Capítulo 1
Aurora Romanov
O convite chegou numa manhã de terça-feira.
Eu o encontrei sobre a mesa da sala enquanto ajudava a limpar a mansão. O envelope tinha detalhes dourados e o brasão elegante da fundação beneficente mais famosa de Miami. A Gala Beneficente Montgomery. O evento do ano. Empresários, políticos, celebridades e gente rica o bastante para fingir que se importava com a causa.
Meu olhar percorreu o nome escrito com letras sofisticadas.
A família Romanov está cordialmente convidada...
O meu coração vacilou.
Desde a morte do meu pai, eu tinha desaprendido a criar expectativas. Ainda assim, por um segundo, permiti-me imaginar como seria estar em um lugar daqueles novamente sem uniforme, sem abaixar a cabeça, sem precisar pedir desculpas por existir.
- Finalmente – Lorena comentou, pegando o convite da mesa. — Essa festa vai ser impecável este ano.
Ela girou o envelope entre os dedos enquanto Cassandra observava vestidos no celular.
- Dizem que os Montgomery vão transformar aquilo num evento absurdo de luxuoso – ela continuou. – Vou usar aqueles diamantes que mamãe guarda no cofre.
- Se ela deixar – Cassandra respondeu, rindo.
Beatrice entrou na sala logo depois.
Como sempre, estava impecável. O cabelo perfeitamente alinhado, o vestido claro moldando o corpo elegante, joias discretas demais para alguém que fazia questão de parecer superior a tudo e todos.
Ela lançou um olhar rápido para as filhas antes de pegar o convite.
- Todos já sabem se comportar adequadamente, espero – disse. – Não quero ser envergonhada.
O meu olhar permaneceu preso no envelope nas suas mãos.
Antes que eu pudesse pensar melhor, perguntei:
- Eu também estou convidada?
O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer resposta.
Beatrice ergueu os olhos devagar até mim. Então riu.
Não foi uma risada verdadeira. Foi curta. Fria. c***l.
Lorena acompanhou imediatamente.
- Ah, por favor – ela soltou, divertida. – Aurora, você realmente achou que iria?
Senti o meu rosto queimar.
- O convite é para a família Romanov, e eu sou uma... – falei baixo, odiando como a minha voz soava insegura.
- Alguém precisa cobrir o turno da noite no hotel – Beatrice respondeu, ignorando completamente o que eu havia dito. – Ou acha que as suítes presidenciais se limpam sozinhas?
Meu estômago afundou.
Claro. Ela já tinha decidido. Não importava que houvesse dezenas de funcionários para aquele turno. Beatrice nunca precisava saber quem estava escalado. Nunca se importava com isso. Exceto quando o assunto era eu.
Porque controlar a minha vida parecia ser uma das suas atividades favoritas.
- Até parece, Aurora – Lorena acrescentou, encostando-se na cadeira com um sorriso debochado. – Você não se encaixaria num evento daquele nível.
Cassandra riu baixo, sem fazer esforço para esconder.
Engoli as lágrimas antes que elas aparecessem.
Aprendi cedo que chorar na frente delas só tornava tudo pior.
- Tudo bem – murmurei. – Eu vou para o hotel.
Beatrice sorriu, satisfeita demais.
- Viu? Não é tão difícil assim entender o seu lugar.
Meu maxilar travou.
Eu odiava aquela frase. “Seu lugar”. Como se eu fosse um objeto deslocado dentro da própria casa, ou dentro da própria vida.
- E agradeça por ainda ter um teto sobre a cabeça – Beatrice continuou, aproximando-se devagar. – Porque, se dependesse do testamento do seu pai, você teria muito menos do que imagina.
As palavras acertaram exatamente onde ela queria.
Meu pai havia morrido há quatro anos, mas eu ainda me perguntava como alguém capaz de me amar podia ter deixado a minha vida nas mãos dela.
Segundo o testamento, Beatrice herdara praticamente tudo: os hotéis de luxo da família Romanov espalhados por Miami, os outros empreendimentos pelo país, propriedades, investimentos, ações.
Eu herdara uma quantia bloqueada por uma condição absurda. Só teria acesso à minha herança quando me casasse.
Durante anos tentei entender aquilo. Talvez meu pai acreditasse que estava me protegendo. Talvez tivesse confiado demais nela. Ou talvez eu simplesmente nunca tivesse significado tanto quanto imaginei.
Beatrice fazia questão de reforçar essa última hipótese sempre que podia.
- Se não fosse minha bondade – disse ela, ajustando calmamente uma pulseira no pulso – você estaria na rua agora.
Lorena sorriu.
- Trabalhando de verdade pela primeira vez.
Eu já trabalhava. Todos os dias.
Enquanto elas escolhiam roupas, faziam reservas em restaurantes e spas caros, e reclamavam de coisas insignificantes, eu passava horas limpando essa casa, ajudando as funcionárias ou organizando quartos luxuosos em hotéis que carregavam o sobrenome do meu pai.
O sobrenome que também era meu.
Romanov.
Mas ali dentro, aquilo parecia não significar mais nada.
- Eu vou subir agora, preciso ajeitar umas coisas antes de ir para o trabalho — falei, tentando manter alguma dignidade na voz.
Beatrice assentiu como quem dispensa uma funcionária qualquer.
Subi as escadas rapidamente antes que as minhas lágrimas resolvessem me trair.
O meu quarto ficava no último andar da mansão. Antes, tinha sido um dos maiores da casa. Depois da morte do meu pai, Beatrice reformou tudo, apagando quase todas as lembranças da minha mãe.
Lorena ficou com o antigo closet da minha mãe. Cassandra transformou uma sala inteira em estúdio pessoal. E eu fui transferida para um cômodo pequeno no fim do corredor, longe o suficiente para não incomodar.
Fechei a porta atrás de mim e finalmente deixei o ar escapar.
A dor já deveria ter diminuído depois de tantos anos.
Mas não diminuía.
Porque o pior tipo de crueldade não é a que grita. É a que se repete diariamente até você começar a acreditar nela.
Sentei-me na cama e encarei o meu uniforme cuidadosamente dobrado.
Eu era uma das arrumadeiras nos hotéis da minha própria família.
Soltei uma risada fraca, amarga.
Se meu pai pudesse me ver agora...
Uma batida suave interrompeu os meus pensamentos.
A porta se abriu devagar antes mesmo que eu respondesse.
- Aurora?
Sorri imediatamente ao ver Martha.
Ela trabalhava na casa desde antes do meu nascimento. Foi governanta da minha mãe, depois foi minha babá, e acabou se tornando a única pessoa naquele lugar que ainda me fazia sentir humana, a única que cuidava de mim, ela e seu filho Lucas que é como um irmão para mim.
- Trouxe o seu café – disse ela, entrando com uma bandeja pequena.
- Obrigada.
Ela me observou por alguns segundos em silêncio. Martha sempre percebia quando algo estava errado.
- O que ela fez desta vez?
Desviei o olhar.
- Nada diferente do normal.
Ela suspirou.
- Você sabe que seu pai jamais permitiria isso se estivesse vivo.
O meu peito apertou instantaneamente, porque se ele estivesse aqui tudo seria diferente, não existiria aquele testamento e******o, e eu não estaria nas mãos de Beatrice.
Falar do meu pai era como tocar numa ferida que nunca cicatrizava completamente.
- Às vezes eu acho que ele me esqueceu também – confessei baixo. – Talvez meu pai tivesse razão em me deixar de lado daquele jeito.
Martha ficou séria imediatamente.
- Nunca diga isso.
Ela se aproximou e segurou as minhas mãos.
- Seu pai te amava mais do que tudo nesse mundo.
Engoli em seco.
- Então por que deixou a minha vida nas mãos dela?
Martha hesitou.
Foi rápido, mas eu percebi. E aquilo fez algo estranho se mover dentro de mim.
Porque, pela primeira vez em anos, pareceu que havia algo que ela não podia me contar.