Prólogo - Três Cartas (Parte 02)

4098 Words
A primeira fora Diana. Ela o tinha acompanhado, seis anos atrás, quando ele visitara o escritório de uma empresa de segurança que planejava contratar para sua agência de modelos. Eles estavam prestes a entrar na reunião quando uma das portas das salas ao lado se abriu repentinamente, quase acertando o rosto de sua irmã no processo. E Diana, tão temperamental quanto ele, estava claramente pronta para fazer a pessoa responsável por aquilo se arrepender de ter nascido... Até que seus olhos se encontraram com os de Paul, que saia rapidamente de seu escritório pedindo mil desculpas, e Logan vira acontecer, diante dele, a maldição sobre a qual ouvira falar durante toda sua vida – ainda que ele fosse o único Knight que realmente chamava aquilo de maldição. É claro que na época ele não ficou chateado por sua irmãzinha ter encontrado o amor. Afinal, era um momento conturbado da vida de Diana em que ela ainda estava às voltas com seu antigo namorado de escola, um completo i****a chamado Jeremy King, que não valia nem sequer a sujeira sob os sapatos dela. E, mesmo que não tivesse provas concretas sobre isso, ele tinha quase certeza de que King já fora violento com Diana, ainda que ela se recusasse a admitir. Por isso, durante anos, todos os Knight tinham tentando de tudo para finalmente convencê-la a terminar de uma vez por todas com aquele grande pedaço de merda... Até que ela trocou apenas um olhar com Paul Bryant e tudo finalmente se resolveu – especialmente depois que Jeremy tentou atrapalha-los e Paul, sendo um detetive particular muito bem treinado, lhe deu a devida lição, o que, para o enorme deleite de Logan e Devon, envolveu vários ossos quebrados por parte de King. Obviamente, ele estava mais do que feliz por Diana ter encontrado a felicidade que merecia ao lado de um marido perdidamente apaixonado e de uma linda e doce filhinha que ela concebeu apenas alguns meses depois de conhecer Paul. Todavia, ainda assim, a intensidade do amor repentino que ele vira surgir em sua irmã naquele dia fatídico o assombraria para sempre. No espaço de poucos segundos, Diana se apaixonara profundamente. E ele jamais esqueceria do desespero que sentiu ao olhá-la no fundo dos olhos azuis e sonhadores e perceber que a maldição a havia envolvido por completo. Eles tiveram muita sorte por Paul ser um homem honrado e gentil, que demorara pouco tempo para retribuir o amor de sua irmã na mesma intensidade. Mas, e se ele tivesse acabado não sendo um bom homem? E se ele fosse um cretino como Jeremy, ou até pior? Sua irmã estaria irreversivelmente apaixonada e devotada a um homem que faria de sua vida um completo inferno e não haveria maneira de recuperar o coração dela. Ele sabia como era aquele tipo de miséria. Vira acontecer com seus próprios olhos. E jamais esqueceria. Então, há pouco mais de um mês atrás, ele vira a maldição se manifestar novamente. Dessa vez com Devon. Eles estavam em seu escritório, discutindo sobre os perfis de alguns influenciadores digitais que eles poderiam agenciar, quando seu irmão havia aberto o arquivo de uma das opções escolhidas por sua equipe de marketing... E Logan viu acontecer novamente. A mudança drástica no olhar, o sorriso encantado, e a expressão febril, como se a vida de seu irmão só tivesse começado a fazer sentido a partir daquele momento... E era apenas a droga de uma foto: uma única visão da imagem daquela mulher e Devon já estava completamente perdido. Perdido e insano, já que sequer descansara até Megan aceitar participar de uma entrevista em sua agência e ele finalmente pudesse encontra-la pessoalmente. Ele jamais saberia o que realmente acontecera entre os dois naquele primeiro dia, mas a julgar pelo olhar incrédulo de Megan ao sair quase correndo de dentro do escritório de seu irmão e do batom escuro manchando toda a boca de Devon, Logan tinha algumas suposições. Diferente de Diana, Devon tivera que lutar um pouco mais para convencer Megan de que ele não era um completo lunático com toda aquela história de amor à primeira vista, mas, novamente, assim como a irmã dos dois, ele tivera sorte. Megan era sensata e realista, mas não fora capaz de deixar de se apaixonar por Devon e, em apenas algumas poucas semanas, finalmente se rendera por completo, mesmo tendo conseguido convencê-lo a levar as coisas um pouco mais devagar do que ele gostaria. E ali estavam seus irmãos, apaixonados e felizes. Com sorte, permaneceriam assim para sempre, como seus pais. Contudo, apesar de toda a alegria e amor que exalava deles, ao observá-los, Logan não podia evitar que um pouco de aborrecimento o dominasse. Não havia justiça naquelas situações. Eles foram forçados a se apaixonar daquela maneira enlouquecida. Não houvera livre-arbítrio ou sequer a oportunidade de dizer não. Talvez seu pai, Diana e Devon não se sentissem como se tivessem sido obrigados a se apaixonar, mas era exatamente assim que Logan via. Sua mãe, Paul e Megan eram pessoas fantásticas e ele os amava, mas, ainda assim, como ele poderia aceitar passivamente tudo aquilo, quando se tratava de si mesmo? Como poderia simplesmente ficar tranquilamente sentado sem fazer nada, esperando que “o destino” escolhesse quem ele amaria tão profundaria que preferiria morrer a viver sem? Por anos, ele fizera seu próprio destino. Por anos, ele fora aquele que construíra um futuro para si mesmo e para sua família. E fizera tudo aquilo com esforço, oportunidades, planejamento e lógica. O destino e a “magia”, sobre os quais sua família tanto amava falar, nunca lhe deram nada além da perspectiva de ser afetado por aquela maldição estúpida. Depois de tanto tempo sendo o único a traçar seu próprio caminho, era justo que sua capacidade de escolha fosse arrancada dele daquela maneira? Que ele se visse obrigado a amar para sempre uma pessoa que sequer sabia se seria digna de sua devoção? É claro que não era. E era por isso ele odiava tão profundamente aquele maldito legado, não importava o que sua família dissesse. Ele não queria amar nenhuma mulher e muito menos para sempre. Não queria pertencer a ninguém. Ele queria permanecer sendo o único que tinha controle sobre si mesmo e aquela maldição poderia arruinar tudo o que ele tinha construído para si mesmo depois de anos de luta. Tudo isso porque ele não tinha controle sobre o “amor verdadeiro” ou qualquer que fosse o outro nome ridículo que seus antepassados chamavam aquela sandice. Talvez Megan estivesse errada em chama-lo de cético: ele acreditava na existência de coisas que não podiam ser explicadas. Sendo um Knight, seria impossível não acreditar. A diferença é que ele as desprezava com todas as suas forças e as desprezaria para sempre, especialmente se a maldição o pegasse e ele se visse forçado a amar uma mulher qualquer, contra sua vontade. Porque, mesmo que sua família gostasse de tentar fazê-lo acreditar que sua “alma gêmea predestinada” certamente seria alguém digna de ser amada, a verdade é que não havia nada que pudesse lhe dar garantias absolutas sobre aquilo. E, em um piscar de olhos, ele poderia ser destruído pelo amor. Como seu avô fora. E, francamente, mesmo que a mulher com quem a maldição decidisse prendê-lo fosse a melhor pessoa do mundo, ainda assim uma parte dele a odiaria. Odiaria por não ser quem ele escolheria. Odiaria por ter bagunçado toda a vida que ele sofrera tanto para reconstruir desde que era adolescente. Ele a odiaria simplesmente por ela existir. Por isso, mesmo que tudo aquilo que estivesse saindo das cartas de Megan já fosse uma completa bobagem irrelevante, ela estava errada sobre aquilo também: ele tinha passado os últimos 30 anos incólume daquela maldição. Era o mais longe que um Knight já tinha chegado, até onde ele sabia, sem encontrar um parceiro daquela forma horrenda. E, mesmo que tudo se voltasse contra ele e a mulher destinada a arruiná-lo aparecesse, ele lutaria contra isso. Céus, ele já vencera tantas coisas piores. Talvez não precisasse temer tanto seu próprio coração. Ele certamente seria capaz de vencê-lo também, se, infelizmente, o momento chegasse. Afinal, mesmo que todos os outros Knight discordassem dele sobre isso, não seria amor verdadeiro, quando acontecesse com ele. Seria um feitiço distorcendo a realidade. Uma maldição afetando seus sentidos. Durante séculos, os Knight tinham padecido daquele m*l, apaixonando-se irreversivelmente e simplesmente aceitando seu destino sem reclamar. Mas não ele. Ele se mostraria imune à maldição, de um jeito ou de outro. Porque, mesmo que ela tentasse força-lo a amar alguém, ele se mostraria mais forte. Há muito tempo, ele havia prometido a si mesmo que o coração e a vida de Logan Knight pertencia apenas a ele mesmo. E a ninguém mais. — O mundo inteiro pode sair do meu controle algum dia, Megan. Mas se há algo que eu posso garantir a você... – sua voz tornou-se fria e áspera, quase como se aquilo fosse uma ameaça, não para sua cunhada, mas sim qualquer força sobrenatural que talvez achasse que poderia fazê-lo agir contra sua vontade - É que eu controlo a mim mesmo. E jamais vou permitir que ninguém mude isso. – os olhos de Megan se tornaram ainda mais tristes quando ele rosnou aquela última parte – Se não se importa, poderia mostrar logo qual é a última carta? Quero acabar logo com isso. – com um suspiro irritado, ele voltou a se recostar na cadeira, cruzando os braços sobre o peito para tentar disfarçar a tensão em seus músculos. Megan, porém, permaneceu mais alguns segundos apenas olhando-o intensamente, quase como se estivesse tentando ler sua alma. Felizmente para ele, após vários momentos intermináveis de puro silêncio, ela desviou sua atenção para a última carta e a virou, revelando a imagem de uma imensa lua com o perfil do rosto de uma mulher estampado nela. Abaixo da lua brilhante, havia o que pareciam ser dois cachorros uivantes, parados bem ao lado de um rio onde uma espécie de crustáceo, que parecia ser algo entre um escorpião e uma lagosta, parecia prestes a ataca-los. — A lua. – os olhos de Megan, ao invés de se arregalarem como nas outras duas vezes, agora se estreitaram com dúvida e preocupação. – É a carta que representa o que pode resolver o seu problema... Mas o significado dela fala sobre questões que ainda não estão bem delineadas e ilusões... – agora quase exasperada, Megan ergueu o olhar aflito para ele – Logan, o futuro dessa situação ainda está muito obscuro. Você tem muitos erros no seu passado e eles impactarão seu presente em breve. – sua cunhada mastigou o lábio inferior, conforme observava as duas primeiras cartas com pura inquietude – Tem que tomar cuidado. Se não começar a corrigir esses erros o mais rápido possível, eles vão definir o seu futuro e talvez você acabe perdendo algo muito importante. Talvez uma das coisas mais importantes que você poderá ter na sua vida. – Megan falou cada palavra lentamente, o pesar e a preocupação permeando cada letra, como se ela realmente estivesse revelando para ele a maior das profecias. — Não gaste sua preocupação comigo, Megan. - com um sorriso de escárnio, Logan apenas se levantou da cadeira - Eu sei o que faço. E, acredite, se eu realmente perder alguma coisa, como você disse, saiba que foi porque eu quis perder. — Eu realmente espero que sim, Logan. – Megan balançou a cabeça, parecendo exausta enquanto recolhia suavemente suas cartas e voltava a guarda-las – Já estou começando a considerar você o irmão que eu nunca tive e odiaria ter que vê-lo sofrer. – a maneira como ela disse aquela última parte soou como se já estivesse pronta para vê-lo chorar, o que apenas o fez rir ainda mais. — Como eu disse, Megan, não desperdice sua preocupação comigo. Eu sei cuidar de mim mesmo. E, principalmente, sei fazer minhas escolhas. Ela parecia pronta para tomar fôlego e dizer-lhe mais alguma coisa, quando a campainha soou, interrompendo-a. — Deve ser a Missy! – Megan saltitou para fora da cadeira, o semblante agora completamente iluminado – Eu vou busca-la! – ela avisou Devon, quase explodindo de alegria - Tenho certeza que todos vocês vão amá-la! E, nossa, ela vai adorar fazer parte dessa família...! – Megan continuou a falar para ninguém em específico, conforme seguia para a porta da frente, afastando-se deles rapidamente. — Ei! – Logan exclamou ao sentir um soco em seu braço, virando-se para ver Devon encarando-o com irritação. — Por que você tem quer ser sempre assim? – seu irmão revirou os olhos, claramente mais possesso com seu comportamento do que Logan esperara – O tarot significa muito para Megan. A avó paterna dela também era taróloga e ela criou o canal no Youtube e depois sua marca de produtos apenas para homenageá-la. E, principalmente, além da irmã mais nova, o tarot terapêutico foi umas das coisas que mais a ajudou a não entrar em depressão, depois que o pai dela morreu. Por isso, Logan... – Devon rosnou, fitando-o seriamente – Eu espero que você tenha mais respeito, daqui para frente! E, principalmente, que trate Missy com o máximo de cortesia que esse seu coração de pedra permitir! — E porque eu não trataria? Ela vai fazer parte da família, afinal. – Logan revirou os olhos, já aborrecido pelo exagero do irmão – Você está com medo de que eu morda ela, ou o quê? — Missy é uma das pessoas mais importantes da vida da Megan e eu quero que ela se sentia bem-vinda na nossa família! E, agora que você foi capaz de ofender uma coisa tão inofensiva quanto o tarot da minha namorada, apenas por causa do seu medo irracional do legado da família, eu não duvido de mais nada vindo de você. — Eu já disse que não foi de propósito. – Logan suspirou, nem sequer se preocupando em mencionar que o que Devon estava chamando de “legado”, para ele não passava de um grande castigo – Vamos, lá, Devon, sabe que eu nunca magoaria ninguém da família propositalmente. E eu já considero Megan minha irmã. A verdade em suas palavras pareceu acalmar um pouco o temperamento de Devon, já que seus ombros relaxaram e ele respirou pesadamente, antes de voltar a falar. — Eu sei que sim, irmão, desculpe. Eu apenas não quero que Megan sinta que não é bem-vinda aqui. – Devon suspirou, parecendo preocupado – Apresentar a irmã para todos nós é um grande passo para ela. Missy nunca conheceu a família de nenhum outro namorado dela e eu sei que vai significar muito para Megan, se todos nós também a acolhermos como uma de nós. — E nós vamos acolhê-la. – sua mãe falou pela primeira vez, chamando a atenção de Logan para o resto da família, que permanecia ali ao lado, mesmo depois de toda a comoção entre ele, Megan e as cartas. – Se tudo o que Megan conta sobre ela for verdade, então nem sequer vamos ter que nos esforçar. — Ela é realmente uma garota muito doce. – Devon sorriu; o tipo de sorriso fraternal que Logan só o vira usar quando falava sobre Diana – E muito inteligente também. Eu sei que Megan repete isso o tempo todo, mas ela conseguiu um mestrado em Engenharia de Software em tempo recorde. É surpreendente tudo o que ela consegue fazer tendo apenas 23 anos. Eu até mesmo pensei em convidá-la para desenvolver algum programa que pudesse nos ajudar na agência... — Tentando conquistar sua cunhada com nepotismo? – Logan não pode evitar provocar seu irmãozinho, ganhando um olhar azedo dele. — Logan! – as vozes de ambos seus pais o repreenderam, em uníssono. — Foi apenas uma piada. – com um risada, ele colocou a mão no ombro do irmão, dando-lhe um aperto de apoio – Se ela é tão talentosa assim, então é claro que eu não vou me opor a contratá-la. E você não tem porque se preocupar: - Logan garantiu, seu sorriso se ampliando ainda mais ao ouvir o som de passos se aproximando do jardim – Mamãe tem razão. Para mim, Melissa Sutton também já é da família. E você sabe que para mim nada é mais importante do que a nossa família. — Pessoal! – Logan sorriu carinhosamente ao ver o rosto de Devon se iluminar quando a voz de Megan surgiu e seus olhos apaixonados se fixaram por sobre seu ombro, onde ela certamente estava; por mais que ele odiasse com todas as forças a punição sobrenatural que acompanhava o nome de sua família, ao menos tudo aquilo tinha um ponto positivo: seus irmãos mais novos, que muitas vezes ele até mesmo enxergara como seus próprios filhos, tinham tido a oportunidade de conhecer uma felicidade sem igual – Essa é minha irmãzinha, Missy! Estampando seu melhor sorriso, Logan se virou, preparando-se para dar as boas-vindas ao mais novo m****o da família... E então aconteceu. Mesmo com os muitos anos em que ele passara se perguntando qual era a sensação da maldição, temendo se suas reações seriam realmente incontroláveis, tentando se convencer de que talvez ele sequer seria atingido... Nada poderia tê-lo preparado para a intensidade daquela sensação. Era repentina e atordoante, como ser atingido por um raio. Era afoita e desesperadora, como a sensação de se afogar. A única diferença é que era agradável. Não, aquela não era a palavra correta. Era esplêndido. Ele repentinamente se viu querendo ser percorrido por aquela sensação para sempre. Ansiando por se afogar nos sentimentos sublimes que apenas a mera visão daquela mulher sorrindo timidamente provocou nele. E, quando finalmente seus brilhantes olhos castanhos se encontraram com os dele, Logan sentiu como se alguém houvesse destruído um muro dentro de seu peito. Como se uma geleira estivesse envolvendo seu coração e a irmã de Megan repentinamente a tivesse derretido. Graças a ela, tudo nele agora parecia quente e cálido. Quente, cálido e vivo. Suas mãos doeram por tocá-la. Suas pernas exigiram que ele fosse até ela. Seus braços clamaram por envolvê-la. Seus lábios formigaram, sedentos por encontrar os dela. Era como se cada parte de seu corpo tivesse verdadeiramente despertado pela primeira vez em sua vida. Como se tivessem vontade própria. E seu único desejo era por Missy Sutton. E, por isso, ele a odiou. Ele odiou tudo naquela situação: os desejos insanos de seu corpo, a sensação desconcertante em seu peito, a concentração insana que sua mente – geralmente tão racional – parecia ter direcionado a todos os detalhes sobre aquela garota. Ele odiou a maneira como aquela maldição era mais forte do que ele jamais imaginara. E odiou como era indiscutível o fato de que ela realmente o mudara irreversivelmente. Mas, principalmente, ele odiou Missy Sutton. Por que ela tinha que existir? Por que atrapalhar toda uma vida de conforto e liberdade que ele havia construído depois de muito sofrimento? Ele tinha orgulho de quem era e das coisas que fizera. Nunca em sua vida ele permitira que as armadilhas da vida o parassem. Ele tinha lutado contra a pobreza, o medo, a incerteza... Por que aquela maldição tinha que ser mais forte do que tudo aquilo? Por que aquela mulher tinha que estar parada bem ali, fazendo-o querer se render a tudo aquilo que ele mais odiava? Por que ela o fazia querer se deixar levar por aquela imposição do destino? Parecia tão fácil, tão tentador: bastava ele estender a mão e ela entraria em sua vida. Eles formariam uma família, como Diana fizera com Paul e ela se tornaria para sempre o centro do universo dele, como Megan era o de Devon – maldita seja, em apenas um segundo, ela já se tornara o centro de seu universo, por mais que ele odiasse admitir isso. Ele passaria a acreditar em amor verdadeiro e em magia, como sua família. Ele deixaria de chamar a maldição de maldição e passaria a agradecer ao legado da família por ter trazido Missy Sutton para ele. E ele nem sequer se lembraria que tudo aquilo acontecera contra a vontade dele. Não, não era verdade. Ele se lembrava. Lembrava de seu ódio, sua repulsa por perder sua capacidade de escolha. E foi aquilo que o salvou, pelo menos em parte. Boa parte de sua mente estava ocupada por pensamentos sobre aquela maldita garota, mas não toda ela. Parte dele ainda raciocinava. Parte dele ainda estava ali, não fora apagado por aquele falso amor que se enraizara em sua alma. A maldição era forte, mas felizmente sua força de vontade também era. Ele ainda poderia lutar contra tudo aquilo. Ele lutaria contra tudo aquilo. Contra aquele legado amaldiçoado. Contra aquela mulher, que agora era a personificação de tudo o que ele mais desprezava. Seu corpo, alma, coração e mente podiam estar intoxicados para sempre, mas ele não se deixaria levar pelo que eles estavam suplicando naquele momento: ela. Porque Logan Knight era dono de seu próprio destino. Ele sempre faria suas próprias escolhas. E todas aquelas histórias estúpidas que estavam na família a gerações podiam ir para o inferno. Por que não importava se aquela garota era sua alma gêmea, seu amor predestinado ou qualquer outra merda do gênero. Ele tinha escolhido ficar longe dela. E ele ficaria. Aquela sensação excruciante de dor que o tomou ao pensar em se afastar dela podia ir para o inferno também. — Olá. – a irmã de Megan cumprimentou todos ao redor e sua voz doce e sedosa o fez querer ronronar; um instinto quase incontrolável, que o levou a odiá-la ainda mais – É um prazer finalmente conhecer vocês. Droga, ele não podia continuar ali, vendo-a sorrir daquele jeito. Caso contrário, ele faria algo que certamente se arrependeria depois, como beijá-la ou pedi-la em casamento. De repente se sentindo como um animal enjaulado, – um que inexplicavelmente estava tentando resistir a mais suculenta presa de todas – ele afastou o olhar para o chão, irritado ao perceber que mesmo aquilo não ajudava. Não apenas a presença dela parecia quase sólida ao redor dele, atraindo-o como um imã, mas também ele sentiu seu pescoço tremendo, tentando leva-lo a olhá-la novamente. — Eu preciso ir embora. – ele forçou as palavras para fora de sua garganta, que saíram no formato de um rosnado seco, possesso. — Você está bem, meu filho? - Daniel, que por estar sentado na cadeira de rodas podia ver sua expressão furiosa com mais facilidade, mesmo que Logan estivesse quase com o queixo grudado no peito para disfarçar suas reações, perguntou, preocupado. E, mesmo sem olhá-los, Logan pôde sentir sua família voltar todas as atenções para ele. — Tenho que ir. – sem aguentar permanecer mais um único segundo naquele lugar, sabendo que estava perdendo o controle sobre si mesmo cada vez mais e poderia ceder à tentação de tomar aquela mulher em seus braços a qualquer momento, Logan desistiu de tentar fingir qualquer normalidade e apressou-se para fora da casa de seus pais, quase correndo ao passar por perto das irmãs Sutton para alcançar a parte de dentro da casa e finalmente se ver longe de tudo aquilo. Todavia, mesmo conseguindo conter seu desejo de puxar Missy para perto de si quando passou ao lado dela, ele ainda assim não foi forte o suficiente para se impedir de olhá-la uma última vez. E a expressão pasma e assustada em seu lindo rosto pálido, com as bochechas coradas contrastando com o longo cabelo escuro... O fizeram se sentir como se estivesse nadando contra a mais forte das correntezas, ao ter que lutar contra a vontade excruciante de voltar até ali e fazer de tudo para substituir aquele medo por um sorriso. Mas ele não o fez. E nunca o faria. Entrando em seu carro como se estivesse sendo perseguido pelo fogo do inferno, Logan dirigiu para longe daquele lugar, tentando ao máximo ignorar o crescente desconforto dentro de si, como se houvesse uma corrente puxando-o na direção contrária, de volta para a irmã de Megan. Mas ele não cederia. Ele passaria aquele dia longe de Melissa Sutton. Quer dizer, a semana. Ou melhor, o mês. Droga, o que ele estava pensando? Ele tinha que passar o resto de sua vida inteira longe dela. E ele conseguiria. É claro que sim. Não havia dúvida. Logan Knight tinha determinação o suficiente para conseguir tudo aquilo o que queria. Tudo o que ele precisava agora era encontrar uma maneira de esquecer que grande parte dele queria Missy Sutton.
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