Recomeço á Mesa

4980 Words
Dessa vez, a Liz ficou realmente brava comigo. Não foi aquela arrelhadinha boba de quando eu esqueço a toalha molhada em cima da cama ou quando eu acabo com o achocolatado dela. Foi uma raiva fria, profunda, daquelas que fazem o ar do apartamento ficar pesado, difícil de respirar. E, sinceramente? Eu não posso nem culpá-la por estar se sentindo assim. Olha a burrada monumental que fiz... Eu tive a capacidade de colocar para dentro da nossa casa, do nosso refúgio sagrado, uma garota que me magoou no passado, que me machucou para valer e que a Eliza odeia com todas as forças da sua alma ruiva. Doeu ver a Marina ali. Doeu muito mais do que imaginei que doeria. Mas ver a decepção nos olhos da Eliza... Isso, sim, acabou comigo. Por outro lado, eu entendo a reação da minha ruivinha. Completamente. Se fosse o contrário, se ela trouxesse o Anthony para cá após saber o quanto eu o detesto, eu provavelmente já teria colocado fogo no conversível dele. sei que cruzei uma linha invisível, mas muito real, do nosso respeito mútuo. O silêncio que se instalou no apartamento depois que a porta bateu atrás da Marina é ensurdecedor. sei, com uma certeza dolorosa, que tão cedo a ruiva não vai querer falar comigo... Ela vai se trancar no castelo de gelo dela e eu vou ter que ralar muito para conseguir um indulto. Mas também, né, Joice? Olha a besteira colossal que você fez.fico me xingando mentalmente enquanto ando de um lado para o outro na sala arrumada. A culpa é um peso físico nos meus ombros. Tomo coragem e vou até a porta do quarto dela. Está fechada, como eu previa. Respiro fundo, sentindo o meu coração bater na garganta. Dou uma leve batida com os nós dos dedos... nada. Nenhuma resposta, nem um suspiro. Hesito por um segundo, a mão na maçaneta fria... e decido entrar.preciso ver como ela está. O quarto está imerso em uma penumbra acolhedora, mas vazio. Olho ao redor, confusa, até que escuto o som abafado do chuveiro vindo do banheiro suíte. Ela deve estar tentando lavar a raiva e a visão da Marina da mente. Me aproximo da porta do banheiro e bato de leve, com a voz o mais mansa que consigo: — Liz...? Lá de dentro, a resposta vem imediata, um grito carregado de mágoa e irritação: — Vai embora, Joice! Não quero falar com você agora! Me deixe sozinha! Saio do quarto dela com o peso do mundo no peito. A rejeição dói, mas eu sei que mereci. Volto para a sala e olho ao redor. Eu não posso ficar parada curtindo essa fossa. Eu tenho que fazer alguma coisa, qualquer coisa, para me redimir do que fiz.preciso provar para ela que ela é a minha prioridade, não uma conquista barata de balada. Já sei! Vou aproveitar que ela provavelmente não vai sair do quarto tão cedo — eu conheço a minha ruiva, sempre que ela fica irritada assim, o mecanismo de defesa dela é me evitar até que a poeira baixe. Eu tenho tempo. Vou arrumar esse apartamento que, para ser sincera, está uma bagunça que nem eu sei como conseguimos acumular. Vou deixar tudo brilhando, do jeitinho meticuloso que ela gosta. E, para completar o plano de redenção, vou aproveitar para ir ao mercado fazer as compras da semana. Eu sei que a lista já está cheia. Vou até a caixinha de som na sala e coloco aquela playlist que ela adora — a nossa playlist de "dias tranquilos". Mesmo que hoje talvez ela nem queira ouvir a minha voz, quem sabe a música de fundo acalme um pouco a energia pesada e negativa que está pairando no ar. Começo a faxina pela sala com uma determinação quase militar: tiro os copos vazios de café e água das mesinhas de centro, recolho as almofadas que estavam jogadas no chão depois da nossa maratona de séries, passo um pano perfumado com cheiro de lavanda nos móveis de madeira. Vou até a estante e coloco os livros dela em ordem, exatamente como ela gosta e insiste que seja — organizados por cor, do tom mais escuro ao mais claro, criando um degradê perfeito. Eu costumo zoar ela por isso, dizendo que é TOC, mas hoje eu faço com o maior carinho do mundo. Na cozinha, a situação é pior. Lavo a louça acumulada do jantar de ontem e do café da manhã caótico de hoje, enxugo cada prato e copo com cuidado, guardo tudo nos seus devidos lugares. Limpo o fogão até ele brilhar, troco o pano de prato e o pano da pia por outros limpinhos e brancos. Para dar um toque final de vida, pego um vasinho de vidro pequeno e coloco algumas margaridas que eu tinha comprado outro dia e deixo do lado da fruteira — são as flores preferidas dela, simples e lindas, como ela. Depois que o apartamento está apresentável, pego a lista de compras que ela sempre deixa presa na porta da geladeira com um ímã de gatinho gordo. Visto uma jaqueta e vou até o mercado aqui perto. Enquanto caminho pelos corredores cheios, com a lista em mãos, a minha mente não para de trabalhar. Fico lembrando dos nossos momentos bons, das risadas escandalosas na cozinha, das conversas profundas que iam até tarde da madrugada, do jeito doce e intenso que ela me olhava quando estava genuinamente feliz… Suspiro fundo, chamando a atenção de uma senhora que escolhia tomates ao meu lado. Eu estraguei tudo. Eu fui uma i****a. Mas eu vou fazer o que for preciso para consertar. Eu não posso perder a Eliza. Enquanto caminho distraída pelo corredor de massas do mercado, meus olhos batem em uma prateleira cheia de pacotes de espaguete e talharim. Foi ali que a ideia genial explodiu na minha cabeça. — Já sei… o meu macarrão maluco. Aquele prato que não tem receita fixa, que eu invento na hora com o que tem na geladeira, mas que ela sempre pede quando está triste, carente ou precisando de um abraço em forma de comida. Quando está feliz também, na real. Ela inventa qualquer desculpa esfarrapada só para me fazer cozinhar esse prato. Um sorriso bobo e nostálgico escapa no canto dos meus lábios, e eu já consigo imaginar a cara dela, a expressão de surpresa misturada com desejo, ao sentir o cheiro desse molho invadindo o apartamento. Começo a pegar os ingredientes com uma urgência renovada: creme de leite fresco, milho-verde, ervilha, uma calabresa defumada de boa qualidade, queijo muçarela para derreter… e, claro, o toque secreto que eu guardo a sete chaves e que ela jura que é páprica defumada, mas nunca conseguiu descobrir de verdade. No setor de padaria e bolos, não hesito nem por um segundo — vou preparar o bolo formigueiro colorido que ela ama. Não é o de chocolate, é aquele bolo simples, branco, cheio de granulado colorido por dentro, que fica parecendo uma festa. E claro, vou cobrir com aquela calda de chocolate bem grossa e brilhante por cima. Eu amo o jeito que ela sempre lambe os dedos no final, com uma expressão de satisfação inocente, como uma criança que acabou de ganhar um doce. E, para selar a paz, o vinho. Mas não um vinho qualquer. Vou levar aquele rosê suave e frutado que ela adora. Ela tem um apelido carinhoso para ele: chama de “vinho de abraço”, porque segundo a teoria dela, ele não esquenta só o corpo, ele esquenta o peito e o coração, desarmando qualquer defesa. Termino as compras e pago com um sentimento completamente diferente do que eu tinha quando saí de casa. Não é mais só sobre limpar o apartamento para evitar uma bronca ou preparar uma comida para não passarmos fome. É sobre tentar consertar o que quebrei. É sobre mostrar para ela, com gestos e sabores, já que as palavras me faltaram na cozinha, que eu me importo. Eu me importo muito. E que sim, eu errei feio. Eu fui egoísta e insensível. Mas estou disposta a fazer qualquer coisa para me redimir. Chego em casa e o apartamento continua imerso naquele silêncio tenso. Vou direto para a cozinha guardar as compras, organizando tudo nos lugares certos, nas prateleiras e gavetas corretas, do jeitinho meticuloso que a Liz gosta e que eu costumo bagunçar. Só deixo de lado, em cima da bancada de mármore, os ingredientes do jantar e do bolo, porque agora é a hora da verdade: colocar em prática o meu plano de redenção culinária. Antes de começar a sujar as panelas, sento à mesa por um momento para organizar as ideias. Pego um dos bloquinhos fofos que ela mesma comprou — aquele rosa em formato de coração que ela usa para deixar recados fofos. Peguei minha caneta azul e escrevi com cuidado, caprichando na letra para ficar legível e séria, mas carinhosa: *"Te espero na cozinha às 19h. Sem perguntas, sem cobranças. Só vem, por favor. Com carinho, Joice"* Dobrei o bilhete em quatro, com delicadeza, e fui até a porta do quarto dela. Respirei fundo, sentindo o ar faltar nos pulmões, e com o coração acelerado batendo contra as costelas, deslizei o papel rosa por baixo da porta de madeira branca. Em seguida, dei duas batidinhas leves, quase imperceptíveis, como um pedido silencioso de “por favor, me dê uma chance”. Depois disso, sem esperar por uma resposta que eu sabia que não viria, fui direto para a cozinha. O relógio corria contra mim; eu tinha pouco tempo, e queria que tudo estivesse impecável quando ela chegasse. Se ela chegasse. Então comecei o preparo do bolo formigueiro colorido com a calda de chocolate. Misturei a manteiga, o açúcar e os ovos com cuidado, batendo à mão para ficar bem fofinho. Adicionei a farinha, o leite e, por fim, uma chuva de granulado colorido, misturando devagar para não manchar a massa. Coloquei na forma untada e levei ao forno pré-aquecido. Tentei caprichar em cada detalhe, em cada medida, para que ficasse perfeito — do jeitinho que ela gosta. Em poucos minutos, o cheirinho doce, quente e reconfortante de bolo assando começou a preencher a cozinha, e eu senti uma pontada de esperança. Se o cheiro não a trouxesse, nada mais traria. Logo em seguida, enquanto o bolo assava, iniciei o ritual de preparo do meu famoso macarrão maluco. Cozinhei o macarrão (espaguete, o preferido dela para esse prato) até ficar al dente, firme na medida certa. Enquanto isso, em uma panela separada e grande, refoguei a calabresa em cubinhos até ficar bem crocante. Adicionei o milho, a ervilha, o creme de leite fresco e, claro, o meu toque secreto. Deixei o molho apurar, ficando cremoso e dourado pela calabresa. Quando o macarrão ficou pronto, juntei-o ao molho e, para finalizar com chave de ouro, adicionei cubinhos generosos de queijo muçarela que começaram a derreter lentamente, criando fios irresistíveis a cada mexida. Cada passo, cada ingrediente adicionado, era uma pequena demonstração silenciosa de carinho, um pedido de desculpas comestível. Eu torcia com todas as minhas forças para que aquele jantar fosse o começo, mesmo que tímido, da nossa reconciliação. Coloquei o macarrão maluco em uma travessa de cerâmica bonita, espalhei com cuidado para ficar bem apresentável. Peguei mais um pouco de queijo muçarela ralado e salpiquei por cima, generosamente — porque eu sabia que ela adorava quando ficava bem gratinado, com aquela casquinha dourada e crocante. Em seguida, coloquei a travessa no forno, que já estava quente do bolo, ajustando a temperatura apenas para dar aquela gratinada perfeita no queijo. O cheiro salgado, defumado e queijudo do macarrão começou a se misturar ao aroma doce e reconfortante do bolo formigueiro, criando uma combinação de cheiros acolhedores e viciantes que preenchia todo o apartamento. Dei uma última olhada ao redor da cozinha para garantir que não havia bagunça. Ajeitei a mesa de jantar com todo o carinho do mundo: coloquei uma toalha limpa, dois pratos de cerâmica que ela gosta, taças de cristal para o vinho e guardanapos de tecido dobrados com capricho. Deixei a garrafa do vinho rosê separada no balde de gelo, esperando apenas o momento certo para ser aberta. Agora... agora era só torcer para que ela viesse. O medo da rejeição era real e paralisante. Depois que organizei tudo na cozinha e deixei o ambiente com aquele clima aconchegante, quente e cheiroso que eu sabia que ela não conseguia resistir, olhei para o meu reflexo no espelho grande da sala e soltei um suspiro pesado de desaprovação. Eu estava um desastre completo: toda bagunçada da faxina e da cozinha, com o cabelo loiro preso de qualquer jeito num coque frouxo, vestindo uma camiseta velha e uma calça de moletom que nem combinavam. — Aff... — resmunguei comigo mesma, com nojo da minha aparência. — Se eu quero me redimir de verdade, se eu quero provar que ela é importante, eu tenho que começar por mim. Eu não posso receber a princesa ruiva estando parecendo uma mendiga. Fui direto para o banheiro do meu quarto. Tomei um banho rápido, mas o suficiente para lavar o cansaço do dia e me sentir renovada. A água quente escorrendo pelas minhas costas me ajudou a respirar fundo, a colocar as ideias no lugar e a me concentrar no que era importante. Eu precisava mesmo me redimir e mostrar para a Liz que eu me importo de verdade com ela, com o que ela sente, com o nosso lar. Saí do chuveiro, enrolei a toalha macia no corpo e fui até o armário escolher algo decente para vestir. Eu não queria nada chamativo demais, nada que parecesse que eu estava indo para a balada (Deus me livre de balada hoje!), mas sim algo que mostrasse que eu me esforcei para ficar bonita para ela. Escolhi minhas roupas íntimas — um conjunto de renda preta que me faz sentir confiante —, e por cima vesti uma camiseta preta básica, de tecido macio, com um decote em V discreto, e uma calça jeans escura com leves rasgos nos joelhos, confortável, mas estilosa. Nos pés, calcei meus tênis favoritos, os mais confortáveis. Borrifei um pouco do meu perfume amadeirado, aquele aroma de sândalo e tabaco que ela sempre diz que combina perfeitamente comigo e que ela adora cheirar no meu pescoço, e dei uma ajeitada rápida no cabelo loiro curto, deixando ele bem bagunçado, com textura — do jeitinho rebelde que eu gosto e que ela também curte. Voltei para a cozinha. Faltavam apenas dez minutos para as 19h. O meu coração começou a bater numa velocidade assustadora, parecendo um tambor dentro do meu peito. A ansiedade era tanta que eu sentia as minhas mãos ficarem geladas. Fiquei andando de um lado para o outro na cozinha, sem conseguir parar quieta. Ajeitei os talheres na mesa pela décima vez, verifiquei se a vela no centro da mesa (sim, eu acendi uma vela, por que não?) estava reta, chequei o forno para garantir que o queijo do macarrão estava gratinando sem queimar, dei uma olhada no relógio a cada trinta segundos. O tempo parecia ter congelado e acelerado ao mesmo tempo. O bolo já estava pronto, lindo, com a calda de chocolate brilhando por cima e o granulado colorido aparecendo nas bordas, do jeitinho que ela gosta. O macarrão maluco no forno já exalava aquele cheiro que dava vontade de esquecer qualquer mágoa, qualquer briga. A mesa estava posta com uma simplicidade carinhosa, cheia de intenções não ditas. Tudo que eu conseguia pensar, como um mantra desesperado, era: Por favor, Liz… aparece. Só me escuta. Por favor. POV Eliza Martinez Eu estou aqui, trancada no meu quarto, deitada na minha cama que parece grande demais agora, tentando entender o turbilhão confuso e doloroso de sentimentos que eu tenho pela Joice. O meu peito ainda sobe e desce com força, e se eu fechar os olhos, ainda consigo ver o rosto cínico da Marina na nossa cozinha. Sinto uma mistura de nojo, raiva e uma tristeza profunda que eu não consigo explicar. Quando ela veio até o meu quarto, enquanto eu estava no banho, batendo na porta com aquela voz mansa, eu preferi mandá-la embora de forma ríspida. Não foi apenas por raiva, ou por estar irritada com a burrada que ela fez — foi, acima de tudo, por vergonha. Vergonha dos pensamentos confusos, impuros e intensos que me invadiram naquela hora na banheira. Eu não podia olhar para ela naquele momento sem desmoronar. Depois do banho, vesti o meu roupão macio, me joguei na cama, afundando o rosto no travesseiro que ainda tinha um rastro do perfume dela da noite anterior, e, antes que eu percebesse, acabei adormecendo, exausta de tanto chorar e pensar. Passei um tempo dormindo, um sono agitado e cheio de sonhos desconexos. Quando despertei, um silêncio estranho, pesado e não habitual tomou conta do apartamento. Era diferente do barulho reconfortante da Joice andando, cantando ou da TV ligada em algum canal de esportes. Era um silêncio de casa vazia. Levantei da cama com cuidado, curiosa e um pouco preocupada, e saí do quarto pé ante pé. Fui para a sala e fiquei paralisada na porta, genuinamente impressionada com o que vi: tudo estava impecavelmente arrumado, os móveis espanados, as almofadas do sofá alinhadas, os meus livros organizados na estante (do jeito que eu gosto, por cor!). Havia um cheiro gostoso de limpeza e lavanda que preenchia o ar, substituindo o cheiro pesado de tensão de mais cedo. Segui para a cozinha, onde também encontrei tudo organizado, a bancada limpa, a louça guardada. Um aroma delicioso, salgado e reconfortante pairava no ambiente, misturado com um cheiro doce de bolo assando. O meu estômago roncou, traindo-me. Abri a geladeira para tomar um pouco de água fria e notei, com um sobressalto, que a lista de compras que eu tinha feito e deixado presa na porta com o ímã de gatinho não estava mais ali. Foi aí que a ficha caiu. Joice realmente estava tentando se redimir. Ela não tinha apenas pedido desculpas da boca para fora; ela tinha colocado a mão na massa, faxinado o apartamento, ido ao mercado. Ela estava tentando consertar as coisas do jeito dela. E talvez ..., talvez eu também devesse tentar abrir o meu coração para ela, ouvir o que ela tem a dizer, dar uma chance para o "nós". Bebi a água, peguei uma maçã bem vermelha da fruteira e voltei para o conforto do meu quarto. Fechei a porta com calma, tentando organizar meus pensamentos bagunçados enquanto mordia a fruta com força. Eu ainda sentia aquele misto de surpresa e dúvida cínica — será que a Joice realmente queria consertar as coisas de verdade? Será que ela entendia a gravidade do que fez? Ou era só mais uma daquelas tentativas efêmeras de redenção que logo se perdiam no tempo, até a próxima burrada? Deitei na cama, tentando acalmar o coração acelerado que batia forte contra as costelas. O medo de me machucar de novo era enorme. Passaram-se alguns minutos em silêncio quando ouvi duas leves, quase imperceptíveis batidas na porta de madeira do meu quarto. Eu soube na hora que era ela. O meu corpo inteiro tensionou. Me sentei na cama, o olhar distraído fixo na porta, esperando que ela entrasse, mas nada aconteceu. Foi então que percebi algo no chão, próximo à fresta da porta. Um pequeno pedaço de papel rosa, delicadamente dobrado. Com as mãos trêmulas, peguei o bilhete e o desdobrei devagar, sentindo o meu coração na boca. No papel com formato de coração, escrito com aquela letra que eu tanto conhecia — meio bagunçada, mas que hoje parecia ter sido feita com capricho — estava escrito: *“Te espero na cozinha às 19h. Sem perguntas, sem cobranças. Só vem, por favor. Com carinho, Joice”* O meu peito apertou com uma força dolorosa. O medo da rejeição e a esperança de um recomeço se misturaram num nó na minha garganta. Será que eu realmente estava pronta para isso? Será que eu conseguiria olhar para ela sem lembrar da Marina? Fiquei ali por alguns minutos, o bilhete rosa ainda apertado nas minhas mãos, tentando decidir o que fazer. Meu coração batia acelerado, dividido entre o medo de que a Joice não sentisse o mesmo que eu, de que tudo isso fosse apenas amizade para ela... e a esperança desesperada de que, talvez, só talvez, ela sentisse algo mais. Foi quando um aroma delicioso, inconfundível e extremamente acolhedor invadiu o quarto, passando por debaixo da porta. Era o cheiro do macarrão maluco dela. Aquele molho cremoso, a calabresa refogada, o queijo derretido... Não podia ser… Ela realmente estava fazendo o meu prato favorito do mundo inteiro? Justo hoje? Um sorriso tímido, quase involuntário, escapou no canto dos meus lábios, e naquele instante, por mais confusa e assustada que eu estivesse com os meus próprios sentimentos, eu soube que precisava tentar. Eu não podia ignorar aquele gesto. Levantei da cama com uma determinação nova, e fui direto para o banheiro. Eu queria um banho, não para me limpar, mas para clarear os pensamentos, tirar a zica do dia e, acima de tudo, para ficar cheirosa para ela. Entrei no box e deixei a água quente escorrer pelo corpo, sentindo o calor relaxar cada músculo tenso. Fechei os olhos com força, tentando afastar os pensamentos confusos que insistiam em voltar — a imagem da Marina, o ciúme possessivo, o medo do futuro, a esperança de um beijo — tudo misturado num turbilhão dentro do peito. O cheiro do sabonete de erva-doce, o mesmo que ela gostava de usar, trouxe uma sensação estranha de conforto e uma saudade doída. Lavei os cabelos ruivos com calma, deixando o shampoo escorrer enquanto imaginava como seria aquele encontro na cozinha. Será que tudo daria certo? Será que conseguiríamos conversar sem brigar? Será que eu conseguiria superar o que aconteceu? Saí do banho, enrolei a toalha fofa no corpo e me encarei no espelho embaçado. Por um instante, me perdi naquele olhar castanho cansado, mas resoluto. Respirei fundo, ajeitei os cabelos ruivos ainda molhados e decidi que, por mais difícil e assustador que fosse, eu precisava tentar. Nós merecemos essa chance. Passei o hidratante de frutas vermelhas, espalhando suavemente pela pele ainda quente do banho. O aroma doce, reconfortante e refrescante me envolvia, trazendo uma calma inesperada e uma sensação de limpeza. Cada gesto parecia um convite silencioso para deixar as mágoas para trás e abrir espaço para algo novo — ou, pelo menos, para uma chance sincera de recomeço. Senti a pele macia sob as minhas mãos e sorri sozinha para o espelho, como se aquele simples ritual pudesse, de alguma forma, preparar o meu coração para o que seguiria. Fui para o armário escolher o que vestir. Eu queria algo que me fizesse sentir bonita e confiante, mas não exagerado. Escolhi uma calcinha de renda vermelha, daquelas que eu guardo para ocasiões especiais e que me fazem sentir poderosa. Vesti-a com calma. Optei por um vestido preto de alças finas, de tecido leve e fluido. O decote valorizava meus s***s fartos de um jeito discreto, justo na cintura, marcando as minhas curvas, e com o comprimento pouco acima dos joelhos — sensual na medida certa, sem ser vulgar. Nos pés, calcei a minha sapatilha preta preferida, confortável e delicada. Arrumei meus cabelos ruivos ondulados, deixando-os soltos para secarem naturalmente, com aquela bagunça natural e volumosa que eu sabia que ela secretamente adorava. Passei um batom vermelho intenso para destacar os lábios e, por fim, borrifei um pouco do meu perfume floral frutado, aquele que ela sempre elogia. Olhei o meu reflexo final no espelho e me inspirei no fundo. Por fora, eu estava pronta, linda e confiante. Por dentro, o meu coração ainda pulsava numa mistura ensurdecedor de nervosismo, medo e um desejo avassalador. POV Joice Vianna Será que a minha ruivinha vai aparecer? Será que o bilhete rosa funcionou? Pensei, andando nervosamente de um lado para o outro na cozinha, o coração parecendo que ia saltar pela boca a qualquer momento. O relógio marcava dezoito horas e cinquenta e oito minutos. A tensão estava insuportável. Para tentar acalmar os nervos e preencher o silêncio pesado, resolvi colocar uma música. Fui até a sala, liguei a caixinha de som, conectei o meu celular e coloquei a nossa playlist de "favoritas de todos os tempos". Escolhi a nossa música preferida, aquela que cantamos juntas no carro: Just Give Me a Reason — P!nk feat. Nate Ruess. O som potente começou a preencher o apartamento, e cada nota, cada palavra da letra sobre consertar um amor quebrado, parecia trazer uma mistura de esperança e ansiedade enquanto eu esperava desesperadamente por ela. Voltei para a cozinha, às dezenove horas e nada. Senti o meu mundo começar a desmoronar. O medo de que ela me ignorasse completamente foi devastador. Eu merecia, eu sei, mas doía. Eu olhava para a porta da cozinha, rezando para vê-la. Quando me virei para pegar as luvas térmicas e tirar o macarrão do forno, o meu coração parou de bater por um segundo inteiro. Lá estava ela. A ruiva parada no batente da porta, com o vestido preto que marcava cada curva do corpo dela, os cabelos ruivos ondulados caindo pelos ombros, me olhando com um sorriso lindo, tímido e que fez o meu chão sumir. Fiquei completamente sem jeito, sem ar, impressionada com tanta beleza. Nossa, como ela está linda, pensei, o coração batendo com tanta força que achei que ela pudesse ouvir. Sacudi levemente a cabeça, decidida a me mexer e a não estragar tudo ficando ali babando. Me aproximei dela devagar, lancei um dos meus melhores sorrisos galanteadores — aquele que eu sei que a desarma — e brinquei, tentando quebrar o gelo: — Senhorita Eliza Martinez, você está absolutamente elegante e perigosamente cheirosa. Olhei bem fundo dentro daqueles olhos castanhos claros que eu tanto amo, segurando a mão dela com uma delicadeza que eu nem sabia que tinha e dei um beijo suave, demorado, nas costas da mão dela. Eliza sorriu, um brilho misto de surpresa e um carinho profundo iluminando seu olhar. Por um instante, o tempo ao nosso redor pareceu desacelerar, paralisar — éramos só nós duas ali na porta da cozinha, conectadas naquele silêncio carregado de emoções não ditas, de medos e de desejos. — Você não perdeu tempo, hein, Joice? — ela respondeu, com a voz suave, quase num sussurro, mas com um tom divertido que me deu esperança. Aproximei o meu rosto um pouco mais do dela, sentindo o cheiro do perfume floral e frutado dela misturado ao cheiro doce do sabonete de erva-doce. Era uma mistura que me desarmava completamente. Senti uma vontade louca de beijá-la ali mesmo, mas me contive. — Senhorita Eliza, gostaria de me acompanhar, por gentileza? — perguntei com um meio sorriso maroto, estendendo o meu braço direito de forma galante, como se fôssemos entrar num baile de gala. Ela arqueou uma sobrancelha ruiva, achando graça da minha formalidade repentina, mas logo entrelaçou o braço dela no meu, aceitando o gesto com um toque de doçura que me fez querer derreter. — Vamos jantar, minha princesa ruiva — sussurrei bem perto do ouvido dela, sentindo o arrepio sutil que percorreu o corpo dela,enquanto caminhávamos lado a lado até a mesa posta na cozinha. Cada passo que dávamos parecia marcar o início de algo novo, de um recomeço. O som suave da nossa música P!nk ao fundo, o aroma delicioso do jantar no ar, a luz suave da vela e o calor da presença dela tão perto de mim… tudo conspirava para fazer o meu coração bater cada vez mais forte. Eliza apertou de leve o meu armo, e eu soube, naquele instante silencioso e mágico, que talvez — só talvez — ainda existisse um “nós” esperando para recomeçar, mais forte do que antes. Puxei delicadamente a cadeira de madeira para que a Liz se sentasse. Ela sorriu, meio sem jeito, surpresa com a meu cavalheirismo, mas sentou-se com aquele charme natural que é só dela. Dei a volta na mesa com calma, caminhando até o aparador onde eu tinha deixado a garrafa de vinho rosê suave no balde de gelo. Peguei-a com cuidado, sequei a garrafa com o pano de prato e retornei à mesa. Servi uma taça generosa para a minha ruivinha primeiro — sempre ela em primeiro lugar, em tudo na minha vida — e só depois servi para mim. — Espero que este ainda seja o seu preferido, o tal "vinho de abraço" — disse, entregando-lhe a taça com um brilho de esperança no olhar. Ela pegou a taça de cristal com delicadeza, murmurando um "Obrigada, Joice" baixinho, quase inaudível, que me fez sorrir de orelha a orelha. O clima estava começando a ficar leve. Fui até o forno, calcei as luvas térmicas de silicone e tirei a travessa de cerâmica dourada, fumegante e com o queijo borbulhando do meu famoso macarrão maluco. O cheiro era simplesmente irresistível, defumado e cremoso, e vi os olhos dela se iluminarem instantaneamente assim que o aroma invadiu o ar da cozinha. Ela não conseguia disfarçar o quanto amava esse prato. — Voilà! O jantar está servido — falei com um tom dramático, colocando a travessa pesada no centro da mesa como se fosse uma obra-prima que eu tinha acabado de pintar. Peguei os pratos, servi a Liz primeiro com todo o cuidado e carinho do mundo, colocando uma porção generosa e garantindo que pegava bastante calabresa e queijo derretido para ela. Observei-a discretamente enquanto ela analisava cada detalhe da mesa, do prato, e só depois me servia. Era uma noite simples, sem luxos, mas cheia de intenções não ditas. E tudo nela parecia gritar: eu estou tentando, Eliza. Eu estou tentando por você.
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