- Missy, será que você poderia dar uma olhada no computador do meu irmão de novo, por favor?
Rindo do tom pesaroso de seu cunhado, Missy equilibrou o celular entre o ombro e a orelha, enquanto terminava rapidamente de programar mais um detalhe em seu projeto. – É claro, Devon, não se preocupe, é para isso que eu estou aqui.
- Mas odeio pedir isso para você todo o santo dia. – ela quase podia vê-lo apertando a ponte do nariz do outro lado da linha, enquanto suspirava - Você já está nos fazendo um imenso favor cuidando da parte de tecnologia dessa agência e meu irmão i*****l fica fazendo você perder tempo com essas palhaçadas.
- Eu nem ao menos criei nenhum dos programas, apenas os instalei. – Missy sorriu timidamente – E seu irmão não tem culpa por não saber lidar com tecnologia. Não é motivo para julgá-lo tão m*l.
- Não fale como se o departamento de marketing não estivesse beijando os seus pés todos os dias, desde que você apresentou aquele novo programa de designer gráfico. – Devon riu, mas então seu tom se tornou sarcástico – E eu conheço Logan melhor do que você, Missy e, acredite, ele merece ser julgado muito, muito m*l. – após mais um suspiro, agora irritadiço, ele continuou – Mas, infelizmente, ele realmente precisa que você vá até o escritório dele.
- Você sabe que eu não me importo. É o meu trabalho. – pegando o celular com uma das mãos e fechando seu notebook com a outra, Missy levantou-se da cadeira de seu escritório – Não é como se fosse uma viagem muito longa. – ela riu, ao que Devon acompanhou, depois de um momento.
- Sim, é claro. Logan foi mesmo muito sortudo que a única sala livre, em todo o prédio, para ser seu escritório ficasse exatamente no mesmo andar do dele. – confusa, ela o ouviu grunhir.
Devon tendia a fazer aquelas críticas veladas ao irmão sempre que tinha a oportunidade, embora ela não entendesse o porquê. Eles pareciam muito unidos na maior parte do tempo, mas, regularmente, especialmente quando seu cunhado estava conversando com ela, parecia que Devon fazia questão de pontuar algo sobre a teimosia de Logan ou fazer algum comentário aparentemente irônico que Missy nunca entendia. E ela tinha a estranha impressão de que as críticas dele estavam ficando cada vez mais recorrentes ultimamente.
- Eu estou livre, então posso ir até lá agora mesmo. – Missy informou suavemente, esperando que aquilo melhorasse um pouco o humor de seu cunhado.
Devon deu um longo e exausto suspiro antes de responde-la novamente – Obrigado, Missy. Você é infinitamente mais gentil do que ele merece. – a maneira intensa como sua voz profunda soou fez parecer que ele estava se referindo a algo muito além do conserto do computador de Logan. Mas, como sempre, ela nem sequer podia imaginar o que seria.
- Não seja tão duro com ele. – desconcertada, ela tentou mudar de assunto – Então, nós vamos nos ver hoje à noite, não é?
- É claro. – Devon concordou prontamente, com o tom de voz agora mais relaxado – Depois da quantidade de vezes que a Sra. Newton insistiu para irmos, acho que não nos restou escolha. – ele riu, apesar de também haver um pouco de ironia em seu tom.
- Ela está apenas muito animada. – Missy tentou justificar o comportamento de Lauren, sabendo o quanto aquela festa era importante para sua sogra, afinal, ela a estivera planejando durante meses – Você sabe se Megan já conseguiu convencer nossa mãe a ir? – ela perguntou a Devon em voz baixa, nervosamente mastigando seu lábio inferior. Victoria era, tecnicamente, pelo menos para Lauren, uma parte importante daquela festa. E a Sra. Newton certamente ficaria desapontada se ela não comparecesse.
- Você conhece sua mãe. – ela quase podia ver a careta de irritação de Devon do outro lado da linha – Ela sempre tem algo mais importante para fazer do que atender uma ligação de alguém da família. Mas não perca as esperanças: Megan ainda está insistindo.
- Agradeça a ela de novo por mim, está bem? – Missy sorriu carinhosamente ao pensar em sua irmã – Se fosse eu tentando convidá-la, mamãe provavelmente já teria apenas me dado uma bronca e bloqueado minhas ligações para me impedir de incomodá-la.
- A ligação de uma filha não deveria ser um incômodo para uma mãe... – Devon rosnou, tão baixo que ela m*l o ouviu, antes de continuar – Mas não se preocupe. Tenho certeza de que, em algum momento, vocês vão vencê-la pelo cansaço.
- Obrigado, Devon. Eu realmente espero que sim. – com um suspiro triste, Missy sorriu um pouco, tentando manter seus pensamentos otimistas – Mas agora eu realmente preciso ir ajudar seu irmão. Ele deve estar de muito m*l humor com esses defeitos recorrentes.
- Sim, o pobre Logan... – novamente, a voz de Devon assumiu aquele timbre irônico que era incompreensível para ela - De qualquer forma, obrigado de novo, Missy. Até mais tarde.
Despedindo-se de seu cunhado, Missy apressou-se em sair de seu escritório, abrindo a porta para o requintado corredor da Agência de Modelos e Figuração Knight. Depois que ela optara por cursar Engenharia de Software na faculdade, indo contra todas as expectativas e exigências de sua mãe, uma agência de modelos era o último lugar do mundo em que ela imaginara que trabalharia algum dia. Mas, depois de quase um ano inteiro ali, ela não poderia estar mais feliz. É claro que, quando Devon tinha proposto que ela alugasse um dos poucos escritórios que ainda estavam disponíveis naquele prédio incrível – já que a grande maioria deles estava ocupada pelas muitas instalações da agência dos irmãos Knight – e se tornasse responsável pelas questões de T. I. da agência enquanto continuava seus projetos autônomos e como freelancer, apesar de gostar da ideia, Missy ficara um pouco temerosa.
Tendo sido, durante toda sua vida, o clichê da garota nerd de óculos gigantescos, roupas largas estampadas com personagens de desenhos animados e notas perfeitas, ela não tinha passado ilesa das provocações e piadinhas de m*l gosto dos garotos e garotas populares de seu colégio, aqueles que sempre tinham peles perfeitas e egos enormes. Felizmente, especialmente graças à vigilância de seu pai e sua irmã mais velha, aquele bullying nunca tinha ido longe demais. É claro, ela tinha tido sua cota de lágrimas e inseguranças depois de ouvir tantas coisas desagradáveis sobre sua aparência, mas, felizmente, Jonathan e Megan a tinham ajudado a amar quem ela era. Não que as críticas tivessem sessado – sua mãe era, talvez, a maior representante delas atualmente, mas ela sempre procurara compreender Victoria. Ela era, por formação, uma estilista, e tinha ideias muito concretas e imutáveis sobre o que eram roupas adequadas e o que eram “atentados à estética”, como algumas vezes ela se referira ao guarda-roupas de Missy.
Não que Missy nunca tivesse tentando explicar-lhe sobre como todas aquelas referências às suas histórias e personagens preferidos a faziam ser sentir bem, como lhe recordavam das lições que havia aprendido com aquelas ficções e como a faziam se sentir um pouco mais confiante e leve em várias situações... Mas sua mãe era uma pessoa ocupada e ela nunca tinha muito tempo para escutá-la. Não que ela não estivesse acostumada. Não houve um único momento de sua infância em que Victoria estivesse realmente disponível para elas conversarem... Megan era a única com quem Missy verdadeiramente podia conversar sobre tudo. Megan... E Jonathan.
Pensar em seu pai ainda doía, mesmo depois de passados 05 anos longos anos. Talvez porque era muito fácil esquecer que ele já não estava mais com ela e com Megan. O câncer o tinha levado tão rápido que ela m*l conseguira assimilar, no início. Às vezes, Missy ainda se pegava pensando que poderia ligar para ele e lhe contar como fora seu dia, pedir um conselho ou simplesmente conversar sobre a nova série na qual ela estava viciada... Até que ela se lembrava que eles não poderiam fazer aquelas coisas nunca mais e seus olhos se enchiam de lágrimas.
Não importava quanto tempo se passasse, a saudade dele sempre era o que mais doía.
Fungando um pouco enquanto tentava dispersar aqueles pensamentos, Missy acenou para algumas modelos que estavam saindo de uma sessão de fotos no final do longo corredor. Sorridentes, as meninas a cumprimentaram alegremente, mesmo com a grande distância. Sim, ela tivera muita sorte em trabalhar em um ambiente tão bom quanto a Knight Agency. Diferente do estereótipo que até mesmo ela tinha sobre modelos, a maioria das pessoas ali não eram rudes e superficiais, importando-se apenas com suas aparências. Todos eram simpáticos e extremamente profissionais, fazendo-a sentir-se acolhida, algo que ela dificilmente poderia dizer de todos os outros poucos lugares em que trabalhara rapidamente ao longo dos anos.
É claro, sempre haviam algumas pessoas deslumbradas demais com a perspectiva de sucesso e fama, mas Missy podia contar nos dedos de uma mão as vezes em que alguém havia sido grosseiro ou desrespeitoso com ela e, felizmente, essas pessoas geralmente não ficavam muito tempo. Seu cunhado, Devon, e os irmãos dele, Diana e Logan, – que não era apenas o diretor da agência, mas também seu fundador – eram extremamente criteriosos com quais tipos de pessoa agenciavam, já que aquilo poderia custar-lhes a excelente reputação que a agência tinha. E Missy podia entender seu excesso de cuidados: com apenas 12 anos de existência, a Knight Agency já era a maior e mais bem conceituada do país. Um título mais do que merecido, Missy bem sabia.
Com pouco mais de 10 meses ali dentro, ela ficara surpresa e encantada com a preocupação dos irmãos Knight em exaltar todos os tipos de beleza e ter a maior diversidade possível de pessoas trabalhando não apenas como modelos, mas também como figurantes, atores e influenciadores digitais, como era o caso de sua irmã. Ela nunca tinha ouvido falar de uma empresa daquele porte e com tanto prestígio que se preocupasse não apenas em seguir as tendências do mercado, mas também se esforçasse em repensá-las e modifica-las. Enquanto crescia, a maneira como Victoria agia sempre a tinha feito pensar que o mercado da beleza era nada além de impiedoso com aqueles que não se encaixavam. E talvez fosse assim, na maioria dos lugares. Mas a Knight Agency tinha desconstruído muitos preconceitos dentro dela. Talvez por isso tudo ali fosse tão incrível: diferente do que sua mãe pensava, dentro daquelas paredes não havia apenas um único padrão estético a ser seguido à risca. Ao contrário, cada um dos muitos agenciados, independentemente do quão diferentes fossem uns dos outros, era tratado como o que realmente era: único e inigualável. Não apenas ao olhos dos clientes, mas também do público.
Por isso, ela agradecia todos os dias por ter aceitado a sugestão de seu cunhado e montado seu escritório bem ali, no mesmo prédio da agência, que, como ela bem sabia, em pouco tempo se converteria em um edifício exclusivo da agência, já que os Knight pretendiam compra-lo em breve. Muito mais do que um simples trabalho, ela se sentia exultante em poder ajuda-los a crescer utilizando seus conhecimentos sobre computação. Mesmo que ela soubesse que não era muito, todos pareciam realmente felizes com as mudanças de software que ela fizera no departamento de marketing e no RH e, principalmente, com seu trabalho como “garota do T.I.”, como seus amigos da agência gostavam de chama-la. Mas ela sabia que algumas tecnologias às vezes podiam ser difíceis de lidar, e especialmente de concertar, e ficava feliz em poder ajudar a melhorar um trabalho tão incrível quanto o que eles faziam ali.
Saber que estava sendo útil a mantinha motivada, algo essencial para que ela se mantivesse focada no software que estava desenvolvendo autonomamente há mais de dois anos. Os primeiros protótipos tinham sido terríveis, até que ela se deu conta de que não conseguia ser verdadeiramente produtiva trabalhando em casa e sua irmã lhe sugerira encontrar um lugar que poderia se tornar seu escritório: um lugar onde ela poderia se concentrar apenas no trabalho. Felizmente, isso aconteceu na mesma época em que Devon lhe oferecera um emprego e as duas coisas haviam se encaixado perfeitamente. É claro, com a herança que seu pai havia deixado para ela e Megan, nenhuma das duas precisaria realmente se preocupar com dinheiro pelo resto da vida. Mas a necessidade de trabalhar duro estava no sangue dos Sutton e, por mais que aquilo também fosse alvo das críticas de Victoria, ela e sua irmã mais velha simplesmente não suportariam viver apenas de compras e festas.
Assim como Jonathan em sua juventude, elas queriam se realizar profissionalmente. Seu pai criara uma renomada empresa de engenharia e a fizera prosperar durante anos, dando às três uma vida extremamente confortável, e só a vendera após descobrir que estava doente, a fim de ter mais tempo para passar com as filhas e cuidar da própria saúde. E, por fim, quando os médicos lhe disseram que não havia mais nada a ser feito, Jonathan também fizera questão de proporcionar-lhes a maior herança possível. Parecia quase desrespeitoso utilizar o dinheiro que seu pai acumulara, depois de tantos anos de trabalho incessante, apenas para passar a vida se divertindo.
Por isso, ela e sua irmã se voltaram para profissões que envolviam o que elas amavam, onde elas seriam não apenas úteis, mas também felizes, como sempre souberam que era o maior desejo de Jonathan: Megan, que nascera com o dom da comunicação, inicialmente tinha se formado em Publicidade e Propaganda, mas, depois de criar diversas mídias sociais voltadas para o tarot e outros assuntos que faziam parte de seu cotidiano, ela rapidamente havia se tornado uma conhecida influenciadora digital, atingindo uma grau de fama que jamais sequer esperara. Felizmente, Missy ainda conseguia se manter anônima na maior parte do tempo, mas não conseguia evitar corar ferozmente sempre que, eventualmente, algum desconhecido lhe pedia uma foto depois de reconhecer sua voz através de algum dos vídeos que Megan já a tinha convencido a participar, por trás das câmeras. Ou, pior, quando alguém a reconhecia por conta de alguma das poucas fotos que ela tinha com Megan no i********: da irmã. Ainda assim, tirando esses pequenos constrangimentos inevitáveis, Missy não podia estar mais orgulhosa ou feliz por Megan. Sua irmã amava o que fazia e seus fãs a amavam de volta. Era tudo o que Megan sempre quis, apesar de presar mais pelo reconhecimento na profissão do que pela fama em si.
E, pelo menos assim Missy gostava de pensar, ela também estava conseguindo seguir seu próprio caminho. Ela tinha um bom currículo para alguém de 25 anos e os softwares cujos desenvolvimentos ela participara ao longo de sua carreira, trabalhando para diversas empresas multinacionais bem conceituadas, tinham sido bastante elogiados no mercado de tecnologia. Começar a desenvolver, autonomamente, seu próprio software, tinha sido um grande desafio nem sempre agradável, mas ela se sentia realizada na maior parte do tempo, apesar das adversidades. E tinha esperanças de que seu trabalho poderia ajudar muitas pessoas, caso alguma empresa se interessasse por ele, quando estivesse finalizado.
Bem, pelo menos Megan, que tinha se oferecido para ser sua empresária quando as futuras negociações pudessem começar, estava bastante otimista quanto a isso. E Missy realmente esperava que ela estivesse certa, mas não por conta de quanto valor de mercado seu software poderia ter. Ela apenas esperava que ele pudesse cumprir o objetivo para o qual ela o projetara e fazer a diferença para quem precisava. Afinal, Missy não precisava de dinheiro: ela tinha seu próprio escritório, seu projeto, seu emprego, sua família, seus amigos, um namorado, um apartamento aconchegante e uma cadelinha muito fofa que a faziam muito feliz. Ela não precisava de mais nada.
Bem, talvez aquilo não fosse totalmente verdade, afinal...
Sério, Missy?! Juro que nunca conheci alguém mais frígida! Você tem realmente algum t***o aí dentro ou é um cubo de gelo completo? É melhor você deixar de ser puritana e aproveitar esse momento! Não é como se outro cara fosse ser piedoso como eu e fazer o esforço de tentar te comer!
— Oh, Missy! Graças a Deus você chegou!
Tentando controlar o aperto incômodo de humilhação em seu estômago ao lembrar-se daquelas palavras, Missy sorriu na direção de Simon assim que o avistou, sentado atrás de sua mesa na sala que antecedia o maior escritório daquele local – o escritório de Logan Knight. Simon Montgomery, secretário do irmão de Devon, fora seu primeiro amigo na Knight Agency e, quando estavam juntos, eles podiam passar horas conversando sobre videogames e animes – na verdade, eles já tinham realmente feito isso, em uma noite em que ela ficara até mais tarde terminando uma configuração um pouco mais complexa e o Sr. Knight coincidentemente também fizera algumas horas extras, o que acabou levando Simon a ficar na empresa para ajuda-lo. Rindo, ela viu seu amigo quase se desequilibrar enquanto trocava uma grande pilha de papéis de lugar e digitava algumas coisas em seu computador, enquanto falava, afoito.
— O Sr. Knight já perguntou por você três vezes nos últimos cinco minutos! Não sei o que aconteceu, mas hoje é um daqueles dias em que ele está de péssimo humor! – Simon confidenciou, falando baixinho quando ela parou na frente de sua mesa, enquanto olhava nervosamente para a grande porta de madeira escura que dava o escritório de seu chefe. Bem e, tecnicamente, chefe dela também.
— Oh. – Missy apenas suspirou. Se Logan estava de m*l humor, então infelizmente vê-la só o tornaria pior. – Sinto muito, Simon.
— Não se preocupe comigo. – seu amigo suspirou, dando-lhe um meio sorriso – Vou compensar todo o trabalho de hoje comendo os bolinhos de camarão que você me prometeu para a festa de hoje.
— Eu já os entreguei para a minha sogra. – Missy sorriu de volta, embora pensar na festa daquela noite acordasse o fantasma daquela sensação incômoda de insegurança dentro dela – Garanto que você não vai se arrepender por ter esperado.
— Maravilha... – Simon começou a dizer, animadamente, quando o barulho do telefone ao lado dele os interrompeu. Apertando um dos botões rapidamente, Simon sorriu nervosamente e falou – Ela acaba de chegar, Sr. Knight. Vou pedir que entre agora mesmo.
Não ouve qualquer resposta do outro lado além do som da linha ficando muda, indicando que Logan havia desligado. Soltando o fôlego tensamente, Simon balançou a cabeça pesarosamente. – Boa sorte, Missy.
Sorrindo, a fim de acalmá-lo, Missy caminhou até a porta do escritório de Logan, um pouco nervosa, embora não tanto quando Simon. A verdade era que Logan Knight não gostava nem um pouco dela, mas ela tinha aceitado esse fato a um bom tempo e já não a incomodava. Desde o dia em que ela o conhecera, dois anos atrás, ao visitar a família Knight pela primeira vez, sua aversão por ela ficara bastante óbvia, especialmente pela maneira como ele passara a evita-la como se ela fosse um demônio, a partir daquele dia. De início, ela ficara confusa, perguntando-se o que havia feito de errado para fazê-lo odiá-la antes mesmo deles terem trocado sequer uma única palavra.
Porém, quando Megan começara a se revoltar com Logan pela maneira como ele estava tratando sua irmã e isso começou a gerar um atrito, Missy se apressou em tentar apaziguar aquela situação e passara a fingir que a aversão de Logan não lhe importava. E fizera aquilo durante tanto tempo que o fingimento tinha se convertido em realidade. Sua irmã e Devon tinham o relacionamento mais amoroso e apaixonado que Missy já tinha visto fora das páginas de seus livros de romance... E ela odiaria ser a causa de qualquer atrito entre eles. Felizmente, Megan e os demais Knight, apesar de ainda bastante aborrecidos com o comportamento de Logan, pareceram aceitar que as coisas teriam que ser daquela maneira e os conflitos se reduziram à zero. Afinal, não era como se Logan já tivesse sido verdadeiramente rude com ela ou a ofendido.
Ele apenas não suportava ficar na mesma sala que ela.
Ou pelo menos tinha sido assim no início. Aqueles primeiros meses em que ela fora apresenta aos Knight foram sem dúvida os piores, já que o irmão de Devon sempre rosnava e a olhava quase que com ódio quando ela estava por perto, saindo de qualquer que fosse o ambiente logo em seguida. Aos poucos, contudo, isso mudou, ainda que minimamente. Ele passara a simplesmente ignorar sua existência e evitar ao máximo trocar olhares com ela.
Todavia, ainda assim fora um avanço: ele não a encarava mais como se ela fosse a pior pessoa do mundo ou grunhia como se apenas a mera existência dela o estivesse torturando até a morte. Obviamente, aquilo a incomodou e desconcertou no início, mas, bem, ela tinha tentando ser compreensiva com ele. Era normal que às vezes você simplesmente não gostasse de uma pessoa à primeira vista, certo? Ele estava exagerando bastante, é claro, mas, ainda assim, ela tinha tentado se convencer de que ele não era obrigado a gostar dela. Pelo menos era esse o mantra que ela repetia para si mesma sempre que ele lhe lançava um daqueles olhares estranhos e intensos... Até que soltar um novo rosnado e ir embora, mais aborrecido do que nunca.
A mudança positiva de verdade tinha acontecido quando Devon lhe oferecera aquele emprego. De início, ela pensara em recusar. Afinal, ela tinha a nítida impressão – na verdade, a certeza - de que Logan preferia morrer a ter que conviver com ela também em na agência. Mas, para sua surpresa, durante um jantar com os Knight em que Devon novamente lhe perguntara se ela gostaria de trabalhar com eles, Logan tinha resmungado suavemente que ela seria bem-vinda, se quisesse... E logo após isso ele se levantara da mesa e fora embora, quase correndo. Mesmo que não fosse exatamente uma declaração de paz, Missy ficara realmente feliz com aquele pequeno avanço e aceitara o emprego, o que certamente fora a melhor decisão que poderia ter tomado: ela tinha feito grandes amigos, feito avanços gigantescos em seu projeto e até mesmo encontrado um namorado.
E, naquele último ano, Logan até mesmo tinha começado a conseguir ficar na mesma sala que ela, sem parecer estar sofrendo por conta disso. Eles ainda não eram amigos, colegas, nem nada do tipo... Sendo sincera, ele nem sequer olhava na direção dela. Mas, pelo menos, Logan parecia ter aprendido a conviver com a presença dela naquele último ano. Provavelmente porque ele tinha o azar de só comprar computadores defeituosos, o que sempre a obrigava a ir até a sala dele consertar algum problema. Ela o tinha aconselhado a trocar de aparelho um total de três vezes naqueles últimos dez meses, fazendo substituições cada vez mais caras e tecnológicas, mas, estranhamente, nem isso fora capaz de resolver seus recorrentes problemas. Felizmente a maioria deles era simples e poderia ser facilmente resolvida se ele apenas pesquisasse um curto tutorial em vídeo... Mas ela tinha sugerido aquilo uma vez e ele apenas tinha resmungado que não sabia lidar com absolutamente nenhuma tecnologia, preferindo que somente ela, uma profissional, lidasse com aqueles defeitos.
Parando para pensar, aquela tinha sido a conversa mais longa que eles já tinham tido.
Bem, ao menos, eles tinham começado a conviver de maneira civilizada.
O que certamente era algo a se comemorar.
Por isso, tomando primeiro um rápido fôlego para acumular alguma coragem, Missy bateu suavemente na porta, antes de entrar, rezando para que o m*l humor de Logan naquele dia não fosse potencializado por sua presença.
- Olá, Sr. Knight. – ela disse suavemente, adentrado na sala com cuidado, antes de fechar a porta atrás de si - Devon me disse que você estava com problemas...
Para sua surpresa, ao invés de estar sentado atrás de sua enorme mesa ou em algum canto extremo do amplo e requintado escritório, obviamente tentando colocar o máximo de espaço entre si mesmo e ela, Logan estava parado ao lado da mesa, de pé e de costas para ela, a figura absurdamente alta, larga e imponente tomando conta do ambiente enquanto ele olhava para a paisagem do lado de fora da grande parede de vidro que lhe permitia ver toda a cidade movimentada do lado de fora. Enquanto se aproximava devagar, ela esperou que ele saísse dali, para evitar ficar tão perto dela, mas, ao invés disso, ele permaneceu parado como uma rocha, sem olhá-la ou responde-la, com os ombros visivelmente tensos por baixo do terno, mas ainda assim extremamente perto de onde ela teria que ficar para consertar o que havia de errado com o computador.
- Meu computador. – ele rosnou duramente de repente, quase fazendo-a saltar de susto, ainda com os olhos fixos na paisagem do outro lado da janela – Não consigo encontrar meus arquivos.
- Oh... – ela arfou baixinho, dando um sorriso simpático, mesmo sabendo que ele não veria; e, sendo sincera, ele certamente também não se importava - Tenho certeza de que é algo simples de se resolver. – ela afirmou, movendo-se até sua cadeira de couro para poder se sentar e averiguar o que havia de errado com o computador.
E, como de costume, ela esperou que ele se afastasse. Contudo, para sua mais completa surpresa, ele realmente permaneceu no mesmo lugar, agora parecendo mais tenso do que nunca, mas também no mais completo silêncio. Ao se sentar, ela pensou tê-lo ouvido tomar uma ingestão aguda de ar, mas, conforme ela passeava rapidamente pelos arquivos em sua frente, o pensamento deixou sua mente. Em poucos segundos, ela percebeu que Logan não conseguia encontrar seus documentos porque eles estavam na lixeira, ao invés de em suas pastas originais. Restaurando-os com apenas alguns poucos cliques, Missy lembrou-se de algo que a deixou curiosa e, ao digitar rapidamente um nome na barra de pesquisas, ficou surpresa ao não encontrar nada.
- Sr. Knight... – ela começou, temerosamente, enquanto ainda tentava achar o que estava procurando - Me desculpe, mas...
- Logan.
- Hã? – ela questionou automaticamente, erguendo o pescoço para encara-lo, já que ele era mais de 30cm mais alto que ela, perplexa não apenas pelo que ele dissera, mas, principalmente porque, pela primeira vez desde que ela o conhecera, sua voz grave e profunda não soava ríspida ou irritada...
Ela podia estar ficando louca, mas também poderia jurar que ele soara quase... Doce?
Sim, sem dúvida ela estava ficando louca.
Porém, ao olhá-lo, ela percebeu que, de fato, talvez pela primeira vez em dois anos, os olhos verdes dele, geralmente frios e perturbados, estavam cálidos quando Logan falou novamente, embora sua expressão permanecesse séria, quase desgastada.
- Me chame de Logan. – ele pediu novamente, ainda usando aquele timbre belo e suave que era tão atípico para ele que Missy teve que se perguntar novamente se não estava delirando ou coisa assim.
- Hã... Bom... Logan... – ela gaguejou, tentando organizar seus pensamentos diante da surpresa de ouvi-lo dizer aquilo; ele queria que ela o chamasse pelo nome? Será que ele estava doente ou coisa do tipo? Talvez fosse ele quem estivesse delirando e não ela... Espere, sobre o que eles estavam falando mesmo? - Alguém mexeu no seu computador desde ontem? – ela perguntou, ainda tentando se recuperar de seu atordoamento - Porque eu tinha instalado um ótimo antivírus nele e agora ele sumiu...
- Não sei. – ele respondeu simplesmente, ainda sem rosnar.
- Hmmm... – ela engoliu em seco, decidindo que o melhor era manter-se profissional e até mesmo simpática. Se ele havia parado de ser desagradável, mesmo que apenas por aquele curto momento, então era melhor que ela simplesmente aproveitasse alguns momentos sem ser odiada, certo? - Tudo bem então, posso instalar de novo. – ela deu um sorriso nervoso e viu a mandíbula dele travar, enquanto uma veia em seu pescoço saltava, mas ele ainda assim continuou impassível - Você está com pressa? Só vai levar um minuto.
- Fique quanto tempo quiser. – ele falou rapidamente e voltou os olhos novamente para o lado de fora do vidro, aparentemente ignorando-a novamente.
Todavia, enquanto procurava o programa novamente para poder fazer o download, Missy não pode deixar de notar, através da visão periférica, que ele a estava observando. No início, ela pensou que talvez pudesse ser apenas uma impressão, mas, ao desviar o olhar e encontrar aquelas íris intensamente verdes focadas por completo nela, deu-se conta de que não.
Havia realmente algo diferente em Logan naquele final de tarde...
Ela só esperava que fosse uma mudança boa.
Em poucos minutos, o download do programa de iniciou e, incerta do que deveria fazer enquanto esperava, Missy desviou os olhos para seus próprios pés, desconsertadamente encarando com muito interesse as muitas estampas dos personagens de “Hora de Aventura” em seus all-stars cor-de-rosa. Aqueles eram seus tênis favoritos... E ela gostaria de poder usá-los no jantar daquela noite, mas sabia que, por mais que os amasse, certamente despertariam comentários que talvez ela não tivesse alto-estima o suficiente para ouvir no momento. Especialmente se sua mãe decidisse comparecer...
Ela quis estremecer só de pensar no que Victoria diria.
- Só um minuto e vai estar instalado. – Missy resolveu falar novamente e, ainda sentindo a intensidade de seu olhar sobre ela, decidiu manter sua atenção na tela do computador.