Dessa vez, a Liz ficou realmente brava comigo. E, sinceramente? Não posso nem culpá-la. Olha a burrada que eu fiz... Coloquei dentro da nossa casa uma garota que me magoou, que me machucou pra valer. Doeu. Muito.
Mas, por outro lado, eu entendo a reação da minha ruivinha. Completamente.
Tão cedo a ruiva não vai querer falar comigo…
Mas também, né, Joice? Olha a besteira que você fez.
Vou até o quarto dela e vejo a porta fechada. Dou uma leve batida... nada. Nenhuma resposta.
Respiro fundo, hesito por um segundo... e decido entrar.
O quarto está vazio. Olho ao redor até que escuto o som do chuveiro.
Ela deve estar tomando banho.
Me aproximo da porta do banheiro e bati de leve.
Lá de dentro, ela grita: — Vai embora, Joice! Não quero falar com você agora!
Saio do quarto dela com o peso no peito. Tenho que fazer alguma coisa para me redimir do que fiz.
Já sei! Vou aproveitar que ela provavelmente não vai sair do quarto tão cedo — sempre que fica irritada assim, costuma me evitar.
Vou arrumar o apartamento que tá uma bagunça, deixar tudo do jeito que ela gosta.
E aproveito para ir ao mercado fazer as compras da semana.
Pego o cabelo e prendo em um coque bagunçado, coloco aquela playlist que ela adora — mesmo que hoje talvez nem queira ouvir minha voz, quem sabe a música acalme um pouco a energia pesada do ar.
Começo pela sala: tiro os copos vazios, recolho as almofadas jogadas no chão, passo um pano perfumado nos móveis. Coloco os livros dela em ordem na estante, exatamente como ela gosta — por cor, do tom mais escuro ao mais claro.
Na cozinha, lavo a louça acumulada, enxugo com cuidado, guardo tudo no lugar. Limpo o fogão, troco o pano da pia, deixo um vasinho com flores do lado da fruteira — são margaridas, as preferidas dela.
Depois, pego a lista de compras que ela sempre deixa presa na geladeira com um ímã de gatinho e vou até o mercado. Enquanto escolho os produtos, fico lembrando dos nossos momentos bons, das risadas, das conversas até tarde, do jeito que ela me olhava quando estava feliz...
Suspiro. Eu estraguei tudo. Mas vou fazer o que for preciso pra consertar.
Enquanto caminho pelos corredores do mercado, com a lista em mãos, meus olhos batem em uma prateleira cheia de massas. Foi aí que tive a ideia.
— Já sei… o meu macarrão maluco.
Aquele que ela sempre pede quando tá triste. Quando tá feliz também. Na real, ela inventa qualquer desculpa só pra eu fazer esse prato.
Sorrio sozinha, já imaginando a cara dela ao sentir o cheiro invadindo o apê.
Começo a pegar os ingredientes: creme de leite, milho, ervilha, calabresa, queijo… até o toque secreto que ela nunca conseguiu descobrir.
No setor de bolos, não hesito — vou preparar o formigueiro colorido que ela ama, com bastante granulado por dentro e aquela calda de chocolate bem grossa por cima. Ela sempre lambe os dedos no final, como uma criança.
E claro… o vinho.
Aquele rosé suave que ela chama de “vinho de abraço”, porque segundo ela, esquenta o peito e o coração.
Termino as compras com um sentimento diferente. Não é só sobre limpar o apê ou preparar a comida. É sobre tentar consertar.
Sobre mostrar pra ela, mesmo sem palavras ainda, que eu me importo.
E que sim, eu errei. Mas estou disposta a me redimir.
Cheguei em casa e fui direto guardar as compras, organizando tudo nos lugares certos, do jeitinho que a Liz gosta. Só deixei de lado os ingredientes do jantar e do bolo, porque era hora de colocar em prática meu plano de redenção.
Antes de começar a cozinhar, sentei à mesa por um momento e peguei um dos bloquinhos fofos que ela mesma comprou — aquele com formato de coração. Peguei minha caneta azul e escrevi com cuidado, caprichando na letra:
"Te espero na cozinha às 19h. Sem perguntas, só vem.
Com carinho,
Joice"
Dobrei o bilhete e fui até a porta do quarto dela. Respirei fundo e, com o coração acelerado, deslizei o papel por baixo da porta. Em seguida, dei duas batidinhas leves, quase como um pedido silencioso de “me dá uma chance”.
Depois disso, fui direto pra cozinha. Eu tinha pouco tempo, e queria que tudo estivesse perfeito.
Então comecei preparando o bolo formigueiro colorido com calda de chocolate, misturando os ingredientes com cuidado, tentando caprichar em cada detalhe para que ficasse perfeito — do jeitinho que ela gosta. O cheirinho doce começou a preencher a cozinha, me dando um pouco de esperança.
Logo em seguida, iniciei o preparo do meu famoso macarrão maluco. Cozinhei o macarrão al dente, enquanto em uma panela separada, fazia o molho cremoso com creme de leite. Depois, adicionei o milho, a ervilha, a calabresa fritinha e, para finalizar, cubinhos de queijo que derretiam lentamente, deixando o prato irresistível.
Cada passo era uma pequena demonstração de carinho, e eu torcia para que aquele jantar fosse o começo da nossa reconciliação.
Coloquei o macarrão maluco na travessa, espalhei com cuidado para que ficasse bem apresentável. Peguei mais um pouco de queijo e salpiquei por cima, generosamente — porque eu sabia que ela adorava quando ficava bem gratinado.
Em seguida, coloquei a travessa no forno, ajustando a temperatura para dar aquela douradinha perfeita. O cheiro começou a se misturar ao aroma doce do bolo, criando uma combinação aconchegante que preenchia o apartamento.
Dei uma última olhada ao redor da cozinha, ajeitei a mesa com carinho, coloquei duas taças e deixei o vinho separado, esperando apenas o momento certo.
Agora era torcer para que ela viesse.
Depois que organizei tudo e deixei a cozinha com aquele clima aconchegante que ela gosta, olhei meu reflexo no espelho da sala e soltei um suspiro. Eu estava toda bagunçada, com o cabelo preso de qualquer jeito e vestindo uma roupa que nem combinava.
— Aff... — resmunguei comigo mesma. — Se quero me redimir de verdade, tenho que começar por mim.
Fui direto pro banheiro do meu quarto. Tomei um banho rápido, mas o suficiente pra me sentir renovada. A água quente escorrendo me ajudou a respirar fundo, a colocar as ideias no lugar. Eu precisava mesmo me redimir... e mostrar pra Liz que me importo de verdade com ela.
Saí do chuveiro, enrolei a toalha no corpo e fui até o armário escolher algo decente. Nada chamativo demais, só algo que mostrasse que eu me esforcei. Vesti minhas roupas íntimas — um conjunto de renda preta —, por cima uma camiseta preta com decote em V, e uma calça jeans escura com leves rasgos. Nos pés, meus tênis favoritos.
Borrifei um pouco do meu perfume amadeirado, aquele que ela sempre diz que combina comigo, e dei uma ajeitada no cabelo, deixando ele bem bagunçado — do jeitinho que eu gosto.
Agora era só esperar... 19h estava chegando.
Será que a minha ruivinha esquentadinha vai aparecer?
Aí, caramba… que nervoso.
Fiquei andando de um lado pro outro na cozinha, ajeitando a mesa pela décima vez, checando o forno, dando uma olhada no relógio a cada trinta segundos.
Faltavam só cinco minutos.
O bolo já estava pronto, com a calda brilhando por cima, do jeitinho que ela gosta. O macarrão no forno já exalava aquele cheiro que dava vontade de esquecer qualquer briga. A mesa estava posta com uma simplicidade carinhosa: dois pratos, taças de vinho, guardanapos dobrados com capricho. E uma vela acesa no meio — por que não?
Tudo que eu conseguia pensar era: Por favor, Liz… aparece. Só me escuta.
* Pov Eliza Martinez
Eu estou aqui, deitada na minha cama, tentando entender o turbilhão de sentimentos que tenho pela Joice.
Quando ela veio até meu quarto enquanto eu estava no banho, preferi mandá-la embora. Não foi por raiva, nem por estar irritada — foi por vergonha dos pensamentos confusos que me invadiram naquela hora.
Depois do banho, vesti meu roupão, me joguei na cama e, antes que percebesse, acabei adormecendo.
Passei um tempo dormindo, e quando despertei, um silêncio estranho tomou conta do apartamento. Algo diferente do barulho habitual da Joice ou da TV ligada.
Levantei, curiosa, e saí do quarto.
Fui para a sala e fiquei impressionada: tudo estava arrumado, limpo, com um cheiro gostoso que preenchia o ar.
Segui para a cozinha, onde também encontrei tudo organizado e um aroma delicioso pairando no ambiente.
Abri a geladeira para tomar um pouco d’água e notei que a lista de compras que eu tinha feito não estava mais ali.
Foi aí que percebi que Joice realmente estava tentando se redimir — e talvez, eu também deveria tentar abrir o meu coração para ela.
Bebi água, peguei uma maçã da fruteira e voltei para o meu quarto. Fechei a porta com calma, tentando organizar meus pensamentos enquanto mordia a fruta.
Ainda sentia aquele misto de surpresa e dúvida — será que a Joice realmente queria consertar as coisas? Ou era só mais uma daquelas tentativas que logo se perdiam no tempo?
Deitei na cama, tentando acalmar o coração acelerado.
Passaram-se alguns minutos quando ouvi duas leves batidas na porta do meu quarto. Soube na hora que era ela.
Me sentei na cama, o olhar distraído, e então percebi algo no chão, próximo à porta. Um pequeno papel, delicadamente dobrado.
Com as mãos trêmulas, peguei o bilhete e desdobrei devagar.
No papel com formato de coração, com aquela letra que eu tanto conhecia, estava escrito:
“Te espero na cozinha às 19h. Sem perguntas,só vem.
Com carinho,
Joice”
O meu peito apertou, o medo e a esperança se misturaram. Será que eu realmente estava pronta para isso?
Fiquei ali por alguns minutos, o bilhete ainda nas mãos, tentando decidir se deveria ou não ir até ela. Meu coração batia acelerado, dividido entre o medo de que a Joice não sentisse o mesmo que eu... e a esperança de que, talvez, sentisse.
Foi quando um aroma delicioso invadiu o quarto — inconfundível, acolhedor. Era o cheiro do macarrão maluco dela.
Não podia ser… Ela realmente estava fazendo o meu prato favorito?
Um sorriso tímido escapou no canto dos meus lábios, e naquele instante, por mais confusa que eu estivesse, soube que precisava tentar.
Levantei da cama, determinada, e fui direto para o banheiro. Queria um banho para clarear os pensamentos… e para ficar cheirosa para ela.
Entrei no banheiro e deixei a água quente escorrer pelo corpo, sentindo o calor relaxar cada músculo tenso. Fechei os olhos, tentando afastar os pensamentos confusos que insistiam em voltar — medo, mágoa, esperança — tudo misturado num turbilhão dentro do peito.
O cheiro do sabonete que ela gostava trouxe uma sensação estranha, uma mistura de conforto e saudade. Lavei os cabelos com calma, deixando o shampoo escorrer enquanto imaginava como seria aquele encontro na cozinha. Será que tudo daria certo? Será que eu conseguiria superar o que aconteceu?
Saí do banho, enrolei a toalha no corpo e me encarei no espelho. Por um instante, me perdi naquele olhar cansado, mas resoluto. Respirei fundo, ajeitei os cabelos ainda molhados e decidi que, por mais difícil que fosse, eu precisava tentar.
Passei o hidratante de frutas vermelhas, espalhando suavemente pela pele. O aroma doce e refrescante me envolvia, trazendo uma calma inesperada. Cada gesto parecia um convite para deixar as mágoas para trás e abrir espaço para algo novo — ou, pelo menos, para uma chance de recomeço.
Senti a pele macia sob as mãos e sorri sozinha, como se aquele simples ritual pudesse preparar meu coração para o que viria.
Escolhi uma calcinha de renda vermelha, daquelas que me fazem sentir confiante mesmo nos dias mais difíceis. Vesti-a com calma, como se cada peça fosse parte de um ritual silencioso. Optei por um vestido preto de alças finas, com decote que valorizava meus s***s fartos, justo na cintura, e com comprimento pouco acima dos joelhos — sensual na medida certa, sem exageros.
Nos pés, calcei minha sapatilha preferida, confortável e delicada.
Arrumei meus cabelos ruivos ondulados, deixando-os soltos com aquela bagunça natural que eu sabia que ela adorava. Passei um batom vermelho intenso e, por fim, borrifei um pouco do meu perfume floral frutado.
Olhei o meu reflexo no espelho e inspirei fundo. Por fora, eu estava pronta. Por dentro, o meu coração ainda pulsava com uma mistura de nervosismo e desejo.
* Pov Joice
Será que a minha ruivinha vai aparecer? Pensei, andando nervosamente de um lado para o outro. Para tentar acalmar os nervos, resolvi colocar uma música. Fui até a sala, liguei a caixinha de som, conectei meu celular e coloquei a nossa playlist que criamos juntos.
Escolhi a nossa música preferida: Just Give Me a Reason — P!nk feat. Nate Ruess.
O som começou a preencher o apartamento, e cada nota parecia trazer uma mistura de esperança e ansiedade enquanto eu esperava por ela.
Quando me virei para voltar à cozinha, lá estava ela — a ruiva parada, me olhando com um sorriso lindo. Fiquei sem jeito, impressionada com tanta beleza. Nossa, como ela está linda, pensei, o coração batendo mais forte.
Sacudi levemente a cabeça, decidida a me mexer mesmo que estivesse difícil naquele momento. Me aproximei dela, lancei um dos meus sorrisos mais galanteadores e brinquei:
— Senhorita Eliza, você está muito elegante e cheirosa.
Olhei bem dentro dos seus olhos, segurando a sua mão com delicadeza e dei um beijo suave nela.
Eliza sorriu, um brilho misto de surpresa e carinho iluminando seu olhar. Por um instante, o tempo pareceu desacelerar — éramos só nós duas, conectadas naquele silêncio carregado de emoções.
— Você não perdeu tempo, hein? — respondeu, com a voz suave, quase um sussurro.
Aproximei o meu rosto um pouco mais, sentindo o cheiro do perfume dela, aquela mistura floral e frutada que sempre me desarmava.
— Senhorita Eliza, gostaria de me acompanhar, por gentileza? — perguntei com um meio sorriso, estendendo o braço de forma galante, como em um convite de filme antigo.
Ela arqueou uma sobrancelha, divertida, mas logo entrelaçou o braço no meu, aceitando o gesto com um toque de doçura.
— Vamos jantar, minha princesa ruiva — sussurrei perto do ouvido dela, sentindo seu arrepio sutil enquanto caminhávamos lado a lado até a cozinha.
Cada passo parecia marcar o início de algo novo. O som suave da nossa música ao fundo, o aroma do jantar no ar, e o calor da presença dela tão perto… tudo fazia meu coração bater mais forte.
Eliza apertou de leve o meu braço, e eu soube, naquele instante silencioso, que talvez — só talvez — ainda existisse um “nós” esperando para recomeçar.
Puxei delicadamente a cadeira para que Liz se sentasse. Ela sorriu, meio sem jeito, mas sentou-se com aquele charme todo dela. Dei a volta com calma, caminhando até o aparador onde deixei a garrafa de vinho rosé suave. Peguei-a com cuidado e retornei à mesa, servindo uma taça para minha ruivinha primeiro — sempre ela em primeiro lugar — e depois para mim.
— Espero que ainda seja seu preferido — disse, entregando-lhe a taça com um brilho no olhar.
Ela pegou com delicadeza, murmurando um "Obrigada" baixinho que me fez sorrir.
Fui até o armário, calcei as luvas térmicas e tirei do forno a travessa dourada e fumegante do meu famoso macarrão maluco. O cheiro era simplesmente irresistível, e vi que os olhos dela se iluminarem assim que o aroma invadiu o ar.
— Voilà — falei, colocando a travessa no centro da mesa como se fosse uma obra-prima.
Peguei os pratos, servi Liz primeiro com todo cuidado e carinho, observando-a discretamente enquanto ela observava cada detalhe, e só depois me servi. Era uma noite simples, mas cheia de intenções não ditas. E tudo nela parecia dizer: estou tentando, por você.
Esperei Liz dar a primeira garfada, observando cada movimento dela com o coração disparado. Ela enrolou o macarrão no garfo com aquela delicadeza que me deixava boba, levou à boca e mastigou devagar, com os olhos fechando por um breve instante.
O silêncio parecia gritar dentro de mim, aumentando ainda mais minha ansiedade.
— E então...? — perguntei, inclinando-me levemente sobre a mesa, tentando esconder o nervosismo na voz.
Ela engoliu, olhou pra mim com aquele sorriso de canto que sempre me desmontava.
— Não tá tão bom assim não… — disse ela, com um tom risonho.
— O quê?! — arregalei os olhos, meio em choque. — Liz, eu caprichei! Até coloquei aquele toque especial que você ama!
Ela ergueu a taça de vinho com calma, bebeu um gole e me olhou com aquele brilho divertido nos olhos. Uma risada suave escapou de seus lábios antes de dizer:
— Não tá bom... porque tá divino. É o melhor que você já fez até hoje.
Fiquei em silêncio por um segundo, processando, depois levei a mão ao peito dramaticamente.
— Você quase me mata do coração, mulher! — falei, rindo aliviada.
Ela deu mais uma risada, e por um momento, tudo ficou leve. Ali estávamos nós, entre o vinho, o macarrão e sentimentos ainda não resolvidos, mas com uma chance real de recomeço sobre a mesa.
Comemos em completo silêncio, mas não era um silêncio desconfortável — era um silêncio bom, cheio de significados. Entre uma garfada e outra, trocávamos olhares e sorrisos tímidos, regados a goles de vinho e sentimentos que ainda pairavam no ar, quietos, mas presentes.
Quando terminamos o jantar, apoiei os cotovelos na mesa, observando Liz repousar o garfo com delicadeza.
— Ainda tem mais uma coisinha que eu preparei… — disse, levantando-me com um sorriso misterioso.
Recolhi nossos pratos vazios e levei até a lava-louças, aproveitei para guardar o que sobrou do macarrão maluco. Em seguida, peguei dois pires no armário e os coloquei sobre a mesa, com todo o cuidado de quem estava preparando uma surpresa especial.
Fui até a geladeira e, com um certo orgulho, tirei o bolo formigueiro colorido que eu mesma tinha feito. Coloquei-o bem no centro da mesa, sorrindo ao ver os olhos de Liz brilharem ao reconhecê-lo.
— Achei que você ia gostar de um doce que tem gosto de infância... e da gente — comentei, sentando-me novamente.
Ela me olhou com ternura, e naquele instante, parecia que o tempo parava de novo, só para nós duas.
Cortei uma fatia generosa do bolo e coloquei no pires com cuidado, pronta para entregar à Liz. Mas, antes que eu fizesse isso, ela me olhou com aquele jeitinho doce e um leve sorriso no canto dos lábios.
— E por que a gente não come juntas no mesmo prato... como sempre fazia? — ela perguntou, com os olhos brilhando numa mistura de saudade e carinho.
Por um instante, meu coração apertou. Aquela lembrança simples, tão nossa, me pegou de jeito. Era mais do que dividir um pedaço de bolo — era dividir memórias, um tempo que parecia perdido, mas que ainda vivia ali, entre nós.
Sorri, sem dizer nada. Puxei minha cadeira para mais perto dela, sentei bem juntinho e peguei meu garfo. Cortei um pedacinho do bolo e, com um gesto leve, levei até os lábios dela.
— Abre a boquinha, senhorita Eliza — brinquei, num tom suave, tentando esconder a emoção que ameaçava transbordar.
Ela riu baixinho, encostando o ombro no meu por um segundo, antes de aceitar a garfada. Aquele momento era simples, mas tinha um peso doce e intenso — como o próprio sabor do bolo.