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1043 Words
Nicole acordou com o som da favela acordando, um barulho que, apesar de rotineiro, sempre lhe dava um pouco de paz. O sol ainda estava longe de nascer, e a escuridão da madrugada tomava conta da favela onde ela morava, na Rocinha. Seu corpo, acostumado com a rotina, se levantou automaticamente. Ela havia aprendido a ser pontual em seus horários, sem precisar de despertador, porque o dia começava cedo e não havia tempo a perder. Com um suspiro cansado, ela se espreguiçou, tentando espantar o peso da noite. A cama era simples, um colchão de espuma encostado na parede, sem lençóis macios ou travesseiros fofos, mas era o que ela tinha. Nicole olhou para o canto da sala, onde a luz fraca da lanterna ainda se fazia presente. Ela sabia que o dia começaria com mais uma batalha para garantir o sustento da semana. Levantou-se com rapidez, calçou suas sandálias gastas e foi até o cantinho onde guardava sua bolsa. Ao abri-la, os olhos de Nicole se estreitaram de frustração. A tia, como sempre, havia mexido em seu dinheiro. Olhou a quantidade que restava. m*l dava para cobrir as compras do dia, o milho e a manteiga. Havia tomado quase tudo, como sempre fazia, e deixado apenas o suficiente para o que ela chamava de “material do dia”. A maior parte do dinheiro, aquela que ela conquistava com suor e esforço, sempre desaparecia em um piscar de olhos. Sua tia não via sentido em poupar, e não se importava que o futuro de Nicole fosse cada vez mais apertado e distante. Nicole suspirou, mas a preocupação deu lugar à sensação de alívio. Ela se lembrou de que havia guardado metade do dinheiro que conseguiu na noite anterior. Antes de voltar para casa, com a bolsinha apertada entre as mãos, tinha dado o jeito de tirar uma parte e depositá-la em sua conta bancária secreta. Ela sentiu um sorriso de satisfação, embora o medo de sua tia descobrir ainda estivesse lá, escondido na sua mente. Nicole havia aprendido a ser cuidadosa, a esconder o que precisava debaixo de camadas de mentiras e segredos. Cada centavo depositado era um passo mais perto da liberdade, e isso a fazia acreditar que, no fim, o esforço valeria a pena. O dia estava começando, e a necessidade de não perder tempo se sobrepôs a qualquer outro pensamento. Com o coração apertado, Nicole pegou o que precisava para o dia. Finalmente, com tudo comprado e com a bolsa mais pesada do que quando saiu de casa, Nicole caminhou até a praia. O sol agora já estava alto, e as primeiras ondas quebravam com suavidade nas pedras, criando um cenário que era ao mesmo tempo relaxante e revoltante para ela. Como o mar parecia distante de sua realidade. A praia de Copacabana, com seus turistas e suas roupas caras, a fazia sentir uma saudade do que nem sabia que queria. Mas, por ora, aquele era o seu espaço. Aquela areia era onde ela lutava para sobreviver. “Olha o milho na manteiga! Bora matar a fome no carrinho da Nicole!” Sua voz, forte e clara, se sobrepôs ao burburinho de vozes e risadas dos turistas que circulavam pela praia. O dia parecia mais um dia comum de sua vida, até que algo diferente aconteceu. Um grupo de turistas, como tantos outros que ela via todos os dias, começou a se aproximar. Eles eram vários, conversando em inglês, com roupas de verão e câmeras penduradas no pescoço. Nicole se sentiu um pouco deslocada, mas não se importou. Eles vinham aqui todo o tempo, e geralmente eram generosos. Alguns até compravam milho só para tirar uma foto com ela, como se ela fosse parte da paisagem. Mas, dessa vez, algo estava diferente. Nicole percebeu que eles estavam observando-a com mais atenção. Seus olhos estavam fixos nela de uma forma que não era usual. Começaram a comentar entre si, em inglês, mas era impossível não perceber que estavam falando sobre ela. “Ela é perfeita”, ouviu um deles dizer, com um sorriso. “Exatamente o que estávamos procurando.” Nicole, com a rapidez de sempre, tentou responder em inglês, sorrindo e ajeitando seu cabelo. Ela não se sentia completamente à vontade com a língua, mas o pouco que sabia a fazia tentar. “Hi, how are you?” disse, com um sorriso tímido. Mas os turistas não responderam em inglês. Em vez disso, um homem de sotaque forte, mas com um sorriso amistoso, disse algo em português: “Você fala português, né?” Nicole ficou um pouco surpresa, mas aliviada. Era mais fácil conversar em sua língua nativa. Ela assentiu, um pouco tímida, mas curiosa. “Bom dia, minha linda”, continuou o homem. “Nós somos de uma agência de modelos nos Estados Unidos. Estamos procurando brasileiras como você para um trabalho. Você se encaixa no perfil perfeito.” Nicole olhou para o homem, tentando entender o que ele estava dizendo. Ela sabia o que significava ser modelo, mas nunca imaginou que algo assim poderia acontecer com ela. O homem entregou-lhe um cartão, que ela pegou com a mão trêmula. No cartão estava o nome de uma agência em Nova York, com números de contato e o logo da empresa estampado. Nicole olhou para o cartão, tentando processar tudo. “Hoje à tarde, haverá uma seleção. Se você passar, nós a levaremos para Nova York por três meses, com tudo pago. E se tudo der certo, você poderá se tornar uma modelo internacional.” As palavras pareciam irreais. Um futuro tão distante, tão diferente da praia de Copacabana, da favela, do carrinho de milho. Nicole sentiu um turbilhão de emoções. Era o que ela sempre sonhou? Estava ela prestes a mudar sua vida de uma vez por todas? Mas, ao mesmo tempo, um medo profundo começou a tomar conta dela. Ela sabia que nada era de graça, e ela não podia se arriscar sem saber mais. O que ele realmente queria? Quem eram esses homens? E como ela poderia confiar neles? O grupo de turistas sorriu, aguardando uma resposta. E Nicole, com o coração batendo forte, teve que tomar uma decisão. A mudança estava à sua porta, mas será que ela estava pronta para ela?
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