7

1010 Words
Os turistas trocaram um olhar entre si, como se se comunicassem em silêncio. Um deles murmurou algo em uma língua que Nicole sequer reconheceu. Não parecia inglês, espanhol ou qualquer idioma que já tivesse ouvido com frequência nas ruas de Copacabana. O som era estranho, gutural, e isso fez um arrepio percorrer sua espinha. O homem que estava falando com ela percebeu sua hesitação e sorriu, tentando parecer despreocupado. "Olha, tudo bem se você não quiser. Não tem ninguém te forçando a nada." Ele fez menção de pegar o cartão de volta, estendendo a mão para ela, como se quisesse deixar claro que a escolha era totalmente dela. Nicole apertou os lábios, olhando para o cartão com atenção. O nome da agência estava bem impresso, o papel parecia de qualidade, nada amador. Aquilo poderia ser uma oportunidade real... ou uma cilada. Antes que ele pudesse puxar o cartão de seus dedos, Nicole ergueu o olhar e disse com firmeza: "Bem... vou dar uma passada lá. Não custa nada, né?" O homem abriu um sorriso satisfeito, como se já soubesse que ela aceitaria. Pegou um papel do bolso e anotou um endereço rapidamente, entregando a ela. "Ótimo. Estaremos esperando. A seleção acontece às três da tarde. Não se atrase." Nicole assentiu lentamente e se afastou do grupo. Caminhou alguns metros pela areia e, ao se certificar de que estava longe o bastante, deixou-se cair sentada, encarando o mar. As ondas iam e vinham, o cheiro de maresia preenchia o ar, e a brisa fresca tentava acalmar o turbilhão de pensamentos que começava a se formar em sua mente. E se fosse um golpe? Ela já tinha visto reportagens na televisão, programas policiais que mostravam casos de meninas atraídas por promessas de fama, dopadas e depois abusadas. Muitas acordavam dias depois, sem saber ao certo o que havia acontecido com elas. Algumas nunca mais voltavam. E se esses homens fossem exatamente esse tipo de gente? Mas, por outro lado, ela também conhecia histórias de garotas que deram certo. Uma menina do morro, a Laís, havia tido uma oportunidade parecida. Agora, seu rosto estava estampado em um outdoor na rua que dava acesso à Rocinha. Ela tinha dado sorte. Havia sido descoberta e hoje vivia uma vida completamente diferente. Nicole apertou o cartão entre os dedos. A possibilidade de ser uma cilada era real, mas a chance de sair daquela vida miserável também era. E, no fundo, ela sabia que jamais perdoaria a si mesma se deixasse escapar uma oportunidade por medo. Ela decidiu que iria. Mas tomaria precauções. Não beberia nada. Não aceitaria comida. Se, ao chegar no local, percebesse algo estranho, simplesmente daria meia-volta e iria embora. Sem pensar duas vezes. Com essa decisão tomada, Nicole olhou para o céu. O sol ainda estava forte, mas ela precisava se preparar. Se queria estar bem apresentada para a seleção, precisava encerrar o dia de trabalho mais cedo. Empurrou o carrinho pela areia fofa com esforço. Era sempre uma tarefa difícil, mas naquele dia parecia ainda mais cansativo. Não pelo peso, mas pelo que significava. Aquele poderia ser seu último dia ali? O último dia vendendo milho na praia? Não sabia ao certo, mas o pensamento fez seu peito se encher de esperança. Ela caminhou pelas ruas movimentadas, desviando das pessoas e dos olhares curiosos. Quando finalmente começou a subir o morro, torcia silenciosamente para que sua tia e seus primos não estivessem em casa. Voltar antes do horário usual sempre causava problemas. Ela já estava acostumada a ser cobrada, xingada e até agredida por sua tia quando fazia algo que fugia da rotina. Ao chegar em casa, encontrou tudo silencioso. Um alívio percorreu seu corpo. Empurrou o carrinho para dentro, guardou o restante do material do dia e correu para o banheiro. Queria tomar um banho antes de sair. Queria estar apresentável, parecer uma modelo e não apenas uma vendedora de milho. A água fria escorreu pelo seu corpo, lavando não apenas o suor, mas também os pensamentos negativos. Ela respirou fundo. Tinha tomado uma decisão, e agora precisava se preparar para ela. Quando saiu do banho, enrolada em uma toalha, foi até o pequeno armário onde guardava suas poucas roupas. Escolheu uma blusa que ainda estava em bom estado e um short jeans que valorizava suas pernas. Precisava parecer profissional, mas sem exagerar. Enquanto se vestia, ouviu a porta da casa ser aberta com força. Seu coração acelerou. Antes que pudesse reagir, sentiu uma mão agarrando seus cabelos e puxando-a para trás. "Sua preguiçosa de merda! Voltando cedo pra casa por quê, hein? Tá achando que pode ficar enrolando aqui enquanto eu trabalho pra te sustentar?!" A voz da tia era um grito estridente em seu ouvido. Nicole tentou se soltar, mas a mulher a puxava com brutalidade, sacudindo-a. "Eu tava trabalhando!" Nicole tentou se defender, mas a dor no couro cabeludo era intensa. "Trabalhando nada! Se tivesse, tava na praia até agora! O que tá aprontando, hein? Quem é que tá te dando dinheiro pra largar cedo?! Tá se metendo com vagabundo?!" Nicole sentiu um nó na garganta. Não podia contar nada. Se sua tia soubesse sobre a seleção, provavelmente tentaria impedir. Ou pior, tentaria tirar vantagem da situação. "Não tô aprontando nada! Só vendi tudo mais cedo!" respondeu, com a voz tremendo. A tia a soltou bruscamente, fazendo-a cambalear para trás. Nicole levou a mão à cabeça, massageando o couro cabeludo dolorido. Seu peito subia e descia rapidamente, a respiração pesada. "Se eu descobrir que tá me enganando... Você vai ver só!" A tia apontou o dedo no rosto dela antes de sair bufando para a cozinha. Nicole permaneceu imóvel por alguns instantes. Seus olhos ardiam, mas ela se recusava a chorar. Aquilo não era novidade. Já tinha passado por situações assim inúmeras vezes. Respirou fundo, fechando os olhos por um segundo. Ela não deixaria nada disso impedi-la. Precisava sair dali. E talvez aquela fosse sua única chance. Engoliu em seco e, determinada, terminou de se arrumar. Dentro de poucas horas, saberia se sua vida finalmente mudaria para sempre.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD