O MÁRMORE TRAVERTINO E O SANGUE FRIO
NARRADO POR: MAITÊ
O despertar na mansão da Barra nunca é suave. Não existe o som de pássaros ou o cheiro de café fresco flutuando pelo ar de forma acolhedora. O que existe é o zumbido constante do ar-condicionado central, um frio artificial que tenta manter as aparências de uma vida que, por dentro, já está em estado de putrefação. Acordei com a cabeça latejando, um resquício de uma noite de sono interrompida por sonhos onde eu operava corações que se transformavam em pedras de gelo nas minhas mãos.
Levantei da cama de dossel, os pés tocando o tapete persa que custava mais do que a maioria dos carros populares. Olhei meu reflexo no espelho do closet e vi a "Doutora Maitê" que a Sofia tanto polia: cabelos alinhados, pele cuidada, mas os olhos... os olhos entregavam que a alma estava pedindo socorro. Vesti uma seda leve e desci as escadas, sentindo o silêncio daquela casa como se fosse um peso físico sobre meus ombros.
Quando cheguei à sala de jantar, o cenário era o de sempre: uma mesa posta para um banquete, mas com cadeiras que pareciam tronos isolados. Sofia estava de pé, ajustando o relógio de ouro no pulso, a postura tão reta que parecia prestes a quebrar. Meu pai, Daniel, estava imerso em um tablet, provavelmente revisando algum recurso de última hora.
Respirei fundo, sentindo o estômago embrulhar. Eu precisava de uma conexão. Precisava de um vestígio de humanidade.
— Mãe? — chamei, minha voz saindo mais baixa do que eu pretendia.
Sofia virou o rosto lentamente. Não havia brilho nos olhos dela, apenas uma avaliação clínica, como se ela estivesse procurando um erro na minha vestimenta ou na minha postura.
— Finalmente acordou, Maitê. Achei que a disciplina que tanto prezamos tivesse se perdido em algum lugar entre o seu quarto e o hospital — ela disse, a voz cortante como uma lâmina recém-afiada.
— Eu estava estudando até tarde, mãe. Eu queria te mostrar uma coisa... — comecei, sentindo o coração acelerar. — Eu recebi o convite para auxiliar na cirurgia do Dr. Arnaldo hoje. É uma craniotomia complexa. É uma oportunidade única para o meu currículo e...
Eu parei de falar quando ela levantou a mão, um gesto de silêncio que me calou instantaneamente. Ela caminhou até mim, o perfume de lavanda e poder me sufocando.
— Currículo? — Ela deu um riso seco, desprovido de qualquer humor. — Maitê, você fala de currículo como se fosse uma estudante qualquer buscando validação. Você é uma extensão do meu nome. O que você faz não é mérito, é obrigação. Se o Dr. Arnaldo te convidou, é porque ele sabe quem é o seu pai e quem sou eu. Não se iluda achando que o seu talento medíocre é o que te coloca naquela sala de cirurgia.
— Sofia, por favor... — Daniel tentou intervir, mas sem tirar os olhos da tela. Um protesto fraco, covarde.
— Por favor o quê, Daniel? — Ela se voltou para ele com um olhar de desprezo que faria qualquer homem se sentir minúsculo. — Você prefere que ela continue vivendo nessa fantasia de que o mundo é um lugar meritocrático? Ela precisa entender que a perfeição exige sacrifícios, e o primeiro sacrifício é o seu ego inflamado.
Ela voltou a me encarar, aproximando o rosto do meu. Eu conseguia ver cada poro daquela pele impecável, cada rastro da frieza que ela chamava de amor materno.
— Sente-se, tome seu café em silêncio e vá para o hospital. E trate de não cometer erros. Um erro seu não é apenas um erro médico, é uma mancha na minha reputação. E eu não tolero manchas, Maitê. Você sabe muito bem o que acontece com as coisas que não servem mais para a minha fachada.
Ela pegou a bolsa de grife sobre a mesa e saiu, o som dos seus saltos estalando contra o mármore travertino como tiros de advertência. Eu fiquei ali, parada, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos, mas me proibindo de chorar. Naquela mesa, o afeto era condicionado, e o meu valor era medido pelo quanto eu conseguia ser uma boneca de porcelana inquebrável.
Olhei para o meu pai, que agora tomava um gole de café, indiferente ao meu desmoronamento interno. O silêncio dele era o que mais doía. Era a prova de que eu estava sozinha naquela mansão maldita.
— Você não vai dizer nada? — perguntei, a voz embargada.
— Sua mãe só quer o seu bem, Maitê. Ela é... intensa — ele respondeu, sem me olhar. — Coma alguma coisa. Você tem um longo dia pela frente.
As lágrimas que eu tanto tentei segurar finalmente transbordaram, quentes e ácidas, manchando a maquiagem leve que eu usava para esconder as olheiras de estudo. Eu não era uma mulher de 25 anos ali; eu era aquela menina de cinco anos que esperava na porta com um desenho na mão e recebia apenas o silêncio como resposta. O choro veio de dentro, um soluço engasgado que fez meus ombros tremerem violentamente.
— Intensiva, pai? É esse o nome que você dá para a crueldade? — Minha voz saiu rasgada, aguda, preenchendo o vazio daquela sala de jantar que mais parecia um mausoléu. — Olha para mim! Eu sou sua filha, não sou um dos seus processos ou uma das suas propriedades. Como você pode deixar ela falar assim comigo? Como você pode ser tão conivente com essa tortura?
Daniel finalmente largou o tablet, mas não para me abraçar. Ele me olhou com uma mistura de cansaço e irritação, como se o meu sofrimento fosse um barulho incômodo que atrapalhava o seu raciocínio jurídico.
— Maitê, por favor, não comece com esse drama logo cedo. Você sabe como a Sofia é, ela tem grandes expectativas para você...
— Expectativas?! — Eu gritei, batendo a mão na mesa, fazendo as xícaras de porcelana tilintarem. — Ela me odeia, pai! Ela olha para mim e vê um erro, uma falha na decoração! E você... você é pior. Porque você me ignora. Você me apaga. Quando foi a última vez que você passou um final de semana comigo? Quando foi a última vez que você perguntou o que eu sinto, e não como foram as minhas notas? Eu fiz tudo! Eu segui cada linha reta que vocês traçaram, eu nunca dei trabalho, eu nunca disse não! E o que eu recebo em troca é esse gelo, essa indiferença que me mata um pouco mais a cada dia!
Eu estava ofegante, o rosto vermelho, as mãos agarradas à borda da mesa com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos. Eu queria que ele sentisse a minha dor, queria que ele levantasse e me dissesse que eu era amada, que ele estava ali por mim.
Daniel abriu a boca, os olhos suavizando por um mísero segundo. Ele deu um passo em minha direção, a mão se estendendo como se fosse tocar meu ombro.
— Filha, escute, as coisas não são tão simples... eu...
Nesse exato momento, o toque estridente do iPhone dele cortou o ar, estraçalhando a única chance de conexão que tivemos em anos. O nome de um sócio importante brilhava na tela. Daniel parou no meio do caminho, o instinto de advogado falando mais alto que o de pai. Ele olhou para o aparelho, depois para mim, com uma expressão de "não tenho escolha".
— Eu preciso atender, Maitê. É sobre o caso da fusão das holdings. A gente conversa mais tarde, ok? Toma o seu café e vá para o hospital, não se atrase para o Dr. Arnaldo.
Ele já estava atendendo a ligação enquanto se afastava em direção ao escritório, a voz mudando instantaneamente para aquele tom polido, profissional e vazio.
— Tá vendo? — Eu gritei para as costas dele, embora soubesse que ele já não estava mais me ouvindo. — Olha aí! O trabalho em primeiro lugar, sempre! A farsa antes da vida! Vocês são dois monstros de terno e gravata!
Eu desabei na cadeira, escondendo o rosto nas mãos. O silêncio voltou a reinar na mansão, mas agora ele era mais pesado. Eu sentia um ódio visceral crescendo no meu peito, um desejo de quebrar cada prato, cada espelho, cada mentira daquela casa. Eu era a "Doutora Maitê", mas por dentro, eu era apenas estilhaços.
O toque do celular em cima da mesa de mármore soou como um trovão naquele silêncio sepulcral. Eu ainda estava com o rosto escondido nas mãos, sentindo as lágrimas ensoparem meus dedos, quando vi o nome de Bárbara brilhar na tela. Respirei fundo, tentando forçar o ar para dentro dos pulmões que pareciam ter esquecido como funcionar.
Limpei o rosto bruscamente com as costas das mãos, borrando o que restava do rímel, e atendi. Eu precisava de uma voz que não soasse como um veredito judicial.
[Ligação On]
— "Maitê? Cadê você, criatura? Já estou aqui na porta da faculdade te esperando e nada da sua BM dar as caras. O Dr. Arnaldo já passou por aqui com aquela cara de quem vai dar um ferrolho em quem chegar atrasado na cirurgia hoje. Brota logo!" — A voz da Bárbara era elétrica, vibrante, o oposto exato da morte que eu sentia por dentro.
— "Eu já estou saindo, Babi..." — Minha voz saiu embargada, falha, e o silêncio do outro lado da linha foi imediato. A Bárbara me conhecia melhor do que eu mesma; ela captou o peso do meu tom no primeiro segundo.
— "Maitê, o que aconteceu? Foi a Sofia de novo, não foi? Aquela mulher não cansa de ser um iceberg não? O que ela fez dessa vez?"
— "O de sempre, Bárbara. Eu não sou ninguém, eu sou um projeto, eu sou uma extensão do sobrenome deles... E o meu pai... ele simplesmente virou as costas e atendeu o telefone no meio do meu desespero. Eu não aguento mais, Babi. Eu sinto que se eu entrar naquele hospital hoje e pegar um bisturi, eu vou acabar cortando a minha própria garganta de tanto sufocamento."
— "Ei, para com isso! Escuta aqui, faz o seguinte: limpa esse rosto, coloca o seu melhor óculos de sol e vem pra cá. Cumpre essa agenda maldita, faz a cirurgia, mostra praquele bando de robô quem é a melhor. E hoje à noite... ah, hoje à noite eu vou te tirar desse mausoléu que você chama de casa. A gente vai pro Lado Oposto, Maitê. Esquece o asfalto por umas horas."
[Ligação Off]
Desliguei o celular e fiquei olhando para o vazio da sala. "O Lado Oposto". As palavras da Bárbara ecoavam na minha mente como uma promessa de libertação. Eu olhei para o escritório onde o meu pai ainda falava sobre cifras e ações, e uma coragem amarga começou a substituir a tristeza.
Peguei minha mochila e a chave do carro. Eu não ia mais chorar por quem não tinha lágrimas por mim. Atravessei o hall de entrada, ignorando o reflexo da "boneca perfeita" nos espelhos dourados. O barulho do salto alto contra o mármore agora não era um tiro de advertência da Sofia, era o meu próprio passo de despedida daquela farsa.
Entrei na BM, joguei a mochila no banco do carona e soquei o volante uma, duas, três vezes, soltando um grito que estava entalado há anos.