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1620 Words
Benjamin Rollins Já faz uma semana. Uma semana inteira que eu vivia a mesma paranóia da minha adolescência. E eu era o maior culpado disso. Eu simplesmente não sabia dizer “não” a Amanda. Ela só precisava me olhar com aqueles olhos enormes, verdes, brilhantes, e eu cedia. Qualquer capricho. Pesadelos? Eu tive vários. E só pioraram quando ela decidiu que sentia muita saudade e queria dormir comigo. Ela me seguia como se fosse o c*****o da minha sombra. Chamava meu pai de “papai”. Usava minhas camisas para dormir. Isso… é um pesadelo fora da minha cabeça. Sonsa. Na mesa do café da manhã, pareciamos um comercial de margarina interracial. Os passeios, maravilha. Eu me esforçava. De verdade. Eu fazia de tudo para não olhar. — Ben… Eu vou fingir que morri. — Oi, Amanda. — disse, virando o rosto para a porta. Tarde da noite. Lá vem. — Posso dormir aqui? Eu e a Becca discutimos. — ela disse, encostando o ombro no batente. Eu tenho certeza que isso é s*******m com a minha cara. Todos os anos… O teatro da escola… Tudo isso moldou a criatura perfeita. Diaba. Eu ia dizer que não. Mas aí, seus olhos ganharam aquele tamanho enorme. Ela parecia o Gato de Botas. — Tudo bem… vem cá. — Eu vou me arrepender disso. Dei espaço para ela deitar, e assim que o fez, só encostou a cabeça no meu braço. Manias. Manias. Quando éramos crianças, ela fazia a mesma coisa. Só que agora, o peso daquela proximidade era meu maior castigo. Eu nunca devia ter deixado isso acontecer. Num mês ela era só a minha pirralha e no outro… eu não conseguia respirar perto dela. Essa maluquice toda começou quando ela começou a crescer e mudar. Mudar rápido demais. E eu tive sorte de já ter ido para Princeton na época. Eu passava a maior parte do ano longe. Só que quando voltava, tinha uma nova mudança me esperando para me atormentar. Quando ela fez dezesseis, meu maior pesadelo não era apenas aqueles olhos. Era tudo. Eu queria socar cada um dos caras que olhavam para ela. Os amigos idiotas. Aqueles retardados do teatro. E Matthew. O único namorado que ela teve. o****o. Merecia ter levado mais alguns socos só por respirar perto dela. — Ben… — Fala, pirralha… — Você me ama? Que raio de pergunta é essa? — Amo, pirralha. — respondi, encarando o teto. — Por que a pergunta? — É que… desde que você foi para Columbia, você ficou mais distante. E eu sinto sua falta. — ela disse, puxando mais a coberta para si. Ladra. — Eu moro em outro estado agora, pirralha… — eu disse, hesitando um pouco antes de passar o braço por seus ombros, a puxando para perto. — E no fim das férias você vai comigo, não é? Meu castigo por desejar minha pirralha de estimação, era esse. Obrigado, Deus. — É. — e ela corou. Naquele tom que parecia virar uma batalha contra a cor de seus cabelos. Eu não tinha nem coragem de falar sobre isso com um terapeuta. Como eu diria abertamente que essas bochechas eram meu martírio? Eu sonhava com esse tom. E não tinha nada a ver com uma vergonha ou uma timidez. — Você está com sono? — sua bochecha descansou em meu peito. — Não. Eu a olhei. Ela me olhou. — Pipoca? Nós rimos e ela pulou da cama, levando a coberta junto. Me levantei, seguindo-a pelos degraus até a cozinha. A pipoca que ela fazia era a melhor do mundo. Só que eu não estava indo pelo milho, nem pela manteiga. Eu virava uma ameba perto dela. Branquela. Irritante. E ainda assim, dominava cada canto do meu cérebro só respirando. Abri a geladeira, procurando pelo energético e pela vodka. Eu já era um péssimo irmão por cada pensamento que tive. Ensinar minha irmãzinha a beber foi só uma das minhas contravenções perto dela. Enquanto eu servia os copos, o cheiro de pipoca começou a dominar a cozinha. E sem querer, tirei os olhos do copo. Maldição. Ela havia feito um daqueles coques bagunçados demais, deixando o pescoço longo e fino amostra. Tão… Não. Eu não vou pensar nisso. Amanda colocou a pipoca numa tigela grande e voltou para a sala de estar. E meus olhos a acompanharam sem permissão. Magricela. Terminei de encher os copos, guardei o que restou do energético e fui atrás dela. Ela já estava procurando por Supernatural na TV. Me sentei ao seu lado, e ela voltou a se encaixar no meu abraço. Seu cheiro — flores e livros — invadiu minhas narinas, entorpecendo cada um dos meus sentidos por alguns instantes. Entreguei seu copo e fui repousando lentamente o abraço sobre seus ombros. O contraste entre nossas peles era tão… grande. Amanda era tão branca, que parecia ter sido desenhada da mais fina porcelana. Já a minha, escura, marrom, quase como âmbar bruto. Eu ainda me lembrava perfeitamente do dia em que ela chegou na minha vida. Pequena demais para entender o que eu falava, doce demais para conquistar cada pedaço de quem eu era. E durante anos foi assim. Por que ela tinha que crescer? Isso é injusto… Conforme os episódios iam passando, eu e ela devorávamos a pipoca. E o maior problema da vodka com o energético, é que Amanda não tinha um limite muito claro. Às vezes um copo e ela ficava alegre. Às vezes precisava de cinco. E naquela noite, eu achei brilhante dar a ela a mesma quantidade que eu bebia. Eu era um i****a. Admito. Cada segundo respirando o mesmo ar que eu, parecia que ela estava tentando a todo custo me enlouquecer. Eu precisava me agarrar na possibilidade de que cada vez que ela se mexia, era de propósito. Porque… Se tudo fosse apenas coisa da minha cabeça… eu seria muito mais filho da p**a do que realmente queria. E talvez eu fosse. — Esse homem não envelhece, como pode? — ela murmurou, desviando os olhos da tela para mim, talvez buscando concordância. — O Jensen Ackles envelhece como vinho. ​Eu soltei uma risada seca, o líquido da vodka queimando minha garganta, mas não tanto quanto o olhar dela sobre mim. ​— É o colágeno, Amanda. E uma boa dose de genética que você claramente também herdou. — Maldição! Por que caralhos eu disse isso? Ela já estava enfiada sob meu braço, o rosto perto demais. E a p***a… a p***a dos olhos. — Eu? — perguntou, piscando devagar. As bochechas coradas demais. Os olhos grandes, brilhantes. Se eu começar a rezar, será que Deus perdoa meus pecados? — Sim… você. — respondi e minha voz não saiu mais alta do que a dela. Amanda chegou mais perto. E mais perto. Não olha. Não olha. Os lábios dela tocaram minha bochecha devagar. Tocar era um eufemismo. Foi um roçar suave, mas que mesmo assim fez aquele estalo gostoso contra a pele. — Obrigada, Ben. — eu odiava quando ela sussurrava meu apelido. O suspiro dela contra meu pescoço foi o prego final no caixão da minha sanidade. Senti cada músculo do meu corpo tencionar, uma reação biológica que eu não poderia diagnosticar como nada além de um desastre iminente. — Você está bêbada — murmurei, e a minha voz saiu rouca, grave demais para ser a de um irmão. Afastei-a minimamente, apenas o suficiente para olhar naqueles olhos verdes que pareciam ler através da minha máscara de indiferença. — Bebendo desse jeito, Amanda, você vai acabar fazendo coisas que não deveria. Como me provocar desse jeito sem ter a menor ideia do que está me fazendo pensar. Ela soltou uma risadinha, um som que vibrou no meu peito como uma sentença de morte. Ela não parecia ter medo de mim. Ela parecia não ter medo de nada. — Você é tão sem graça! Você que me ensinou a beber! — ela resmungou, crescendo um bico que era pura birra. E isso. Isso sim eu tinha certeza que ela fazia de propósito. Desde criança, esse bico me desmontava. Só que antes os motivos eram outros. Totalmente diferentes. — E você sempre foi uma péssima aprendiz. — rebati, desviando o olhar. O bico pareceu dobrar de tamanho. Porcaria. — Ben! Não. Por favor, não começa… — Amanda… — revirei os olhos, encarando a TV. — Eu não sou uma péssima aprendiz! — ela resmungou, cruzando os braços. Amanda saiu do meu abraço, se afastando dois palmos de mim do sofá. Mimada demais. E a culpa era toda minha. O sofá, que segundos atrás parecia pequeno demais para nós dois, de repente ganhou uma extensão desnecessária. O espaço vazio entre nós parecia carregar uma carga elétrica. — Você é. — insisti, mantendo os olhos fixos na tela, embora não estivesse absorvendo absolutamente nada do que acontecia na série. — E se continuarmos com essa conversa, você vai acabar perdendo o resto da pipoca. Ela soltou um guincho ridiculamente infantil e levantou, arrastando consigo a manta do sofá. — Não fala mais comigo! — Amanda! O silêncio que ficou na sala foi pior do que qualquer discussão. O som da TV parecia agora um ruído irritante e sem sentido. Fiquei ali, com a mão estendida para o nada, o cheiro de pipoca e perfume feminino ainda pairando no ar, uma lembrança insuportável de que eu estava sozinho novamente. Levantei-me do sofá, os músculos tensos. Eu deveria ficar ali. Deveria aproveitar a trégua e tentar dormir, esquecer que ela estava a poucos metros de distância, respirando o mesmo ar sob o mesmo teto. Mas a minha cabeça, traindo todas as minhas resoluções, já estava projetando o caminho até o quarto dela.
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