NARRAÇÃO: MAITÊ O despertador não tocou, ou talvez eu tenha simplesmente ignorado o som por estar imersa num sono pesado e doentio, daqueles que a gente usa como anestesia geral para fugir da realidade que despedaça a alma. Acordei com o sol agressivo da Barra da Tijuca atravessando as frestas da cortina de linho importado, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar estéril do meu quarto, como se estivessem zombando da minha desgraça. No primeiro segundo, o vazio absoluto. No segundo seguinte, a dor física me atingiu como um soco. Meu rosto latejava numa pulsação rítmica e quente. Corri para o banheiro, tropeçando nos meus próprios pés, e encarei o espelho de cristal. A marca dos dedos da Sofia estava lá, um carimbo de ódio em tons de roxo amarelado que nem a base mais cara da

