A noite caiu sobre o oceano como um manto n***o e implacável. As águas do mar estavam mais agitadas, e o vento uivava, sacudindo o navio como se a qualquer momento fosse engolido pela escuridão. O ar carregava um cheiro de ferrugem, óleo e algo podre, algo errado.
No salão apertado onde estavam presas, as seis garotas brasileiras sentiam a inquietação crescer ao redor delas. Nos últimos quatro dias, os sequestradores mantiveram uma rotina rígida — trazendo comida em horários fixos, trocando turnos de vigilância, ignorando os choros e súplicas das prisioneiras. Mas agora, tudo estava diferente.
Havia tensão no ar. Os homens pareciam agitados, caminhando pelo corredor com pressa, suas vozes abafadas em conversas que elas não entendiam. Não falavam mais em português ou inglês. O idioma que usavam agora soava gutural, áspero, ríspido. Nicole acreditava ser algo como árabe ou um dialeto africano.
Ela estava sentada contra a parede fria do salão, observando cada movimento, cada mudança na rotina. Se havia algo que aprendera em sua vida difícil, era que sempre que as coisas mudavam de repente, algo r**m estava prestes a acontecer.
Então veio o impacto.
Um solavanco violento sacudiu todo o navio. Nicole foi jogada para frente, caindo sobre as mãos. As outras garotas gritaram. Uma delas, que já estava doente de tanto enjoar, vomitou no canto. A estrutura do navio gemeu como se estivesse sendo esmagada.
Os gritos acima delas ficaram mais intensos.
Passos apressados ecoavam no metal. Portas batiam, vozes gritavam ordens. Um estrondo veio do convés, seguido de um som que Nicole reconheceu de filmes de ação: tiros.
Seu coração disparou.
O que estava acontecendo?
A porta do salão se abriu bruscamente. Um dos sequestradores entrou, o rosto suado e furioso. Ele segurava um rifle, mas sua expressão não era de confiança, e sim de frustração.
"Vocês vão trocar de barco!" ele anunciou, os olhos percorrendo as meninas amedrontadas. "Temos que voltar e buscar mais vadias inocentes."
Nicole sentiu um arrepio gelado subir por sua espinha. Trocar de barco? Para onde estavam indo? Quem mais estava envolvido nisso?
As outras garotas entraram em pânico. Algumas começaram a chorar e a implorar desesperadamente.
"Por favor, nos deixem ir..."
"Tem piedade, eu tenho uma família!"
"Eu pago o que for, só me deixem sair daqui!"
Mas o homem apenas riu. Uma risada c***l, debochada, como se se divertisse com o sofrimento delas. Ele empurrou uma das garotas que se ajoelhou a seus pés.
"Acham que têm escolha?" zombou. "Vocês são mercadoria. E agora, temos que entregar vocês para os próximos compradores."
Nicole o encarou com puro ódio. Seu sangue fervia.
Ela memorizou cada detalhe do rosto dele: a cicatriz no queixo, o nariz levemente torto, o olhar c***l e cínico. Ela nunca esqueceria aquele rosto.
Ele fez um gesto preguiçoso com a mão, como se enxotasse um grupo de insetos.
"Vocês terão que atravessar uma ponte que liga os barcos. Se tentarem alguma gracinha, vamos atirar e deixar que os tubarões façam o resto do serviço."
Os soluços e choros aumentaram.
"Se preparem. Daqui a pouco eu volto para buscar vocês."
A porta se fechou com força, e o silêncio que ficou para trás era quase ensurdecedor.
Nicole sentiu seu coração batendo descompassado no peito. Ela olhou para Bárbara, que tremia ao seu lado, segurando o próprio corpo como se pudesse se proteger do horror ao redor.
"Essa é nossa chance", murmurou Nicole.
Bárbara levantou os olhos, assustada. "O quê?"
"Vamos pular no mar."
Bárbara ficou paralisada por um segundo, como se não tivesse escutado direito. Então, seu rosto se contorceu em uma mistura de medo e descrença.
"Você tá louca?"
Nicole apertou os punhos.
"Se ficarmos aqui, vamos ser vendidas. E depois revendidas. E de novo. Até não sobrar nada de nós."
Bárbara engoliu em seco
. "Mas e se eles atirarem? E se estivermos muito longe de qualquer terra? Como vamos sobreviver?"
Nicole respirou fundo. O medo tentava dominá-la, mas ela sabia que não havia escolha.
"Podemos dar sorte", disse ela. "Talvez estejamos perto de um porto, de uma praia. Ou talvez haja outro navio por perto. Eu não sei, mas qualquer coisa é melhor do que esse inferno."
Bárbara tremeu, seu olhar perdido.
Nicole segurou suas mãos.
"Por favor. Se tivermos a chance, temos que tentar."
O silêncio entre elas se estendeu por longos segundos. O salão estava preenchido apenas pelos soluços das outras garotas, pelo balanço do navio e pelo barulho distante de tiros e gritos vindos do convés.
Então, finalmente, Bárbara assentiu, ainda que hesitante.
"Tá bom. Eu vou com você."
Nicole apertou a mão dela
. "Apenas espere o momento certo."
As duas trocaram um olhar cúmplice.
Agora, tudo o que restava era esperar o homem voltar.
E quando ele voltasse, Nicole estaria pronta, enquanto ela espera sua mente volta para o dia em que tudo começou, quando ela ainda era apenas uma vendedora de milho na praia de Copa Cabana, como um filme tudo volta em sua mente …