Capítulo 1– Um Estranho Irresistível
Nunca pensei que terminar o ensino médio fosse me deixar tão confusa.
Durante anos, contei os dias para me livrar das provas, dos trabalhos em grupo e dos professores que pareciam sentir prazer em marcar três avaliações na mesma semana. Mas, quando finalmente tudo acabou, percebi que também estava deixando para trás a única rotina que conheci durante toda a minha vida.
Agora, pela primeira vez, eu não fazia ideia do que vinha pela frente.
Bom... talvez eu fizesse.
Algumas semanas antes, recebi a notícia de que havia conquistado uma bolsa de estudos para uma das universidades mais conceituadas do país. Ainda custava acreditar que aquilo era real. Passei meses estudando até tarde, abrindo mão de festas, fins de semana e de muitas horas de sono. No fim, todo o esforço tinha valido a pena.
Em poucos meses, eu estaria morando sozinha.
Longe dos meus pais.
Longe da minha cidade.
Começando uma vida completamente nova.
Talvez por isso eles tivessem decidido fazer aquela viagem.
— É a nossa última viagem antes de você abandonar a gente — meu pai dramatizou enquanto colocava as malas no porta-malas.
Revirei os olhos.
— Eu vou estudar, pai. Não vou desaparecer do mapa.
— Ainda assim, a casa vai ficar silenciosa.
Minha mãe sorriu e passou o braço pelos ombros dele.
— Não escuta seu pai. Ele só está tentando fazer você se sentir culpada antes mesmo de ir embora.
— Funcionou? — ele perguntou.
Ri.
— Nem um pouco.
Meu pai levou a mão ao peito, como se eu tivesse acabado de partir o coração dele.
— Que ingratidão...
Peguei minha mochila e entrei no carro, balançando a cabeça.
Apesar das brincadeiras, eu sabia que aquela viagem significava muito mais para eles do que estavam dispostos a admitir.
Para mim também.
Era como o último capítulo da nossa vida juntos antes de cada um seguir um caminho diferente.
Depois de algumas horas de estrada, chegamos ao hotel.
Enquanto meus pais resolviam a papelada na recepção, peguei a chave do quarto e subi primeiro.
Assim que abri a porta, caminhei direto até a varanda.
Uma brisa morna acariciou meu rosto.
À minha frente, o mar parecia não ter fim.
Fechei os olhos por alguns segundos e respirei fundo.
Talvez aquelas férias fossem exatamente isso.
Uma despedida da adolescência.
Um último respiro antes de começar a faculdade.
Eu estava animada para aproveitar a piscina e tudo o que aquele lugar tinha a oferecer.
Fui até o quarto dos meus pais para chamá-los, mas os dois estavam cansados da viagem e preferiram descansar.
Sem querer perder o resto da tarde, desci até o bar do hotel e pedi um drinque. Caminhei pelo resort sem rumo, admirando cada cantinho, até que o som da música chamou minha atenção.
Segui a batida e encontrei uma pequena balada.
Era exatamente o que eu estava procurando.
Entrei e me misturei às pessoas, deixando a música tomar conta de mim enquanto começava a dançar.
Foi então que meus olhos encontraram um garoto parado a alguns metros de distância.
Ele estava um pouco afastado da multidão principal, como se observasse tudo de uma posição estratégica. Alto, com uma presença que chamava atenção sem esforço. Os cabelos castanho-escuros levemente bagunçados caíam de um jeito natural, como se ele tivesse passado os dedos por eles várias vezes durante a noite. O maxilar bem marcado dava um ar definido ao rosto, quase sério, mas o que realmente me prendeu foram os olhos — intensos, fixos em mim. Ele vestia uma camisa preta de mangas compridas, dobradas com cuidado até os antebraços, revelando linhas de veias e pele bronzeada. Uma das mãos estava enfiada casualmente no bolso da calça jeans escura, o corpo relaxado contra a balaustrada, mas a postura dele não era de quem estava ali por acaso. Parecia que estava decidindo algo. Decidindo sobre mim.
Resolvi facilitar as coisas. Porque esperar nunca foi meu estilo, e eu estava cansada de ficar parada.
Deixei meu copo vazio em uma mesa próxima, ajeitei o vestido preto curto que usava e caminhei até ele com passos firmes, sentindo o vento leve brincar com a barra da roupa. Parei perto o suficiente para que o perfume amadeirado dele me envolvesse — sândalo, algo terroso e masculino que combinava perfeitamente com a noite. Era um cheiro quente, convidativo, que fez meu pulso acelerar um pouco mais.
— Vai ficar só me olhando ou pretende vir falar comigo? — perguntei, a voz baixa, mas direta, com um leve tom de diversão.
Ele arqueou uma sobrancelha, claramente surpreso com a minha abordagem. O movimento foi sutil, mas o bastante para eu notar o leve brilho de interesse nos olhos escuros. Seus lábios se curvaram muito de leve, quase imperceptível, como se ele estivesse segurando um sorriso maior.
Inclinei um pouco a cabeça para o lado, deixando o cabelo cair sobre um ombro, e completei com um tom provocador, sustentando o olhar sem desviar:
— Ou tá com medo de descobrir que, de perto, eu sou ainda mais bonita?
Por um segundo, o ar entre nós pareceu mais denso. A música ao fundo ficou distante. Ele me observou com calma, os olhos descendo brevemente pelo meu rosto antes de voltarem aos meus. Então, deu um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância. O calor do corpo dele irradiava, e eu podia sentir o leve roçar do tecido da camisa quando ele se inclinou.
Ele chegou mais perto do meu ouvido, a voz grave e rouca, quase um murmúrio só para mim:
— Agora que você falou, realmente você é ainda mais linda de perto.
O hálito quente contra minha pele enviou um arrepio lento pela minha coluna. Meu coração batia forte, mas eu mantive a compostura, mordendo o canto interno do lábio para conter o sorriso que queria escapar. Antes que eu pudesse responder, ele continuou, o tom baixo e carregado de algo mais ousado:
— Mas a minha dúvida real é… essa sua boca só sabe falar mesmo ou faz outras coisas?
As palavras pairaram no ar, provocantes, cheias de subtexto. Senti um calor subir pelas bochechas e se espalhar pelo peito. Ele não perde tempo, pensei, mas em vez de recuar, aquilo só me instigou mais. Havia algo no jeito dele — a confiança tranquila misturada com aquela faísca desafiadora — que me atraía como um ímã. Eu podia sentir a tensão crescendo, o espaço entre nossos corpos carregado de expectativa. Meu olhar caiu involuntariamente para a boca dele por um instante antes de voltar aos olhos.
— Isso você vai ter que descobrir — respondi, a voz mais baixa do que pretendia, quase um sussurro carregado de provocação. Nossos rostos estavam tão próximos agora que eu via as pequenas manchas mais claras nos olhos dele, o leve movimento da respiração em seu peito.
O segundo seguinte pareceu acontecer em câmera lenta e acelerada ao mesmo tempo. Nossos lábios se encontraram num beijo que começou intenso desde o primeiro toque. Não foi hesitante. Foi urgente, como se toda aquela troca de olhares e provocações tivesse acumulado energia demais para ser contida.
Seus lábios eram firmes e quentes, movendo-se contra os meus com uma fome que me pegou de surpresa e, ao mesmo tempo, parecia exatamente certa. Uma das mãos dele subiu até minha cintura, puxando-me mais perto com firmeza, enquanto a outra segurava gentilmente minha nuca, inclinando minha cabeça para aprofundar o beijo. Eu correspondi com a mesma intensidade, uma mão espalmada no peito dele, sentindo o tecido da camisa preta e o calor da pele por baixo. O gosto dele era leve de uísque e algo doce do drinque que ele devia ter tomado antes. Um gemido baixo escapou dele, vibrando contra minha boca, e eu senti meus joelhos fraquejarem por um instante.
O beijo se tornou mais lento depois do primeiro impacto, exploratório. Seus dentes roçaram de leve meu lábio inferior, e eu suspirei contra ele, os dedos apertando o tecido da camisa. O mundo ao redor — a música, as vozes, as luzes — desapareceu. Havia apenas o calor do corpo dele pressionado contra o meu, o perfume amadeirado me envolvendo, e a eletricidade que corria pela minha pele onde quer que ele me tocasse. Meu coração martelava no peito, e uma onda de desejo misturada com empolgação pura me invadiu. Isso é loucura, pensei, mesmo enquanto me entregava mais. Mas que loucura boa.
Quando nos separamos, ofegantes, nossas testas ficaram encostadas por um momento. Os olhos dele estavam mais escuros, as pupilas dilatadas, e eu vi o mesmo desejo refletido neles. A mão na minha cintura não soltou imediatamente. Em vez disso, o polegar fez um círculo lento sobre o tecido do meu vestido, como se ele precisasse manter o contato.
— Leon — murmurou ele, a voz rouca, quase sem fôlego. Um sorriso pequeno, satisfeito, apareceu no canto da boca.
— Mila — respondi, ainda sentindo o formigamento nos lábios. Meu corpo inteiro parecia acordado, vivo de um jeito que há muito tempo não acontecia.
Ficamos ali, próximos, respirando o mesmo ar enquanto a festa continuava ao nosso redor. Ele não se afastou. A mão dele deslizou um pouco mais para as minhas costas, um toque leve que enviava faíscas pela minha pele. Eu podia sentir o olhar dele percorrendo meu rosto, como se estivesse memorizando cada detalhe. Havia uma tensão palpável entre nós, algo não resolvido, uma promessa de mais. Meu pensamento vagou por um segundo para o quanto isso era inesperado — eu, que planejava só tomar um drinque e voltar cedo para o apartamento, agora aqui, com o coração acelerado e os lábios ainda quentes do beijo de um estranho que não parecia mais tão estranho.
Ele inclinou a cabeça levemente, o nariz roçando o meu de forma quase carinhosa antes de se afastar um centímetro.
— Você sempre é tão direta assim? — perguntou, a voz baixa, com um tom de diversão genuína misturada àquela rouquidão que ainda fazia meu estômago revirar.
— Só quando vale a pena — respondi, sustentando o olhar. Meus dedos ainda estavam levemente agarrados à frente da camisa dele. Eu não queria soltar ainda.
Leon riu baixinho, um som grave que reverberou perto de mim. Ele ergueu a mão livre e afastou uma mecha de cabelo do meu rosto com uma gentileza que contrastava com a intensidade do beijo de minutos antes. O toque dos dedos dele na minha pele foi breve, mas deixou um rastro de calor.
Passamos os minutos seguintes conversando ali mesmo, ainda próximos. Ele me contou, de forma descontraída, que tinha vindo para relaxar depois de um dia longo, e eu mencionei vagamente as aulas e o cansaço criativo que andava me consumindo. Cada palavra vinha acompanhada de olhares que demoravam, de pequenos toques — o joelho dele encostando no meu quando nos apoiamos na balaustrada, minha mão roçando o antebraço dele enquanto gesticulava. A química não diminuiu. Pelo contrário. Cada risada compartilhada, cada silêncio carregado, aumentava a expectativa.
A noite seguia, a brisa ficou mais fresca, e eu sentia o blazer dele — que ele havia colocado sobre meus ombros em determinado momento, num gesto simples e protetor — carregando o mesmo perfume amadeirado que me atraiu desde o início. Meu corpo ainda vibrava com o beijo, a mente cheia de perguntas e uma empolgação que eu não conseguia (e não queria) controlar.