Capítulo — Sängue e Fúria na Púglia.
" Dentro das chamas só entra os que tem coragem, os que são covardes preferem apagar as brasas. "
Salvatore
( Semanas depois....)
A fumaça... essa maldita fumaça. Ela não sai. Mesmo depois de horas do ocorrido, o cheiro de borracha queimada e acelerante químico parece ter se fundido aos meus poros. Minhas roupas valem mais do que o salário anual daqueles ratos que apertaram o detonador, e agora elas são apenas um lembrete fedorento do meu fracasso. O interior do meu carro cheira a pólvora e derrota. Minha pele? Minha pele fede a um ódio tão concentrado que poderia corroer o aço blindado dessa Mercedes.
Eu sempre soube. No fundo da minha medula, onde a intuição de um homem de honra nunca falha, eu sabia que aquele pacto com a Quarta Máfia era um castelo de cartas construído sobre um pântano.
Aqueles bastardos não têm linhagem, não têm código, não têm rispetto. São hienas famintas tentando se sentar à mesa dos leões. Tudo o que nasce torto, nasce com o destino selado para virar guerra. Mas há uma diferença abissal entre esperar uma traição e ver o seu império virar fumaça numa estrada esquecida por Deus. Cazzo!
O que eu vi naquela rodovia não foi apenas um ataque; foi um sacrilégio. Ver o meu carregamento — quilos da mais pura neve, o combustível que mantém as engrenagens da nossa família girando — ser consumido por labaredas laranjas e cruéis... aquilo foi uma facada nas costas que atravessou o peito. A cøcaína, que deveria ser transformada em pilhas de notas verdes e poder absoluto, virou cinzas inúteis sopradas pelo vento da noite.
Aquele incêndio iluminando a escuridão parecia uma piada cósmica, um deboche sangrento feito às minhas custas enquanto o mundo assistia de camarote.
Eles acham que me atingiram apenas no bolso. Pobres diabos. Eles atingiram o meu nome. Eles cuspiram no rosto da minha organização. O brilho daquelas explosões ainda queima na minha retina, e cada estalo da madeira queimando soava como uma risada daqueles infelizes da Quarta Máfia.
Eles pensam que são espertos porque usaram o fogo. Eles esqueceram que o fogo consome, mas o ódio... o ódio purifica e endurece quem sobrevive a ele.
Eu não sou um homem de explosões teatrais. Eu sou o homem do silêncio, do elogio que desarma e da lâmina que resolve. Mas agora? Agora a diplomacia foi enterrada sob os escombros daqueles caminhões. Eles queriam cinzas? Pois eu vou dar a eles um inferno particular. Vou caçar cada um desses ratos, desde o motorista que deu o sinal até o desgraçado que autorizou o ataque. Vou fazer com que eles sintam o cheiro da própria carne queimando antes que o último suspiro escape de suas gargantas miseráveis.
A vingança não é um prato que se come frio; no meu mundo, ela é servida enquanto o sangue ainda está quente e o medo é palpável. Eles tiraram o meu produto, queimaram o meu investimento, no entanto me deram algo muito mais perigoso: um propósito absoluto. A Quarta Máfia vai aprender que não acende um fósforo perto de um barril de pólvora se não estiver pronto para ser desintegrado pela explosão.
A fumaça ainda impregna minhas roupas, é verdade. Mas amanhã, o cheiro que vai estar nelas será o das flores nos velórios de cada um dos meus inimigos. E dessa vez, não haverá elogios para desarmar ninguém. Apenas o acerto de contas final.
E ninguém, absolutamente ninguém, tira dinheiro de Salvatore.
Meu pai dizia que “quem mexe com o bolso de um homem mexe com o demônio que vive dentro dele”. Pois hoje o demônio saiu. E saiu com pressa.
Eu acreditava, antes de tudo, que a Quarta Máfia tinha feito aquilo de propósito—explodido a pörra dos caminhões para não dividir os lucros comigo e ficar com tudo. Faz sentido. É exatamente o que eu faria se quisesse cortar alguém da equação. E aquela informação escrota que o meu capo-regime, Vinicius, jurou ter vindo de dentro da Quarta Máfia — de que os calabreses estavam por trás — pra mim era pura palhaçada.
O Dante… aquele filho da půta não sacrificaria milhões só para me prejudicar. Ele sempre jogou com a lógica da serpente: se morde, morde para matar. Não para se mutilar sozinho. Então não. Aquela “informação” era falsa. Mentira pura.
A Quarta Máfia queria guerra?
Pois agora tem.
Estou na Puglia desde o amanhecer, e já mandamos três dos capangas deles para o inferno. Eles não esperavam que eu viesse pessoalmente. Acham que sou velho demais para guerra. Acham que eu comando do escritório, sentado atrás de mesas. Idiotas. Eu só fico atrás da mesa quando quero parecer civilizado. Mas hoje? Hoje eu sou o mesmo garoto que meteu a primeira bala aos quinze anos.
E falando em quinze, ao meu lado, no banco do passageiro, está meu filho — Rafaelo. Dezessete anos, mas com olhos de quem já matou a própria inocência faz tempo.
Ele limpa o fuzil com a tranquilidade de quem escova os dentes.
— Papà… — ele diz sem me olhar. — Você acha que o tal do Marcelo vai estar mesmo na casa?
Marcelo Romano. Irmão do chefe da Quarta Máfia. Um filho da půta que sempre se esconde atrás de muros, mandando soldados morrer por ele. Essa guerra só vai realmente começar quando eu colocar uma bala na cabeça dele.
— Ele está lá, Rafa. — respondo. — Esses ratos sempre fogem para os mesmos buracos.
— Se ele fugir… — ele sorri. — Eu corro atrás.
Eu sorrio também, mesmo que por dentro eu queira quebrar tudo.
Ele é meu sangue.
Mas Deus… às vezes eu tenho medo do que plantei nesse garoto.
A estrada para a casa onde Marcelo supostamente está escondido se estreita conforme descemos por estradinhas apertadas de terra, com oliveiras antigas dos dois lados, seus troncos retorcidos parecendo mãos prestes a nos agarrar. O céu pesa como chumbo. O vento é seco, cortante. A Puglia sempre me pareceu um lugar que tenta engolir você inteiro.
— Senhor Salvatore, mais dois quilômetros — diz , meu motorista e atirador. — Drones mostram movimento na área. Pelo menos uns oito homens.
— Oito homens não param um Salvatore. — digo.
Rafaelo sorri de canto.
Eu abro o porta-luvas e tiro minha pistola preferida. Uma Beretta preta, personalizada, com meu nome gravado. É ridículo, eu sei. Mas mafioso que se preze sempre tem uma arma que é quase um talismã. Essa aqui já fez mais assinaturas que um tabelião.
— Rafa, capacete. — ordeno.
Ele obedece sem reclamar. Capacete tático, visor escuro. Ele parece um espectro. A juventude se esconde debaixo daquele equipamento todo. E me dói que seja assim. Mas hoje… hoje não posso ser pai. Hoje eu sou Don.
Quando finalmente avistamos a tal casa — um casarão antigo, de muros grossos, portão enferrujado e janelas altas — eu sinto meu pulso desacelerar. Essa calma sempre me atinge antes do m******e. Como se meu corpo aceitasse que agora só resta violência.
— Enzo, apaga o motor. — digo.
Ele obedece. A quietude da Puglia é tão profunda que quase ouço minha própria respiração.
— Rafa, você vem comigo. — digo. — Marco e Enzo, cobertura lateral. Sem erro.
Os dois assentem.
Descemos do carro como predadores. Eu sinto o peso da pistola, o cheiro da terra seca, o som distante de galhos rangendo. A guerra cria uma espécie de sinfonia própria. E eu sempre fui bom em dançar no ritmo dela.
Avançamos pelo lado esquerdo. O muro é alto, mas antigo. Fácil de escalar, estamos no ponto cego das câmeras de segurança.
Eu levanto a mão, Rafaelo coloca o pé e sobe primeiro, com agilidade quase animalesca. Eu vou atrás. Quando pulamos para dentro, aterrissamos no jardim.
Era para ser silêncio.
Mas a primeira bala vem antes que eu possa respirar.
O estampido ecoa em ondas pelo ar.
Ela acerta a parede ao meu lado e levanta poeira.
— Contato! — Raffaello grita, já se jogando atrás de uma coluna que sustenta um pergolado.
Eu deslizo para trás de uma estátua quebrada, enquanto mais tiros cantam pela propriedade. O som ecoa como aplausos do inferno.
— Filhos da půta! — eu rosno.
Atiro três vezes em direção ao atirador. Acertei? Não sei. Mas obriguei ele a recuar.
Rafaelo já está em outra posição, atirando como se estivesse treinando tiro ao alvo. Frio. Preciso. Jovem demais para ser tão bom nisso.
— Cuidado com o lado direito! — eu aviso.
— Já vi, papà! — ele responde, e acerta dois tiros perfeitos. O corpo do capanga cai como saco de cimento.
Outro homem aparece na varanda. Grande. Armado com uma shotgun.
— Rafa, baixa! — grito.
Ele baixa. Eu corro para o gramado, me expondo. O homem dispara. O tiro da shotgun passa perto o suficiente para rasgar a camisa tática. Eu me jogo no chão, rolo, e atiro.
Uma. Duas. Três vezes.
A terceira bala acerta bem no pescoço do stronzo.
Ele cai de joelhos, depois de cara no chão.
— Cåralho, papà! — Rafaelo sorri. — Pareceu cena de filme!
— Eu não faço filme. — digo. — Eu faço história.
Quando avançamos até a porta principal, o cheiro de sangue já está no ar. As balas cravam na madeira, arrancando lascas.
— Rafa, prepara uma granada de menor potencial. — digo — não quero pedaços do desgraçado, quero a carcaça inteira.
Ele pega uma da bolsa tática, puxa o pino e me entrega.
Eu respiro fundo.
Abro a porta com um chute violento.
Jogo a granada para dentro.
— FŌDAM-SE! — eu grito, enquanto derrubo Rafaelo atrás de mim e cubro o corpo dele com o meu.
A explosão sacode a casa inteira.
Vidros se estilhaçam.
A porta volta contra nós como se fosse arremessada por um gigante.
Somos engolidos por fumaça, poeira e o som metálico de destroços.
Quando o mundo volta a ter forma, eu levanto primeiro.
— Você está bem? — pergunto, a voz mais dura que o necessário.
— Melhor do que imaginei. — ele responde, com um sorriso louco.
Entramos na casa.
É um corredor longo, estreito, com paredes brancas agora manchadas de sangue e poeira. Dois corpos caídos. O teto rachado.
— Marcelo! — eu grito. — Vem logo, filho da püta! Vim buscar você!
O eco é assustador, quase teatral.
Passamos por uma sala destruída, móveis quebrados, vidros no chão. O cheiro de pólvora ainda arde no fundo da garganta.
— Papà… — Rafaelo aponta. — Pegadas de sangue indo para algum cômodo da casa. Seguimos juntos nossas costas coladas, armas em punho passos calculados nossos olhos vasculhando cada ponto e nossos ouvidos atentos ao menor dos barulhos.
Chegamos em um cômodo onde tem um alçapão.
— Ótimo. — digo. — É sempre no porão.
Descemos devagar, as escadas rangendo, cada passo ecoando como se a casa respirasse junto conosco. A luz fraca pisca no final da escada.
E ali está ele.
Marcelo Romano.
Sujo. Tremendo. Segurando uma pistola como se nunca tivesse visto uma antes.
— Não chega mais perto, Salvatore! — ele grita. — Eu te juro que at— que at—
— Você está gaguejando, Marcelo. — digo, apontando minha arma para ele. — Isso tira toda a credibilidade da ameaça.
— Eu não fiz nada! Não fui eu! Vocês estão sendo enganados! — ele grita.
Claro.
Sempre dizem isso antes de morrer.
— Papà… — Rafaelo sussurra. — Ele está com medo.
— Todos ficam com medo quando percebem que a morte tem nome. — digo.
— Salvatore, escuta! — ele insiste. — Foram os calabreses! Eu juro por tudo! Eu juro! Eu não teria razão para explodir a própria carga!
Eu rio.
E meu riso preenche o porão inteiro.
— Marcelo… você acha que eu vou acreditar em você? — pergunto. — Você acha que eu nasci ontem?
Ele tenta levantar a arma.
Mas Rafaelo é mais rápido.
Um tiro.
Exato.
Letal.
Marcelo cai de joelhos, segurando o abdômen onde o sangue jorra.
Ele olha para mim, desesperado. Quase suplicando.
— Eu… eu juro… eu n-não… não fui…
A voz falha, escapa.
E então o fio da vida é extinto.
Eu me aproximo, olho para o corpo dele como se avaliasse uma peça de carne no açougue.
— Isso… — digo baixo — … é por tentar roubar o que é meu.
Rafaelo respira fundo, ainda com o dedo no gatilho.
— Papà… — ele diz, quase orgulhoso. — Pegamos ele.
Eu coloco a mão no ombro dele.
— Sim, figlio mio. — murmuro. — Pegamos.
Mas bem lá no fundo… algo coça na minha mente.
Uma pequena dúvida.
Uma fagulha quase imperceptível.
E se…?
Não.
Eu afasto o pensamento.
Hoje é dia de guerra.
Dúvidas ficam para depois.
— Vamos, Rafa. — digo. — Temos mais trabalho a fazer.
Saímos da casa com o cheiro da morte grudado na pele. A Puglia nos olha, silenciosa, enquanto o vento começa a levar a fumaça embora.
A guerra apenas começou.
E eu não vou parar até transformar essa região inteira em um altar para os meus mortos — e para os meus lucros.
Aviso: Deixei 10 comentários nesse capítulo.