NARRADO POR: MAITÊ
Saí daquela mansão pisando fundo, sentindo o motor da BMW roncar como se estivesse gritando por mim, um grito gutural que eu mesma não tinha coragem de soltar. O vento que entrava pela janela, cortando a orla da Barra da Tijuca, não era suficiente para limpar o gosto de cinzas, metal e humilhação que a Sofia deixou na minha boca. Cada semáforo fechado era uma tortura, um segundo a mais pra eu me olhar no retrovisor e ver a "Maitê estilhaçada" tentando se colar. Mas conforme a distância entre mim e aquele mausoléu de mármore aumentava, eu sentia a metamorfose. Eu precisava mudar a chave, trocar o chip. No asfalto da zona oeste, eu era apenas a herdeira de um sobrenome que me sufocava, um enfeite de luxo; dentro do hospital, eu era a lei. Eu era a mulher que as pessoas confiam para abrir suas cabeças e consertar o que Deus permitiu que desse errado.
Eu amo a medicina com uma intensidade que beira a psicose. Eu amo o silêncio absoluto de uma sala cirúrgica, aquele vácuo onde o tempo para e o único som é o bip constante do monitor, o ritmo da vida sendo mantido por fios, aparelhos e pela minha capacidade de não deixar a mão tremer. Ali, naquele ambiente estéril, onde tudo é branco e aço, ninguém me julga pelo meu sobrenome, pela marca da minha bolsa ou pelo brilho do meu anel. Ali, o que vale é a firmeza do meu pulso e a velocidade do meu raciocínio. A medicina é a única parte da minha vida que é de verdade, o único lugar onde o sangue é real, quente e pulsante, e não apenas uma metáfora para uma linhagem familiar podre e gananciosa.
Estacionei na vaga reservada aos internos e fiquei um minuto dentro do carro, sentindo o volante vibrar sob minhas mãos. Respirei fundo, fechando os olhos e bloqueando a voz da minha mãe que ainda ecoava como um zumbido de mosquito: "Talento medíocre". Eu comecei a visualizar a anatomia do cérebro, o polígono de Willis, as camadas das meninges, as artérias cerebrais. Era o meu mantra, meu escudo de proteção contra a loucura. Saí do carro, bati a porta com uma força que quase estraçalhou o vidro e atravessei o estacionamento com a cabeça erguida. O hospital é o meu campo de batalha, e hoje eu ia vencer por mim, pra provar pra aquela mulher que eu sou muito mais do que o reflexo dela.
Passei pela recepção e o ar-condicionado do hospital bateu no meu rosto. Era diferente do de casa. O de casa cheirava a morte, mofo escondido por trás de obras de arte e perfume francês caro; o daqui cheirava a luta, a álcool 70%, a iodo e a uma esperança desesperada. No vestiário, o ritual começou. Retirei meu relógio de ouro, meus anéis de diamante que custavam uma fortuna, e guardei tudo no armário de ferro como se estivesse enterrando a própria Maitê da Barra. Vesti o pijama cirúrgico azul, ajustando o cordão na cintura com um nó cego, firme. Prendi meu cabelo moreno com um elástico forte, puxando bem para trás, deixando meu rosto totalmente exposto, sem as camadas de maquiagem que a Sofia exigia para que eu parecesse uma boneca de porcelana. Coloquei os Crocs brancos e encarei o espelho.
— Agora você é a doutora — sussurrei para o meu reflexo, os olhos brilhando com uma chama amarga. — f**a-se a Sofia. f**a-se o Daniel. f**a-se o mundo lá fora.
Segui para o centro cirúrgico. O Dr. Arnaldo já estava na área de escovação, as mangas dobradas, os braços fortes mergulhados na pia. Ele é um homem de poucas palavras, um gênio da neurocirurgia que não tem paciência para incompetência ou socialites brincando de médica. Ele sabe quem são meus pais, claro, mas ele é o único que me olha e vê potencial técnico, não um contato político para o conselho do hospital.
— Preparada, Maitê? — ele perguntou, sem tirar os olhos das próprias mãos enquanto as escovava com vigor. — O tumor do Sr. Jorge é um desgraçado agressivo. Está abraçado na carótida interna como se fosse um amante ciumento. Se você vacilar no afastador por um segundo, ou se a sucção falhar, ele sangra até morrer na nossa frente em menos de trinta segundos. Não tem espaço pra erro de amador hoje.
— Eu não vou vacilar, doutor — respondi, pegando a escova de clorexidina.
Comecei o processo de assepsia. Escovei cada dedo, cada dobra da pele, as palmas, as costas das mãos, subindo até os cotovelos. Dez minutos de fricção constante. A pele ardia, a escova era áspera, mas a minha mente estava gélida. Era o meu preparo espiritual. Entrei na sala 4 com as mãos para cima, sentindo a enfermeira me paramentar com o avental estéril e as luvas de látex que apertavam meus dedos, selando minha conexão com o campo cirúrgico.
As horas passaram como se fossem minutos num túnel do tempo. Mergulhados no microscópio, eu via o cérebro pulsar sob a luz do foco. Era sagrado. Em um momento crítico, o Dr. Arnaldo ficou tenso, a tensão subindo como um raio na sala.
— Eu não consigo ver a base, droga! O lobo frontal está colapsando sobre a ótica. Vou perder o plano de clivagem!
— Doutor — eu disse, a voz saindo calma, uma frequência que eu nem sabia que possuía. — Se eu inclinar o afastador três graus para a esquerda e elevar o lobo frontal levemente, a base da carótida aparece. Eu tenho o ângulo, eu consigo sustentar.
Ele me olhou por cima dos óculos por um segundo. A sala inteira parou de respirar.
— Faça. Mas se tremer, a culpa é sua.
Eu movi minha mão. Foi um movimento quase invisível, um ajuste de milímetros que exigia uma força muscular e um controle nervoso que a Sofia jamais entenderia. A visão se abriu. O Dr. Arnaldo soltou um suspiro de alívio e clipou o vaso com perfeição.
— Muito bom, Maitê. Visão espacial de veterana. Esqueça o que dizem por aí. Você nasceu pra isso, não pra salão de festas.
Aquelas palavras foram o melhor anestésico para a dor na minha alma. A cirurgia foi um sucesso absoluto. Saímos da sala exaustos, o suor encharcando o pijama por baixo do avental. Enquanto eu retirava a máscara e sentia as marcas elásticas no rosto, senti que tinha cumprido meu papel no mundo. Eu salvei um pai hoje. Eu dei vida para alguém, enquanto na minha casa, meus pais só sabiam sugar a minha essência até eu virar um cadáver ambulante.
Saí do bloco e fui direto para o refeitório, arrastando os pés. Minhas costas queimavam, mas eu sentia uma satisfação visceral. Peguei um café horrível da máquina e me sentei num canto, querendo apenas desaparecer. Foi quando a Bárbara apareceu, vibrante como um choque elétrico num dia cinzento.
— Vi você lá dentro pela galeria, morena. Você deu aula! O Arnaldo tá quase te pedindo em adoção — ela sentou na minha frente, radiante. — Mas agora chega de cérebro por hoje. O plantão acabou pra você, não acabou?
— Acabou, Babi. Só preciso fechar o prontuário. Tô só o pó, precisava de mil anos de sono — respondi, sentindo o cansaço bater.
— Ótimo. Porque hoje você dorme na minha casa. E amanhã... amanhã o filho chora e a mãe não vê. Amanhã a gente vai viver de verdade.
— O quê? Dormir fora? Bárbara, se a Sofia entra no meu quarto e não me encontra, ela aciona a Interpol e o BOPE — falei, dando um gole naquele café amargo.
Babi revirou os olhos, aquela risadinha de quem já tinha articulado o crime perfeito na mente dela.
— Relaxa, morena! Tu manda aquela mensagem padrão dizendo que o pós-operatório do Sr. Jorge complicou e que tu vai dobrar o plantão pra monitorar o paciente. A Sofia vai adorar dizer pras amigas que a filha é uma "médica incansável". Tu dorme lá em casa, a gente descansa a beleza e amanhã... O bagulho vai ficar doido, Maitê! Amanhã tem baile no morro do Alemão!
Senti um frio na barriga que quase me fez vomitar o café. Bárbara quando ficava com esse brilho era sinal de adrenalina pesada.
— Tu ficou maluca? A gente é médica, Bárbara! Meus pais são os advogados mais influentes do Rio. Se eu piso num baile funk no Alemão e alguém me reconhece, minha carreira morre antes do diploma. Tem fuzil, tem guerra, tem polícia...
— Maitê, olha pra mim! — Ela segurou minhas mãos com força. — Tu acabou de salvar um cara abrindo a cabeça dele. Tu vive sob a bota de uma mulher que te trata como um móvel de luxo. Tu tá morrendo por dentro, morena! Tu precisa de um choque de realidade. O Bruno, o BR, me garantiu: ninguém encosta na gente. É a chance de tu ver o mundo sem esse filtro de cristal da Barra. O dono do morro, o tal do VK, é um ogro, marrento pra c*****o, mas o camarote dele é o lugar mais seguro do Rio. Ele não admite erro no baile dele.
Fiquei em silêncio por um longo tempo. O som das máquinas do hospital, o cheiro de álcool, as palavras cortantes da Sofia na mesa do café... Tudo aquilo parecia me esmagar num moedor de carne. Eu amava a medicina, mas eu sentia que se eu não fizesse algo louco, algo que não estivesse no roteiro, eu ia acabar virando um robô de jaleco.
— Camarote do dono? — perguntei, a curiosidade vencendo o medo e o bom senso.
— O próprio, morena. O BR disse que o VK é o cara. A gente vai chegar, dançar, beber uísque do bom, ver o sol nascer lá do alto do complexo e voltar pra nossa farsa com a alma lavada. E aí, vai amarelar ou vai ser a morena que eu sei que tu é por baixo desse jaleco de santa?
Respirei fundo. Era loucura total. Era o fim de tudo se desse errado. Mas a ideia de ver a cara da Sofia se ela descobrisse... Ou melhor, a ideia de fazer algo que ela nunca teria coragem de fazer, me deu um t***o de vida que eu não sentia há anos.
— Tá bom. Eu vou — falei, e senti como se tivesse assinado um pacto com o d***o. — Mas eu vou dormir na tua casa hoje. Vou inventar a farsa do plantão dobrado e amanhã a gente faz essa loucura. Mas se eu ver um fuzil apontado pro meu lado, eu saio correndo e tu que se vire!
— É assim que se fala, doutora! — Babi deu um pulo da cadeira. — Vai lá evoluir o teu paciente que eu vou preparar nossos looks. Amanhã o Complexo vai ficar pequeno pra esse bonde das morenas!
Mandei a mensagem pro meu pai. "Pai, o caso do Sr. Jorge complicou. Vou ficar aqui acompanhando a recuperação dele essa noite. Dormirei no alojamento do hospital. Avise a mãe."
A resposta veio dez minutos depois, fria e direta como um despacho judicial: "Cumpra sua obrigação. Daniel."
Sorri de lado, uma lágrima de ódio escapando. Eles não perdiam por esperar. Fui pro apartamento da Babi em Botafogo. O clima lá era outro: música alta, pizza gelada e o planejamento da nossa "invasão".
— Maitê, tu vai com aquele body preto que te dei — Babi dizia, revirando o armário. — Aquela peça que deixa tuas costas nuas, bem provocante. Vamos mostrar pro morro que a Zona Sul sabe ser perigosa e que a gente não tá pra brincadeira.
Deitei na cama dela sentindo o cansaço do dia, mas a adrenalina já tava fazendo o sono sumir. Eu, a morena da mansão, a futura neurocirurgiã, estava prestes a subir a ladeira do crime. E quer saber? Eu nunca me senti tão pronta para um diagnóstico de caos.