Magdalena
Hoje faço trinta e cinco anos.
Não tem bolo, não tem velas, nem mesmo um parabéns sincero. Apenas o som constante da cachoeira e o peso familiar e reconfortante da solidão que aprendi a carregar como um casaco velho. Sentei-me na borda da água, com as pernas mergulhadas até os joelhos, sentindo o frio subir pela pele. A blusa preta molhada gruda no corpo, mas não me importo. Aqui ninguém me vê. Aqui posso ser apenas eu.
Fecho os olhos e deixo o barulho da queda d’água abafar as memórias. Mesmo assim, elas vêm.
Lembro-me do dia em que completei dezesseis anos. Meus pais sorrindo, orgulhosos, enquanto me entregavam para um homem que eu m*l conhecia. “É a vontade de Deus”, eles disseram. A religião deles sempre foi assim: rígida, sufocante e c***l. Amor não importava. Fertilidade, sim. Obediência, principalmente.
Cinco anos de casamento. Cinco anos de noites vazias ao lado de um homem que me olhava com cada vez mais desprezo quando via que minha barriga continuava plana. “Amaldiçoada”, foi a palavra que ele cuspiu na minha cara no dia em que me expulsou de sua casa. Meus pais repetiram a mesma coisa quando voltei para casa. “Deus te puniu por sua rebeldia. Volte para o caminho, case novamente, conceba.”
Eu me recusei e eles me colocaram na rua.
Aos vinte e um anos, eu já não tinha família, nem marido, nem futuro. Apenas cicatrizes e uma raiva quieta que aprendi a transformar em sobrevivência.
Suspirei, passando a mão molhada no rosto. Faz quatorze anos desde então. Quatorze anos sozinha. Não namorei mais. Não permiti que ninguém se aproximasse o suficiente para me rejeitar novamente. O que restou foi este emprego no chalé de luxo no meio da floresta. Um lugar frequentado principalmente por metamorfos ricos que querem privacidade.
Eu não gosto deles. Não confio neles. São arrogantes, possessivos e tratam o mundo como se fosse seu playground particular. Mas, ironicamente, aqui me sinto mais segura do que entre os humanos. Os lobos pagam bem, não fazem muitas perguntas e raramente se interessam por uma humana de trinta e cinco anos que não exala feromônios atraentes, e as outras espécies me olham menos ainda. Pelo menos é o que eu penso.
Levantei-me da água, torcendo o cabelo molhado. O short largo colou nas coxas. Preciso voltar para o chalé principal antes que escureça. Hoje chegou um hóspede novo. Um alpha, pelo que me avisaram. Não me deram nome, apenas ordens: deixar a geladeira abastecida, lençóis limpos e não incomodar, preferencialmente nem olhar nos olhos dele.
Como se eu tivesse o costume de incomodar ou olhar para alguém.
Caminhei pela trilha estreita, sentindo o cheiro úmido da mata. As árvores aqui são altas e antigas, quase protetoras. Às vezes converso com elas em voz baixa. Soa loucura, mas é melhor do que o silêncio absoluto da minha pequena cabana de funcionária nos fundos da propriedade.
_ Feliz aniversário, Magdalena_ Murmurei para mim mesma, com um riso sem graça. _ Mais um ano sem milagres.
Foi quando senti... um arrepio forte subiu pela minha nuca, como se alguém estivesse me observando. Parei no meio da trilha e olhei ao redor. Nada. Apenas o vento balançando as folhas. Mesmo assim, meu coração acelerou. Há anos não me sentia assim, como uma presa.
Balancei a cabeça, tentando afastar a sensação. Provavelmente deve ser cansaço. Ou fome. Não comi nada o dia inteiro.
Cheguei ao chalé principal e entrei pela porta dos fundos, destinada aos funcionários. Organizei as frutas frescas na fruteira, troquei as toalhas do banheiro principal e arrumei o vinho tinto que o hóspede havia pedido. O cheiro dele ainda não estava forte no ambiente, mas havia algo diferente no ar. Algo quente, intenso e masculino.
Franzi a testa com a sensação.
Terminei minhas tarefas rapidamente. Quanto mais cedo eu voltasse para minha cabana, melhor. Não queria cruzar com esse alpha. Quanto menos contato eu tivesse com eles, mais tranquila seria minha vida.
Estava quase saindo quando ouvi o som de passos atrás de mim. Pesados, confiantes e predatórios.
Virei-me devagar.
Ele estava parado na porta da cozinha, me observando. Alto, com ombros largos. Olhos amarelos que brilhavam mesmo sob a luz artificial. O cabelo castanho-dourado estava ligeiramente úmido, como se tivesse acabado de voltar de um banho ou de uma corrida na floresta. Havia uma intensidade perigosa em seu olhar, o tipo de olhar que fazia as pessoas baixarem a cabeça instintivamente.
Mas eu não baixei, até porque o que tenho de menos é instinto.
_ Você deve ser a responsável pelo serviço de quarto..._ Disse ele, a voz grave e arrastada, como se cada palavra fosse um comando disfarçado.
_ S-Sim. Meu nome é Magdalena. Se precisar de algo, é só chamar pelo interfone.
Tentei manter a voz firme, profissional. Mas algo no jeito como ele me encarava fazia minha pele formigar. Ele não olhava como os outros. Não era indiferença. Era... curiosidade.
Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço sem pressa.
_ Magdalena _ Repetiu meu nome devagar, saboreando cada sílaba. Um leve sorriso surgiu no canto de sua boca. _ Interessante.
Senti o ar ficar mais pesado. Algo dentro de mim gritava para eu sair dali, mas meus pés pareciam presos no chão.
Era apenas mais um alpha rico e arrogante.
Então por que meu coração batia como se eu estivesse diante de algo perigoso?