Eu sou a lei e o carrasco nessa cidade.
O cetim branco do vestido de noiva de Alessia não passava de uma p***a de uma mortalha, costurada ponto a ponto para o próprio funeral dela. Olhando para o reflexo no espelho alto e empoeirado do camarim daquela catedral fortificada, ela m*l reconhecia a mulher que a encarava de volta. O corpete era impecável, espartilhado com uma precisão sutil que escondeu perfeitamente o tremor violento e quase imperceptível em suas mãos. A maquiagem estava intacta, e os cabelos escuros foram presos em um coque alto e severo, deixando a linha inteira do pescoço completamente exposta. Um convite aberto, um alvo escancarado para as lâminas e as vontades da Cosa Nostra.
O pai dela a havia vendido. Não existia forma mais limpa, poética ou menos dolorosa de engolir essa merda. Para salvar o clã Vitali da aniquilação completa nas mãos das famílias rivais e limpar as próprias dívidas de sangue acumuladas em anos de apostas e acordos imundos, ele a entregou de bandeja ao novo monstro que governava Nova York com punho de ferro e sangue: Giovanni Donati.
— Está na hora — a voz do velho ecoou pela porta entreaberta, seca, desprovida de qualquer vestígio de remorso ou afeto. Ele sequer olhou nos olhos dela. Para ele, Alessia deixou de ser filha no momento exato em que a assinatura dele foi carimbada no contrato. Ela era só a última e mais cara moeda de troca de uma dinastia que apodrescera por dentro.
Alessia ajustou o véu de renda sobre o rosto, sentindo o peso invisível de uma sentença de morte caindo sobre os seus ombros. Caminhar até o altar daquela capela privada não era o início de um casamento; era o seu batismo forçado no inferno. Quando as portas duplas de carvalho maciço se abriram com um estrondo pesado, o som reverberou pelo corredor ladeado por dezenas de homens de terno escuro. Soldados, capos e sicários. Todos com os braços cruzados, ostentando expressões de puro desdém e hostilidade. O cheiro de incenso litúrgico misturou-se de forma sufocante com o fedor de pólvora, fumaça de charuto barato e couro empoeirado que impregna aqueles corpos armados até os dentes.
E então, ela o viu no final do corredor. A p***a do carrasco esperando pacientemente.
Giovanni Donati parecia uma divindade sombria e implacável esculpida direto no mármore n***o. Alto, imponente, com uma estrutura física pesada que se destacava sob o terno escuro sob medida. Os cabelos pretos estavam alinhados, e as feições eram esculpidas na base da marra e da crueldade. Mas eram os olhos dele que travavam os batimentos cardíacos de qualquer um. Olhos escuros, gélidos e transbordando de um ódio tão palpável que a pressão no ar da capela esmagava o peito de Alessia. Ele a culpava pela emboscada que estraçalhou o irmão mais velho dele, Matteo. Ele a odiava antes mesmo de ouvir o som da voz dela. E, naquele segundo exato, ela percebeu que a intenção dele não era ter uma esposa ao lado; era quebrar cada osso do orgulho dela até que não sobresse absolutamente nada da herdeira dos Vitali.
Alessia engoliu em seco, a saliva descendo pesada, mas recusou-se terminantemente a fraquejar. Ela forçou as próprias pernas a marcharem firmes sobre o tapete vermelho, mantendo o queixo erguido na marra. Se era para entrar na p***a da toca do lobo, ela não entraria como uma ovelha balindo. Se ele tentasse morder, ela arrancaria os dentes dele na unha.
Vê-la caminhar em sua direção com aquele vestido branco imaculado foi a maior e mais sarcástica piada que a vida já teve a audácia de contar a Giovanni. O sangue do irmão dele, Matteo, ainda manchava metafóricamente as mãos daquela corja dos Vitali, e ali estava a joia da coroa deles, marchando pacientemente para o altar da vingança pessoal dele. Giovanni não queria essa merda de casamento. Ele queria ver a família inteira dela arder em chamas e virar cinza. Mas a p***a da Comissão exigiu uma trégua para cessar a guerra nas ruas, e esse matrimônio de merda era o selo oficial. Um acordo assinado com a garantia tácita de que, ao menor sinal de traição da corja dela, seria no pescoço de Alessia que a lâmina entraria.
Os dedos dele contraíram-se ao longo da calça, roçando de leve no coldre escondido. O peso da pistola sob o paletó era o único lembrete constante de quem mandava nessa p***a e do que ele era capaz de fazer para manter o império Donati intacto.
Quando ela parou ao lado dele, o perfume dela — jasmim misturado com uma doçura irritante — invadiu o espaço de Giovanni, desafiando a atmosfera morta da igreja. Ele olhou de soslaio, medindo a linha fina do maxilar dela através do tecido translúcido do véu. Procurando por qualquer vacilo. Uma respiração trêmula, um ombro caído, qualquer merda que denunciasse a garotinha assustada que o pai tentara esconder. Mas o que ele encontrou atingiu-o como um soco no estômago.
Os olhos dela cravaram nos dele sem desviar um centímetro. Não havia medo ali. Não havia submissão. O que brilhava naquelas pupilas era uma fúria fria, um fogo teimoso que se recusava a abaixar a cabeça para o gelo dele. Essa insolência dentro da própria casa, na frente dos próprios homens, acendeu um calor perigoso e violento bem no meio do peito de Giovanni.
— Você está caminhando direto para a sua execução, piccola — ele sibilou inclinando o corpo, garantindo que o tom barítono e letal da voz chegasse apenas aos ouvidos dela enquanto o padre balbuciava as primeiras rezas.
Para o completo e total espanto dele, ela não recuou p***a nenhuma. Alessia ergueu o queixo milimetricamente, enfrentando a imponência dele sem piscar.
— Então certifique-se de terminar o serviço de uma vez por todas, Giovanni — ela rebateu no mesmo tom de sussurro, cortante como vidro quebrado. — Porque se me deixar respirar um segundo que seja, eu juro que vou ser o seu fim.
Um sorriso sombrio repuxou o canto da boca de Giovanni. Essa desgraçada não tinha a menor noção do inferno que a esperava atrás dos portões da mansão dele.
As palavras do padre em latim soavam como um ruído vazio, uma bosta sonora sem o menor significado. Nada daquilo era abençoado. Era um contrato comercial mascarado de sacramento, mantido à base de ódio e ameaças de morte. Toda a vida de Alessia foi moldada para entender que mulheres na máfia servem de moeda de troca, mas sentir o laço apertar no próprio pescoço era infinitamente mais sufocante do que qualquer teoria.
Quando chegou a hora da p***a das alianças, Giovanni apertou a mão dela com força. Os dedos dele eram grossos, calejados pelo peso de armas e pela violência que ditava a rotina dele. Não havia gentileza ali; era um aperto de quem queria mostrar quem mandava na coleira. O anel de ouro pesado e cravejado de diamantes negros deslizou pelo dedo dela como uma algema reluzente. O peso do sobrenome Donati desabou sobre Alessia, esmagando o restinho de oxigênio que restava.
— Eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva — o padre murmurou.
Giovanni não perdeu um segundo. A mão dele deu um bote na cintura dela, puxando-a contra o corpo duro dele com uma brutalidade possessiva que quase arrancou o ar de Alessia. Com a outra mão, ele arrancou o véu dela e prendeu-lhe a mandíbula com força entre os dedos, obrigando-a a erguer o rosto.
O beijo dele não tinha nada de romântico; era uma invasão em território inimigo. Os lábios eram firmes, agressivos, exigindo submissão na marra na frente de todos os capachos dele. Tinha gosto de uísque e perigo puro.
Uma revolta animalesca explodiu nas veias de Alessia. Ela não abaixaria a cabeça para aquela humilhação. Juntando toda a audácia que lhe restava, ela entreabriu os dentes e mordeu o lábio inferior dele com força brutal, sentindo o gosto metálico do sangue de Giovanni invadir a boca no meio do beijo.
Ele se afastou num estalo, um centímetro apenas, com as pupilas dilatadas e a respiração pesada. Um filete de sangue escorria pelo canto da boca dele. Ele limpou com o polegar, olhando para o próprio sangue antes de cravar os olhos nela com uma fúria predatória que quase a fez cambalear.
— A nossa noite de núpcias vai ser interessante pra c*****o, Alessia — ele murmurou rente à boca dela, um sorriso sádico desenhado no rosto. — Vamos ver se você tem essa mesma marra na minha cama.
A audácia dessa mulher roçava a insanidade. Ela acabara de morder Giovanni na frente da p***a toda da liderança, deixando sangue no lábio dele. Qualquer outro homem nessa cidade já teria estourado os miolos dela no asfalto por menos. Mas em vez de fúria cega, o que queimava por dentro dele era uma excitação animalesca, pesada e doentia. O jogo acabara de ficar muito mais interessante.
Ele a segurou pelo cotovelo, com força o bastante para deixar os dedos marcados, e arrastou-a para fora da igreja enquanto a marcha fúnebre tocava nos alto-falantes. Sem festa, sem recepção de merda com convidados falsos. Ele enfiou essa mulher direto na limusine blindada que os aguardava do lado de fora.
Assim que a porta fechou com um estalo hermético, blindando os dois do resto do mundo, o silêncio pesou como chumbo. A limusine arrancou pelas ruas encharcadas de Nova York rumo à fortaleza na colina. Ela colou-se na janela opuesta, olhando para as luzes borradas da cidade.
— Acha mesmo que esse bico fechado vai te salvar do que tá por vir? — perguntou Giovanni, despejando duas doses de uísque no copo de cristal, estendendo um para ela, que nem se mexeu.
— Eu não preciso de p***a de salvação nenhuma, Giovanni. E muito menos da sua — ela disparou sem olhar. — Eu sei exatamente quem você é. Um monstro que se esconde atrás de terno caro e um exército de capangas armados.
Ele largou o copo com força no console, cruzou o espaço da cabine em um segundo e encurralou o corpo dela contra o estofado de couro. A mão de Giovanni disparou, fechando firme ao redor da garganta macia dela, sentindo o pulso acelerado disparar debaixo da pele.
— Monstro? — sussurrou ele, colado na boca dela, sentindo o gosto do próprio sangue na briga. — Você não viu nem a p***a da introdução ainda. Eu sou a lei e o carrasco nessa cidade. E a partir de agora, cada segundo da sua respiração pertence a mim.
Com a outra mão, ele puxou a pistola debaixo do paletó, encostando o cano de metal gelado bem embaixo do queixo de Alessia, forçando a cabeça dela para cima.
— Quero ver se essa marra toda aguenta o cheiro de pólvora de perto.
O cano daquela pistola queimando de frio embaixo do queixo de Alessia era o perfeito contraste para o calor sufocante do corpo dele colado no dela. A pressão cortava a respiração dela, mas a jovem fincava os olhos nos abismos escuros dele sem recuar um milímetro. Se fosse para morrer hoje, ela morreria olhando nos olhos daquele desgraçado.
— Uma arma na sua mão não me assusta em p***a nenhuma, Giovanni — ela sibilou com o veneno escorrendo em cada palavra. — Eu cresci ouvindo tiro na sala de casa antes de saber ler. Um mafioso com mania de grandeza não me mete medo.
Ele apertou o cano com mais força, a pele do queixo dela quase rasgando. Por um segundo, Alessia achou que ele apertaria o gatilho e foderia o estofado do carro com os miolos dela. Mas os olhos dele desceram para os lábios dela, onde o sangue dele ainda deixava uma marca escura.
— Você tem uma língua maldita e afiada, Alessia. Mas quero ver essa marra quando você estiver trancada no meu quarto, sem papizinho pra te defender — a voz dele caiu para um sussurro rouco, bruto, que arrepiava a espinha dela de um jeito que lhe dava ódio de si mesma.
Ele afastou a arma devagar, arrastando o metal pelo pescoço dela antes de guardá-la no coldre, mas não saiu dali. A presença dele a esmagava contra o banco até o carro frear bruscamente diante dos portões de ferro gigantescos da mansão Donati. A fortaleza erguia-se como uma prisão gótica cercada de guardas e fuzis.
Ele desceu primeiro, abriu a porta e estendeu a mão graúda na direção dela com um cinismo descarado. A chuva fina desabava sobre os dois.
Alessia olhou para a mão dele com desprezo absoluto, deu um tapa de leve empurrando-a para o lado e desceu sozinha, segurando a cauda encharcada do vestido de noiva com raiva. Ela não aceitaria a merda da ajuda dele. Nunca.
Giovanni soltou uma risada curta, sombria, batendo a porta da limusine com força suficiente para estilhaçar a paciência de qualquer um. Ele a agarrou pela cintura por trás, colando o corpo massivo nas costas dela enquanto os dois subiam a escadaria enlameada.
— Bem-vinda ao seu novo inferno, Sra. Donati — ele sussurrou roçando os lábios na orelha dela ensopada de chuva. — Agora a brincadeira vai começar de verdade.