia, corte nos calcanhares. Enzo entra no carro, o motorista segue. Minha cabeça vagueia nos meus planos repassando tudo mais uma vez. " Ela vai crescer, irei me aproximar, ser o príncipe encantador. Farei isso quando ela tiver seus dezesseis anos, idade que poderá casar com o consentimento dos pais e depois que for minha revelo quem sou, e o porque me aproximei, depois disso é o início do calvário dos Grecco. " Minutos depois o carro atravessa os portões de ferro, segue pela estrada de cascalho. — Precisa descansar, Don. – Barone fala baixo, com o tom paternal. — Não se preocupe eu estou bem. – digo abrindo a porta do veículo e saindo rapidamente. A casa me recebe aquecida, retiro o sobretudo e sento na poltrona de couro marrom. A sala é espaçosa, piso de madeira, paredes forradas de pedras. Tudo aqui me lembra infância, as férias de fim de ano. Meu pai adorava esse lugar, eu odiava o frio e reclamava muito. E Salvatore sempre dizia: " Bambino se não enfrenta o frio como vai enfrentar o seu inimigo, hã?" As lembranças ficam num canto adormecido do passado. — Uma taça de vinho, Don? – Enzo sugere– Seu pai permitia, não? — Sim, Barone, ele permitia. O Consigliere move-se, seus passos ficam distantes e meus pensamentos também. — Sua taça, Don. — Obrigado, Enzo. O estalo da madeira queimando na lareira é o único som que compete com o borbulhar do vinho tinto deslizando para a minha taça. Estou em Annemasse, a poucos quilômetros de onde Dante e sua esposa tentam processar o golpe. O reflexo no vidro da janela me devolve a imagem de um homem jovem, de traços que muitos chamariam de juvenis, talvez até vulneráveis. E é exatamente nisso que reside o meu poder. Dante Grecco, o temido, o calculista, o homem que se põem de joelhos e faz promessas de amor eterno sob a ponte de Annecy, me subestima. Para ele, e para tantos outros dinossauros dessa máfia arcaica, eu, Rafaelo, sou apenas um resquício de uma linhagem que eles acham estar agonizando. Um moleque que herdou um nome, mas não o veneno. Mal sabe que estou me fechando para o mundo, apenas para me fortificar e voltar com força total. O silêncio é necessário ele dá o que e necessário para seguir em frente. No silêncio planos são traçados e destinos selados. No silêncio homens criam casca e veste novas roupagens, verdadeiros meta morfo de sua própria existência. Eu sou um agora. E isso é bom, uma ves que m*l sabem eles que o veneno mais letal é aquele que não tem cheiro e se esconde em um frasco de perfume. — Ele deve estar possesso agora — murmuro para o vazio, sentindo um calor revigorante subir pelo meu peito. — Deve estar revirando cada pedra de Genebra atrás de Kenji Sato. O plano da cabeça de porco é de uma elegância poética. Eu mesmo acompanhei o trajeto. Não confiei em intermediários para o que é essencial. O homem que entrou no hotel é um profissional contratado por três camadas de laranjas, um francês que acredita ter servido a um corretor de seguros que queria dar rosas na caixa para a esposa que descobriu a gestação do primeiro filho deles. Mas a ideia? A execução do simbolismo? É minha. Escolhi o porco por uma razão específica. Dante se vê como um leão, mas se esquece de que, na lama, o porco é quem domina. Retirar os olhos foi o toque de mestre. Dante e Hadassa estão cegos para o verdadeiro inimigo. Eles olham para o horizonte, para as grandes figuras como Sato ou os remanescentes de outros líderes, enquanto eu estou bem aqui, respirando o mesmo ar, observando cada batida de seus corações através das lentes dos meus informantes. Não que estejam me subestimado, sequer seja isso, apenas não se lembram de mim. Dante nunca atribuiria esse feito a mim. Na cabeça dele, eu não existo, sou peixe dora do mar de tubarões, a audácia dele é surpreendente. Talvez pense em alguém muito afiado para elaborar tal logística para se infiltrar um hotel de segurança máxima na França. Ele talvez me veja como o garoto que precisa ser instruído, o “jovem não promissor” que deve baixar a cabeça para os mais velhos. Ele não entende que, enquanto estava ocupado sendo o herói romântico que resgata a mocinha da loucura, eu estudava cada brecha da sua armadura. O prazer de ser invisível mora ai, nessa fresta que ninguém cuida. Eu me regozijo com essa cegueira dele. É isso que me permite marcar cerrado cada passo da família Grecco. Enquanto Dante viaja para fechar acordos internacionais, minha atenção se divide, mas nunca se dispersa. Tenho olhos em cada aeroporto, cada porto e, principalmente, em cada sombra que rodeia Rosália. Ah, Rosália… a joia da coroa que eles pensam estar protegida por muros de concreto e homens armados. Eles acham que vigilância se resume a armas e câmeras. Eu sei que a verdadeira vigilância é psicológica. Sei a hora em que ela acorda, o que ela lê, o tom exato de angústia em sua voz quando pensa que ninguém está ouvindo. A vigilância sobre ela é minha prioridade, pois ela é o tendão de Aquiles que fará o gigante Dante cair de joelhos. Dante acredita que sua paciência com Hadassa é uma virtude. Eu chamo de fraqueza. Ele permite que o afeto o torne previsível. Um homem apaixonado é um homem que tem algo a perder, e quem tem algo a perder pode ser chantageado, quebrado e, finalmente, eliminado. Imagino a cena na suíte 402. Dante jogando a tampa da caixa longe, o rosnado saindo de sua garganta, o instinto de proteção aflorando enquanto tenta esconder o horror de Hadassa. Ele cobrando explicações dos seguranças, gritando com o gerente do hotel, analisando as câmeras. E o que ele vê? Um fantasma. Um homem que não existe nos registros dele. E para quem ele aponta o dedo? Para o japonês. Kenji Sato, com sua arrogância milenar e seus protocolos tecnológicos, é o alvo perfeito. Deixei pistas sutis o suficiente para que a paranoia de Dante faça o resto do trabalho. A tensão diplomática entre a Yakuza e os Grecco não é apenas um impasse comercial; agora, é pessoal. E nada destrói um império mais rápido do que uma guerra travada por motivos errados. Essa foi a estratégia do “Moleque” que todos não veem e que continua se movendo pela sombra da soberba dos mais velhos que julgam-me pela minha idade como se ela fosse um empecilho para a minha astúcia e frieza. Ah, pobres diabos que não sabem de nada. Seus excessos de confiança é por onde me infiltro. Bebo mais um gole do vinho, sentindo o sabor frutado e intenso. Não sou um rapaz calculista apenas por diversão. Sou um estrategista porque a sobrevivência me obriga a ser. Enquanto Dante faz lobotomias e Nero brinca de soldado, eu aprendo a ler as entrelinhas dos contratos e as fraquezas das almas. Sei que Hadassa sente o calafrio. Ela tem aquele instinto animal, aquela sensibilidade que a torna perigosa. Mas até o instinto falha quando a direção do perigo é m*l interpretada. Ela acha que o arreio vem de Sato. Não consegue imaginar que o verdadeiro frio vem de alguém que ela desconhece a existência. Passar por uma clínica psiquiatrica deve ter bagunçado ainda mais seu cérebro resetado e re-codificado. Eles saíram do hotel, eu sei disso. Basta pensar e o meu celular vibra em meu bolso, Enzo segura a minha taça, pego o aparelho e desbloqueio o visor, leio. Uma mensagem curta: “Alvo em movimento. Direção sul.” Eles estão fugindo de uma sombra. É fascinante observar como o medo faz até os mais poderosos agirem de forma errática. Dante está nervoso, Hadassa em alerta máximo. Eles entram exatamente no estado de espírito que planejo: a exaustão da vigilância constante. Minha rede de informantes na máfia asiática — a Héshé de Taiwan, liderada pelo implacável Lin Huang — também é alimentada por mim. Sim, eu jogo em vários tabuleiros. Dante acha que o problema é apenas Sato e a Yakuza de Tóquio, mas eu já planto as sementes da discórdia com Huang, sugerindo que Dante pretende traí-lo para fechar com os j*******s. Dante está em um ninho de cobras, e acha que eu sou apenas a grama sob seus pés. Ele não sabe de nada, não ainda, o golpe precisa ser preciso e o tempo é o meu melhor aliado nessa questão. Mas minha mente sempre volta para ela. Rosália Grecco. A vigilância sobre ela não é apenas estratégica, há algo mais… um fascínio em observar a pureza ser cercada por monstros. Eu sou o monstro que ela não vê chegar. Sou aquele que monitora as comunicações dela, que intercepta os relatórios de seus guarda-costas e que garante que, quando o momento chegar, ela não tenha para onde correr. Dante acha que controla tudo. Que presunçoso. Quero a destruição da imagem de invencibilidade que ele construiu. Quero que ele saiba, no último suspiro, que o “moleque” é quem lhe arranca os olhos, figurada e literalmente. Ergo– me guardo o celular no bolso Caminho até a a janela. — Aproveite sua lua de mel de sangue, Dante — sussurro. — Sinta o medo. Desconfie de todos. Olhe para trás a cada passo. Meu olhar se volta para as chamas na lareira. — Vai ter filhos com ela?– Enzo pergunta. — Sim, depois que a criança nascer ela vai para a rua. Todos irão sentir dor naquela casa. Eu ensinarei ao meu filho que os Grecco precisam ser eliminados. — Vai fazer o sangue odiar o próprio sangue, Don. Isso é c***l. — Isso é estratégia. — Depois que diluir o casamento o que fará? — Me casarei por aliança indissolúvel e Rosália será sempre uma pequena mancha que ficará no meu passado. Continuo , parado, observando as chamas. O plano está em pleno movimento. A cabeça de porco é apenas o prólogo. O primeiro ato é a queda de seus aliados asiáticos. E o ato final… ah, o ato final pertence a Rosália. Dante e Hadassa podem ser excelentes lutadores, mas lutam contra carne e osso. Eles não sabem como lutar contra um conceito, contra uma presença que está em todos os lugares e em lugar nenhum. Pego o telefone e disco um número criptografado. — Está na hora — digo, assim que a ligação é atendida. — Comecem a fase dois em Taiwan. Quero Lin Huang convencido de que Dante Grecco o vendeu para os j*******s. E mantenham o monitoramento sobre a garota. Não quero que um fio de cabelo de Rosália seja tocado sem a minha ordem expressa. Desligo. O tabuleiro está montado. Dante está na França, o coração exposto, a mente nublada pelo amor e pela paranoia. E eu? Estou exatamente onde quero estar: no controle das sombras, rindo do homem que se ajoelha por amor enquanto o seu império começa a sangrar por baixo da porta. Ele pode ter Hadassa hoje. Mas o amanhã… o amanhã pertence ao moleque que ele nunca vê chegar. E a irmãzinha dele será minha
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