Algum tempo antes…
O sol brilhava intensamente sobre a areia dourada da praia de Copacabana, refletindo nas águas cristalinas do Atlântico e aquecendo os corpos bronzeados dos banhistas que lotavam a orla. No meio dessa cena paradisíaca, uma jovem chamava atenção. Seu corpo esbelto e torneado parecia esculpido para causar admiração, e seus longos cabelos encaracolados balançavam suavemente ao vento. Os olhos escuros, expressivos, carregavam um brilho de determinação que poucos notavam enquanto ela caminhava incansável pela areia fofa, empurrando um carrinho improvisado de comida.
"Olha o milho na manteiga! Bora matar a fome no carrinho da Nicole!" ela gritava, a voz forte e clara se sobressaindo no burburinho da praia. O carrinho era simples, mas funcional. Com uma pequena chapa, um pote de manteiga derretida e sal a gosto, Nicole vendia milho cozido para turistas e cariocas que apreciavam um lanche rápido e tradicional.
Apesar de aparentar ter no máximo quinze anos, Nicole havia completado dezenove há poucos dias. Era uma mulher guerreira, daquelas que só uma vida dura e cheia de desafios poderia moldar. Sua infância fora roubada cedo demais. Ainda pequena, perdeu os pais em uma invasão policial na favela onde morava. O destino c***l a jogou para a casa de uma tia amarga, que não fazia questão de esconder o desgosto por ter mais uma boca para alimentar.
"Você devia agradecer todo santo dia por eu não ter te deixado na rua!" repetia a tia, sempre que Nicole se queixava das surras que levava ou das humilhações constantes.
Os primos mais velhos não ficavam atrás. Enxergavam Nicole como um estorvo, um peso que não merecia nada além do desprezo. As pancadas eram frequentes, assim como as palavras cruéis que lhe eram lançadas sem o menor remorso. Mas Nicole nunca abaixava a cabeça. Aprendeu cedo que a única pessoa em quem podia confiar era ela mesma.
A necessidade de sobreviver a empurrou para o trabalho desde nova. Vendeu doces na escola, lavou roupas para vizinhos e aprendeu a cozinhar para ganhar algum dinheiro. Sonhava em um dia deixar tudo aquilo para trás. Queria sair do Brasil, escapar dos maus-tratos e do ciclo de miséria que parecia destinado a prendê-la ali para sempre. Seu destino, ela acreditava, estava além do oceano, nas ruas movimentadas dos Estados Unidos.
Nicole sabia que não seria fácil, mas não se permitia desistir. Apesar das proibições da tia, conseguiu estudar e até passou para a faculdade. Porém, o sonho de uma formação foi brutalmente arrancado dela.
"Faculdade? Você acha que isso vai botar comida na mesa? Vai trabalhar e parar de sonhar besteira!" bradou a tia quando soube da aprovação.
Sem alternativas, Nicole se inscreveu secretamente em um curso de inglês online. Sabia que, se quisesse deixar o país, precisava dominar a língua. Seu progresso era lento, pois não tinha ninguém para praticar, mas persistia. Repetia frases em frente ao espelho, escrevia palavras novas em um caderno escondido e economizava cada centavo que conseguia para pagar as aulas.
Além disso, abriu uma conta bancária sem que ninguém soubesse. Cada venda de milho na praia, cada trabalho extra, uma parte do dinheiro ia para sua conta secreta. Era seu fundo de fuga, sua única esperança de liberdade. Ainda estava longe de ter o suficiente para comprar uma passagem e se manter nos Estados Unidos, mas não importava. Cada dia que passava, cada real economizado, era um passo mais próximo da sua liberdade.
Enquanto empurrava o carrinho pela areia, suando sob o calor implacável, Nicole não via apenas turistas e banhistas ao seu redor. Ela via uma linha invisível separando sua vida atual da vida que desejava. A cada milho vendido, a cada palavra em inglês aprendida, ela construía sua ponte para o futuro.
Seu sonho parecia distante, quase inalcançável. Mas Nicole sabia que, um dia, cruzaria aquela fronteira e nunca mais olharia para trás.
Naquele dia, ao final da tarde, quando o sol já se despedia tingindo o céu de laranja e dourado, Nicole se permitiu um momento de descanso. Sentou-se em um trecho mais vazio da praia, observando as ondas que iam e vinham. Pegou o celular velho e abriu um aplicativo de idiomas.
"My name is Nicole... I want to travel..." repetiu em voz baixa, tentando memorizar cada palavra.
Uma garotinha se aproximou com uma nota amassada na mão.
"Um milho, moça?"
Nicole sorriu e pegou o dinheiro.
"Claro! Bem quentinho, viu?" Ela serviu o milho e viu a menina sair feliz, mordendo a espiga com gosto. Esses pequenos momentos faziam tudo valer a pena.
Ao longe, viu um grupo de estrangeiros rindo e conversando em inglês. Seu coração bateu mais rápido. Ela queria entender tudo o que diziam, queria fazer parte desse mundo. Mas por enquanto, era apenas uma vendedora de milho em Copacabana. Ainda assim, tinha algo que ninguém podia tirar dela: a determinação.
Nicole fechou os olhos e inspirou fundo, sentindo a brisa salgada tocar sua pele.
"Eu vou conseguir", sussurrou para si mesma. Amanhã seria um novo dia, mais uma batalha, mais um passo rumo à liberdade.
Quando a noite caiu, ela sabia que sua jornada ainda não havia terminado. Com esforço, empurrou o carrinho de milho morro acima, rumo à Rocinha, onde morava. O trajeto era exaustivo, e a subida parecia interminável com o peso do carrinho. Seus músculos doíam, mas ela não se permitia parar.
Ao chegar na entrada do morro, um grupo de homens armados a observava. Eram traficantes que controlavam a favela, e ela os conhecia bem. Sempre estavam ali, parados, vigiando tudo e todos.
"E aí, gostosa, cansada? Vem que eu te dou um colinho!" Um deles disse, rindo com malícia.
Nicole abaixou a cabeça, acelerando os passos. Sabia que não podia reagir. Já ouvira histórias de meninas que tentaram desafiar esses homens e acabaram desaparecendo. Até o momento, eles apenas a assediavam com palavras, mas ela temia que um dia fossem além disso.
"Tá se fazendo de difícil, é? Uma hora vai querer... e quando quiser, vai ser tarde!" outro debochou, fazendo os outros rirem.
O coração de Nicole martelava no peito. O suor escorria não apenas do esforço físico, mas também do medo. Ela se perguntava até quando conseguiria passar despercebida, até quando poderia escapar das garras daquele mundo c***l.
Chegou em casa ofegante, trancando a porta rapidamente atrás de si. Sentiu o alívio momentâneo da segurança, mas sabia que não poderia viver assim para sempre. Ela precisava sair dali. E faria isso, custasse o que custasse.