Capítulo 6

1531 Words
Corro os olhos pela longa mesa, conferindo se todos os papeis estão distribuídos nos locais certos. É quarta-feira e a primeira reunião com os investidores para apresentar o projeto gráfico vai começar dentro de dez minutos. A porta atrás de mim se abre e olho por cima do ombro, e vejo Royce entrar. Olho para frente, ignorando o olhar que ele me dá. Durante todos os dias dessa semana ele tem feito isso. É enervante. Uma parte minha quer confrontá-lo e dizer para parar. A outra esta chateada porque depois do beijo de sábado ele não me tocou nenhuma outra vez. Sim, sou uma i****a. — Tudo pronto? — Ele pergunta, e concordo com a cabeça. — O tradutor também já chegou. — Aviso, e então indico as duas cadeiras que ficam ao lado da cabeceira da mesa. — Você vai sentar aqui, e eu vou estar um pouco atrás supervisando o decorrer da reunião. — Ok. Vou abrir as portas para eles entrarem, então. Os chineses parecem prestar atenção enquanto os gráficos são exibidos em slides numa tela grande, mas as palavras do tradutor estão me incomodando. Mais de uma vez ele traduziu para ambos os grupos de forma incorreta. Nada obvio, mas eu sabia que essa pequena diferença no sentido das sentenças poderia gerar problemas no futuro. Quando uma gafe particularmente preocupante escapa, me remexo com desconforto na cadeira. E vejo que o Sr. Calidge me olha, curiosidade disfarçada. Tento comunicar que algo esta errado, e lanço um olhar para o tradutor. — Gostaria de sugerir uma pausa na reunião, e dentro de trinta minutos continuamos. — Ele diz de sua ponta na mesa, e depois de ouvir a tradução, os estrangeiros concordam, sérios. Eu, Royce e o Sr. Calidge deixamos a sala, e vamos para a presidência. Lá dentro o Calidge mais jovem suspira e se joga na cadeira à frente da mesa do pai. — Eles não parecem felizes. À essa altura já era pra ter pelo menos uma expressão de interesse. — Seus ombros estão rígidos e eu entendo sua reação. Nos últimos dois dias nós viemos trabalhando duro nessa apresentação, e eu sabia que estava impecável. — O tradutor esta distorcendo as palavras. — Informo, e os dois homens me olham meio confusos. Vou até a outra cadeira e me sento ao lado de Royce. — No começo achei que era sem querer, mas agora tenho certeza que é de propósito. Antes de terminar, Royce já esta com o telefone falando para os seguranças trazerem o tradutor, e tenho um mau pressentimento sobre isso. Uma batida na porta e logo o jovem entra. Ele é alto e magro, e parece ter uns vinte dois anos, mais ou menos. Olha a sala, meio nervoso, e depois para nós. E então engole em seco. — Fomos informados de erros na precisão da sua tradução, Sr. Stevens. Tem alguma coisa a dizer sobre isso? — Sr. Calidge pergunta, sério. O rapaz olha para nós três de novo, e vem rápido para perto de mim. — Não senhor. Eu só estou traduzindo como entendo. Eu me graduei faz pouco tempo, eu… Ele para de falar ao ver que nenhum dos dois esta comprando seu discurso e mais rápido do que eu estou esperando ele me puxa da cadeira e fica com o corpo por trás do meu. — Eu só estou cumprindo ordens! Só isso! — Ele exclama, e a fachada de antes cai, mostrando nervoso. Suas mãos apertam meu braço, machucando, e num reflexo dou uma cotovelada em seu estômago. Ele me larga e dá vários passos para trás, então é bem fácil pegar impulso enquanto me viro. Meu punho se conecta com a lateral de seu rosto, o jogando para trás, e simples assim ele cai contra a parede, desacordado. Tudo isso acontece muito rápido, deixando um silêncio oco na sala. — Belo soco, Srta. Bridget. — Calidge pai diz, num tom de aprovação. Viro e olho para os dois, e o mais velho esta falando com um segurança pelo telefone, informando a situação. Royce me encara com uma expressão incrédula, até andar e parar na minha frente. Ele pega a minha mão e vê que os nós dos meus dedos estão arroxeando por causa do impacto. — Pai, eu vou levar a Srta. Bridget para por gelo na mão antes de retornarmos para a reunião. — Ele diz, sem se virar, e por cima de seu ombro vejo seu pai concordar com a cabeça. — Vamos lá. — Ele me diz baixinho. Entramos na sua sala e ele tranca a porta, e então estou sendo abraçada com força. A sensação é tão boa que me entrego, me aninhando no calor de seu corpo. — Quando ele te puxou, eu… — Royce sussurrou no meu ouvido, antes de plantar um beijo em minha têmpora. O gesto consegue ser mais íntimo do que se ele tivesse me beijado na boca, e sinto algo se romper dentro de mim. — Eu estou bem. — Minha voz soa suave até para mim, mas não me importo. Ele se afasta e pega meu braço com cuidado, erguendo a manga da camisa e vendo o lugar onde o homem apertou, e que já esta arroxeando. Vejo como Royce aperta o maxilar e parece zangado. — Não foi realmente nada. — Garanto para ele. Me afasto e vou até minha mesa. Pego uma pomada na minha bolsa e esfrego na contusão. Vejo-o caminhar até o frigobar e pegar gelo. Quando termino de espalhar a pasta pela minha pele, ele pega minha mão e coloca uma toalha macia com gelo nos nós dos meus dedos, e suspiro de alívio. Fazia um bom tempo que não socava ninguém e havia esquecido como pode doer. — Como é que você sabe como derrubar um cara com um único soco? — Royce pergunta, erguendo uma sobrancelha e me olhando de forma especulativa. Dou de ombros da forma mais indiferente que consigo. Não estou indo contar para ele como ou quem me ensinou a bater - e muito menos o motivo. — Um ex me ensinou. — Meu tom é leve, encobrindo a mentira. Pego a toalha da sua mão e então me afasto. Me sirvo de um copo d'água e sento numa cadeira em frente à mesa dele. Percebo que Royce não acreditou, mas não diz nada. — Você se importa de atuar como tradutora no resto da reunião? — Ele pergunta, por fim. — Tudo bem. — Concordo. O negócio foi aprovado, e os investidores estão animados. Consegui reverter o problema com o outro tradutor, e as coisas enfim correram bem no resto do dia. Vejo o elevador se fechar, levando os chineses embora, e suspiro alivia. Minha mão e meu braço estão latejando, e não vejo a hora de ir para casa. — Pronta para ir? — Royce me pergunta, voltando para a sala. Olho confusa para ele, que aponta minha mão inchada. — Não vou deixar você dirigir desse jeito. Nem pensar. Realmente dirigir sem quase mover a mão pode ser perigoso, mas encolho os ombros. — Vou de táxi, então. Sem problemas. Sua testa se franze, e ele parece contrariado. — Vou dirigir até sua casa. Não é nenhum problema para mim, também. —Abro a boca para recusar, mas Royce ergue as mãos. — Sem acordo. O olho nos olhos e vejo teimosia. Uma voz na minha cabeça diz 'escolha suas batalhas' e percebo que quero que ele me leve. Seja o que for, não estou com vontade de me despedir ainda. — Ok. Pego a bolsa e ele sua pasta, e saímos juntos. Wanda dá uma olhadinha discreta, e não comenta nada, mas na mesma hora me sinto desconfortável. Para qualquer um que olhar eu sou a assistente que esta indo para casa com o patrão, e não é essa a imagem que quero passar. Suspiro, resignada. O trajeto é feito em silêncio, e aprecio isso. Uma dor de cabeça indesejada esta se alojando atrás dos meus olhos, e meu plano é tomar um remédio para enxaqueca e apagar até amanhã. Royce estaciona na entrada do prédio, e aperto a bolsa, para descer, mas quando sinto seu toque delicado na minha mão, paro e olho. Seus olhos cor de oliva estão me observando, e sua mão se ergue e toca meu rosto. — Você foi incrível hoje. Mostrou o que o tradutor estava fazendo, se defendeu e salvou o projeto. — Seu tom é estranho, avaliador. Aperto os lábios, sem saber o que responder. 'Não foi nada' não pareceu algo adequado para se dizer. — Até amanhã. — Dou um sorriso pequeno e me preparo para sair, mas ele me impede mais uma vez. — Sexta à noite vai acontecer uma festa, e eu pretendo ter alguns encontros com possíveis associados. Gostaria que você fosse comigo para me ajudar. Engulo em seco, e ordeno a mim mesma não demonstrar nada. NÃO é um encontro. Ele quer que eu vá para ajudar nas negociações sutis que podem ocorrer num evento assim. Meu coração desobediente dispara, e eu quero me xingar. — Tudo bem. — Concordo, e odeio como minha voz soa rouca. — Tudo bem. — Ele repete, e sua respiração parece um pouco irregular. Mas ignoro isso e desço, e dessa vez ele deixa. — Até amanhã, Melanie. — Ele me diz pela janela. Aceno em despedida e entro, e noto que Royce espera até que eu esteja dentro para dar a partida e ir embora.
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